sábado, 27 de julho de 2019

Os Escritos de Calvino

Josivaldo de França Pereira
  
Dos 101 volumes do Corpus Reformatorum (série que reúne as composições literárias dos principais reformadores do século XVI), os escritos de João Calvino totalizam 59 obras volumosas. Martyn Lloyd-Jones, prolífico escritor calvinista, disse acerca do trabalho literário de Calvino: “Como um só homem pôde fazer tudo isso, e em acréscimo pregar com regularidade, é-nos espantoso contemplar”.[1] O espanto é ainda maior quando se descobre que João Calvino, além de muito atarefado, tinha uma saúde física bastante fragilizada. Segundo Wilson Castro Ferreira, Calvino “escreveu doente, escreveu em meio às mais acirradas lutas, escreveu no leito, ditando aos seus secretários, escreveu até altas horas da noite, mesmo enfermo e, segundo testemunho do seu primeiro biógrafo, Theodoro Beza, escreveu até oito horas antes da sua morte”.[2] João Calvino morreu pouco antes de completar cinquenta e cinco anos de vida.
1. Os Primeiros Escritos de Calvino
Escrever era uma vocação que se sobressaia em João Calvino. Benjamin Warfield declara: “O que vemos em Calvino fundamentalmente é o ‘homem de letras’ [...]. Ele era por natureza, por dons, por educação – por inata predileção, por qualidades adquiridas igualmente – um ‘homem de letras’”.[3] João Calvino nasceu para escrever e escreveu desde cedo. Diferente do que muitos têm afirmado, o comentário do livro De Clementia (uma exposição à obra de Sêneca acerca da virtude da clemência) não foi o primeiro escrito dele a ser publicado. O primeiro escrito de Calvino impresso foi o prefácio que ele compôs para seu amigo Nicolás Duchemin, Antapologia (1531), uma defesa de Pedro de l’Etoile, famoso professor francês de jurisprudência.[4]
A obra sobre o De Clementia de Sêneca, o filósofo romano que foi contemporâneo do apóstolo Paulo, seria o primeiro livro impresso de João Calvino, publicado em 1532, quando ainda não havia completado 23 anos de idade. O comentário do livro de Sêneca mostra que, até então, a Bíblia é um livro fechado para Calvino. O futuro reformador não alimentava nessa época interesse por questões religiosas. Seu primeiro livro visava o interesse literário mais do que apologético, ético mais do que religioso.[5] Lamentavelmente o livro teve pouca aceitação, dando grande prejuízo financeiro ao seu autor.[6]
Em 1533, logo após sua conversão[7], João Calvino redigiu um discurso na reabertura da Universidade de Paris, atacando a teologia escolástica da Igreja Católica, sendo perseguido por isso. No ano seguinte (1534), Calvino escreveu um tratado de nome Psychopannychia[8], em que rebate os erros dos anabatistas, os quais afirmavam que as almas dos mortos ficam dormindo até o dia do Juízo Final. O discurso da Universidade de Paris e o tratado contra os anabatistas são uma demonstração prévia do que seria sua obra principal em seu caráter apologético – As Institutas.[9]
2. As Institutas de Calvino
As Institutas, ou Tratado da Religião Cristã, é a magnum opus de João Calvino. Sua primeira edição foi publicada em 1536, o ano seguinte após ser escrita. Começou como um pequeno livro de 516 páginas e apenas seis capítulos. Os quatro primeiros capítulos tratavam sobre a Lei, o Credo Apostólico, a Oração do Pai Nosso e os Sacramentos. Os dois últimos capítulos resumiam a posição protestante com respeito aos sacramentos romanos, a liberdade cristã, o poder eclesiástico e a administração política.
Gonzalez observa: “Após a edição de 1536, em latim, surgiu em Estrasburgo a edição de 1539[10], no mesmo idioma. Em 1541 Calvino publicou em Genebra a primeira edição francesa, que é uma obra mestra da literatura nesse idioma. A partir de então, as edições surgiram em pares, uma latina seguida de sua versão francesa, como segue: 1543 e 1545, 1550 e 1551, 1559 e 1560. Visto que as edições latina e francesa de 1559 e 1560 foram as últimas produzidas durante a vida de Calvino, são elas as que nos dão o texto definitivo das Institutas.”[11] O texto definitivo, que na edição de 1536 eram seis capítulos, transformou-se em quatro livros com um total de oitenta capítulos. Foram nove edições de próprio punho, escritas em latim e francês (línguas que João Calvino dominava como poucos), numa época em que se usavam luz de vela e lampião, pena e tinteiro.[12]
Em linhas gerais, o primeiro livro das Institutas trata de Deus e sua revelação, da criação e da natureza do ser humano, porém, sem incluir a queda e a salvação. O segundo livro trata de Deus como redentor e o modo como se nos dá a conhecer primeiramente no Antigo Testamento, e depois em Jesus Cristo. O terceiro livro trata sobre como, pelo Espírito Santo, podemos participar da graça de Jesus Cristo e dos frutos que ele produz. O quarto livro trata da igreja e os sacramentos. Nas Institutas percebe-se claramente o conhecimento profundo de João Calvino, não só das Escrituras, mas também dos clássicos escritores pagãos e cristãos (particularmente santo Agostinho), e das controvérsias teológicas do século XVI.[13] O pensamento de Calvino nas Institutas ficaria, ainda, fortemente explícito em seus comentários bíblicos.
3. Os Comentários Bíblicos de Calvino
Os comentários bíblicos de João Calvino são um complemento importante das Institutas, pois elas estão estritamente relacionadas não somente com as Escrituras, mas também com os comentários de Calvino sobre as Escrituras, fruto de suas preleções e homilias. Ele escreveu comentários de 24 livros do Antigo Testamento. E do Novo Testamento somente não comentou a 2ª e a 3ª epístolas de João e o Apocalipse. A editora Baker Book House reuniu os comentários de Calvino em 22 volumes que totalizam mais de 11.000 páginas!
 O primeiro comentário bíblico de João Calvino foi sobre a epístola aos Romanos, preparado quando o reformador ainda se encontrava em Estrasburgo, em 1539. O livro está dedicado a Simão Grinée, reformador em Basiléia e mestre de Calvino no grego e teologia. Os últimos comentários escritos por João Calvino foram os de Josué e Ezequiel, que compreende apenas os vinte primeiros capítulos. A edição escocesa de 1850 traz a seguinte nota ao Comentário de Ezequiel: “Depois de terminar esta última preleção (sobre o cap. 20), o ilustre João Calvino – o Teólogo – que havia estado previamente enfermo, começou a sentir-se tão fraco, que foi compelido a buscar o leito e não pôde mais prosseguir na explicação de Ezequiel. Esta foi a razão de parar no cap. 20º e não terminar uma obra tão auspiciosamente começada”.[14]
O professor Tiago Arminius (1560-1609) recomendava aos seus alunos a leitura dos comentários de Calvino porque, segundo Arminius, não havia melhores.[15] Pode-se dizer, sem exagero algum, que a interpretação da Bíblia divide-se em antes e depois de João Calvino. Segundo Philip Hughes, os comentários de Calvino representam uma surpreendente e completa ruptura com o método alegórico retorcido e complicado de exposição dos eruditos escolásticos.[16] João Calvino interpretou a Escritura de acordo com sua ideia principal, direta e de sentido natural.[17]
4. Os Sermões e as Cartas de Calvino
Quanto aos sermões de João Calvino, Lessa destaca: “No apêndice ao Comentário de Josué, que temos presente, edição escocesa de H. Beveridge, há também uma relação circunstanciada das obras do reformador, vindo especificada a coleção de sermões, que deu muitos volumes.”[18] Goguel informa que “pode ser avaliado em três mil o número de escritos deste gênero que dele possuímos.”[19] A série Corpus Reformatorum contém somente 872 sermões do reformador. Calvino pregava várias vezes por semana, quase diariamente, e duas vezes aos domingos.[20]
Beza relata que os irmãos de língua francesa, que se encontravam em Genebra, vendo o grande proveito que trariam os sermões de João Calvino se fielmente coletados e postos em forma escrita, trataram de achar um homem que tivesse esta aptidão com a disposição de escrever. Graças a essa iniciativa quase todos os sermões de Calvino foram redigidos por escrito, visto que o reformador nunca tinha diante de si papel algum para ajudar-lhe a memória, senão o simples texto das Escrituras.[21]
Acerca de sua vasta correspondência, escrita durante quase 30 anos para amigos, leitores leigos e eclesiásticos, a igrejas, reis, príncipes e nobres e aos perseguidos por causa do evangelho, Ferreira comenta: “As cartas de Calvino, que atingem a mais de duas mil, ou quatro mil segundo alguns, são expressão viva do seu amplo e diversificado ministério, que não se continha nos limites da sua turbulenta Genebra, mas que se estendia a outros lugares, onde quer que os interesses do reino de Deus estivessem em jogo, levando a palavra do amigo, do conselheiro, do estadista, do teólogo”.[22]
Beza conta que Calvino, num dos últimos dias de sua vida, entregou a seus cuidados o arquivo das cartas que escrevera, manifestando o desejo de que essa correspondência fosse preservada como um legado às igrejas reformadas.[23] As circunstâncias adversas que vieram logo após a morte de Calvino, inclusive a peste que assolou uma vez mais a cidade de Genebra, fazendo muitas vítimas, impediu o cumprimento do desejo expresso pelo reformador que, no entanto, não foi esquecido. Coube, afinal, ao Dr. Jules Bonnet [1820-1892] a pesada tarefa da busca e reunião das muitas cartas encontradas em vários lugares da Europa, tarefa essa que custou cinco anos de incansável labor e que acabaram integrando quatro grossos volumes das cartas de João Calvino.[24]
5. Outras Obras Literárias de Calvino
Em 1537 João Calvino publicou os Artigos concernentes à Organização da Igreja e do Culto em Genebra, nos quais ressalta a importância da Ceia do Senhor e a necessidade da disciplina eclesiástica. No mesmo ano (1537) preparou a Instrução e Confissão da Fé para uso dos leigos, também conhecida como Catecismo de Genebra, a primeira exposição sistemática do pensamento calvinista na língua francesa. Sua Resposta ao Cardeal Sadoleto (1539) é um documento notável sobre a posição reformada em contraste com os erros da igreja romana. A Forma de orar e a maneira de ministrar o Sacramento de acordo com o uso da Igreja antiga (1540) é um manual litúrgico onde Calvino procurou reter o que existe de valor na herança do passado. Nesse mesmo ano publicou seu Breve tratado sobre a Ceia de nosso Senhor. Em 1541 compôs um poema intitulado Epinicium, celebrando a vitória de Cristo sobre o papa. Prefaciou o Saltério Genebrino de 1542.
A partir de 1542 João Calvino ocuparia sua pena em uma série de questões polêmicas. Contra a defesa de Albert Pighius sobre o livre-arbítrio, o reformador francês publicou uma réplica intitulada Uma defesa da pura e ortodoxa doutrina da escravidão da vontade humana (1543). Nela Calvino aprova plenamente a obra de Lutero sobre A escravidão da vontade, na qual o reformador alemão ataca os pontos-de-vista defendidos por Erasmo de Rotterdam. A resposta de João Calvino dissuadiu Pighius de suas antigas opiniões. Esta foi seguida por Uma admoestação mostrando as vantagens que a Cristandade obteria de um catálogo de relíquias, sátira que obteve grande popularidade. Em seu Antídoto (1543) Calvino rebate, à luz das Escrituras, os vinte e cinco novos artigos de fé da Faculdade da Sagrada Teologia de Paris. O Pequeno tratado que mostra ao fiel conhecedor do Evangelho o que deve fazer quando está no meio dos papistas também apareceu em 1543. Foi o primeiro de dois trabalhos contra as opiniões dos nicodemistas, os quais sustentavam que o cristão poderia, em circunstâncias perigosas, ser um seguidor do evangelho em secreto, inclusive assistindo a missa, mas sem que o coração desse aprovação a isso. No ano seguinte (1544) João Calvino editou sua Defesa dos Nicodemistas, respondendo com mais veemência a seus opositores. Nesse mesmo ano escreveu sua Breve instrução para armar a todos os fiéis contra os erros da seita comum dos anabatistas.
Das obras de Calvino no campo da controvérsia, uma das melhores argumentações teológicas dele é a dissertação sobre A necessidade de reformar a Igreja (1544), uma apologia da Reforma destinada ao imperador Carlos V. Contra a “Paternal Admoestação” do papa Pio III ao imperador, o reformador escreveu Anotações à admoestação pontifícia. Em 1545 veio a lume a publicação de outra obra polêmica, Contra a fantástica e furiosa seita dos libertinos que chamam a si mesmos espirituais. Cerca de dezessete anos mais tarde, ao receber dos cristãos reformados da Holanda um trabalho escrito por um libertino, João Calvino compôs outra refutação com o título de Réplica a certo holandês que, sob o pretexto de formar cristãos muito espirituais, permite-lhes manchar o corpo com toda a sorte de idolatrias.
 A publicação das atas do Concílio de Trento foi contestada por um Antídoto de Calvino em 1547. Em 1548 apareceu o “Ínterim ou Declaração de Religião” de Carlos V, confirmando a religião papal. João Calvino preparou uma réplica ao documento que chamou Ínterim adúltero-germano de Cerimônias e Sacramentos. Em 1549 Calvino redigiu, em vinte e oito breves parágrafos, um Consensus de Convênio Mútuo com o propósito de harmonizar as igrejas reformadas acerca dos sacramentos. Também compôs uma Exposição dos pontos mais importantes de seu Consensus que nos permite uma compreensão maior do seu zelo pela verdade. Escreveu Uma Segunda defesa da piedosa e ortodoxa fé concernente aos Sacramentos, em resposta às calúnias de Joachim Westphal (1554). Em 1557 veio a lume sua publicação da Admoestação final a Joachim Westphal. No ano de 1561 Calvino escreveria ainda Sobre a verdadeira participação da carne e sangue de Cristo, em homenagem póstuma ao amigo Felipe Melanchthon.[25]

Concluindo:
Escrever acerca de João Calvino, seja qual for o aspecto da vida dele, é sempre uma grande tarefa. As informações sobre ele são muitas e variadas. Os biógrafos tanto se completam, por um lado, como se contradizem, por outro. Contudo, sabe-se que toda pesquisa deveria resultar num texto breve e claro. (Brevidade e clareza que Calvino apreciava e as empregava em seus escritos com tamanha genialidade). E isso, por si só, torna esta pesquisa um desafio a mais para quem deseja ser compreendido pelo leitor. Espero ter conseguido ajudar você neste ensaio sobre a obra literária de João Calvino. 


Bibliografia Selecionada:
BEZA, Theodoro de. A vida e a morte de João Calvino. Campinas: LPC, 2006.
CALVIN: THEOLOGICAL TREATISES. Philadelphia: The Westminster Press, 1954.
CARTAS DE JOÃO CALVINO: Celebrando os 500 anos de nascimento do Reformador de Genebra. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.
FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: Vida, influência e teologia. Campinas: LPC, 1985.
GONZALEZ, Justo L. A era dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1989.
HALSEMA, Thea B. Van. João Calvino era assim. São Paulo: Vida Evangélica, 1968.
HUGHES, Philip E. La pluma del profeta. In: Juan Calvino, profeta contemporáneo. Grand Rapids: Baker Book House, 1990.
IRWIN, C. H. Juan Calvino: Su vida y su obra. Barcelona: Editorial Clie, 1991.
LESSA, Vicente Temudo. Calvino (1509-1564): Sua vida e sua obra. São Paulo: CEP, S/d.
LLOYD-JONES, D. M. Os puritanos: Suas origens e seus sucessores. São Paulo: PES, 1993.
McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
PARKER, T. H. L. Portrait of Calvin. Philadelphia: The Westminster Press, 1940.
SCHAFF, Philip. History of the Christian Church. Vol. VIII. Third Book. Peabody: Hendrickson, 1996.
WARFIELD, B. B. Calvin and Augustine. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing, 1974.



[1] D. M. Lloyd-Jones. Os puritanos: suas origens e seus sucessores. São Paulo: PES, 1993, p. 114.
[2] Wilson C. Ferreira. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas: LPC, 1985, p. 140. V. t. Theodoro de Beza. A vida e a morte de João Calvino. Campinas: LPC, 2006, p. 106.
[3] B. B. Warfield. Calvin and Augustine. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing, 1974, p. 5. V. t. T. H. L. Parker. Portrait of Calvin. Philadelphia: The Westminster Press, 1940, p. 34-48.
[4] Cf. Philip E. Hughes. La pluma del profeta. In: Juan Calvino, profeta contemporáneo. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 76.
[5] Cf. Ferreira, p. 141.
[6] Para uma detalhada apresentação do comentário de Calvino sobre o De Clementia, consulte Alister McGrath. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 78-81.
[7] Não é possível precisar a data e as circunstâncias da conversão de Calvino. Sabe-se apenas que ela se deu entre 1532 e 1533.
[8] Psychopannychia foi publicado somente em 1542 (oito anos após ser escrito); reimpresso em 1545 e vertido para o francês em 1558. Veja o texto em português disponível na Internet: http://www.e-cristianismo.com.br/pt/historia/geral/158. Acesso em: 17/09/2010.
[9] No mesmo ano em que concluiria a primeira edição das Institutas, 1535, João Calvino também redigiu o prefácio da versão francesa da Bíblia de Olivétan.
[10] A edição de 1539 já estava com 17 capítulos e, com ela, Calvino seguiria a estrutura do Credo Apostólico até a última edição.
[11] Justo L. Gonzalez. A era dos reformadores. Vol. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 111.
[12] Só nas Institutas Calvino trabalhou cerca de 25 anos seguidos! 
[13] Para um estudo proveitoso sobre a origem e objetivo das Institutas de Calvino, consulte Alister McGrath, p. 161-178; C. H. Irwin. Juan Calvino: su vida y su obra. Barcelona: Editorial Clie, 1991, p. 29-40.
[14] Citado por Vicente T. Lessa. Calvino (1509-1564): Sua vida e sua obra. São Paulo: CEP, S/d, p. 151.
[15] The works of James Arminius. Vol. I. Grand Rapids: Baker Book House, 1996, p. 295.
[16] Hughes, p. 94.
[17]Na exposição de 2Coríntios 3.6, Calvino explica porque rejeitou o método alegórico de interpretação em favor da ênfase no sentido literal, gramático-histórico do texto.
[18] Lessa, p. 153.
[19] Ibidem.
[20] Cf. Ferreira, p. 162-167.
[21] Beza, p. 38,108.
[22] Ferreira, p. 152.
[23] Ibidem. Não encontrei no livro de Beza (op. cit.) esse episódio. Parece que Ferreira, indiretamente, está citando outra obra do autor.
[24] Idem, p. 153. Em 1980 a editora The Banner of Truth Trust selecionou e publicou 70 cartas da coletânea de Bonnet. Em 2009 a Editora Cultura Cristã as traduziu para celebrar os 500 anos de nascimento de João Calvino.
[25] Veja mais sobre o trabalho literário de João Calvino em Calvin: Theological Treatises. Philadelphia: The Westminster Press, 1954; Philip Schaff. History of the Christian Church. Vol. VIII. Third Book. Peabody: Hendrickson, 1996; Lessa, p. 149-154; Hughes, p. 73-96.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A mais excelente prova de amor

Josivaldo de França Pereira

O amor é uma das doutrinas bíblicas centrais que expressam o conteúdo total da fé cristã (cf. Jo 3.16). A atividade do amor provém de Deus, que é amor. “Deus é amor” (1Jo 4.8). “Dizer ‘Deus é amor’ subentende que toda a sua atividade é amorosa. Se ele cria, cria com amor; se ele governa, governa com amor; se ele julga, julga com amor” (C. H. Dodd).
Deus é amor em sua própria natureza. O amor de Deus é a essência do seu ser; o dom supremo que garante todos os outros (Rm 8.32). O propósito de Deus desde o princípio tem sido propósito de amor (Ef 1.4,5). “O propósito primário de Deus para o mundo é seu amor compassivo e perdoador que se assevera a despeito da rejeição hostil dele pelo mundo” (W. Günther, H.-G Link).
O amor de Deus é perfeito. Não pode ser aumentado nem diminuído porque Deus é pleno, completo e absoluto em si mesmo. Deus é o que é em amor. Deus não seria menos amor mesmo que não demonstrasse esse amor. Contudo, como diz J. I. Packer, “Mede-se o amor calculando quanto ele dá, e a medida do amor de Deus é a dádiva de seu único Filho para ser feito homem e morrer pelos pecadores, e assim tornar-se o único mediador que nos pode levar a Deus”. 
Por isso Paulo declarou que “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Em outras palavras, “O que Paulo está dizendo é que o amor de Deus, como revelado em Jesus Cristo, é tanto abrangente quanto sem paralelo” (W. Hendriksen). Note também que Paulo usa o verbo “provar” no tempo presente. “Ainda que seja verdade que para Paulo, na época em que escreveu essa carta [aos Romanos], como também para nós hoje, a morte de Cristo foi um evento que ocorrera no passado, sua lição permanece uma realidade sempre presente e gloriosa” (Hendriksen).
Jesus Cristo é a maior prova e expressão do grande amor de Deus. João relata que “Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). E ainda: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus...” (1Jo 3.1). De fato, o amor de Deus é simplesmente um grande amor (Ef 2.4).
Deus amou quem não o amava. Amou-nos antes mesmo de termos uma só partícula de amor por ele (cf. 1Jo 4.19). Jesus nos amou como amigos antes mesmo que quiséssemos ser amigos dele: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (Jo 15.13), isto é, “amigos” somente no sentido de que ele nos declarou assim, visto que em nós mesmos e por natureza (aparte da graça de Deus), Cristo, nas palavras de Paulo, morreu por “fracos”, “ímpios”, “pecadores” e “inimigos” (Rm 5.6,8,10).
Que amor imensurável! Deus nos amou quando ainda éramos inimigos dele! Segundo F. F. Bruce, “o amor de Deus se vê em Cristo dar sua vida por aqueles que não eram nem justos nem bons, senão ímpios pecadores”.
“Que havia em mim que atraiu o coração de Deus? Absolutamente nada. Ao contrário, porém, havia tudo para o repelir, tudo na medida para levá-lo a detestar-me – sendo eu pecador, depravado, corrupto, sem ‘nenhum bem’ em mim” (A. W. Pink).
“Devido à sua graça soberana, Deus se eleva acima do pecado e ama sem motivo algum, salvo aquilo que faz parte de sua própria natureza, parte de sua glória. Os homens precisam de algum motivo para amarem. Deus não tem outro motivo, além de si mesmo, e nos ‘recomenda o seu amor’ (e a palavra ‘seu’ é aqui enfática, no que tange a essa questão), pois, quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós – o melhor que os céus poderiam dar, pelos pecadores mais vis, mais contaminados e mais culpados” (J. N. Darby).
Quando você for tentado a duvidar do amor de Deus, lembre-se do que ele fez por você na cruz do Calvário.


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Atitudes para com o próximo

(A mensagem de Lucas 10.30-35)

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei se levantou com o intuito de por Jesus à prova, perguntando o que devia fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com duas outras perguntas: “Que está escrito na lei? Como interpretas?”. O homem respondeu citando os dois grandes mandamentos, ou seja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus disse que a resposta estava correta, e completou: “faze isto e viverás”. Não satisfeito com a objetividade do Mestre, querendo justificar-se, o intérprete da lei indagou: “Quem é o meu próximo?”. Jesus prosseguiu contando a famosa história de Lucas 10.30-35, na qual se destacam três atitudes distintas em relação ao próximo.
1.      Uma atitude inaceitável: O que é seu é meu.
A atitude inaceitável foi executada pelos salteadores. Eles fizeram simplesmente um estrago no homem que seguia tranquilamente seu caminho, porque “depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto”. Uma atitude sádica, covarde e bandida é o mínimo que se pode esperar de gente assim. O ladrão nunca aparece para trazer boas novas ou fazer o bem a quem quer que seja. Parece surgir do nada, chegando de repente, sem aviso prévio, causando terror e tragédia na vida das pessoas. Jesus sintetizou muito bem a ação de um salteador quando disse no evangelho de João: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir...” (Jo 10.10). A atitude inaceitável de um bandoleiro e malfeitor resume-se nisto: “O que é seu é meu”.
2.      Uma atitude não recomendável: O que é meu é meu.
A atitude não recomendável foi praticada pelo sacerdote e o levita. Ambos iam de Jerusalém para Jericó quando se depararam com um homem despido, ensanguentado e semimorto no meio do caminho. Note que o homem espancado pelos salteadores fazia o mesmo trajeto do sacerdote e o levita. Ele também “descia de Jerusalém para Jericó”. Isso sugere que ao menos ele era judeu e vizinho do sacerdote e do levita. Jericó era conhecida como a cidade dos sacerdotes e levitas. Provavelmente o sacerdote acabara de ministrar num culto e o levita de cantar no coral da Cidade Santa. Mas eles não praticaram o que fizeram lá. Adoração e louvor que não produzem compaixão para com o próximo não têm sentido para Deus. Religioso que não pratica o evangelho vai sempre “passar de largo” diante de quem precisa de ajuda. A atitude não recomendável de uma pessoa hipócrita e egoísta resume-se nisto: “O que é meu é meu”.
3.      Uma atitude louvável: O que é meu é seu.
A atitude louvável foi realizada pelo samaritano. O homem que por natureza é odiado pelos judeus socorre um judeu. Ele fez o bem sem olhar a quem. É provável que ele tivesse um compromisso urgente, mas abriu mão de sua agenda para assistir ao necessitado. Socorrer uma vida vale mais que qualquer outro negócio. E foi o que o bom samaritano fez. Ele se aproximou do ferido, realizou os primeiros-socorros, transportou-o em seu próprio animal (indicando que ele mesmo seguiu a pé), levou-o para uma hospedaria e tratou pessoalmente dele. Não podendo ficar por mais tempo, no dia seguinte pediu que o hospedeiro cuidasse do homem ferido, pagando por isso. Contudo, retornaria para ver o próximo e indenizar o hospedeiro, caso este tivesse gastado alguma coisa a mais com o enfermo. A atitude louvável de uma pessoa bondosa e altruísta resume-se nisto: “O que é meu é seu”.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Sobre o culto infantil

Josivaldo de França Pereira
Tenho acompanhado o debate recente em torno do culto infantil. Os contrários a ele defendem sua extinção alegando que culto infantil não é bíblico e que testemunhos comprovam que adolescentes e jovens estão fora da igreja hoje porque não participaram do culto junto com seus pais quando pequenos.
Alguns desses relatos são superestimados. Também temos adolescentes e jovens fora da igreja que nunca passaram pelo culto infantil quando crianças, apesar de estarem assentados ao lado de seus pais quando menores.
Os líderes contrários ao culto infantil demonizam-no, pintando-o como se fosse uma abominação dos infernos. Nunca participei de culto infantil quando menino, mas me lembro como eu ficava incomodado com aqueles cultos enfadonhos para mim e dos beliscões de minha mãe por não permanecer quieto no banco.
Culto infantil, a meu ver, é uma questão de bom senso. Não concordo que as crianças devam ser tiradas do culto público para o culto infantil simplesmente porque deva ser assim, mas que se invista em professores no intuito de prepará-los para isso, com didática e material próprios para atender uma faixa etária de crianças de até três ou quatro anos de idade, por exemplo. Não vejo nisso problema algum.
Dizer que os pais querem o culto infantil para se livrar dos filhos no culto não deveria ser uma fala generalizada. Pais que sabem que seus filhos estão em boas mãos e, portanto, despreocupados no culto público, adoram melhor.
Não participei de culto infantil quando pequeno porque não existia no meu tempo, mas gostaria de ter feito parte dele na minha infância. E, com certeza, teria sido um alívio para a minha mãe também.
Nem todos os meus irmãos que cresceram como eu sem o culto infantil, sentados comigo no banco, e mais comportados do que eu, estão hoje na igreja. Penso que um pouco de bom senso nessa questão não faria mal a ninguém.


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia

A filosofia apresenta um desafio específico para o cristão, de modo tanto positivo quanto negativo. A filosofia é útil na construção do sistema cristão e na refutação de pontos de vista contrários. Há um texto crucial no Novo Testamento que corresponde a essas duas tarefas. Paulo disse: “Destruímos raciocínios e toda arrogância que se ergue contra o conhecimento de Deus [aspecto negativo], levando cativo todo pensamento para que obedeça a Cristo [aspecto positivo]” (2Co 10.5). Sem um conhecimento profundo da filosofia, o cristão está à mercê do não cristão tanto na construção de um sistema da verdade quanto na demolição de sistemas de erros.
Se essa é a tarefa do cristão na filosofia, como então se explica a advertência do apóstolo Paulo de ter “cuidado para que ninguém vos tome por presa, por meio de filosofias” (Cl 2.8)? Infelizmente, alguns cristãos têm entendido esse versículo como uma determinação contra o estudo da filosofia. Essa ideia é incorreta por várias razões. Primeiramente, o versículo não é uma proibição contra a filosofia propriamente dita, mas contra a falsa filosofia, pois Paulo acrescenta: “e [cuidado com] as sutilezas vazias, segundo a tradição dos homens”. Na realidade, Paulo está advertindo contra uma filosofia falsa específica, um tipo de gnosticismo incipiente que havia se infiltrado na igreja em Colossos (no texto grego há um artigo definido que indica uma filosofia específica). Finalmente, não podemos realmente ter “cuidado” com a falsa filosofia a não ser que primeiramente tenhamos consciência dela. Um cristão deve reconhecer o erro antes de poder combatê-lo, assim como um médico deve estudar a doença antes de poder tratá-la com o devido conhecimento. A igreja cristã tem sido ocasionalmente infiltrada por falsos ensinos exatamente em razão de os cristãos não terem sido adequadamente treinados para detectar a “enfermidade” do erro.
Uma boa falsificação ficará perto da verdade quanto possível. É por isso que filosofias falsas, não cristãs, mas que estão vestidas com roupagem cristã são especialmente perigosas. Na verdade, o cristão com maior probabilidade de se tornar presa de filosofias falsas é o cristão ignorante.
Deus não premia a ignorância. Os cristãos não recebem recompensa espiritual por uma fé ignorante. A fé pode ser mais meritória do que a razão (“sem fé é impossível agradar a Deus”, Hb 11.6), mas a razão é mais nobre (“Os bereanos eram mais nobres do que os tessalonicenses; [...] examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim”, At 17.11, NVI). Na realidade, o “grande mandamento” para o cristão é: “Amarás o Senhor teu Deus [...] de todo o entendimento” (Mt 22.37). Pedro diz que devemos sempre estar preparados “para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15). Paulo diz que estamos ocupados “na defesa e na confirmação do evangelho” (Fp 1.7) e ele mesmo “arrazoou [...] acerca das Escrituras” (At 17.2, NVI).
É verdade que somos advertidos contra “a lógica do mundo” (1Co 1.20). Mas isso também faz parte do desafio da filosofia para o cristão. Conforme C. S. Lewis corretamente observou: “Sermos ignorantes e ingênuos agora – não sendo capazes de enfrentar os inimigos em seu terreno – seria largar nossas armas e trair nossos irmãos iletrados que não têm, dentro da providência de Deus, defesa alguma além de nós contra os ataques intelectuais dos pagãos. Uma boa filosofia deve existir, se não por outra razão, por ser necessário dar uma resposta à má filosofia”.[1]






[1] Extraído e adaptado de Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à Filosofia: Uma Perspectiva Cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 77-8.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

O cristão reformado e a filosofia

Josivaldo de França Pereira

O que é ser um cristão reformado? Qual a relação dele com os sistemas filosóficos e a necessidade de uma filosofia reformada hoje?
O cristão reformado
Houve tempo em que o adjetivo “cristão” era um termo cheio de significado e importância. Era uma designação que não estava ligada à religião de alguém, mas à identidade que um indivíduo tinha com a pessoa de Cristo. O termo sofreu desgaste com o passar dos anos. Hoje, cristão é todo aquele que diz professar o cristianismo, ou que esteja filiado a uma igreja ou religião que se denomine cristã.  “Reformado” é um vocábulo que tenta salvaguardar o verdadeiro sentido de ser cristão. No entanto, até mesmo o adjetivo “reformado” vem sofrendo desgastes. Segundo Herman Hanko,
É comumente conhecido que a palavra “reformado” passou a ter uma variedade de significados tão grande em nossos dias, e que de fato, ela passou a não significar nada. Há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que estão tão longe de serem reformadas quanto o leste está do oeste. Elas são incapazes de descrever o que a fé reformada é de fato. Até mesmo pior do que isto, há igrejas que se denominam “reformadas”, mas que além de não serem reformadas, verdadeiramente têm se tornado inimigas e oponentes da fé reformada.[1]
O que não é um cristão reformado? Não é um cristão reformado quem ensina que o evangelho é um convite para que todas as pessoas sejam salvas. Não é um cristão reformado quem declara que o evangelho expressa a boa vontade, o anseio e o desejo de Deus de salvar todos aqueles que ouvirem o evangelho. Não é um cristão reformado quem afirma que Cristo está de braços abertos suplicando e implorando a todos para virem a ele e aceitarem-no. A fé reformada não é “decisionismo”, “convidacionismo” e uma “oferta” para todos.
A fé reformada não ensina que é possível ao ser humano resistir o chamado eficaz do Espírito Santo ou mesmo restringir o Espírito de completar sua obra. Um ser humano não consegue – com êxito – continuar no caminho da incredulidade, do pecado e do inferno apesar dos esforços do Espírito Santo. Não é um cristão reformado quem defende que uma vez filho de Deus não significa necessariamente sempre filho de Deus. A fé reformada não ensina que eu poderia ser filho de Deus hoje, estar perdido amanhã e talvez uma semana depois ser salvo novamente, e um mês depois, mais uma vez estar a caminho da perdição. Não é um cristão reformado quem afirma que Deus ama a todos e Cristo morreu por todos. “A palavra ‘reformado’ veio da reforma de Calvino. A genialidade da reforma de Calvino é que esta foi uma reforma de doutrina, de adoração e governo da igreja”.[2]
O que é um cristão reformado (ou simplesmente um reformado)? Augustus Nicodemus Lopes sumariza bem: “Por ‘reformado’ entendo aquele que adere a uma das grandes confissões reformadas produzidas logo após a Reforma protestante no século XVI, aos cinco grandes pontos dessa Reforma, que são Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus e Soli Deo Gloria e aos chamados ‘Cinco Pontos do Calvinismo’, resumidos no acrônimo TULIP (Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e Perseverança final)”.[3]
O cristão reformado e sua relação com os sistemas filosóficos
Há pelo menos dois pontos negativos que o cristão reformado deve ter em mente ao se aproximar da filosofia. O primeiro deles é que não existe sistema filosófico completo e absoluto. O segundo é o perigo em aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico individual.
Algo que se destaca em nosso panorama de mais de mil anos de debates entre os filósofos e os cristãos no mundo ocidental, é o de nenhum sistema filosófico ter-se revelado completo e perfeito. Na verdade, podemos dizer que sistemas, como por exemplo o idealismo absoluto, que tem feito as maiores reivindicações quanto a serem abrangentes e completos, são precisamente os que mais deixam a desejar. Vez ou outra, no decorrer dos séculos, alguém surge com uma ideia alegando veracidade, desenvolve-a sob a forma de um sistema que, segundo se pensa, é capaz de explicar todas as coisas, aclamada como a chave para se desvendar todos os mistérios. Cedo ou tarde seus defensores se veem obrigados a negar a existência de tudo quanto a “nova” ideia não consegue explicar, ou admitir que ela não é bem tudo quanto imaginavam que fosse. O resultado é a desilusão, e as pessoas mais uma vez saem em busca de outra novidade.
Sproul, em sua peregrinação pessoal durante a juventude, admite que encontrou opiniões valiosas em Spinoza, Kant, Sartre e outros, mas nenhum deles parecia ter uma visão coerente da vida e do mundo. Os próprios filósofos eram seus melhores críticos. Hume criticou Locke; Kant criticou Hume; Hegel criticou Kant, e assim por diante. Não surgiram quaisquer “resultados seguros” mediante as especulações intelectuais.[4]
Mas isto não quer dizer que a filosofia não tenha valor para o cristão reformado. É evidente que tem. O estudo da história da filosofia fez com que Sproul conhecesse virtualmente toda alternativa séria ao cristianismo gerada pelo mundo. Ele começou a apreciar a falência das perspectivas seculares. O estudo da filosofia forneceu elementos de grande valor para uma análise crítica que foram de enorme utilidade para ele. Quanto mais ele estudava filosofia tanto mais confiável e satisfatório se tornava o cristianismo.[5]
Segundo Geisler e Feinberg, compreender e apreciar a filosofia ajudará a entender a sociedade em que vivemos; os elementos críticos e aquilatadores da filosofia podem ajudar a libertar a pessoa das garras do preconceito, do provincialismo e do raciocínio pobre e, a despeito da natureza abstrata de grande parte da filosofia, ela pode ser útil na vida diária.[6] E mais:
Uma vez que toda a verdade é verdade de Deus e já que a filosofia é uma busca da verdade, então a filosofia contribuirá para nossa compreensão de Deus e do mundo que ele criou. Além disso, a história demonstra que argumentos e conceitos filosóficos têm desempenhado um grande e importante papel no desenvolvimento da teologia cristã. Embora nem todos os teólogos concordem quanto ao valor ou a pertinência desses argumentos, todos reconhecem que algum conhecimento das raízes filosóficas é necessário para a compreensão da teologia cristã.[7]
Não é possível fazer teologia sem um fundamento filosófico.[8] Entretanto, aliar a fé cristã muito estritamente com qualquer sistema filosófico pode ser perigoso. Brown salienta que os perigos de alinhar o cristianismo muito estritamente com um sistema ou ideia filosófica específica têm pelo menos dois aspectos. De um lado, a fé cristã tem de passar por uma manipulação a fim de se encaixar no sistema escolhido. Algumas coisas precisam ser esticadas, ao passo que outras necessitam ser cortadas, ou pelo menos, discretamente negligenciadas. Por outro lado, quando uma falha é detectada no sistema, dá-se a impressão de que a fé cristã esteja entrando em colapso juntamente com o sistema ao qual foi associada. Não é de se admirar, segundo Brown, que em muitos círculos filosóficos atuais suponha-se que, porque os antigos argumentos aristotélicos e racionalistas em prol da existência de Deus caíram por terra, todas as bases para a crença racional em Deus tenham entrado em colapso com eles.[9]
A necessidade de uma filosofia reformada hoje
Por “necessidade de uma filosofia reformada hoje” não significa que uma filosofia de origem reformada deva ser inventada, posto que já existe. Ela precisa, na realidade, ser resgatada, pois é praticamente desconhecida em nosso país. A filosofia reformada foi criada pelo renomado teólogo, filósofo e estadista holandês Abraham Kuyper (1837-1920), pensador original e enciclopédico. Foi desenvolvida por Herman Bavinck (1854-1921) que lançou, juntamente com Kuyper, os fundamentos da filosofia reformada, Herman Dooyeweerd (1894-1977), o grande sistematizador da filosofia, mestre da crítica transcendental, pai da filosofia cosmonômica, Dirk H. Theodor Vollenhoven (1892-1978), Hendrik G. Stoker (1899-1994) e Cornelius Van Til (1895-1987).[10]
A filosofia reformada é necessária hoje por algumas razões. Em primeiro lugar, ela está fundamentada na Bíblia e enaltece o caráter do verdadeiro Deus. Para a filosofia reformada a Bíblia é a Palavra de Deus, nossa única regra infalível de fé e prática, a revelação especial que nos permite ver o mundo como o próprio Deus o vê. A noção reformada da revelação não só dá amplo espaço para o pensamento filosófico, como também é o único solo adequado para o florescimento de uma verdadeira filosofia cristã. Sendo assim, a filosofia medieval não nos serve. Agostinho, naquilo que ele é autenticamente evangélico, e verdadeiro precursor do pensamento reformado, é maravilhoso, porém sua filosofia cristã foi bastante afetada pelo platonismo grego. Tomás de Aquino também não nos serve porque na filosofia dele a fé cristã é submetida a um desconfortável processo de adaptação ao aristotelismo. Em Aquino Deus não se distingue de sua criação. O elemento transcendente na filosofia tomista não é Deus, mas o “Ser” que se acha mecanicamente ligado ao cosmos e dependente dele.[11]
A segunda razão pela qual a filosofia reformada se faz necessária hoje é por sua marca, ou seja, seu pensamento antitético. A filosofia reformada é uma filosofia na contramão e contracorrente de uma intelectualidade que se afastou de Deus. Gouvêa explica:
A filosofia não-cristã sofre de um racionalismo ingênuo desde suas origens helênicas, e a intelectualidade abraçou definitivamente a utopia do ideal científico e o mito da objetividade empírica, a falácia autofágica dos pressupostos humanistas, como a autonomia do pensamento, que implica na rejeição de toda autoridade e na absolutização do juízo crítico. Hoje temos assistido à consumação inevitável de tais compromissos anticristãos. O homem se mostra confiante na sua racionalidade a qual supõe potencialmente onisciente, adorando-se como criador e provedor, arquiteto e intérprete do universo, centro de toda a realidade, e o sentido do mundo e da existência. Ele ouve a voz que lhe sussurra: “Certamente não morrerás; pelo contrário, tu serás como o próprio Deus!” (Gn 3.4-5).[12]
Em terceiro lugar, a filosofia reformada é necessária hoje por causa do calvinismo integral. O calvinismo integral possui uma visão completa da vida e do mundo. Tudo na vida é religião para o pensador calvinista. O calvinismo é uma biocosmovisão completa que envolve todos os aspectos da vida e das áreas do conhecimento humano. Um verdadeiro calvinista não se satisfaz apenas com uma teologia reformada. Ele busca uma filosofia igualmente reformada, bem como uma ciência, uma arte, uma cultura, uma política, etc., reformadas. Todas as áreas do conhecimento podem e devem ser exploradas a partir de pressupostos cristãos reformados.[13] Deus é absolutamente soberano sobre toda criação como o é em todos os aspectos da realidade e esferas da vida humana. Como disse Kuyper: “Não existe sequer um centímetro de nossa natureza humana do qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame ‘Meu!’”.[14] O conceito central e fundamental do pensamento reformado é a soberania absoluta de Deus sobre tudo e todos.





[1] Herman Hanko, O que significa ser reformado? In: http://www.cprf.co.uk/languages/portuguese_meanstobereformed.html#.XDO71tQrJkh. Acesso em Janeiro de 2019.
[2] Idem.
[3] Augustus Nicodemus Lopes, O que é um cristão reformado? In: https://www.youtube.com/watch?v=bMSivDqr6oo. Acesso em Janeiro de 2019. Para uma análise mais detalhada do que é ser um cristão reformado, consulte Herman Hanko.
[4] R. C. Sproul, Razão para crer. 2ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1991, p. 12.
[5] Sproul, p. 12.
[6] Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, Introdução à filosofia: Uma perspectiva cristã. 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2017, p. 20-21.
[7] Idem, p. 22.
[8] Para argumentos bíblicos a favor do estudo da filosofia, consulte Geisler e Feinberg, p. 77-8.
[9] Colin Brown, Filosofia e fé cristã. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 231.
[10] Cf. Ricardo Quadros Gouvêa, Calvinistas também pensam: Uma introdução à filosofia reformada. In: Revista Fides Reformata, Vol. 1, janeiro-junho 1996, p. 51-52.
[11] Idem, p. 50.
[12] Idem, p. 48-49.
[13] Consulte Abraham Kuyper, Calvinismo. 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014. O livro todo é excelente.
[14] Frase proferida por Abraham Kuyper no discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã em 1880.