quinta-feira, 24 de setembro de 2020

A torre de Babel

 (Gênesis 11.1-9)

Josivaldo de França Pereira

 

Muitos cogitam que o propósito de se construir uma torre tão alta foi porque aquelas pessoas queriam ser avistadas de longe. Contudo, tal pensamento parece ir na contramão do que os de Babel almejavam (Gn 11.4). Eles queriam ficar juntos! Não era a intenção deles serem dispersos, encher a terra e exercitar cuidado e domínio sobre ela (Gn 1.28; 9.1,2). Desse modo, ser visto por quem estava distante não faria sentido. Houve soberba, vaidade e ostentação no intento deles, porém, até isso era sintoma de um mal maior.

A motivação principal na construção da torre de Babel foi a infidelidade pactual. Deus tinha dito a Noé que não inundaria a terra novamente com um dilúvio (Gn 8.21,22). Lembremos que as águas do dilúvio cobriram todos os altos montes que existiam debaixo do céu (Gn 7.19). Se as águas inundassem a planície de Sinear (antiga Babilônia) elas não atingiriam uma torre que alcançasse o céu, como deviam supor.

Na época de Noé, ele anunciou a chegada do dilúvio aos seus contemporâneos (cf. 2Pe 2.5), mas eles não lhe deram crédito. Após o dilúvio Deus disse que outra inundação não ocorreria de novo (Gn 9.11). No entanto, os habitantes de Babel não creram na palavra do Altíssimo e seguiram no plano de edificar uma cidade com sua enorme torre como eventual abrigo e proteção.

A infidelidade da geração pós-diluviana foi, portanto, não acreditar na palavra do Senhor e em sua aliança com Noé, seus descendentes e com todos os seres viventes (Gn 9.8-17; cf. Jr 33.20). Como dissemos, construir uma torre que chegasse ao céu os livraria, no entendimento deles, de outro possível dilúvio. Sendo assim, não é coincidência a história da torre de Babel vir logo após as narrativas do dilúvio e descendência dos filhos de Noé.

Por causa da infidelidade pactual daquela gente Deus a amaldiçoou com a confusão das línguas e a espalhou pela face da terra (Gn 11.5-9). A dispersão das pessoas não deve ser considerada maldição ou julgamento, pois era intenção divina que a humanidade se espalhasse conforme a ordem pactual dada no tempo da criação e repetida a Noé depois do dilúvio (Gn 1.28; 9.1,7).

Segundo Van Groningen, os habitantes de Sinear não aceitaram a garantia que Yahweh havia dado quando confirmou seu pacto, dizendo, “nem mais haverá dilúvio para destruir a terra” (Gn 9.11).[1] E ainda: Eles começaram a construir uma cidade que deveria ter uma torre para providenciar escape de catástrofes. Ela também os identificaria como célebres (Gn 11.4).[2]

A confusão das línguas deve ser compreendida, entretanto, como o julgamento de Deus sobre os seres humanos, tornando a realização e a expressão da unidade entre eles mais difícil, e enfatizando de tal maneira a diversidade que os povos vieram a ser compostos de línguas e raças. Todavia, a maldição linguística foi revertida no Pentecostes de Atos 2.[3]


[1] Gerard Van Groningen, Criação e Consumação: O Reino, a Aliança e o Mediador. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 180.

[2] Ibidem.

[3] Consulte F. F. Bruce, Commentary on the Book of the Acts. Grand Rapids: Eerdmans, 1974, p. 64.

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Jonadabe, um homem mui sagaz

Josivaldo de França Pereira

 

Jonadabe era filho de Siméia, irmão de Davi; portanto, Jonadabe era sobrinho do rei. Algumas versões da Bíblia descrevem-no como homem "muito esperto", BLH; “muito astuto", NVI; “mui sagaz", ARA, ARC (2Sm 13.3; cf. Gn 3.1).

O termo hebraico usado para "esperto", “astuto” ou “sagaz" em 2Samuel 13.3 é hakam, literalmente “sábio”. Segundo Joyce Baldwin, “o contexto determina a exata nuança da palavra, e aqui está faltando visivelmente seu sentido ético costumeiro. Ele era ‘sábio’ no sentido de que sabia o que queria e como obtê-lo”.[1]

Jonadabe usou a sabedoria dele para o mal porque era um mau caráter. Bem diferente de outro Jonadabe, filho de Recabe, zeloso adorador de Yahweh que ajudou Jeú a suprimir o culto a Baal (2Rs 10.15-28) e muito respeitado entre os recabitas por sua fidelidade a Deus (Jr 35). 

Quanto ao sobrinho do rei Davi, foi ele quem aconselhou seu primo e amigo Amnom, filho de Davi, a cometer um incesto contra Tamar (por quem Amnom estava enamorado), irmã de Absalão, seus irmãos por parte de pai (2Sm 13.1-5).

As Escrituras não expressam que Jonadabe instruiu Amnon a violentar sua irmã, mas está subentendido na cláusula "sendo ela virgem, parecia-lhe [a Amnom] impossível fazer-lhe cousa alguma" (2Sm 13.2) e na sequência dos versos 5 a 14 de 2Samuel 13, ou seja, até o versículo 14 vemos a mente de Jonadabe; nos versos 15 a 17 a de Amnom.

Segue-se um desastre familiar atrás do outro como num efeito cascata. Jonadabe aconselha Amnom; Amnon abusa da própria irmã; Absalão arma uma emboscada e mata Amnom; Davi persegue Absalão; Absalão foge para outro país com medo do pai (2Sm 13). 

Três anos depois Absalão retorna a Jerusalém, é perdoado pelo rei, se rebela e persegue Davi (2Sm 14 e 15). As tragédias familiares se tornaram pessoais e políticas, iniciadas a partir de 2Samuel 11.

Quando Amnom foi assassinado, a notícia que trouxeram a Davi é que todos os filhos do rei haviam sido mortos por Absalão numa festa organizada por este, dois anos após o ocorrido com Tamar (2Sm 13.23-30). 

Jonadabe se apressa em dizer ao tio que apenas Amnom morreu, sendo sua morte "anunciada" por conta do que o primo fez (2Sm 13.31-33). O fato de saber do assassinato de Amnom parece indicar cumplicidade nele, embora fosse seu amigo confesso (cf. 2Sm 13.3,4).[2]

Com certeza a informação de que só Amnom tinha sido morto deixou Davi mais aliviado, porém, não diminuiu de modo nenhum a sagacidade de Jonadabe; ao contrário, visto que é próprio das pessoas maliciosamente astutas a dissimulação.

Olha a cara-de-pau de Jonadabe em 2Samuel 13.35: “Então, disse Jonadabe ao rei: Eis aí vêm os filhos do rei; segundo a palavra de teu servo, assim sucedeu". Você conhece alguém assim? Você já foi assim? O traíra Jonadabe se comporta como quem não cometera delito algum nessa história toda.

A Bíblia não relata como foram os últimos dias de Jonadabe. É quase certo que ele teve de conviver com o peso na consciência de um conselho infeliz, macabro e diabólico. 

Amnom morreu sem revelar o nome de quem idealizou o incesto que culminou na morte dele mesmo. Contudo, nada passou despercebido ao autor sagrado, divinamente inspirado pelo Espírito Santo (cf. Lc 12.2; Rm 15.4; 2Pe 1.20,21).

O sagaz Jonadabe se safou de ser morto por Davi ou Absalão, mas sem dúvida acertou suas contas com Deus!



[1] Joyce G. Baldwin, 1e 2Samuel: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2011, p. 279.

[2] Consulte M. A. MacLeod, Jonadabe. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 711. 

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Por que Noé foi chamado “pregoeiro da justiça” em 2Pedro 2.5?

Josivaldo de França Pereira

Noé nasceu por volta do ano 1000 da criação do primeiro homem. Se Enoque é “o sétimo depois de Adão” (Jd 14), Noé foi o décimo. Em seu tempo a maldade, corrupção e violência da raça humana atingiram o ápice da pecaminosidade na terra (Gn 6.1-7,11-13; cf. Gn 15.16). “Porém Noé achou graça diante do SENHOR. Eis a história de Noé: Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus” (Gn 6.8,9). Noé foi o primeiro homem descrito nas Escrituras como justo.
O profeta Ezequiel escreveu sobre a possibilidade de Deus enviar fome a um país que peca contra ele; se Noé, Daniel e Jó estivessem nesse país, poderiam salvar a si mesmos por sua retidão (Ez 14.14,20). Quando o patriarca nasceu, seu pai Lameque “pôs-lhe o nome de Noé, dizendo: Este nos consolará dos nossos trabalhos e das fadigas de nossas mãos, nesta terra que o SENHOR amaldiçoou” (Gn 5.29).[1] “Noé, pois, é apresentado como pregoeiro da justiça, e isso pode estar envolvido nesse conceito".[2]
Noé levou 120 anos para construir a arca que salvaria a ele, sua família e várias espécies de animais do dilúvio (Gn 6.3,18-22). O Antigo Testamento não declara que Noé falou aos que seriam tragados pelo dilúvio destruidor; pelo contrário, na comparação com eles mostra que somente o patriarca alcançou graça perante Deus no meio daquela geração moralmente corrompida.
Contudo, o apóstolo Pedro, por divina inspiração, afirma: “e [Deus] não poupou o mundo antigo, mas preservou a Noé, pregoeiro da justiça, e mais sete pessoas, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo de ímpios” (2Pe 2.5; destaque acrescentado). O contexto de Pedro para essa menção a Noé está no justo castigo de Deus contra os falsos mestres da era apostólica.
Noé não proclamou boas novas de salvação; ou seja, ele não pregou a fim de que houvesse arrependimento da parte de seus contemporâneos ou esperança de redenção para eles. A missão de Noé era anunciar o juízo e condenação de Deus sobre o mundo antigo de ímpios enquanto construía a arca: “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). “A terra estava corrompida à vista de Deus e cheia de violência” (Gn 6.11).
Diferentemente da destruição de Sodoma e Gomorra em que os genros de Ló tiveram a oportunidade de escapar, mas recusaram (Gn 19.12-14), ou de Jonas que clamou contra Nínive, e esta se arrependeu (Jn 3), para os contemporâneos de Noé não haveria perdão: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito” (Gn 6.7; cf. 6.13). “Nenhum profeta jamais pregou tal mensagem de destruição como Noé o fez por tanto tempo – 120 anos. Além do mais, Noé pregou ao mundo inteiro da época”.[3]
O patriarca achou graça diante do Senhor porque apenas ele e sua casa foram tementes a Deus e não se contaminaram pela maldade, corrupção e violência do mundo de outrora. Mesmo assim, eram eles quem teriam de construir a arca. O Senhor não a entregaria prontinha a Noé e sua família. Aquilo que não podemos fazer Deus executa por nós; aquilo que podemos realizar Deus nos ajuda a fazer. Noé foi divinamente instruído (cf. Gn 6.14-22; Hb 11.7).
A arca foi construída gigantesca não para caber mais gente, mas para abrigar Noé, sua família e muitos animais. Portanto, a Noé bastava simplesmente noticiar sem dó nem piedade aos ímpios de seu tempo que Deus inundaria a terra com um dilúvio. Lembremos que não há registro algum do patriarca pregando no livro de Gênesis. É Pedro quem observa que Noé o fez. A palavra “pregoeiro” vem do grego kerygma (proclamação, pregação). O vocábulo “justiça” em 2Pedro 2.5 deve ser entendido como justiça retributiva ou punitiva de Deus contra aqueles que persistem no pecado.
Nos filmes sobre Noé, geralmente aparecem as pessoas zombando dele e o chamando de louco por construir uma enorme embarcação onde quase não chove. E depois essas mesmas pessoas estão batendo na porta da arca suplicando que as deixem entrar por causa de enchente. Pode ter acontecido mais ou menos isso mesmo; é impossível saber com exatidão, mas podemos ter certeza que Noé sentiu a dureza de coração daquelas pessoas (cf. 2Tm 3.12). A Bíblia destaca que o próprio Deus fechou a porta da arca (Gn 7.16), de modo que ela não poderia ser aberta por fora nem por dentro enquanto a terra estivesse molhada (Gn 8.14-19).
O autor da carta aos Hebreus complementa bem o pensamento de Pedro acerca do herói da fé diluviano, quando diz: “Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb 11.7; destaque acrescentado). Segundo Turner, “A arca representava o veredito simbólico de Noé, de que o mundo já estava condenado”.[4] Vale ressaltar também que, ao contrário de 2Pedro 2.5, em Hebreus 11.7 “justiça” é a justificação por meio da fé (cf. Hc 2.4; Rm 1.17; Hb 10.38).
Em seu comentário de 2Pedro 2.5, Simon Kistemaker conclui: “Se Deus não poupou o mundo antigo nos dias de Noé, por que esperar que pouparia os falsos profetas do tempo de Pedro? Porém, assim como Deus protegeu o crente Noé e sua família, ele poupará os cristãos que permanecerem fiéis aos ensinamentos das Escrituras. Em outras palavras, a mensagem de Pedro tem a intenção de exortar e encorajar os leitores de sua epístola”.[5]




[1] O nome Noé vem de um termo hebraico que indica “descanso”, “alívio”, “consolo". Consulte R. N. Champlin, Noé. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 4. 12ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 511-512.
[2] Idem, p. 512.
[3] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 447.
[4] D. D. Turner, Hebreus. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1981, p. 115.
[5] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Epístolas de Pedro e Judas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 386.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O dilúvio

Josivaldo de França Pereira

O dilúvio foi um acontecimento único, portanto não se repetirá (cf. Gn 8.20-22; 9.8-17), e irrefutável na história da humanidade. Na Bíblia o dilúvio é apresentado em detalhes nos capítulos seis, sete e oito do livro de Gênesis, e citado no Novo Testamento por Jesus e Pedro a fim de ilustrar a volta repentina do Senhor, o juízo final e a proteção de Deus (Mt 24.38,39; Lc 17.26,27; 1Pe 3.19,20; 2Pe 2.5; 3.6).
No Antigo Testamento a palavra “dilúvio” é mencionada onze vezes, e somente em Gênesis (Gn 6 [1x]; 7 [4x]; 9 [3x]; 10 [2x] e 11 [1x]). E, igualmente, só nesse mesmo livro temos a expressão “águas do dilúvio” (com três ocorrências, Gn 7.6,7,10) e os três elementos que formaram o dilúvio: “as fontes do grande abismo”, “as comportas dos céus” e “a copiosa chuva” (com duas menções cada, Gn 7.11,12; 8.2). Após Gênesis 8.2 o dilúvio passa a ser chamado simplesmente de “as águas” (Gn 8.3,5,7,8,9,11,13).[1]
As Escrituras narram o dilúvio desta maneira: “No ano seiscentos da vida de Noé, aos dezessete dias do segundo mês, nesse dia romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram, e houve copiosa chuva sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites” (Gn 7.11,12). Era tanta água que, conforme os estudiosos, foram necessários mais de 370 dias para a terra ficar seca novamente.[2]
Muitos povos primitivos fizeram alusão ao dilúvio. Segundo Adauto Lourenço, existem cerca de 250 grupos de relatos sobre o dilúvio espalhados pelo mundo. Desde os aborígines da Austrália até os pigmeus da África. E em todos eles é dito basicamente a mesma coisa, ou seja, que um dos seus antepassados teria salvado os animais num barco por causa de uma grande inundação provocada pela ira dos deuses ou de um deus.[3]
Uma das principais questões levantadas em relação ao dilúvio é: foi uma inundação local ou universal? Confesso que na minha adolescência, por influência do meu pastor, pessoa muito amada, eu acreditava em um dilúvio restrito. Continuei pensando desse modo durante meus estudos no seminário e início do pastorado. Hoje enxergo diferente, pelas razões que pretendo descrever aqui.
Na Bíblia parece-me bastante claro a universalidade do dilúvio: “Disse o SENHOR: Farei desaparecer da face da terra o homem que criei, o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus; porque me arrependo de os haver feito" (Gn 6.7). Nota-se que o intento de Deus é universal nas cláusulas “face da terra” e aves “dos céus”. E o mesmo se aplica a:
“Então, disse Deus a Noé: Resolvi dar cabo de toda carne, porque a terra está cheia da violência dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra" (Gn 6.13);
“Porque estou para derramar águas em dilúvio sobre a terra para consumir toda carne em que há fôlego de vida debaixo dos céus: tudo o que há na terra perecerá” (Gn 6.17);
“Pereceu toda carne que se movia sobre a terra, tanto de aves como de animais domésticos e animais selváticos, e de todos os enxames de criaturas que povoam a terra, e todo homem. Tudo o que tinha fôlego de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca morreu. Assim, foram exterminados todos os seres que havia sobre a face da terra; o homem e o animal, os répteis e as aves dos céus foram extintos da terra; ficou somente Noé e os que com ele estavam na arca" (Gn 7.21-23);
“E o SENHOR aspirou o suave cheiro e disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade; nem tornarei a ferir todo vivente, como fiz. Enquanto durar a terra, não deixará de haver sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, dia e noite" (Gn 8.21,22);
“Estabeleço a minha aliança convosco: não será mais destruída toda carne por águas de dilúvio, nem mais haverá dilúvio para destruir a terra” (Gn 9.11).
Além do mais, Gênesis 7.19 salienta: “Prevaleceram as águas excessivamente sobre a terra e cobriram todos os altos montes que havia debaixo do céu”. Os localistas argumentam que a história do dilúvio em Gênesis 7.19 é contada na perspectiva do narrador. Mas tal entendimento não se sustenta diante de uma sã exegese histórico-gramático-literal do texto e seu contexto. E ainda: Considerando que as aves dos céus são naturalmente migratórias, por que elas precisariam entrar na arca de Noé, conforme Gênesis 7.3, se o dilúvio fosse apenas local?
Russell Champlin defende a tese não universalista do dilúvio, dizendo: “Há evidências significativas que indicam que o dilúvio foi parcial, apesar de vasto. A China, por exemplo, permaneceu seca, o que explicaria o imenso número de chineses e outros povos amarelos, hoje em dia".[4] Champlin parece ignorar completamente a passagem bíblica de Gênesis 9.19: “São eles [Sem, Cam e Jafé] os três filhos de Noé; e deles se povoou toda a terra". Ele também faz um comentário equivocado em Gênesis 9.19 ao confundir Noé com Lameque.[5]
Em decorrência da maldade, corrupção e violência do gênero humano (cf. Gn 6.1-7,11-13), Deus mandou um dilúvio hecatômbico e colossal sobre toda a terra, como apontam as referências supracitadas, ainda que naquele tempo as pessoas não habitassem boa parte do planeta.[6]




[1] A expressão “as águas” também ocorre em Gênesis 8.1, porém, apenas para enfatizar e introduzir o verso 2.
[2] Cf. Norman Geisler; Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 47.
[3] Entrevista de Adauto Lourenço ao programa Vejam Só. In: https://www.youtube.com/watch?v=jIWUkWaKXq8. Acesso em setembro de 2020.
[4] R. N. Champlin, A Arca de Noé. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 1. 12ª ed. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 258.
[5] R. N. Champlin, O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 1. 2ª ed. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 81.
[6] Para mais argumentos localistas e universalistas sobre a extensão do dilúvio e outros relatos acerca dele, consulte Carlos Osvaldo Pinto, O Pentateuco em Gráficos. Atibaia: Redijo, S/d, p. 9-11.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A arca de Noé

Josivaldo de França Pereira

O contexto para a construção da arca de Noé – e consequentemente o advento do dilúvio – foi a maldade, corrupção e violência do gênero humano (Gn 6.5-7,11-13) e a vida reta do patriarca diluviano. Noé achou graça diante do Senhor (Gn 6.8). Ele era um homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos. Noé andava com Deus (Gn 6.9; 7.1; Hb 11.7) e recebeu dele a incumbência de construir um imenso barco fechado (Gn 6.14-16); um meio de proteção, livramento e manutenção da vida (cf. 1Pe 3.20).
Deus prometeu destruir a terra com um dilúvio avassalador (Gn 6.17; 2Pe 3.6) e a arca preservaria Noé, sua família e os animais que nela estavam, garantindo desse modo as gerações futuras de todos eles (Gn 6.18-22). Arca significa caixa; baú. Foram empregados 120 anos na construção dela (Gn 6.3), nos quais Noé anunciava a chegada do dilúvio (2Pe 2.5). Aliás, Simon Kistemaker, em sua exposição de Hebreus 11.7, lembra: “Nenhum profeta jamais pregou tal mensagem de destruição como Noé o fez por tanto tempo – 120 anos”.[1]
O tipo de árvore utilizado na preparação da arca foi o cipreste; tábuas de cipreste (Gn 6.14). A madeira do cipreste é bastante resistente ao relento e à água e muito boa para construções. Ela também foi empregada na construção do templo de Salomão (1Rs 5.8) e para fazer conveses de navios (Ez 27.5). As ferramentas usadas por Noé na execução da arca já eram conhecidas antes dele (Gn 4.22). Os espaços entre as tábuas foram calafetados (vedados) com betume (pasta semelhante ao piche) por dentro e por fora dela, conforme Gênesis 6.14.
A ARA e ARC descrevem as medidas da arca em côvados (Gn 6.15,16). Um côvado equivale mais ou menos a meio metro.[2] À guisa de equiparação, a arca de Noé tinha o comprimento de um campo e meio de futebol (150m, em média) e menos da metade dele em largura. Um campo oficial de futebol tem por volta de 60m de largura; a arca tinha 25m. Comparada ao seu comprimento a arca de Noé era bem estreita, mas enorme; embora pequena em relação a um transatlântico moderno.
A grande embarcação foi delimitada em vários compartimentos internos verticais (divisórias) para separar as espécies de animais (Gn 6.14). Da base à cobertura a arca media em torno de 15m (o equivalente a um prédio de quatro andares), subdividida em três pavimentos horizontais, ou seja, com duas “lajes” internas/dois andares (Gn 6.16). Seriam três pavimentos com 5m de altura cada um? Poderiam ser, mas não temos como precisar, pois uma girafa possui de 4,6m a 6,1m de altura. Segundo Mitchell, a arca de Noé “mediria cerca de 150m x 25m x 15m”.[3] No alto do último pavimento, logo abaixo do telhado, havia uma abertura de 50 centímetros em torno dela para ventilação e entrada de luz. A embarcação de Noé possuía uma única porta lateral (Gn 6.16).
Os animais chegariam à arca de par em par, macho e fêmea. Por mandado divino eles viriam a Noé e o patriarca os faria entrar no grande barco. Um casal de cada espécie (Gn 6.19,20; 7.8,9,13-16). Para cada sete casais representantes de animais limpos, adentraria na embarcação um casal de animais imundos (Gn 7.2). O mesmo se deu com as aves (Gn 7.3). Uma lista de animais e aves limpos e imundos encontra-se em Levítico 11.
Por ordem de Deus, Noé providenciou alimento para ele, sua família e todos os animais (Gn 6.18-21). Alimento para mais de um ano! Baseando-me especialmente em Gênesis 6.21, aqui descarto qualquer possibilidade de hibernação de animais, como alguns parecem sugerir. Em um antigo filme sobre a arca de Noé, este aparecia com seus filhos dando de beber leite aos bichos. Isso também faz sentido, uma vez que a água, apesar de abundante do lado de fora, era escassa do lado de dentro.
Os animais se multiplicavam no interior da arca. Quando todos saíram dela, Noé fez um altar e ofereceu “animais limpos” e “aves limpas” em holocaustos ao Senhor (Gn 8.20).[4] No entendimento de Geisler e Howe, exatamente um ano e dez dias depois do início do dilúvio, Noé e sua família saíram da arca e pisaram em solo seco (Gn 7.11; 8.14).[5] Durante meses a arca seguiu solta pelas águas; sem velas, leme e timão, mas não sem rumo e direção, visto que seu piloto foi o próprio Deus.
Van Dyke argumenta que a nossa conexão com a criação em preservação é dramaticamente ilustrada na arca de Noé (Gn 6.14). Ao ouvir a ênfase dos sermões modernos, alguém poderia ter a impressão de que a arca foi construída unicamente para preservar alguns representantes da humanidade (Noé e sua família). Se este tivesse sido o propósito exclusivo de Deus, um barco a remo e alguns guarda-chuvas teriam sido suficientes. A arca foi construída especificamente para preservar a criação (Gn 6.19-21).[6]
Tinha a arca de Noé algum simbolismo bíblico? De acordo com Van Groningen, alguns estudiosos da Bíblia têm-se referido à arca de Noé como tipo de Cristo, porém, segundo ele, parece-nos um sinal de sabedoria usar de cautela a respeito de tal afirmação.[7]




[1] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 447.
[2] A NVI e BLH utilizam “metros”, mas com medidas diferentes entre elas.  
[3] T. C. Mitchell, Arca. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 79.
[4] Para um ponto de vista diferente sobre os animais da arca de Noé, consulte Adauto Lourenço, Os Animais da Arca. In: https://www.youtube.com/watch?v=llfC5obYrSg. Acesso em setembro de 2020.
[5] Norman Geisler; Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 47.
[6] Fred Van Dyke, et tal., A Criação Redimida: A base bíblica para a mordomia ecológica. São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 85-86.
[7] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 111.

domingo, 30 de agosto de 2020

Culpa e graça

Josivaldo de França Pereira

No Salmo 99.8 lemos: “Tu lhes respondeste, ó SENHOR, nosso Deus; foste para eles Deus perdoador, ainda que tomando vingança dos seus feitos”. O salmista está pensando especialmente em Moisés e Arão (Sl 99.6,7) quando foram impedidos de entrarem na Terra Prometida por desobediência a Deus (cf. Nm 20.2-13,22-24; 33.38,39; Dt 3.23-28; 34.1-4).
Mas o povo de Israel também não está descartado no Salmo 99. Ao menos um exemplo é marcante e significativo durante a jornada pelo deserto: o castigo de Deus contra os israelitas depois da oração intercessora de Moisés por causa da sedição do povo, após a difamação da terra de Canaã pelos dez espias (Nm 14.1-19). O Senhor diz a Moisés: “Segundo a tua palavra, eu lhe perdoei" (Nm 14.20). Logo em seguida Deus promete e executa sua vingança matando milhares e milhares no deserto (Nm 14.21-38; Dt 1.34-40).
Pode-nos parecer estranho o fato de Deus perdoar e se vingar ao mesmo tempo. É que o Senhor nunca faz vista grossa em relação ao pecado. Ele não tem por inocente o culpado (cf. Êx 34.7). O pecador sempre recebe o castigo em decorrência de suas transgressões. Todo pecado precisa ser punido na pessoa de alguém, seja diretamente em quem o cometeu ou em algum representante e substituto dele. Segundo Louis Berkhof, a justiça divina está original e necessariamente obrigada a castigar o mal (cf. Jó 41.11; Lc 17.10; 1Co 4.7).[1]
Leon Morris ensina que a necessidade da expiação se torna evidente por três coisas: a universalidade do pecado (1Rs 8.46; Sl 14.3; Ec 7.20; Mc 10.18; Rm 3.23); a seriedade do pecado (Pv 15.29; Is 59.2; Hc 1.13; Mc 3.29; 14.21; Cl 1.21; Hb 10.27) e a incapacidade do ser humano resolver o problema do pecado (Nm 32.23; Sl 20.9; Rm 3.20; Cl 2.16).[2]
Se tivesse que depender de si mesmo ninguém nunca seria salvo. A expiação de Jesus é evidência disso. Se o próprio Filho de Deus veio à terra para salvar pessoas, então os seres humanos são pecadores e sua situação é realmente séria.[3]
Por conta disso, o Senhor Jesus Cristo precisou morrer em nosso lugar a preço de sangue. Desse modo, o apóstolo Paulo declara que fomos comprados por preço (1Co 6.20; 7.23) e o apóstolo Pedro complementa, dizendo: “sabendo que não foi mediante cousas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram, mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo” (1Pe 1.18,19).
No Antigo Testamento o sistema sacrificial apontava para o mais excelente sacrifício que Cristo realizaria por nós. “Foi a fé em Cristo que os salvou...”.[4] No AT o ofertante era perdoado não em decorrência do animal que ele oferecia pela sua culpa, mas pelo que este representava.[5] O autor da carta aos Hebreus vai dizer: “Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão” (Hb 9.22). Contudo, mais adiante ele afirma que o sacrifício de animais no Antigo Testamento era transitório, enquanto que a expiação feita por Cristo é permanente: “Entretanto, nesses sacrifícios faz-se recordação de pecados todos os anos, porque é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados" (Hb 10.3,4). E após transcrever o Salmo 40.6-8 (Hb 10.5-9), ele conclui: “Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas” (Hb 10.10).
Assim, Paulo também relata que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando a nós as nossas transgressões (2Co 5.19). Aquele que não conheceu pecado Deus o fez pecado por nós para que nele fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21), ou seja, Jesus foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação (Rm 4.25). Agora, justificados pela fé temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5.1).
Glórias a Deus pelo seu amor inefável!



[1] L. Berkhof, Teologia Sistemática. 7ª ed. espanhola. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 88.
[2] Leon Morris, Expiação. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 481.
[3] Ibidem.
[4] D. M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus. São Paulo: PES, 1980, p. 10.
[5] Consulte Donald Guthrie, Hebreus: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2014, p.191.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Os aspectos jurídico e relacional do perdão de Deus no Novo Testamento

Josivaldo de França Pereira

Se os nossos pecados já foram perdoados na cruz do Calvário, por que ainda pedimos perdão a Deus em nossas orações? É preciso fazer duas distinções importantes no conceito de perdão. A primeira tem a ver com seu aspecto jurídico; a segunda com o aspecto relacional.
Legalmente nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1; cf. Cl 2.13). Cristo pagou pelas nossas culpas de uma vez por todas, satisfazendo a justiça de Deus quando foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação (Rm 4.25). Desse modo, já não temos penalidade alguma a pagar pelo pecado. Fomos completamente perdoados de todos os nossos pecados do passado, presente e futuro (cf. Rm 8.33,34).
Sim, de uma vez! Amigo, acredita,
No Salvador tens sorte bendita!
Cristo, na cruz, a Lei satisfez
E redimiu-nos de uma vez!
(“Salvação Perfeita” - Ph. P. Bliss/S. P. Kalley)
O perdão divino inclui o cancelamento do efeito do pecado cometido e a aceitação do pecador, a quem se dá um novo viver juntamente com a promessa da vida eterna (cf. Cl 2.13-15; 1Jo 2.25). “Deus em Cristo vos perdoou”, diz Paulo aos efésios (Ef 4.32).
Observe, portanto, que a doutrina bíblica que define o aspecto jurídico de perdão é a justificação, conhecida também como justificação pela fé. O que é justificação? “Justificação é um ato da livre graça de Deus, no qual ela perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante dele, somente por causa da justiça de Cristo a nós imputada, e recebida só pela fé”.[1] Leia a exposição do apóstolo Paulo sobre a justificação pela fé em Jesus Cristo nos textos bíblicos de Romanos 3.21-5.21 e Gálatas 2.11-21.
Todavia, por que devemos orar pedindo perdão a Deus, visto que pela expiação de Cristo fomos imediatamente limpos (justificados) de todo pecado? Passemos, então, ao segundo aspecto do perdão divino: o relacional. “É verdade que a base de nosso perdão diário tem sido estabelecida de uma vez por todas por meio da expiação feita por Cristo. Não é necessário acrescentar nada e não se pode adicionar nada a isso. Mas esta limpeza total e objetiva necessita aplicação diária pela simples razão de que pecamos a cada dia".[2]
Se no sentido legal Deus é o Juiz que nos absolve dos nossos pecados por conta do sacrifício expiatório de Jesus Cristo, no relacional ele é nosso Pai e nós os seus filhos. Na relação Pai-filhos constantemente pecamos contra ele, desobedecendo-o e transgredindo sua lei (Tg 2.10,11). Contudo, João declara: “Se confessarmos os nossos pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.9). Ao comentar essa passagem, John Stott destaca que na primeira frase pecado é um débito que Deus quita, e na segunda uma mancha que Deus remove.[3]
Jesus ensinou: “Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens [as suas ofensas], tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mt 6.14,15). E ainda: “Quando estiverdes orando, se tendes alguma coisa contra alguém perdoai, para que vosso Pai celestial vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11.25).
Nas passagens bíblicas citadas acima, “Nosso Senhor não tem em mente a experiência inicial de perdão que vivemos quando somos justificados pela fé, pois isso não conviria a uma oração que se faz diariamente (ver Mt 6.12 com v. 14-15). Ele se refere, sim, à relação cotidiana com Deus que precisamos ter restaurada depois de pecar e lhe causar desagrado".[4]
E mais: “Como nossa obediência a Deus jamais é perfeita nesta vida, continuamente dependemos do seu perdão dos nossos pecados. A confissão dos pecados é necessária para que Deus ‘nos perdoe’ para restaurar a sua relação cotidiana conosco (ver Mt 6.12; 1Jo 9)”.[5] Segundo Louis Berkhof, esta consciência de perdão, e de uma renovada relação filial, com frequência se altera e obscurece por causa do pecado, e de novo se aviva e fortalece mediante a confissão e a oração como resultado de um renovado exercício da fé.[6]
Os escribas e fariseus costumavam dizer a Jesus que só Deus pode perdoar pecados (Mc 2.7; Lc 5.21). O Mestre curava e perdoava pecados (Mt 9.6; Mc 2.10; Lc 5.24). E quanto a nós? Podemos perdoar pecados? João Calvino responde: “Não que possamos perdoar a culpa do delito e a ofensa, pois isso pertence só a Deus; porém, a remissão e perdão que temos de fazer consiste em lançar voluntariamente do nosso coração toda ira, ódio e desejo de vingança, e esquecer definitivamente toda injúria e ofensa que nos tenham sido feitas sem guardar rancor algum contra ninguém”.[7]
Caso, por exemplo, ao fazer a oração de Mateus 6.12 ainda guardamos rancor contra alguém, então pedimos que Deus não reate conosco uma boa relação depois de pecarmos, assim como também nos recusamos a reatar com os outros. O que não é surpreendente porque a oração pressupõe relacionamento com um Deus pessoal.[8]
A oração de Mateus 6.12 não deve, pois, ser entendida como “perdoa-nos as nossas dívidas porque perdoamos aos nossos devedores” ou “perdoa-nos com base no fato que temos perdoado aos nossos devedores”, mas: “Perdoa-nos, ó Deus, assim como temos perdoado aos outros, por causa daquilo que tens feito por nós. Tudo quanto te pedimos é que nos perdoes da mesma maneira; não com o mesmo grau, porquanto tudo quanto nós fazemos é imperfeito. Por assim dizer, da mesma maneira que nos tens perdoado, nós temos perdoado aos outros. Perdoa-nos como nós os temos perdoado, por causa daquilo que a cruz de Jesus Cristo tem realizado em nosso coração”.[9]
Wayne Grudem conclui: “Se pecamos contra ele [Deus] e entristecemos o Espírito Santo (cf. Ef 4.30), permanecendo ainda o pecado sem perdão, interrompe-se a nossa relação com Deus (cf. Is 59.1,2). Até que o pecado seja perdoado e a relação, reatada, a oração logicamente fica obstruída”.[10] “... Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós”, salienta Paulo (Cl 3.13).
Em suma, enquanto no aspecto jurídico ou legal o perdão de Deus é concedido de uma vez por todas no ato do arrependimento humano, no relacional o perdão de Deus para conosco faz parte de um processo constante da vida cristã.




[1] O Breve Catecismo de Westminster, Pergunta e Resposta 33 (cf. Rm 4.6; 5.18; 2Co 5.21; Gl 2.16; Ef 1.7). Veja também O Catecismo de Heidelberg, Pergunta e Resposta 60.
[2] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 349-350.
[3] John R. W. Stott, 1, 2 e 3João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1991, p. 67.
[4] Wayne Grudem, Teologia Sistemática. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 314. Itálicos do autor. Veja também L. Berkhof, Teologia Sistemática. 7ª ed. espanhola. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 615-617; D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2017, p. 515-517.
[5] Grudem, p. 314.
[6] Berkhof, Teologia, p. 617; Manual de Doutrina Cristã. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, p. 190.
[7] As Institutas, III, xx, 45.
[8] Cf. Grudem, p. 314; Lloyd-Jones, p. 519-521.
[9] Adaptado de Lloyd-Jones, p. 520.
[10] Grudem, p. 314.