sábado, 23 de março de 2019

É o amor um dom de Deus?

Josivaldo de França Pereira

 
Ultimamente tem-se discutido bastante se o amor é ou não é uma dádiva de Deus. Na Bíblia não há nenhuma passagem que diga claramente: “O amor é um dom". O título editorial de 1Corintios 13 destaca: “O amor é o dom supremo”. Mas título editorial não vale, não faz parte do texto original.
Por outro lado, não é porque não exista uma afirmação explícita na Bíblia dizendo que o amor é um dom de Deus que ele não deva ser visto dessa forma. Os vocábulos “trindade” e “providência” também não estão nas Escrituras e nem por isso deixam de ser verdades inquestionáveis da Palavra do Senhor, posto que a ideia de cada uma delas percorre as páginas da Bíblia do Gênesis ao Apocalipse. No livro de Ester, por exemplo, o nome de Deus não aparece, mas é inegável a ação poderosa do Eterno do começo ao fim do livro.
O amor é um dom sim, porque toda boa dádiva de Deus vem até nós como dom divino, conforme ensina Tiago 1.17: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança”. Como descreve um belíssimo hino:

De todo bem a fonte
É o nosso bom Senhor!
Louvai a Deus, louvai a Deus
Por todo o seu amor!
(M. Claudius – H. M. Wright)

Agostinho disse corretamente que nada é nosso, exceto o pecado. Os que negam que o amor é um dom de Deus preferem vê-lo como fruto do Espírito. Que o amor é fruto do Espírito está evidenciado em Gálatas 5.22, no entanto, a paz que também surge como fruto do Espírito, no mesmo texto, foi descrita assim por Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo...” (Jo 14.27). Segundo Jonathan Edwards, “o amor é o grande fim de todos os outros frutos e dons do Espírito”.[1]
De acordo com Günther e Link, no contexto de 1Coríntios o amor é o maior dos dons do Espírito Santo.[2] Jonathan Edwards dizia que em 1Coríntios 13.8 “o amor é distinguido de todos os outros dons do Espírito, tal como o de profecia, o dom de línguas e o dom do conhecimento (ciência), etc.”[3] Além do mais, a fé, que é citada por Paulo junto com a esperança e o amor em 1Corintios 13.13, é expressa como um dom de Deus pelo apóstolo em algumas de suas epístolas (Rm 12.3; 1Co 12.9; Ef 2.8; Fp 1.29; 2Ts 3.2; Tt 1.1). O mesmo ocorre com a alegria (Gl 5.22; cf. Jo 15.11; 17.13).
Nos dias de hoje tem-se preocupado muito mais com os ministérios extraordinários, esporádicos e não universais do Espírito Santo, como dons de cura e línguas (dons que, como Paulo salientou, nem todos os cristãos são chamados a praticar [cf. 1Co 12.28-30]) e negligenciado aqueles que são ordinários e gerais, isto é, a obra comum do Espírito de conceder, entre outros dons universais, o amor.[4] Packer observa que para os coríntios, que haviam dado como certo que, quanto mais línguas falassem, mais alegres e piedosos eles seriam, Paulo teve de insistir que, sem amor – santificação e semelhança com Cristo – as línguas não valeriam absolutamente nada.[5]
O amor está entre os atributos comunicáveis de Deus, ou seja, qualidades do Ser divino compartilhadas conosco. Os seres humanos possuem amor porque eles o receberam do Senhor. Mas se o amor é um dom celestial, então por que muitos vivem sem amor e não têm amor para dar? É porque o amor não é parte da essência deles.
O amor que possuímos é derivado, enquanto o de Deus é original, é próprio da natureza e essência dele. E. Vecchio disse: “Deus fez o homem bom, cumulou-o de todos os dons, pô-lo como senhor de toda a terra, e deu-lhe, inclusive, esse precioso dom: a possibilidade de amar”.[6]
Não podemos gerar ou produzir o amor porque ele é um dom de Deus, mas a responsabilidade de preservá-lo depende de nós.




[1] Jonathan Edwards, O Dom Maior. São José dos Campos: Fiel, 1992, p. 17.
[2] W. Günther; H.-G Link, Amor. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 200.
[3] Edwards, p. 4.
[4] Consulte. J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 109.
[5] Ibidem.
[6] Citado por Moysés Marinho de Oliveira, Amor. In: 7 Mil Ilustrações e Pensamentos. Rio de Janeiro: Juerp, 1986, p. 26. 

terça-feira, 5 de março de 2019

A oração privada

Josivaldo de França Pereira


 “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6).

A oração privada é uma preciosidade incomparável. Quando um crente deixa tudo para trás de si, do outro lado da porta, no intuito de buscar ao Senhor com súplicas e preces, certamente ele estará vivenciando uma das mais tremendas e gloriosas experiências na presença do seu Deus.
O texto de Mateus 6.6 pode ser lido melhor assim: Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto [teu lugar secreto] e, fechada a porta [para que não queiras ser visto pelos homens], orarás a teu Pai, que está em [teu lugar] secreto; e teu Pai, que [te] vê em [teu lugar] secreto, te recompensará.
Em Mateus 6.5 Jesus faz um contraste entre a oração dos crentes sinceros e a oração dos hipócritas: “E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa” (Mt 6.5). Que recompensa é essa que os hipócritas já receberam? É a de serem vistos pelos homens. Segundo Martyn Lloyd-Jones, “Essa é a advertência de Cristo àqueles que já nasceram de novo; pois até mesmo esses necessitam de cuidado para não se tornarem culpados daquela hipocrisia tipicamente farisaica, em suas orações e devoções”.[1]
Em Mateus 6.6 o Mestre mais uma vez se volta para o indivíduo crente a fim de nos ensinar, basicamente, que ao orarmos não devemos chamar a atenção para nós mesmos, senão para o nosso Deus. De acordo com Champlin, em Mateus 6.6 “Jesus não censura a oração pública, nem estabelece regras acerca da oração, mas enfatiza a necessidade do espírito humilde nas orações”.[2] Em outras palavras, o ser inteiro daquele que ora deve fixar sua atenção em Deus, concentrando-se nele todo o interesse, esquecendo-se de qualquer outra coisa que não glorifique ao Senhor.
Sabemos que Daniel orava a Deus três vezes ao dia, e sempre com as janelas do quarto abertas, de modo que podia ser visto por quem ali passasse; porém, ele não abria as janelas por ostentação e exibicionismo, para mostrar a todos o quanto ele era um homem de oração. Daniel abria as janelas do quarto por estarem elas voltadas em direção à Jerusalém (Dn 6.10; cf. 1Rs 8.46-50; 2Cr 6.36-39).
Hendriksen comenta:
Aqui novamente [em Mt 6.6] é necessário acrescentar que o propósito de entrar no lugar secreto e fechar a porta pode ser malogrado se alguém começa a publicar esta prática, como alguns ministros têm por costume fazer, quando se inicia o culto de adoração – às vezes ainda na oração pastoral – declaram à congregação que antes de se assentarem para preparar o sermão fecharam a porta da sala de estudo e passaram tantos e tantos minutos em fervente oração.[3]
“E se eu”, poderia indagar alguém, “não tivesse um local ou quarto particular para ser usado na minha oração privada?”. Se por acaso não houvesse, seria preciso buscar um lugar onde não vissem você. Na verdade, a ênfase de Jesus nem sequer está no recinto da oração, mas na atitude da mente e do coração.
O que ora com a disposição correta da mente e do coração é abençoado com a promessa de Jesus: “teu Pai, que [te] vê em [teu lugar] secreto, te recompensará”. Aquele que assim ora terá paz de coração e mente. Saberá que o Pai celestial, em seu amor infinito, dará ao que suplica o melhor para ele e a todos por quem ele intercede. Também saberá que este mesmo Pai “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos” (Ef 3.20).

Pai, fechei a porta atrás de mim,
O mundo eu esqueci.
Quero conversar contigo a sós meu Pai.
 (Gladir Cabral)




[1] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2017, p. 450. Veja também John R. W. Stott, A Mensagem do Sermão do Monte. São Paulo: ABU, 1986, p. 135-37.
[2] Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 321.
[3] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 338.

domingo, 3 de março de 2019

Quando o pai da mentira falou a verdade

Josivaldo de França Pereira

Satanás é o pai da mentira. O próprio Cristo fez essa afirmação ao se dirigir aos judeus que diziam ser filhos de Deus, mas praticavam as obras do diabo e não as do Pai celestial: “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44).
No entanto, mesmo o pai da mentira falou a verdade algumas vezes. Verdades essas que não atenuam em nada a natureza mentirosa dele. De modo que Satanás será lançado no lago de fogo não somente por ser mentiroso, mas também por conhecer a verdade que ele não pratica.
Há pelo menos três ocasiões nos evangelhos e uma no livro de Atos nas quais Satanás diz a verdade. A primeira delas ocorreu durante a tentação de Jesus no deserto. Por duas vezes o tentador usa a expressão “Se és Filho de Deus” (Mt 4.3,6; cf. Lc 4.3,9). Essa é a tradução que a maioria das versões da Bíblia em português apresenta, porém, ela não atenta para o legítimo sentido do original grego. Na língua grega eán não é uma condicional de dúvida; é uma condicional de fato, ou seja, o diabo não está pondo em jogo a filiação de Jesus. Na realidade ele parte de uma certeza, afirmando com toda a segurança: “posto (ou visto) que tu és o Filho de Deus...”.
A segunda ocasião em que o diabo abriu a boca para falar a verdade foi quando Jesus curou um endemoninhado na sinagoga de Cafarnaum. Um homem possesso de espírito imundo bradou: “Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” (Mc 1.24; cf. Lc 4.34). Que Satanás estava sendo sincero e verdadeiro nessas declarações não há dúvida, pois a mesma expressão “o Santo de Deus”, em especial, é proferida por Pedro com igual autenticidade no momento em que muitos dos discípulos do Mestre o abandonaram e já não andavam com ele. “Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus” (Jo 6.67-69).
A terceira vez que Satanás reafirma a verdade nos evangelhos é quando um endemoninhado geraseno (ou gadareno) vem ao encontro de Jesus. “Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes!” (Mc 5.6,7; cf. Lc 8.28). Mateus relata que os demônios gritaram “Que temos nós contigo, ó Filho de Deus!” (Mt 8.29). Tudo verdade!
No livro de Atos descobrimos mais uma ocorrência da verdade proferida pelo mentiroso Satanás. Lucas registra o seguinte episódio em Filipos:
Aconteceu que, indo nós para o lugar de oração, nos saiu ao encontro uma jovem possessa de espírito adivinhador, a qual, adivinhando, dava grande lucro aos seus senhores.
Seguindo a Paulo e a nós, clamava, dizendo: Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação.
Isto se repetia por muitos dias. Então, Paulo, já indignado, voltando-se, disse ao espírito: Em nome de Jesus Cristo, eu te mando: retira-te dela. E ele, na mesma hora, saiu.
(At 16.16-18).
Toda verdade é verdade de Deus, mesmo quando é dita pelo diabo ou por qualquer mentiroso. No entanto, Jesus não precisa do diabo ou de um outro enganador para dar testemunho da verdade. Que adianta falar a verdade e ao mesmo tempo oprimir e escravizar uma vida? Que vantagem há em declarar que Jesus é o Filho do Deus Altíssimo; o Santo de Deus, e negá-lo através das obras?
Isto mostra que o diabo e todos os mentirosos sabem fazer distinção entre o certo e o errado. Os demônios e os humanos são seres morais responsáveis por seus atos. Falar a verdade de vez em quando não alivia a vida de quem tem a mentira como carro-chefe do cotidiano, exceto para acrescentar pecado sobre pecado; condenação em cima de condenação a quem tais práticas realizam.
“Quanto, porém... a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte” (Ap 21.8).


sábado, 23 de fevereiro de 2019

A mais excelente prova de amor

Josivaldo de França Pereira

O amor é uma das doutrinas bíblicas centrais que expressam o conteúdo total da fé cristã (cf. Jo 3.16). A atividade do amor provém de Deus, que é amor. “Deus é amor” (1Jo 4.8). “Dizer ‘Deus é amor’ subentende que toda a sua atividade é amorosa. Se ele cria, cria com amor; se ele governa, governa com amor; se ele julga, julga com amor” (C. H. Dodd).
Deus é amor em sua própria natureza. O amor de Deus é a essência do seu ser; o dom supremo que garante todos os outros (Rm 8.32). O propósito de Deus desde o princípio tem sido propósito de amor (Ef 1.4,5). “O propósito primário de Deus para o mundo é seu amor compassivo e perdoador que se assevera a despeito da rejeição hostil dele pelo mundo” (W. Günther, H.-G Link).
O amor de Deus é perfeito. Não pode ser aumentado nem diminuído porque Deus é pleno, completo e absoluto em si mesmo. Deus é o que é em amor. Deus não seria menos amor mesmo que não demonstrasse esse amor. Contudo, como diz J. I. Packer, “Mede-se o amor calculando quanto ele dá, e a medida do amor de Deus é a dádiva de seu único Filho para ser feito homem e morrer pelos pecadores, e assim tornar-se o único mediador que nos pode levar a Deus”. 
Por isso Paulo declarou que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Em outras palavras, “O que Paulo está dizendo é que o amor de Deus, como revelado em Jesus Cristo, é tanto abrangente quanto sem paralelo” (W. Hendriksen). Note também que Paulo usa o verbo “provar” no tempo presente. “Ainda que seja verdade que para Paulo, na época em que escreveu essa carta [aos Romanos], como também para nós hoje, a morte de Cristo foi um evento que ocorrera no passado, sua lição permanece uma realidade sempre presente e gloriosa” (Hendriksen).
Jesus Cristo é a maior prova e expressão do grande amor de Deus. João relata que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E ainda: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus...” (1Jo 3.1). De fato, o amor de Deus é simplesmente um grande amor (Ef 2.4).
Deus amou quem não o amava. Amou-nos antes mesmo de termos uma só partícula de amor por ele (cf. 1Jo 4.19). Jesus nos amou como amigos antes mesmo que quiséssemos ser amigos dele: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13), isto é, “amigos” somente no sentido de que ele nos declarou assim, visto que em nós mesmos e por natureza (aparte da graça de Deus), Cristo, nas palavras de Paulo, morreu por “fracos”, “ímpios”, “pecadores” e “inimigos” (Rm 5.6,8,10).
Que amor imensurável! Deus nos amou quando ainda éramos inimigos dele! Segundo F. F. Bruce, “o amor de Deus se vê em Cristo dar sua vida por aqueles que não eram nem justos nem bons, senão ímpios pecadores”.
“Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para o repelir, tudo na medida para levá-lo a detestar-me – sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem ‘nenhum bem’ em mim” (A. W. Pink).
“Devido à sua graça soberana, Deus se eleva acima do pecado e ama sem motivo algum, salvo aquilo que faz parte de sua própria natureza, parte de sua glória. Os homens precisam de algum motivo para amarem. Deus não tem outro motivo, além de si mesmo, e nos ‘recomenda o seu amor’ (e a palavra ‘seu’ é aqui enfática, no que tange a essa questão), pois, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós – o melhor que os céus poderiam dar, pelos pecadores mais vis, mais contaminados e mais culpados” (J. N. Darby).
Quando você for tentado a duvidar do amor de Deus, lembre-se do que ele fez por você na cruz do Calvário.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Atitudes para com o próximo

(A mensagem de Lucas 10.30-35)

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei se levantou com o intuito de por Jesus à prova, perguntando o que devia fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com duas outras perguntas: “Que está escrito na lei? Como interpretas?”. O homem respondeu citando os dois grandes mandamentos, ou seja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus disse que a resposta estava correta, e completou: “faze isto e viverás”. Não satisfeito com a objetividade do Mestre, querendo justificar-se, o intérprete da lei indagou: “Quem é o meu próximo?”. Jesus prosseguiu contando a famosa história de Lucas 10.30-35, na qual se destacam três atitudes distintas em relação ao próximo.
1.      Uma atitude inaceitável: O que é seu é meu.
A atitude inaceitável foi executada pelos salteadores. Eles fizeram simplesmente um estrago no homem que seguia tranquilamente seu caminho, porque “depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto”. Uma atitude sádica, covarde e bandida é o mínimo que se pode esperar de gente assim. O ladrão nunca aparece para trazer boas novas ou fazer o bem a quem quer que seja. Parece surgir do nada, chegando de repente, sem aviso prévio, causando terror e tragédia na vida das pessoas. Jesus sintetizou muito bem a ação de um salteador quando disse no evangelho de João: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir...” (Jo 10.10). A atitude inaceitável de um bandoleiro e malfeitor resume-se nisto: “O que é seu é meu”.
2.      Uma atitude não recomendável: O que é meu é meu.
A atitude não recomendável foi praticada pelo sacerdote e o levita. Ambos iam de Jerusalém para Jericó quando se depararam com um homem despido, ensanguentado e semimorto no meio do caminho. Note que o homem espancado pelos salteadores fazia o mesmo trajeto do sacerdote e o levita. Ele também “descia de Jerusalém para Jericó”. Isso sugere que ao menos ele era judeu e vizinho do sacerdote e do levita. Jericó era conhecida como a cidade dos sacerdotes e levitas. Provavelmente o sacerdote acabara de ministrar num culto e o levita de cantar no coral da Cidade Santa. Mas eles não praticaram o que fizeram lá. Adoração e louvor que não produzem compaixão para com o próximo não têm sentido para Deus. Religioso que não pratica o evangelho vai sempre “passar de largo” diante de quem precisa de ajuda. A atitude não recomendável de uma pessoa hipócrita e egoísta resume-se nisto: “O que é meu é meu”.
3.      Uma atitude louvável: O que é meu é seu.
A atitude louvável foi realizada pelo samaritano. O homem que por natureza é odiado pelos judeus socorre um judeu. Ele fez o bem sem olhar a quem. É provável que ele tivesse um compromisso urgente, mas abriu mão de sua agenda para assistir ao necessitado. Socorrer uma vida vale mais que qualquer outro negócio. E foi o que o bom samaritano fez. Ele se aproximou do ferido, realizou os primeiros-socorros, transportou-o em seu próprio animal (indicando que ele mesmo seguiu a pé), levou-o para uma hospedaria e tratou pessoalmente dele. Não podendo ficar por mais tempo, no dia seguinte pediu que o hospedeiro cuidasse do homem ferido, pagando por isso. Contudo, retornaria para ver o próximo e indenizar o hospedeiro, caso este tivesse gastado alguma coisa a mais com o enfermo. A atitude louvável de uma pessoa bondosa e altruísta resume-se nisto: “O que é meu é seu”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Sobre o culto infantil

Josivaldo de França Pereira
Tenho acompanhado o debate recente em torno do culto infantil. Os contrários a ele defendem sua extinção alegando que culto infantil não é bíblico e que testemunhos comprovam que adolescentes e jovens estão fora da igreja hoje porque não participaram do culto junto com seus pais quando pequenos.
Alguns desses relatos são superestimados. Também temos adolescentes e jovens fora da igreja que nunca passaram pelo culto infantil quando crianças, apesar de estarem assentados ao lado de seus pais quando menores.
Os líderes contrários ao culto infantil demonizam-no, pintando-o como se fosse uma abominação dos infernos. Nunca participei de culto infantil quando menino, mas me lembro como eu ficava incomodado com aqueles cultos enfadonhos para mim e dos beliscões de minha mãe por não permanecer quieto no banco.
Culto infantil, a meu ver, é uma questão de bom senso. Não concordo que as crianças devam ser tiradas do culto público para o culto infantil simplesmente porque deva ser assim, mas que se invista em professores no intuito de prepará-los para isso, com didática e material próprios para atender uma faixa etária de crianças de até três ou quatro anos de idade, por exemplo. Não vejo nisso problema algum.
Dizer que os pais querem o culto infantil para se livrar dos filhos no culto não deveria ser uma fala generalizada. Pais que sabem que seus filhos estão em boas mãos e, portanto, despreocupados no culto público, adoram melhor.
Não participei de culto infantil quando pequeno porque não existia no meu tempo, mas gostaria de ter feito parte dele na minha infância. E, com certeza, teria sido um alívio para a minha mãe também.
Nem todos os meus irmãos que cresceram como eu sem o culto infantil, sentados comigo no banco, e mais comportados do que eu, estão hoje na igreja. Penso que um pouco de bom senso nessa questão não faria mal a ninguém.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia

A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a essas duas tarefas. Paulo disse: “Destruímos raciocínios e toda arrogância que se ergue contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento para que obedeça a Cristo [aspecto positivo]” (2Co 10.5). Sem um conhecimento profundo da filosofia, o cristão está à mercê do não cristão tanto na construção de um sistema da verdade quanto na demolição de sistemas de erros.
Se essa é a tarefa do cristão na filosofia, como então se explica a advertência do apóstolo Paulo de ter “cuidado para que ninguém vos tome por presa, por meio de filosofias” (Cl 2.8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido esse versículo como uma determinação contra o estudo da filosofia. Essa ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: “e [cuidado com] as sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens”. Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que havia se infiltrado na igreja em Colossos (no texto grego há um artigo definido que indica uma filosofia específica). Finalmente, não podemos realmente ter “cuidado” com a falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de poder combatê-lo, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento. A igreja cristã tem sido ocasionalmente infiltrada por falsos ensinos exatamente em razão de os cristãos não terem sido adequadamente treinados para detectar a “enfermidade” do erro.
Uma boa falsificação ficará perto da verdade quanto possível. É por isso que filosofias falsas, não cristãs, mas que estão vestidas com roupagem cristã são especialmente perigosas. Na verdade, o cristão com maior probabilidade de se tornar presa de filosofias falsas é o cristão ignorante.
Deus não premia a ignorância. Os cristãos não recebem recompensa espiritual por uma fé ignorante. A fé pode ser mais meritória do que a razão (“sem fé é impossível agradar a Deus”, Hb 11.6), mas a razão é mais nobre (“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses; [...] examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”, At 17.11, NVI). Na realidade, o “grande mandamento” para o cristão é: “Amarás o Senhor teu Deus [...] de todo o entendimento” (Mt 22.37). Pedro diz que devemos sempre estar preparados “para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). Paulo diz que estamos ocupados “na defesa e na confirmação do evangelho” (Fp 1.7) e ele mesmo “arrazoou [...] acerca das Escrituras” (At 17.2, NVI).
É verdade que somos advertidos contra “a lógica do mundo” (1Co 1.20). Mas isso também faz parte do desafio da filosofia para o cristão. Conforme C. S. Lewis corretamente observou: “Sermos ignorantes e ingênuos agora – não sendo capazes de enfrentar os inimigos em seu terreno – seria largar nossas armas e trair nossos irmãos iletrados que não têm, dentro da providência de Deus, defesa alguma além de nós contra os ataques intelectuais dos pagãos. Uma boa filosofia deve existir, se não por outra razão, por ser necessário dar uma resposta à má filosofia”.[1]






[1] Extraído e adaptado de Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à Filosofia: Uma Perspectiva Cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 77-8.