quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A criatura que engoliu Jonas

Por Josivaldo de França Pereira


A criatura que Deus deparou do mar para engolir Jonas (Jn 1.17; 2.1,10) é descrito em nossas bíblias como “grande peixe”; “baleia” e “monstro marinho”. Embora Wiseman seja taxativo em afirmar que baleia não é uma tradução correta[1], essas diferenças entre as versões da Bíblia ocorrem porque a expressão hebraica dag gadol (lit. “peixe grande”) e a palavra grega ketos (cf. Mt 12.40) são termos não mais específicos que as traduções em português. Elas não determinam que tipo de animal está envolvido.[2] Dessa maneira, segundo Desmond Alexander, “Qualquer tentativa de identificar o tipo de peixe é inútil”.[3]
Contudo, não vejo porque o profeta Jonas não possa ter sido engolido por uma baleia, como a baleia-azul, por exemplo. Do tamanho de um Boeing 737 e pesando o mesmo que 25 elefantes juntos, a baleia-azul é o maior animal do planeta. Alguns poderiam objetar alegando que baleia não é peixe, mas um mamífero da ordem dos cetáceos; porém, tal distinção pertence a uma classificação mais recente. Nos tempos bíblicos as palavras “grande peixe”, “baleia” e “monstro marinho” (não necessariamente pré-histórico ou feito apenas para aquela ocasião) são vocábulos genéricos e equivalentes de dag gadol e ketos. Vale destacar que a Bíblia também classifica o morcego como ave (Lv 11.19) e o abutre como águia (Mq 1.16).
Ainda que Jonas tenha sido tragado por um grande monstro marinho como uma baleia, ilustrações para as crianças que mostram o profeta orando ajoelhado dentro do animal devem ser descartadas. Jonas ficou por três dias e três noites deitado, provavelmente preso no esôfago da criatura. A expressão “ventre do peixe” (Jn 1.17; 2.1) não deve ser entendida impreterivelmente como “estômago”, assim como “ventre do abismo” ou “coração dos mares” (Jn 2.2,3) não precisa ser visto como a parte mais profunda de todos os oceanos nas referidas passagens (cf. Mt 12.40 sobre o “coração da terra” para a sepultura de Jesus).
Qual a função do grande peixe que Deus deparou para tragar Jonas? De acordo com Alexander,
Estudos recentes confirmam que o salmo do capítulo 2 [do livro de Jonas] expressa gratidão não pelo livramento de dentro do grande peixe, como muitos comentarias mais antigos supunham, mas, sim, por ter sido salvo do afogamento. O peixe, à semelhança da planta em 4.6, é divinamente preparado para salvar, não para punir. O salmo, portanto, é bastante apropriado em seu presente contexto. De dentro do peixe, Jonas reflete sobre o fato de quase ter morrido afogado e louva a Deus por responder a seu pedido de socorro.[4]
E mais: “Deve-se rejeitar a interpretação alegórica de que Jonas sendo engolido pelo peixe representa Judá sendo levado pelos babilônios para o cativeiro. O peixe é um instrumento de salvação, não de castigo”.[5] Conforme Augustus Nicodemus, “Muitos que leem o livro de Jonas pensam que o peixe é um castigo enviado por Deus ao profeta fujão, mas, pelo contrário, esse animal misterioso é sua salvação. Na barriga do peixe, o profeta ora e adora a seu Senhor”.[6]
A imprecisão das palavras dag gadol e ketos, além da ideia de alguém ser engolido por um peixe e sobreviver dentro dele três dias, tem feito com que muitos leitores modernos se tornem céticos em relação à história de Jonas. Geisler e Howe reafirmam a historicidade do relato de Jonas 2 com o seguinte argumento:
[Em Mateus 12.40] Jesus prevê a sua própria morte e ressurreição, e provê aos incrédulos escribas e fariseus o sinal que eles lhe pediram. O sinal é a experiência de Jonas. Jesus diz: “Porque assim como esteve Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra”. Se a história da experiência de Jonas no ventre do grande peixe fosse apenas uma ficção, isso não daria respaldo profético algum ao que Jesus declarava.
O motivo de Jesus fazer referência a Jonas era que, se eles não acreditavam na história de Jonas ter estado no ventre do peixe, também não acreditariam na morte, no sepultamento e na ressurreição de Cristo. Para Jesus, o fato histórico de sua própria morte, sepultamento e ressurreição tinha a mesma base histórica de Jonas no ventre do peixe. Rejeitar uma seria o mesmo que rejeitar a outra (cf. Jo 3.12). De igual modo, se cressem numa dessas bases, teriam de crer na outra.[7]
Pobre e coitado da criatura que engoliu Jonas! Comentando o texto de Jonas 2.10, Augustus Nicodemus descreve:
Algo que também nos chama a atenção nessa história é o fato de o peixe vomitar Jonas – que, aliás, devia ser um profeta intragável mesmo. Poucos atentam para a aflição daquele peixe, que por três dias teve de aguentar um homem em seu ventre. Já ouvi muitas pregações sobre Jonas, mas ninguém nunca fala do sofrimento do animal, que passou todo aquele tempo com um profeta indigesto em sua barriga.
Note que o texto não diz “cuspiu” ou “lançou”, mas o verbo foi escolhido justamente para expressar ou a indignação de Deus para com o profeta, ou o modo em que Jonas foi completamente humilhado e quebrantado (talvez até mesmo ambas as coisas!). O profeta saiu daquele peixe todo coberto de vômito, para que com isso Deus pudesse lhe dizer: “É isso que você é. Agora, vamos começar de novo”.[8]
Concluindo: Lembro-me de uma velha história dos tempos de criança contada pelo meu pai. Perguntaram a um crente como ele era capaz de acreditar que um peixe engoliu Jonas. A sábia resposta do homem de Deus veio como um torpedo: “Se a Bíblia dissesse que foi Jonas quem engoliu o grande peixe eu acreditaria”. Retrucou perplexo o interlocutor: “Aí já não seria um milagre, mas uma desgraça!”. Na verdade, para quem crê na Bíblia como a Palavra de Deus em geral, a nossa única regra de fé e prática, e na história de Jonas em particular, nenhuma outra prova é necessária. Para quem não acredita, nenhuma prova é suficiente.




[1] D. J. Wiseman, Peixe, Pesca. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1255. Veja também J. A. Motyer, Peixe. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 1989, p. 513-14.
[2] Nos escritos de Homero (como a Odisseia xii.97), a palavra grega ketos é usada para indicar qualquer peixe grande, incluindo golfinhos e tubarões.
[3] T. Desmond Alexander, et. al, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque e Sofonias. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 126. De acordo com E. S. Kalland (Peixe. In: Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 299), "É desconhecida a identidade ou classificação biológica desse grande monstro marinho, pois Jonas não nos oferece detalhes sobre o milagre".
[4] Alexander, p. 76.
[5] Ibidem, nota 1.
[6] Augustus Nicodemus, A Compaixão de Deus: A mensagem de Jonas para a igreja de hoje. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 42.
[7] Norman Geisler; Thomas Howe, Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. 4ª ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, p. 315-16.
[8] Nicodemus, p. 50-1.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Sem tirar nem por

Josivaldo de França Pereira

 
Na Bíblia temos vários testemunhos sobre o perigo de se extrair ou acrescentar qualquer coisa à palavra do Senhor. Por exemplo: “Nada acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR, vosso Deus, que eu vos mando” (Dt 4.2). “Tudo o que eu te ordeno observarás; nada lhe acrescentarás, nem diminuirás” (Dt 12.32). “Toda palavra de Deus é pura; ele é escudo para os que nele confiam. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda, e sejas achado mentiroso” (Pv 30.5,6). “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhe fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se tirar qualquer cousa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das cousas que se acham escritas neste livro” (Ap 22.18,19).
Distorcer a verdade escrita segue na mesma linha das advertências acima. Durante toda a história da igreja cristã, inúmeras seitas e heresias deliberadamente distorceram as Escrituras e suas doutrinas com interpretações enganosas, como o gnosticismo, o arianismo, o unitarismo, entre tantas outras.
A verdade mesclada, híbrida com a mentira é igualmente perigosa. O apóstolo Paulo relembrou aos coríntios que ele e seus colaboradores não mercadejavam e nem adulteravam a Palavra de Deus (2Co 2.17; 4.2). Disse-lhes na primeira carta: “... não ultrapasseis o que está escrito...” (1Co 4.6); e advertiu aos gálatas acerca das práticas judaizantes: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo” (Gl 1.6,7). A expressão “perverter o evangelho de Cristo” é o mesmo que ir “além” do verdadeiro evangelho (cf. Gl 1.8,9).
Paulo fala daqueles “para tudo quanto se opõe a sã doutrina” (1Tm 1.8-11); do “tempo em que não suportarão a sã doutrina” e “se recusarão a dar ouvidos à verdade” (2Tm 4.3,4), e recomenda a Timóteo e Tito, respectivamente: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina...” (1Tm 4.16); “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1).
Pedro, semelhantemente, condena aqueles que deturpam as epístolas de Paulo, como também as demais Escrituras, “para a própria destruição deles” (2Pe 3.15,16). E alerta: “Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo...” (2Pe 3.17,18).
Jesus demonstrou seu cuidado e zelo no cumprimento e ensino correto das Escrituras. Ele disse: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17,18).[1]Do início ao fim de seu ministério terreno Jesus recusou a descumprir as Escrituras.
Nós, cristãos evangélicos, devemos estar atentos para não cairmos nas ciladas de uma interpretação errônea das Escrituras. Segundo Carson,
É fácil demais aplicarmos ao texto bíblico as interpretações tradicionais que recebemos de terceiros. Então, podemos involuntariamente transferir a autoridade das Escrituras para nossas interpretações tradicionais, investindo-as de um falso e até idólatra grau de certeza.[2]
O intérprete da Bíblia é fruto de sua época, influenciado por todos os fatores e ditames do seu tempo. Milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende essas diferenças. Dá ao intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com os seus pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que ele gostaria que ela dissesse. René Padilla afirma com precisão: "O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura".[3]
Os reformadores do século XVI enfatizavam o sentido literal e gramático-histórico do texto bíblico.[4] João Calvino, por exemplo, dizia que não devemos ir além do que a Bíblia nos ensina. E ilustra sua posição dizendo: “Um piedoso ancião foi indagado com maledicência: ‘Do que se ocupava Deus antes de criar o mundo?’, a resposta veio rápida e certeira: ‘Em preparar o inferno para os curiosos’”.[5]
Ademais, um dos princípios defendidos pelos reformadores é que a Escritura interpreta a si mesma. Um século depois da Reforma Protestante esse princípio foi apreciado e sustentado pela Assembleia de Westminster: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente”.[6]
Em suma, é a própria Bíblia que, de per si, nos dá as garantias de uma interpretação segura e correta dela mesma. Assim, outro conselho de Paulo a Timóteo também é válido a todos hoje: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15).





[1] Para um excelente comentário de Mateus 5.17 e 18, consulte D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte. 2ª ed. São José dos Campos: Fiel, 2018, p. 242-253.
[2] D. A. Carson, Os Perigos da Interpretação Bíblica: A Exegese e Suas Falácias. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 15.
[3] René Padilla, A Palavra Interpretada: Reflexões Sobre Hermenêutica Contextualizada, 1980, p. 6. Obra não publicada.
[4] Cf. Augustus Nicodemus Lopes, A Bíblia e Seus Intérpretes: Uma Breve História da Interpretação. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 160-167.
[5] Institutas, I, xiv, 1.
[6] Confissão de Fé de Westminster I, 9. Acerca da profundidade e simplicidade da Bíblia, isto é, sua perspicuidade, consulte L. Berkhof, Introducción a la Teologia Sistemática. Jenison: T.E.L.L., 1988, p. 186-187.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

A morte antes da morte

Josivaldo de França Pereira
 
Sabemos que a morte é um agente estranho na história da humanidade, posto que ela veio a fazer parte de nossa estrutura por causa do pecado. Deus disse a Adão que ele não deveria comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, “porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”, advertiu o Senhor (Gn 2.27). O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados foi o comerem do fruto proibido (Gn 3.6).[1] Paulo escreveu aos crentes de Roma: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). Essas e outras passagens bíblicas claramente ensinam a ligação entre o pecado e a morte.
No entanto, a morte não precisa ser visto desta maneira em relação às plantas e animais, pois parece bastante provável que houve morte no mundo animal e vegetal antes que o homem caísse em pecado. A morte desempenha um papel importante no modo de existir de muitas plantas e animais como os conhecemos hoje. Existem animais carnívoros que subsistem comendo outros animais. Há plantas e árvores que morrem por ação de certos animais ou insetos. Muitas das células de plantas vivas (as árvores, por exemplo), são células mortas e estas células mortas têm uma função sumamente relevante. De acordo com Antony Hoekema, “A menos que desejemos sustentar que a natureza é hoje totalmente diferente do que era antes da queda, devemos admitir que com toda probabilidade havia morte no mundo vegetal e animal antes da queda”.[2]
Assim, a pergunta se a morte como fenômeno biológico já ocorria antes da queda do homem no pecado deve ser respondida afirmativamente. A morte biológica desse tipo não deve ser identificada com a morte que entrou no mundo como castigo pelo pecado do primeiro casal humano.
Contudo, há quem defenda que a morte faz parte da boa criação de Deus em relação ao ser humano também. Celéstio, um dos principais difusores do pelagianismo, ensinou no século V que Adão foi criado mortal e teria morrido de qualquer forma, houvesse ou não pecado. Os socinianos dos tempos da Reforma propuseram um ponto de vista similar ao de Celéstio. No século passado, Karl Barth (1886-1968) trouxe novamente à tona o ponto de vista de que a morte humana não é resultado do pecado, mas um aspecto da boa criação de Deus. Para ele, Deus planejou desde o princípio que a vida do homem sobre a terra tivesse um fim.
Entretanto, esta posição apresenta vários problemas. Se o homem estava de todos os modos destinado a morrer, independente de sua queda no pecado, por que a Bíblia relaciona tão consistentemente o pecado com a morte? Se a morte era parte da boa criação de Deus e o fim natural do homem, por que teve Cristo de morrer pelos nossos pecados? Além disso, se a morte é o fim do homem desde o princípio da criação, por que Deus ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos? E por que a Bíblia ensina que tanto crentes como não crentes ressuscitarão?[3]
Segundo Hoekema, em oposição a Celéstio, Barth e outros, é necessário que nós sustentemos que a morte no mundo humano não é um aspecto da boa criação de Deus, mas um dos resultados da queda do homem no pecado.[4] O ser humano não foi feito para morrer como o foram as plantas e os animais.




[1] Cf. O Breve Catecismo de Westminster, 15.
[2] Antonio A. Hoekema, La Bíblia y el futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 95. Itálico do autor.
[3] Idem, p. 97.
[4] Ibidem.

O Espírito Santo por si só

Josivaldo de França Pereira

É do conhecimento da maioria que o Espírito Santo atua através de meios ou instrumentos como a Palavra de Deus e pessoas. No livro de Atos dos Apóstolos o Espírito do Senhor trabalhou dessa forma quando a igreja cresceu de quase 3000 para quase 5000 convertidos (2.41; 4.4); Pedro e os outros discípulos testemunharam ousadamente diante da perseguição (3.11-26); os primeiros seguidores venceram o egoísmo e contribuíram liberalmente para a obra do Senhor (4.32-37); Estêvão, o primeiro mártir, pregou o evangelho cheio de fé e morreu com uma vitória gloriosa sobre a perseguição e vingança (6.8-7.60); a mensagem de perdão espalhou-se pela Etiópia e África (8.27-29); as igrejas na Judeia, Galileia e Samaria vieram a se estabelecer firmemente (9.31); o evangelho da salvação alcançou o primeiro lar gentio (11.12); a maravilhosa igreja missionária de Antioquia começou a prosperar em preparação para seu envio de missionários (11.22-26); o amor mútuo das primeiras comunidades cristãs manifestou-se através da coleta incentivada pela profecia de Ágabo (11.28,29); a igreja de Antioquia lançou seu programa missionário (13.2); Paulo venceu seu primeiro inimigo, Elimas, em Chipre (13.9); os apóstolos se alegraram com a perseguição sofrida em Antioquia da Pisídia (13.50-52) e reconheceram a obra entre os gentios e pronunciaram a liberdade da lei para os cristãos gentios (15.28); os líderes foram escolhidos para tomar conta da igreja local em Éfeso (20.28); Ágabo profetizou a prisão de Paulo (21.10-11); foi lembrado na última mensagem de Paulo registrada por Lucas (28.25).
No entanto, o livro de Atos também revela que em outras ocasiões o Espírito Santo agiu por si só, isto é, sem a instrumentalidade de nada ou de ninguém quando desceu sobre o povo de Deus no dia de Pentecostes (2.1-3) e os crentes foram cheios por ele e passaram a falar em outras línguas (2.4).
Lucas relata nos quatro primeiros versículos de Atos 2 como o Espírito Santo atuou soberanamente naquele dia, em flagrante contraste com a passividade dos que "estavam reunidos no mesmo lugar" (At 2.1). Diz que "de repente, veio do céu um som, e encheu toda casa onde estavam assentados" (At 2.2). "E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles" (At 2.3). "Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem" (At 2.4, destaques acrescentados). Nessa ação soberana do Espírito Santo está evidente o caráter sobrenatural do Pentecostes quando o Espírito vem do céu e entra na casa com um som repentino como de um vento impetuoso e línguas como de fogo que pousavam sobre cada um dos que ali estavam, ficando todos cheios do Espírito Santo e passando a falar em outras línguas, segundo a concessão do próprio Espírito (cf. At 2.11; 10.46; 19.6).
O Espírito Santo também atuou por si só quando os crentes ficaram cheios de poder enquanto oravam juntos após a prisão de Pedro e João (4.31); desceu sobre samaritanos, gentios e judeus em Atos 8, 10 e 19, respectivamente.
Em Atos 8 o evangelho chega aos samaritanos. Aqueles de Samaria, por quem Pedro e João oravam e impunham as mãos, recebiam o Espírito Santo (At 8.14-17). Os samaritanos eram mestiços: meio judeus e meio gentios. O Espírito desceu sobre mestiços na terra dos mestiços. Mais tarde Pedro vai até a cidade de Cesareia para atender o chamado de um centurião romano de nome Cornélio. Pedro pregou o evangelho aos gentios que ali estavam. “Ainda Pedro falava estas cousas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra. E os fiéis que eram da circuncisão, que vieram com Pedro, admiraram-se, porque também sobre os gentios foi derramado o dom do Espírito Santo; pois os ouviam falando em línguas e engrandecendo a Deus...” (At 10.44-46). O Espírito foi derramado sobre gentios na terra dos judeus. Na cidade de Éfeso o apóstolo Paulo encontra um grupo de uns doze homens, discípulos de João Batista, que não havia recebido o Espírito Santo. Paulo evangelizou aqueles homens e os batizou em nome de Jesus. “E, impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6). O Espírito Santo desceu sobre judeus na terra dos gentios.
Mas o Espírito ainda agiu sem a instrumentalidade de nada e ninguém quando Paulo e seus companheiros foram impedidos de pregar na Ásia e Bitínia, sendo dirigidos pelo mesmo Espírito à Europa (16.6-10).
Lucas relata em Atos 16.6,7: "E percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu". Como Paulo e seus companheiros entenderam os impedimentos do espírito? Por que o Espírito Santo impediu que Paulo e seus companheiros pregassem na província da Ásia e Bitínia? É provável que Paulo e seus companheiros de viagem só passassem a perceber o significado dos impedimentos do Espírito após analisarem os fatos ocorridos. Aquele duplo impedimento (vv6,7), a visão de Paulo (v9) e a declaração de Lucas no verso 10 parecem lançar luz sobre essa possibilidade. Em Atos a soberania e liberdade do Espírito Santo para atuar como lhe apraz são inquestionáveis!



sábado, 6 de outubro de 2018

Em defesa da família tradicional e contra a ideologia de gênero, voto 17.  #EleSim

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Um caminho sobremodo excelente

Josivaldo de França Pereira

Os dons espirituais são manifestações da livre e soberana graça de Deus para a edificação da Igreja e glória do nome dele, e isso o apóstolo Paulo reconhece a cada momento de sua exposição nos capítulos 12, 13 e 14 de 1Coríntios. Contudo, o que seriam dos dons sem o amor divino? Um dom sem amor é como um rio sem manancial; o céu sem o sol. Sem o amor os crentes são incapazes de compartilhar os benefícios dos dons espirituais. Por conseguinte, o amor é o dom supremo, a dádiva das dádivas, o dom dos dons, ou, nas palavras do próprio Paulo, um caminho sobremodo excelente, verdadeiro sentido da vida cristã.
Embora em 1Coríntios 13 Paulo faça menção de dons espirituais, em especial línguas e profecias, não se deve perder de vista que a ênfase do apóstolo nesse capítulo é o amor. Paulo considera a importância dos dons espirituais para a igreja, no entanto, como ele mesmo salienta, todo dom perde sua validade se não for regido pelo amor. “Se não tiver amor...”, diz o apóstolo (1Co 13.1-3). A falta de amor ensoberbece. Os membros que se tornam presunçosos e arrogantes por terem um ou mais dons espirituais não entenderam sua função no corpo de Cristo, isto é, a de servir um ao outro em amor (cf. 1Co 12.25; 1Pe 4.10). Só o amor nos dá o direcionamento para o uso correto dos dons espirituais. E, mais uma vez, é isso que Paulo ensina em 1Coríntios 13.
Os coríntios estavam hipervalorizando os dons espirituais, especialmente línguas e profecias, em detrimento do amor. Paulo os exorta, “exagerando” em suas colocações iniciais, a fim de que tudo fique devidamente esclarecido. Ele utiliza cinco proposições hipotéticas, cada uma delas começando com a expressão ainda que.[1] Diz ele: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará” (1Co 13.1-3, destaques acrescentados).
O apóstolo conclui suas cinco proposições dizendo que, mesmo se tivesse os maiores dons, mas lhe faltasse o amor, faria somente barulho (v1), que ele (Paulo) com a ausência do amor nada seria (v2) e que nenhuma dádiva ou sacrifício lhe aproveitaria sem o amor (v3). Em seguida, Paulo descreve o conceito amor num parágrafo poeticamente organizado (1Co 13.4-8), dividindo-o em dois blocos principais: um positivo e outro negativo. Começa descrevendo o amor positivamente (o amor é), passa para a descrição negativa (o amor não é) e, novamente, retorna a descrevê-lo de forma positiva:
O amor é paciente, é benigno;
o amor não arde em ciúmes,
[o amor] não se ufana[2], não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade;
tudo sofre,
tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta.
O amor jamais acaba.[3]
Paulo apresenta, na sequência do parágrafo, uma discussão sobre quando as profecias cessam, as línguas silenciam, a ciência (ou conhecimento) desaparece e a perfeição acontece na consumação dos séculos, em contraste direto com a permanência do amor.
O apóstolo finaliza o capítulo de 1Coríntios 13 mostrando que além do amor ser o dom supremo em relação aos dons espirituais, ele o é também em relação à fé e à esperança. “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1Co 13.13).
Por que o apóstolo diz que o amor é superior a essas duas outras virtudes (fé e esperança)? Primeiramente porque onde há amor verdadeiro existe fé e esperança (cf. 1Co 13.7). Além disso, o amor jamais acaba (cf. 1Co 13.8), enquanto a fé e a esperança, por si só, chegarão ao seu fim. No céu a fé e a esperança não serão mais necessárias porque se concretizarão em definitivo (cf. 1Co 13.12). “Ora, a fé é a certeza de cousas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem” (Hb 11.1), e a “esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera?” (Rm 8.24).
Concluindo: Os dons espirituais são importantes para a igreja? Sim. Porém, o ponto central de 1Coríntios 13 não é o exercício de quaisquer dos dons. É a prática do amor cristão. O amor subsiste sem os dons espirituais, mas nenhum dom se mantém verdadeiramente sem o amor.





[1] De acordo com a versão Almeida Revista e Atualizada. No grego os três primeiros versículos do capítulo 13 de 1Coríntios são introduzidos com cláusulas condicionais.
[2] Não se ufana: Não se vangloria (NVI).
[3] Para uma excelente exposição de cada uma das cláusulas de 1Coríntios 13.4-8, consulte Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 635-43.

sábado, 1 de setembro de 2018

André e Filipe

Josivaldo de França Pereira

Não temos como saber o porquê, mas é interessante a forma como o evangelista João relaciona André e Filipe nos mesmos episódios, ou acontecimentos parecidos no ministério de Jesus. André e Filipe eram naturais da cidade de Betsaida (Jo 1.44).
André (juntamente com João, o apóstolo amado) era discípulo de João Batista antes de seguir a Jesus (Jo 1.35-40). André foi quem levou seu irmão Simão Pedro até Cristo (Jo 1.41,42). Logo na sequência Filipe faz o mesmo com seu amigo Natanael (Jo 1.43-46).
Tanto Pedro quanto Natanael conheceriam Jesus através de outros discípulos que, no caso, seriam André e Filipe, respectivamente. “Ele [André] achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo)” (Jo 1.41).
“Filipe encontrou Natanael e disse-lhe: Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José. Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma cousa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê” (Jo 1.45,46). Filipe faz um relato perfeito da pessoa de Jesus a Natanael. Sua citação das Escrituras relembra o que Cristo, após ressurreto, diria a dois seguidores dele no caminho de Emaús e aos seus discípulos (Lc 24.27,44).
André e Filipe nos ensinam no primeiro capítulo de João que é preciso seguir Jesus de perto, falar de Jesus a quem está perto e que, por fim, é preciso levar outros a Jesus.
Na multiplicação dos pães e peixes, João descreve:
Então, Jesus, erguendo os olhos e vendo que grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pães para lhes dar a comer?
Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que estava para fazer.
Respondeu-lhe Filipe: Não lhes bastariam duzentos denários de pão, para receber cada um o seu pedaço.
João 6.5-7.
Imediatamente o evangelista agrega:
Um dos seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, informou a Jesus:
Está aí um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta gente?
João 6.8,9.
No capítulo 12.20-23, alguns gregos desejam ver Jesus. Entre os que subiram a Jerusalém para adorar a Deus durante a festa da Páscoa, havia alguns gregos. Estes, pois, se dirigiram a Filipe, e lhe rogaram: “Senhor, queremos ver Jesus”. Filipe foi dizê-lo a André, e André e Filipe o comunicaram a Jesus.
A exceção no relacionamento André-Filipe ocorre no capítulo 14, onde Filipe aparece sem a participação audível de André:
Replicou-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
Disse-lhe Jesus: Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras.
Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras.

João 14.8-11.