quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A serpente de bronze: Símbolo da nossa redenção

(Nm 21.4-9)

Josivaldo de França Pereira

Os israelitas partiram do monte Hor (região de Moabe), pelo caminho do mar Vermelho, a rodear a terra de Edom, mas o povo ficou impaciente no caminho. Enquanto caminhavam para o norte e para o leste, para o lugar por onde deviam entrar na Terra Prometida, proferiram os israelitas palavras duras contra Deus e Moisés por causa do alimento fastidioso (o maná) e da falta de água. E o povo falou contra Deus e Moisés: “Por que nos fizeste subir do Egito, para que morramos neste deserto, onde não há pão nem água? E a nossa alma tem fastio deste pão vil”. Um comentário disparatado acerca do pão do céu (Sl 78.24,25; 105.40; cf. Jo 6.31). “Essa décima primeira murmuração a ser destacada seguiu a mesma linha de raciocínio das anteriores: o fértil Egito fora deixado para trás, e os filhos de Israel tinham ficado retidos em um deserto estéril e miserável; o suprimento alimentar era muito escasso; não havia água potável; e o maná se tornara enjoativo para eles”.[1]
Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras (venenosas), que mordiam o povo e cuja picada era ardente e mortal; e morreram muitos de Israel. O juízo de Deus foi imediato. Yahwéh puniu a impaciência e a falta de confiança de Israel enviando serpentes abrasadoras, instrumentos de seu julgamento sobre um povo rebelde. Todos os casos de murmuração de Israel foram enfrentados com algum tipo de julgamento. Yahwéh não tolerava tão profunda ingratidão por parte de seu povo. Esse ataque com serpentes foi atribuído diretamente a Deus e associado à última murmuração do povo. Algumas passagens da Bíblia referem-se a esse evento histórico que, assim como fala do julgamento de Deus sobre o pecado, também fala da provisão para livramento e cura. Moisés recordou como o Senhor havia guiado seu povo através de um terrível deserto cheio de serpentes ardentes (Dt 8.15). Paulo insiste com os cristãos de Corinto para não tentarem Cristo como seus ancestrais tinham tentado a Deus no deserto e foram destruídos por serpentes (1Co 10.9).
Os israelitas reconheceram seu pecado de murmuração e se arrependeram, procurando o fim da praga e a cura pelos que tivessem sido picados pela serpente. O povo veio até Moisés, confessando: “Havemos pecado, porque temos falado contra o SENHOR e contra ti; ora ao SENHOR que tire de nós as serpentes. Então, Moisés orou pelo povo”. Seja como for, esta é a última vez em que se menciona que os israelitas murmuraram a respeito do seu alimento e desejou as iguarias do Egito. O Senhor Deus disse a Moisés para que fizesse uma serpente de bronze (cobre, cf. Dt 8.9) e a colocasse sobre uma haste, e todo mordido que olhasse para ela seria curado e viveria. A confecção da serpente de bronze, sua colocação no meio do povo e a salvação que foi experimentada vinham completa e inteiramente de Deus.
Mas por que fazer uma serpente e por que fazê-la de bronze/cobre, uma vez que em Israel as serpentes eram impuras e personificavam o pecado? (cf. Gn 3; Lv 11.41,42). Segundo Wenhan, “Pode ser que tenha sido escolhido o cobre não apenas porque a sua coloração combinava com a inflamação causada pelas mordeduras, mas porque o vermelho é a cor que simbolizava a expiação e a purificação”.[2] Van Groningen destaca: “O próprio meio empregado para castigar, punir e trazer a morte aos rebeldes é usado por Yahwéh para trazer cura e vida. As serpentes eram um meio prontamente disponível para julgamento; Yahwéh usou a mesma serpente, contrariando a seu comportamento usual e esperado, como símbolo de libertação, de cura e de vida”.[3] É o princípio da identificação: serpente com serpente; Cristo com o ser humano; a cor do metal/o sangue de Cristo.
Uma vez cumprida a ordem divina (por Moisés em fazer a serpente de bronze, pondo-a sobre uma haste, e pelo povo mordido em olhar para ela) os efeitos desejados foram obtidos. A antiga serpente (Satanás) era a causa da morte temporal e espiritual. Jesus Cristo, “em semelhança de carne pecaminosa” (Rm 8.3) foi feito “pecado por nós” (2Co 5.21), e assim cumpriu, conforme ele mesmo disse a Nicodemos, o tipo da serpente de bronze: “E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3.14,15).
Em ambos os casos (Nm 21 e Jo 3), a morte ameaça como castigo do pecado; em ambos os casos é Deus mesmo que, em sua graça soberana, provê um remédio; em ambos os casos o remédio consiste em algo (ou alguém) que deve ser levantado à vista de todos; em ambos os casos os que, com coração crente, olham para o que (ou, aquele que) é levantado, são curados. De acordo com Hendriksen, “Aqui [em Jo 3.14,15], como sempre ocorre, o Antítipo transcende enormemente o tipo. Em Números o povo se depara com uma morte física; em João a humanidade se vê sob a pena de morte eterna por causa do pecado. Em Números o que é levantado é o tipo; mas este tipo – a serpente de bronze – não tem poder para curar. Aponta para o Antítipo, Cristo, que é quem possui esse poder. Em Números sublinha-se a cura física: quando alguém fixava os olhos na serpente de bronze, era-lhes devolvida a saúde. Porém, em João o que se concede ao que deposita sua confiança naquele que foi levantado é vida espiritual, vida eterna”.[4]
Van Groningen conclui:
O significado messiânico da serpente de bronze, portanto, deve ser visto na palavra de julgamento e de redenção de Yahwéh cumprida no meio de seu povo. Uma obra messiânica, em seu aspecto mais amplo, foi realizada. O que Yahwéh fez por meio de serpentes ardentes e da serpente de bronze, de um modo simbólico e ao mesmo tempo real, aponta definitiva e realisticamente para o cumprimento da promessa de redenção do veneno do pecado (instigado por Satanás e a serpente; cf. Gn 3.1-9) e a realização da vida, rica e completa, num paraíso renovado e recuperado.[5]
O salário do pecado é a morte (cf. Rm 6.23; 1Co 10.9); o arrependimento é uma atitude que agrada a Deus (cf. Sl 51.17); a graça é o antídoto de Deus contra o veneno do pecado (cf. Rm 6.23); a fé é o “olhar” que salva (cf. Is 45.22; Jo 3.14,15; Hb 12.2).
A serpente de metal foi preservada pelos filhos de Israel e levada à terra de Canaã; recebeu o nome de Neustã (peça de bronze) até que finalmente foi destruída pelo rei Ezequias, depois de ter sido transformada em um objeto de adoração idólatra (2Rs 18.4).





[1] Russell N. Champlin, O Antigo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 684.
[2] Gordon J. Wenhan, Números: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 165.
[3] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 219-20.
[4] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 149. Itálicos do autor.
[5] Van Groningen, p. 220.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Os saduceus e a ressurreição

Josivaldo de França Pereira

O sentido da palavra “saduceus” usualmente é visto como originado de Zadoque, um sumo sacerdote dos tempos de Davi e Salomão. Assim, os saduceus seriam os sacerdotes, descendentes ou adeptos de Zadoque. Na época do Novo Testamento eles formavam um forte partido político-religioso (líderes no Templo e Sinédrio) composto por quase exclusivamente dos elementos mais ricos da população, incluindo sacerdotes, comerciantes e aristocratas. No livro de Atos os saduceus são chamados de “seita” (At 5.17). Desse modo, "saduceus" designa um grupo, seita ou partido dentro do judaísmo palestiniano antes do século I e durante boa parte dele.[1]
O substantivo “saduceus” não existe no Antigo Testamento. Ele ocorre catorze vezes no Novo Testamento, e apenas nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) e no livro de Atos. Também não temos nenhuma ocorrência do termo no singular. Sempre que são citados na Bíblia os indivíduos estão em grupo. Os saduceus nunca são mencionados nas epístolas, sejam as de Paulo, do autor aos Hebreus, Tiago, Pedro, Judas, João ou no Apocalipse. João, por sinal, não tem interesse algum em citar os saduceus em seus escritos (Evangelho e demais livros).
A Bíblia sempre se refere aos saduceus de forma negativa. Na primeira referência a eles no Evangelho de Mateus, é dito: “Vendo ele [João Batista], porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo, disse-lhes: Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). É que João detectou o falso arrependimento e demagogia deles. O profeta estava familiarizado com as víboras do deserto – astutas e enganosas. Não é Satanás também chamado de serpente e enganador (Ap 12.9; 20.2,3)? Não seriam eles seus instrumentos?
Mateus, Marcos e Lucas, cada um deles afirma uma única vez que os saduceus dizem não haver ressurreição (Mt 22.23; Mc 12.18; Lc 20.27). Lucas, no livro de Atos, igualmente observa que os saduceus declaram não haver ressurreição, acrescentando ainda: “nem anjo, nem espírito” (At 23.8), isto é, acreditavam que tudo se acaba por aqui. O embate dos saduceus com Jesus gira em torno da doutrina da ressurreição dos mortos, contudo, o Mestre não deixa de tratar com eles a respeito de anjos e também de espíritos, visto que os saduceus negavam a imortalidade da alma:
23 Naquele dia, aproximaram-se dele alguns saduceus, que dizem não haver ressurreição, e lhe perguntaram:
24 Mestre, Moisés disse: Se alguém morrer, não tendo filhos, seu irmão casará com a viúva e suscitará descendência ao falecido.
25 Ora, havia entre nós sete irmãos. O primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão;
26 o mesmo sucedeu com o segundo, com o terceiro, até ao sétimo;
27 depois de todos eles, morreu também a mulher.
28 Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram.
29 Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.
30 Porque, na ressurreição, nem casam, nem se dão em casamento; são, porém, como os anjos no céu.
31 E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou:
32 Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos.
33 Ouvindo isto, as multidões se maravilhavam da sua doutrina.
(Mt 22.23-33; cf. Mc 12.18-27; Lc 20.27-40).
Geralmente os saduceus estão acompanhados dos fariseus no Novo Testamento (cf. Mt 3.7; 16.1,6; At 23.6,7), motivo pelo qual João Batista e Jesus chegaram a repreendê-los numa mesma sentença (Mt 3.7; 16.4,11,12). Mas aqui, em Mateus 22.23-33, eles estão sozinhos porque os fariseus não compactuavam com o pensamento antirressurreição dos saduceus (cf. At 23.8).
Alguns saduceus se aproximaram de Jesus não com o intuito de aprenderem, mas de tentá-lo (cf. Mt 16.1). Esta seita tinha o Pentateuco de Moisés (a lei mosaica ou Torá) em maior valor que os demais livros do Antigo Testamento e, por isso, eles citam a lei do matrimônio levirato de Deuteronômio 25.5,6. Esse mandamento exigia que o cunhado mais próximo da viúva se casasse com ela, caso o irmão dele tivesse morrido sem deixar filhos, a fim de que o primogênito do novo casamento fosse contado como filho do morto e não se perdesse sua linhagem. Desobedecer a essa lei seria uma ofensa grave (Dt 25.7-10; cf. Gn 38.8-10).[2]
Os saduceus aventam uma hipótese absurda para mostrar quão absurda é, do ponto de vista deles, a crença na ressurreição do corpo. “Na ressurreição, de qual dos sete será ela esposa? Porque todos a desposaram”, ironizam eles. Jesus assevera que os saduceus erram por não conhecer as Escrituras e nem o poder de Deus. Erram em relação às Escrituras porque estas não se limitam apenas ao Pentateuco, e em relação ao poder de Deus porque este também é revelado nos cinco livros de Moisés.
Na ressurreição, ou seja, na vida futura, o matrimônio não será mais necessário, pois os ressurretos serão como os anjos no céu (não se casam nem se dão em casamento); anjos que os saduceus também negavam (cf. At 23.8), apesar de o Pentateuco ensinar a existência deles (Gn 19.1,15; 28.12; 32.1). Embora os saduceus ridicularizassem a doutrina da ressurreição, Jesus não se omitiu em continuar a instruí-los no tema: “E, quanto à ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó? Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos” (cf. Êx 3.6). Note a expressão “Eu sou” (não “Eu fui” ou “Eu era”) e o tríplice “o Deus de...”, mencionado separadamente em conexão com cada um dos três patriarcas (Abraão, Isaque e Jacó) para enfatizar o relacionamento pessoal de Deus com cada um deles. Posto que Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos, conclui-se que Abraão, Isaque e Jacó vivem e estão aguardando uma ressurreição gloriosa.[3]
Os saduceus, por negarem a doutrina da ressurreição dos mortos (em razão da influência gnosticista grega), encarceraram os apóstolos por estarem proclamando a ressurreição de Jesus como fato já realizado e como garantia da ressurreição de outras pessoas (At 3.1-4.31).
O Sinédrio, o mais alto tribunal jurídico e religioso dos judeus, era formado por fariseus e saduceus. Paulo está perante o Sinédrio para uma de suas defesas. Por conhecer ambos os partidos e as diferenças doutrinárias no Sinédrio, o apóstolo sabia que tinha de semear a discórdia entre os fariseus e os saduceus. Paulo percebeu que se eles se unissem na acusação contra ele de perturbar a pax romana, ele perderia a proteção do comandante Lísias. Em resumo, Paulo estava lutando por sua vida.
Sabendo Paulo que uma parte do Sinédrio se compunha de saduceus e outra, de fariseus, exclamou: Varões, irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus; no tocante à esperança e à ressurreição dos mortos sou julgado.
Ditas estas palavras, levantou-se grande dissensão entre fariseus e saduceus, e a multidão se dividiu.
Pois os saduceus declaram não haver ressurreição, nem anjos, nem espírito; ao passo que os fariseus admitem todas essas cousas.
Atos 23.6-8.
Com a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., os saduceus deixaram de existir.






[1] Para outras sugestões do nome e origem dos saduceus, consulte J. Julius Scott, Jr., Saduceus. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. IV. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 327-29.
[2] Para uma aplicação interessante da lei do matrimônio levirato, leia Rute 4.1-8.
[3] De acordo com Hebreus 11.19, Abraão cria com toda certeza na possibilidade de uma ressurreição física.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O discurso de Paulo em Atenas

Josivaldo de França Pereira


O discurso de Paulo em Atenas (At 17.22-31) está dividido em três partes: introdução
(vs.22b,23), conteúdo (vs.24-28) e aplicação (vs.29-31); e duas verdades principais estão em evidência nele: a doutrina de Deus e a doutrina do ser humano.
A doutrina de Deus
Paulo encontra seu texto, seu ponto de contato com os areopagitas, na dedicatória de um altar que ilustra a religiosidade intensa dos atenienses: AO DEUS DESCONHECIDO. Por que um altar com essa inscrição? De quem foi a ideia? A melhor resposta que obtive é a de John MacArthur. Diz ele:
Na verdade, havia muitos desses [altares] em Atenas. Seiscentos anos antes da época de Paulo, Atenas havia sido assolada por uma terrível praga. Centenas adoeceram e estavam morrendo, e a cidade entrou em desespero. Um famoso poeta de Creta, chamado Epimênides, elaborou um plano para pacificar quaisquer deuses que estivessem causando a praga. Subiu ao Areópago e soltou um rebanho de ovelhas. O plano era deixar as ovelhas vagarem livremente pela cidade. E, quando estas se deitassem, seriam sacrificadas ao deus do templo mais próximo. A suposição era que os deuses irados atrairiam para si as ovelhas. Entretanto, quando as ovelhas foram soltas, muitas acabaram se deitando onde não havia qualquer templo por perto. Epimênides, portanto, decidiu sacrificar as ovelhas e erigir altares onde quer que elas houvessem deitado, somente para ter certeza de que nenhuma divindade desconhecida fosse esquecida. Visto que eram deuses sem nome, as pessoas erigiram altares e santuários “AO DEUS DESCONHECIDO”. Sem dúvida, foi um desses altares que Paulo avistou.[1]
Paulo usa, portanto, a inscrição de um altar como ponto de contato com os atenienses que, naquele local de oferendas, cultuavam um deus desconhecido. Contudo, ao contrário da “teologia” ateniense, o Deus verdadeiro só pode ser verdadeiramente adorado desde que seja verdadeiramente conhecido. Segundo Calvino, é muito melhor ter o conhecimento de Deus do que adorar sem conhecê-lo, pois Deus não pode ser adorado reverentemente a menos que primeiro seja conhecido.[2]
 Na sua instrução sobre a doutrina de Deus, Paulo afirma, em primeiro lugar, que Deus criou o universo com tudo o que nele contém; ele é Senhor do céu e da terra. Essa é a terminologia da revelação bíblica (cf. Gn 14.19,22; Sl 24.1; Is 42.5). O apóstolo não faz nenhuma concessão ao paganismo helenista; nenhuma distinção entre o Ser Supremo e um “demiurgo” ou mestre de obras que deu forma ao mundo.
Em segundo lugar, Deus não habita santuários feitos por mãos humanas (cf. 1Rs 8.27). Estêvão, em sua defesa perante o Sinédrio, faz essa afirmação em relação ao templo de Jerusalém, motivo de seu martírio. O paganismo mais elevado, de fato, reconhecia que nenhuma estrutura material podia abrigar a natureza divina. No entanto, as finalidades da terminologia de Paulo são bíblicas e não clássicas.
Em terceiro lugar, Deus não depende do ser humano e de suas ofertas (cf. Sl 50.8-13). As pessoas é que dependem totalmente dele. ”Essa é precisamente a ênfase de Paulo, quando ele declara que, se Deus aceita culto do ser humano, não é porque não pode passar sem ele. Longe de ter suprida alguma necessidade pelo ser humano, é ele quem supre toda necessidade deste”.[3]
A doutrina do ser humano
Como o Criador de todas as coisas em geral é o Criador da raça humana em particular, Paulo passa da doutrina de Deus para a doutrina do homem. Em primeiro lugar, o ser humano origina-se de um só indivíduo. O apóstolo afirma que a raça humana tem uma só origem, criada por Deus e descendente de um ancestral comum – Adão. Portanto, diante do Senhor Deus, todas as pessoas se encontram no mesmo nível.
Em segundo lugar, a habitação terrena do ser humano e o curso natural das estações foram preparados para o seu bem-estar. A terra, conforme Gênesis 1, foi formada e adequada para ser a casa do homem, antes que este fosse introduzido como seu morador. Além disso, parte da formação e adequação do lar do ser humano na terra consistiu no preparo de regiões habitáveis que servissem de lugar para ele viver, e na determinação de “tempos”[4] para sua habitação (cf. Dt 32.8).
Em terceiro lugar, o propósito de Deus em fazer esses preparativos foi que as pessoas pudessem procurá-lo e achá-lo – um anseio muito natural, porque as pessoas provêm dele, e ele as ajuda em satisfazê-lo, estando próximo delas. De acordo com Bruce, é aqui que a terminologia do discurso mostra maiores afinidades helenistas, mas para uma audiência diferente Paulo poderia ter expressado o mesmo pensamento, dizendo que o ser humano é criatura de Deus, feito à sua imagem. Para sua audiência ateniense ele fundamenta sua afirmação com duas citações de poetas gregos [Epimênides e Aratos] que pressupõem o relacionamento do homem com o Ser Supremo.[5]
Os resultados do discurso de Paulo 
Paulo termina seu discurso com um chamado ao arrependimento, pois Deus não levara em conta os tempos na ignorância do pecado (cf. Rm 3.25), mas que o juízo de Deus viria por meio de um varão, Jesus, a quem ressuscitou dentre os mortos.
Quando ouviram falar da ressurreição dos mortos, alguns creram, e outros disseram que o ouviriam noutra ocasião. Nesse ínterim, Paulo se retira do meio deles, e Lucas conclui: “Houve, porém, alguns homens que se agregaram a ele e creram; entre eles estava Dionísio, o areopagita, uma mulher chamada Dâmaris e, com eles, outros mais” (At 17.34).
É interessante que nos relatos das três viagens missionárias de Paulo, Lucas inclui um discurso proferido em cada uma delas. Na primeira jornada, temos o testemunho do apóstolo Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.16-41); na segunda, o discurso do apóstolo no Areópago (At 17.16-31) e, na terceira viagem, a fala de despedida de Paulo aos presbíteros de Éfeso em Mileto (At 20.17-38).





[1] John F. MacArtuhr Jr., Com Vergonha do Evangelho: Quando a igreja se torna como o mundo. São José dos Campos: Fiel, 1997, p. 169.
[2] John Calvin, Commentary upon the Acts of the Apostles. Vol. 2. Grand Rapids: Baker Books, 2003, p. 157. Veja também Héber Carlos de Campos, O Pressuposto Básico da Verdadeira Adoração. In: Jornal O Presbiteriano Conservador, edição novembro/dezembro, 1996.
[3] F. F. Bruce, Paulo, o apóstolo da graça: Sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 232.
[4] Segundo Bruce (p. 232), os “tempos” devem ser identificados ou com a sequência de semeadura e colheita (como no discurso de Listra) ou com as épocas da história humana (como nas visões de Daniel).
[5] Idem, p. 233. Consulte John MacArthur, Paulo no Areópago. In: Com Vergonha do Evangelho, p. 159-75; Cornelius Van Til, Paulo em Atenas. Brasília: Monergismo, 2016. In: Kindle Cloud Reader.

Timóteo

Josivaldo de França Pereira

O nome de Timóteo (do grego Timótheos, “honrado por Deus”) é mencionado vinte e quatro vezes no Novo Testamento, ou seja, seis vezes em Atos; dezessete vezes nas epístolas de Paulo e uma vez na carta aos Hebreus.
Nas cartas paulinas, Timóteo só não é citado em três delas (Gálatas, Efésios e Tito). Das treze epístolas do apóstolo Paulo, Timóteo aparece como corremetente de seis delas (2Coríntios, Filipenses, Colossenses, 1Tessalonicenses, 2Tessalonicenses e Filemom).
O evangelista Lucas elabora uma breve biografia de Timóteo em Atos 16, por ocasião da segunda viagem missionária de Paulo à Ásia: “Chegou também a Derbe e a Listra. Havia ali um discípulo chamado Timóteo, filho de uma judia crente, mas de pai grego; dele davam bom testemunho os irmãos em Listra e Icônio. Quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares; pois todos sabiam que seu pai era grego” (At 16.1-3).
Lucas descreve Timóteo como “um discípulo”, isto é, um jovem cristão residente da cidade de Listra. Sua mãe era uma crente judia e seu pai um gentio de nacionalidade grega. Sabemos por meio de Paulo que a mãe de Timóteo chamava-se Eunice e sua avó Lóide. Ambas de fé sincera e vida cristã piedosa que ensinaram Timóteo, desde a infância, as Sagradas Escrituras (2Tm 1.5; 3.15).
A despeito de sua juventude, Timóteo era tido em alta conta pelos crentes de Listra e Icônio. Paulo adotou Timóteo como seu filho na fé (1Co 4.17; 1Tm 1.2,18; 2Tm 1.2). O apóstolo dos gentios queria que Timóteo o acompanhasse e cooperasse com ele em suas viagens e ministério (cf. At 16.3; 17.14,15; 18.5; 19.22; 20.4; Rm 16.21; 1Co 4.17; 16.10; 2Co 1.19; Fp 2.19; 1Ts 3.2,6; 1Tm 1.3), de modo que o circuncidou, porque os judeus daqueles lugares sabiam que seu pai era grego, e Timóteo um não-circuncidado. Sem a marca da aliança (a circuncisão), Timóteo não poderia se tornar um missionário efetivo para os judeus. A fim de evitar qualquer oposição desnecessária da parte dos judeus, Paulo o circuncidou.
Timóteo esteve em Roma durante o primeiro aprisionamento do apóstolo Paulo (Fp 1.1.; Cl 1.1; Fm 1). Durante sua segunda prisão na capital do império, Paulo rogou a Timóteo que fosse ter com ele rapidamente (2Tm 4.9).
Em suas cartas a Timóteo, o apóstolo lembra ao jovem pastor que ele recebera o dom de pregar o evangelho quando os presbíteros, inclusive Paulo, segundo as profecias impuseram as mãos sobre ele e o ordenaram para a obra do Senhor (cf. 1Tm 1.18; 4.14; 2Tm 1.6); que ninguém deveria desprezar a sua mocidade, tornando-se, o próprio Timóteo, padrão dos fiéis na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza (1Tm 4.12), procurando apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (2Tm 2.15).
A Primeira Epístola a Timóteo. A primeira epístola de Paulo a Timóteo trata das responsabilidades que o apóstolo colocou nas mãos de seu filho na fé. Paulo exorta Timóteo muitas vezes (1Tm 1.5,18; 3.14,15; 4.6,11; 6.13). O tema da carta é a obra que o apóstolo Paulo confia a Timóteo e como fazer esse trabalho. A carta é prática e profunda. Paulo toca tanto os assuntos congregacionais (orações públicas, por exemplo) como assuntos individuais (exortação aos servos e aos ricos). Também mostra sua preocupação com o bem-estar de Timóteo. É a mensagem de um pregador mais velho a um pregador mais jovem, que estará pastoreando nos anos subsequentes a igreja de Éfeso (cf. 1Tm 1.3).
A Segunda Epístola a Timóteo. O tema desta epístola é: “Timóteo, permaneça fiel como pregador da palavra. Rogo que não desista! Siga meu exemplo e termine sua obra como evangelista, como terminei a minha como pregador e apóstolo. Agarre-se à fé em Jesus cristo, uma fé que foi plantada em você quando era uma criancinha”. O apóstolo Paulo apresenta a Timóteo tanto suas aflições como seu esperado galardão. Nenhum outro líder cristão, dentre os companheiros de trabalho de Paulo, foi tão recomendado por ele como Timóteo (cf. 1Co 16.10,11; Fp 2.19-23). A ele o apóstolo dirigiu sua última carta, isto é, a segunda epístola a Timóteo.
Ainda que a carta a Tito seja muito semelhante em conteúdo a 1Timóteo, ela não é uma epístola tão pessoal, pois parece que o apóstolo e Tito não tinham trabalhado juntos tanto intimamente como ele e Timóteo trabalharam, apesar de Paulo também chamá-lo de verdadeiro filho na fé (Tt 1.4; cf. 1Co 4.17; 1Tm 1.2,18; 2Tm 1.2).
O autor aos Hebreus finaliza sua carta notificando a igreja sobre a libertação de Timóteo da prisão e o desejo de, junto com ele, visitar os irmãos (Hb 13.23).
Em suma, Timóteo viajou muito, ajudou Paulo a escrever cartas, serviu como embaixador de Paulo em Corinto, foi pastor da igreja de Éfeso, esteve encarcerado por sua fé e colaborou com o autor da carta aos Hebreus.


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Joio



Josivaldo de França Pereira

 
Há três perguntas básicas que poderão nos ajudar na compreensão deste importante assunto: O que é o joio? Onde está o joio? Pode o joio virar trigo?
O que é o joio?
O joio é “uma erva daninha que nasce nas plantações de grãos, parecida com o trigo”.[1] É conhecido também como cizânia e trigo bastardo. Até que sua espiga esteja madura, é quase impossível distingui-lo do trigo verdadeiro, mesmo sob o escrutínio mais severo.[2]
Abaixo do solo, a raiz do joio é mais ampla e profunda e se entrelaça na do trigo. O sistema de raízes do joio é bem mais desenvolvido que o do trigo.[3] Arrancar o joio é arriscar tirar o trigo junto e com ele um grande torrão de terra. A raiz do trigo é curta e se desprende facilmente do solo. Em sentido figurado, pode-se dizer que o joio é apegado às coisas deste mundo, apesar de externamente ser parecido com o trigo. Entretanto, acima do solo, quando trigo e joio começam a espigar, é possível distinguir facilmente um do outro – “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.20).
O “fruto” do joio é impróprio para o consumo humano, porém, “é frequentemente lançado às galinhas como ração”.[4]
Espiritualmente, o joio são os filhos do maligno.
Onde está o joio?
Jesus disse que “o campo é o mundo”, no qual se encontram “a boa semente” e “o joio”. Os “filhos do reino” e os “filhos do maligno” (Mt 13.38). Alguns comentaristas entendem que a expressão “o campo é o mundo” de Mateus 13.38 não inclui a Igreja. Segundo H. N. Ridderbos, “a referência é à mescla no mundo, não na igreja”.[5] Conquanto seja correto afirmar que “a igreja” não é “o reino dos céus”, é evidente que ela faz parte dele.[6] Os argumentos de William Hendriksen, de que a igreja visível está definitivamente compreendida na parábola do joio do campo, são dignos de consideração:
a.  Se “trigo” refere-se às pessoas em cujos corações a boa semente está produzindo fruto, isto é, em geral, à soma total dos crentes, e o “joio” é semeado entre o trigo, não paralelamente a ele nem em um campo vizinho, então, não é natural pensar na mescla de membros verdadeiros e falsos na igreja visível?
b.  É nos dito claramente que no final da era o Filho do homem recolherá “de seu reino” tudo o que é ofensivo e perpetra iniquidade. A parábola não diz que serão arrancados “da terra”, mas “de seu reino”. Como podem ser “recolhidos de” se previamente não estavam dentro, neste caso, dentro da igreja visível?[7]
Pode o joio virar trigo?
Nunca, jamais! Do mesmo modo que é contrário à lei da natureza física o joio virar trigo, o princípio também se aplica na lei espiritual. No mundo espiritual, o joio é uma classe de pessoas que não encontrará guarida no coração de Deus. A parábola do joio do campo (Mt 13.36) revela uma perspectiva escatológica. Na consumação do século, “Mandará o Filho do homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.41,42). “O joio são os filhos do maligno” (Mt 13.38). Os falsos discípulos do reino. Eles têm “cara de santo”, parecem crentes, mas são filhos do maligno, praticantes da iniquidade (cf. Mt 7.21-23). Definitivamente eles não pertencem ao Senhor (cf. 2Tm 2.19).
É certo que os filhos do maligno sofrerão o castigo eterno por praticarem a iniquidade. No entanto, nem todo iníquo será, evidentemente, condenado, porque para muitos deles haverá lugar de arrependimento para a vida eterna (cf. Ef 2.1-3). E embora muitas vezes possam parecer com o joio, eles não são joio. Pertencem aos eleitos de Deus que um dia serão salvos, ou seja, serão transformados em trigo, na “boa semente” que “são os filhos do reino” (Mt 13.38); em justos que “resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai”, conforme disse Jesus (Mt 13.43).
Concluindo:
 Alguns comentaristas acham que a resposta negativa à pergunta “Queres que vamos e arranquemos o Joio?” significa que Jesus está dizendo que devemos ter paciência com o joio que pulula as igrejas e esperança de que um dia o joio se converta em trigo. No meu entendimento, essa interpretação não é correta, conforme mencionei agora a pouco. A ordem de não arrancar o joio é para preservar o trigo; para não se cometer injustiça com os justos (Mt 13.29). “Com o pretexto de manter a pureza da igreja, crentes zelosos têm causado dano incalculável, julgando e afastando outros cristãos da igreja”.[8] Contudo, é importante observar que o ensino bíblico acerca da disciplina eclesiástica de forma alguma se anula aqui.
 Conforme observa corretamente John MacArthur, “esta parábola não está dizendo que devemos estar despreocupados com as diferenças entre o trigo e o joio até o juízo final. Ela não nos estimula a aceitarmos joio como se fosse trigo. Não sanciona a indiferença para com os pecados dos perdidos. E nem sugere que nos esqueçamos de que há pragas no campo, e que nos tornemos desatentos para o perigo que representam. Simplesmente nos diz que devemos deixar o juízo final e a questão da retribuição nas mãos do Senhor e dos seus anjos”.[9]





[1] Citado por Simon Kistemaker, As parábolas de Jesus. São Paulo: CEP, 1992, p. 58.
[2] Cf. John F. MacArthur, Jr., O evangelho segundo Jesus. São José dos Campos: Fiel, 1991, p. 149.
[3] Kistemaker, p. 68.
[4] Cf. Joyce D. Douglas, Joio. In: Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 855.
[5] Citado por William Hendriksen, El evangelio según San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 600, nota 544. Uma posição semelhante ao de Ridderbos é defendida por John MacArthur, op. cit., p. 150.
[6] Cf. Louis Berkhof, Teologia sistemática. 7ª ed. espanhola. Grand Rapids: TELL, 1987, p. 680.
[7] Hendriksen, p. 600.
[8] Kistemaker, p. 63.
[9] MacArthur, p. 153.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A criatura que engoliu Jonas

Por Josivaldo de França Pereira


A criatura que Deus deparou no mar para engolir Jonas (Jn 1.17; 2.1,10) é descrito em nossas bíblias como “grande peixe”; “baleia” e “monstro marinho”. Embora Wiseman seja taxativo em afirmar que baleia não é uma tradução correta[1], essas diferenças entre as versões da Bíblia ocorrem porque a expressão hebraica dag gadol (lit. “peixe grande”) e a palavra grega ketos (cf. Mt 12.40) são termos não mais específicos que as traduções em português. Elas não determinam que tipo de animal está envolvido.[2] Dessa maneira, segundo Desmond Alexander, “Qualquer tentativa de identificar o tipo de peixe é inútil”.[3]
Contudo, não vejo porque o profeta Jonas não possa ter sido engolido por uma baleia, como a baleia-azul, por exemplo. Do tamanho de um Boeing 737 e pesando o mesmo que 25 elefantes juntos, a baleia-azul é o maior animal do planeta. Alguns poderiam objetar alegando que baleia não é peixe, mas um mamífero da ordem dos cetáceos; porém, tal distinção pertence a uma classificação mais recente. Nos tempos bíblicos as palavras “grande peixe”, “baleia” e “monstro marinho” (não necessariamente pré-histórico ou feito apenas para aquela ocasião) são vocábulos genéricos e equivalentes de dag gadol e ketos. Vale destacar que a Bíblia também classifica o morcego como ave (Lv 11.19) e o abutre como águia (Mq 1.16).
Ainda que Jonas tenha sido tragado por um grande monstro marinho como uma baleia, ilustrações para as crianças que mostram o profeta orando ajoelhado dentro do animal devem ser descartadas. Jonas ficou por três dias e três noites deitado, provavelmente preso no esôfago da criatura. A expressão “ventre do peixe” (Jn 1.17; 2.1) não deve ser entendida impreterivelmente como “estômago”, assim como “ventre do abismo” ou “coração dos mares” (Jn 2.2,3) não precisa ser visto como a parte mais profunda de todos os oceanos nas referidas passagens (cf. Mt 12.40 sobre o “coração da terra” para a sepultura de Jesus).
Qual a função do grande peixe que Deus deparou para tragar Jonas? De acordo com Alexander,
Estudos recentes confirmam que o salmo do capítulo 2 [do livro de Jonas] expressa gratidão não pelo livramento de dentro do grande peixe, como muitos comentarias mais antigos supunham, mas, sim, por ter sido salvo do afogamento. O peixe, à semelhança da planta em 4.6, é divinamente preparado para salvar, não para punir. O salmo, portanto, é bastante apropriado em seu presente contexto. De dentro do peixe, Jonas reflete sobre o fato de quase ter morrido afogado e louva a Deus por responder a seu pedido de socorro.[4]
E mais: “Deve-se rejeitar a interpretação alegórica de que Jonas sendo engolido pelo peixe representa Judá sendo levado pelos babilônios para o cativeiro. O peixe é um instrumento de salvação, não de castigo”.[5] Conforme Augustus Nicodemus, “Muitos que leem o livro de Jonas pensam que o peixe é um castigo enviado por Deus ao profeta fujão, mas, pelo contrário, esse animal misterioso é sua salvação. Na barriga do peixe, o profeta ora e adora a seu Senhor”.[6]
A imprecisão das palavras dag gadol e ketos, além da ideia de alguém ser engolido por um peixe e sobreviver dentro dele três dias, tem feito com que muitos leitores modernos se tornem céticos em relação à história de Jonas. Geisler e Howe reafirmam a historicidade do relato de Jonas 2 com o seguinte argumento:
[Em Mateus 12.40] Jesus prevê a sua própria morte e ressurreição, e provê aos incrédulos escribas e fariseus o sinal que eles lhe pediram. O sinal é a experiência de Jonas. Jesus diz: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”. Se a história da experiência de Jonas no ventre do grande peixe fosse apenas uma ficção, isso não daria respaldo profético algum ao que Jesus declarava.
O motivo de Jesus fazer referência a Jonas era que, se eles não acreditavam na história de Jonas ter estado no ventre do peixe, também não acreditariam na morte, no sepultamento e na ressurreição de Cristo. Para Jesus, o fato histórico de sua própria morte, sepultamento e ressurreição tinha a mesma base histórica de Jonas no ventre do peixe. Rejeitar uma seria o mesmo que rejeitar a outra (cf. Jo 3.12). De igual modo, se cressem numa dessas bases, teriam de crer na outra.[7]
Pobre e coitado da criatura que engoliu Jonas! Comentando o texto de Jonas 2.10, Augustus Nicodemus descreve:
Algo que também nos chama a atenção nessa história é o fato de o peixe vomitar Jonas – que, aliás, devia ser um profeta intragável mesmo. Poucos atentam para a aflição daquele peixe, que por três dias teve de aguentar um homem em seu ventre. Já ouvi muitas pregações sobre Jonas, mas ninguém nunca fala do sofrimento do animal, que passou todo aquele tempo com um profeta indigesto em sua barriga.
Note que o texto não diz “cuspiu” ou “lançou”, mas o verbo foi escolhido justamente para expressar ou a indignação de Deus para com o profeta, ou o modo em que Jonas foi completamente humilhado e quebrantado (talvez até mesmo ambas as coisas!). O profeta saiu daquele peixe todo coberto de vômito, para que com isso Deus pudesse lhe dizer: “É isso que você é. Agora, vamos começar de novo”.[8]
Concluindo: Lembro-me de uma velha história dos tempos de criança contada pelo meu pai. Perguntaram a um crente como ele era capaz de acreditar que um peixe engoliu Jonas. A sábia resposta do homem de Deus veio como um torpedo: “Se a Bíblia dissesse que foi Jonas quem engoliu o grande peixe eu acreditaria”. Retrucou perplexo o interlocutor: “Aí já não seria um milagre, mas uma desgraça!”. Na verdade, para quem crê na Bíblia como a Palavra de Deus em geral, a nossa única regra de fé e prática, e na história de Jonas em particular, nenhuma outra prova é necessária. Para quem não acredita, nenhuma prova é suficiente.




[1] D. J. Wiseman, Peixe, Pesca. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1255. Veja também J. A. Motyer, Peixe. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 2. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 1631-32.
[2] Nos escritos de Homero (como a Odisseia xii.97), a palavra grega ketos é usada para indicar qualquer peixe grande, incluindo golfinhos e tubarões.
[3] T. Desmond Alexander, et. al, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 126. De acordo com E. S. Kalland (Peixe. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 299), "É desconhecida a identidade ou classificação biológica desse grande monstro marinho, pois Jonas não nos oferece detalhes sobre o milagre".
[4] Alexander, p. 76.
[5] Ibidem, nota 1.
[6] Augustus Nicodemus, A Compaixão de Deus: A mensagem de Jonas para a igreja de hoje. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 42.
[7] Norman Geisler; Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 315-16.
[8] Nicodemus, p. 50-1.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Sem tirar nem por

Josivaldo de França Pereira

 
Na Bíblia temos vários testemunhos sobre o perigo de se extrair ou acrescentar qualquer coisa à palavra do Senhor. Por exemplo: “Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.2). “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Dt 12.32). “Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Pv 30.5,6). “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhe fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se tirar qualquer cousa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das cousas que se acham escritas neste livro” (Ap 22.18,19).
Distorcer a verdade escrita segue na mesma linha das advertências acima. Durante toda a história da igreja cristã, inúmeras seitas e heresias deliberadamente distorceram as Escrituras e suas doutrinas com interpretações enganosas, como o gnosticismo, o arianismo, o unitarismo, entre tantas outras.
A verdade mesclada, híbrida com a mentira é igualmente perigosa. O apóstolo Paulo relembrou aos coríntios que ele e seus colaboradores não mercadejavam e nem adulteravam a Palavra de Deus (2Co 2.17; 4.2). Disse-lhes na primeira carta: “... não ultrapasseis o que está escrito...” (1Co 4.6); e advertiu aos gálatas acerca das práticas judaizantes: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6,7). A expressão “perverter o evangelho de Cristo” é o mesmo que ir “além” do verdadeiro evangelho (cf. Gl 1.8,9).
Paulo fala daqueles “para tudo quanto se opõe a sã doutrina” (1Tm 1.8-11); do “tempo em que não suportarão a sã doutrina” e “se recusarão a dar ouvidos à verdade” (2Tm 4.3,4), e recomenda a Timóteo e Tito, respectivamente: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...” (1Tm 4.16); “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1).
Pedro, semelhantemente, condena aqueles que deturpam as epístolas de Paulo, como também as demais Escrituras, “para a própria destruição deles” (2Pe 3.15,16). E alerta: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo...” (2Pe 3.17,18).
Jesus demonstrou seu cuidado e zelo no cumprimento e ensino correto das Escrituras. Ele disse: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17,18).[1]Do início ao fim de seu ministério terreno Jesus recusou a descumprir as Escrituras.
Nós, cristãos evangélicos, devemos estar atentos para não cairmos nas ciladas de uma interpretação errônea das Escrituras. Segundo Carson,
É fácil demais aplicarmos ao texto bíblico as interpretações tradicionais que recebemos de terceiros. Então, podemos involuntariamente transferir a autoridade das Escrituras para nossas interpretações tradicionais, investindo-as de um falso e até idólatra grau de certeza.[2]
O intérprete da Bíblia é fruto de sua época, influenciado por todos os fatores e ditames do seu tempo. Milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende essas diferenças. Dá ao intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com os seus pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que ele gostaria que ela dissesse. René Padilla afirma com precisão: "O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura".[3]
Os reformadores do século XVI enfatizavam o sentido literal e gramático-histórico do texto bíblico.[4] João Calvino, por exemplo, dizia que não devemos ir além do que a Bíblia nos ensina. E ilustra sua posição dizendo: “Um piedoso ancião foi indagado com maledicência: ‘Do que se ocupava Deus antes de criar o mundo?’, a resposta veio rápida e certeira: ‘Em preparar o inferno para os curiosos’”.[5]
Ademais, um dos princípios defendidos pelos reformadores é que a Escritura interpreta a si mesma. Um século depois da Reforma Protestante esse princípio foi apreciado e sustentado pela Assembleia de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.[6]
Em suma, é a própria Bíblia que, de per si, nos dá as garantias de uma interpretação segura e correta dela mesma. Assim, outro conselho de Paulo a Timóteo também é válido a todos hoje: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).





[1] Para um excelente comentário de Mateus 5.17 e 18, consulte D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2018, p. 242-253.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 15.
[3] René Padilla, A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica Contextualizada, 1980, p. 6. Obra não publicada.
[4] Cf. Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e Seus Intérpretes: Uma Breve História da Interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 160-167.
[5] Institutas, I, xiv, 1.
[6] Confissão de Fé de Westminster I, 9. Acerca da profundidade e simplicidade da Bíblia, isto é, sua perspicuidade, consulte L. Berkhof, Introducción a la Teologia Sistemática. Jenison: T.E.L.L., 1988, p. 186-187.