terça-feira, 29 de novembro de 2016

A pessoa que Deus justifica

Lucas 18.9-14

Josivaldo de França Pereira

Jesus propôs uma parábola (história do dia-a-dia que ilustrava realidades espirituais) a alguns (provavelmente uma plateia de fariseus) que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros.
Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar. Um era fariseu (partido religioso da época) e o outro publicano (cobrador de impostos). Tanto um quanto o outro eram judeus. Os fariseus odiavam os publicanos porque estes trabalhavam para o governo romano, portanto, eram tidos como traidores pela maioria dos judeus.
Ambos foram ao templo orar. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, dizendo: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”.
As realizações externas deste fariseu eram dignas de admiração e imitação. O problema é que aos seus olhos ele se achava melhor que as outras pessoas. O fariseu (como aqueles a quem Jesus se dirigia) confiava em si mesmo, por se considerar justo, e desprezava os outros acreditando que era mais íntegro do que eles. Preconceituosamente, ele via como roubadores, injustos e adúlteros qualquer um que não fosse fariseu como ele (cf. Mt 5.46,47; 23.23). Isso não lembra alguns religiosos dos nossos dias que pensam que somente eles devem ir para o céu?
Contudo, o fariseu foi longe demais em seu preconceito ao se voltar para o publicano, afirmando que não era como o coletor de impostos, visto que jejuava duas vezes por semana e dava o dízimo de tudo quanto ganhava. Como dissemos, as ações deste fariseu eram boas por si só. O problema, como já dissemos também, era a arrogância dele. De acordo com a Bíblia, o ego exaltado é a primeira das seis coisas que Deus aborrece (Pv 6.16-19).
O fariseu pensou que estivesse realmente orando a Deus, mas Jesus observa que esse homem orava de si para si mesmo. A oração que não é proveniente de um coração contrito e sincero não é feita a Deus. Bem diferente foi a atitude do publicano. Estando em pé, ao longe, ele não ousava nem ainda levantar os olhos para o céu, porém, batia no peito, dizendo: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”.
Jesus finaliza a parábola destacando que o publicano voltou para casa justificado por Deus, pois sua oração foi ouvida, e não o arrogante e impiedoso fariseu; porque todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado.
Conta-se, em uma antiga ilustração, que um jovem pregador subiu ao púlpito cheio de confiança. Todavia, ele pregou mal, e voltou para o seu lugar bastante constrangido. Logo depois, o zelador da igreja, vendo-o abatido, comentou: “Meu jovem, se você tivesse subido ao púlpito como desceu, certamente você teria descido como subiu”. De fato, todo aquele que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.

sábado, 26 de novembro de 2016

Morre Russell Shedd

Morreu, na madrugada deste sábado (26/11/2016), o Dr. Russell P. Shedd.
O planeta perde um grande homem de Deus. 
Tive o privilégio de ter dois livros prefaciados por ele (Personagens Esquecidos da Bíblia e Paulo). 
Em julho deste ano, quando falei com o Dr. Shedd se prefaciaria o livro Paulo, ele aceitou de bom grado, apesar de estar bastante gripado. 
Meu livro, publicado em agosto deste ano, foi a última obra prefaciada por ele. Descanse em paz grande guerreiro!

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Deus é Fiel

Josivaldo de França Pereira

É comum ver a expressão “Deus é fiel” em vidro de automóvel, parachoque de caminhão, porta de residência, etc. Contudo, no que as pessoas estão realmente pensando quando se deparam com essas palavras? A expressão “Deus é fiel” em si mesma está correta, porque Deus é fiel de verdade! O problema é o entendimento equivocado que se tem dela.
 Para a maioria das pessoas (muitas das quais influenciadas pela teologia da prosperidade), a fidelidade de Deus não passa de um conceito mal empregado para atender seus desejos materialistas imediatos. Ou seja, Deus é fiel sim, mas para nos dar carro, casa, dinheiro, etc.
Na Bíblia, a fidelidade de Deus é um dos atributos ou qualidades mais nobres do seu Ser. "Saberás, pois, que o Senhor teu Deus é Deus, o Deus fiel..." (Dt 7.9). Essa qualidade é essencial ao seu Ser; sem ela ele não seria Deus. Pois, ser Deus infiel seria agir contrariamente à sua natureza, o que é impossível. "Se formos infiéis, ele permanece fiel: não pode negar-se a si mesmo" (2Tm 2.15). A fidelidade é uma das gloriosas perfeições do seu Ser, é como se ele estivesse vestido com esta perfeição. “Ó Senhor, Deus dos Exércitos, quem é forte como tu, Senhor, com a tua fidelidade ao redor de ti?!" (Sl 89.8).
Fidelidade pressupõe aliança e suas promessas; um pacto ou acordo entre as partes. Por conseguinte, toda aliança tem suas condições. No caso da aliança entre Deus e o ser humano há bênçãos para os que a cumprem e consequências terríveis para quem a deixam. Desse modo, a fidelidade de Deus tanto nos ajuda quanto nos afeta.
Se obedecemos a Palavra do Senhor somos abençoados pelo Deus fiel, porém, se a desobedecemos sofremos as consequências do mesmo Deus fiel. “Sua Palavra não contém somente numerosas ilustrações de sua fidelidade no cumprimento de suas promessas, mas também registra numerosos exemplos de sua fidelidade em fazer valer as suas ameaças” (A. W. Pink).
Deus é fiel não somente quando afasta as aflições, mas também é fiel quando as envia. “A mente dos servos de Deus se tranquilizaria bastante se eles se lembrassem de que a aliança de Deus o obriga a lhes aplicar correção oportuna” (Pink).
O Eterno não deve ser imaginado por ninguém como se fosse uma fada madrinha, ou como um produto à disposição na prateleira de um supermercado, a fim de satisfazer nossos mesquinhos interesses consumistas. Ele é Deus. Senhor soberano que deve ser servido, temido e reverenciado por nós.
Se todos soubessem o que significa de fato a expressão “Deus é fiel”, veriam quão longe estão da natureza e caráter do Deus fiel.  O nosso Deus é fiel a ele próprio, à sua Palavra e promessas. Bendito seja o Deus fiel!

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Livro "Paulo" - Prefácio de Russell Shedd

Meu novo livro chamado "Paulo" com prefácio de Dr. Russel Shedd.
Adquira o seu ainda hoje. A despesa de correio é por minha conta. Veja abaixo os assuntos tratados no livro:
1. Paulo
2. Na estrada de Damasco
3. A visita de Ananias
4. As primeiras pregações de Paulo
5. A igreja de Antioquia
6. Chamados e enviados
7. As defesas de Paulo
8. Paulo, apóstolo de Cristo Jesus
9. Conceitos antipaulinos de apostolado
10. Princípios paulinos de liderança
11. Paulo, prisioneiro de Cristo Jesus
12. A canonicidade, cronologia e mensagem das epístolas paulinas
13. As viagens missionárias de Paulo
14. Paulo e Silas em Filipos
15. O discurso de Paulo em Atenas
16. O evangelho de Paulo
17. A missiologia de Paulo
18. A teologia paulina do sofrimento
19. A trajetória da graça em Paulo
20. Eleição e evangelização em Paulo
21. A vida futura segundo Paulo
22. Os últimos dias de Paulo

Leia abaixo o capítulo 1 do livro.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Paulo

Depois de Jesus, nenhuma outra pessoa exerceu tanta influência sobre a nossa civilização como o apóstolo Paulo. Nenhuma personagem bíblica ocupa mais da metade do Novo Testamento com sua vida e obra tão amplamente conhecidas, comentadas e divulgadas quanto ele. Segundo Hernandes Dias Lopes,
Paulo certamente foi a maior expressão do cristianismo. Viveu de forma superlativa e maiúscula. Pregador incomum, teólogo incomparável, missionário sem precedentes, evangelista sem igual. Viveu perto do Trono, mas, ao mesmo tempo, foi açoitado, preso, algemado e degolado. Tombou como mártir na terra, mas levantou-se como príncipe no céu. Ele não foi poupado dos problemas, mas triunfou no meio deles.[1]
De acordo com Bruce,
Paulo era filho do seu tempo, nascido no primeiro século d.C. e não antes nem depois, no império romano e não fora das suas fronteiras, judeu e não gentio. Ele fora influenciado por sua herança, seu ambiente e sua criação. [...] Ele pertence a esse grupo seleto que deixa sua marca em seu tempo, que molda seus contemporâneos e exerce uma influência que se estende ainda por muito tempo.[2]
Seu nome
Paulo adotou o nome grego Paulos, que é uma palavra emprestada do latim Paulus que significa, literalmente, “pequeno”. A partir de Atos 13.9 o apóstolo não usa mais seu nome hebraico Saulo. Agostinho acreditava que Paulo adotou esse novo nome para indicar que ele era “o menor dos apóstolos” (1Co 15.9; compare com Ef 3.8). Mas esse ponto de vista não tem apoio. Nem tampouco temos prova de que Paulo tenha usado seu nome grego como expressão de cortesia ao procônsul Sérgio Paulo (At 13.7).
O apóstolo Paulo, como cidadão romano, já tinha outros dois, ou mesmo três nomes. Os cidadãos romanos possuíam, em geral, três nomes; por exemplo, Quintus Sergius Paulus. E Paulo usava seu nome grego mesmo antes de Sérgio Paulo se tornar um crente.[3]
  Paulo recebeu o nome de Saulo ao nascer, em honra ao primeiro rei de Israel, Saul. Posteriormente passou a ser chamado Paulo talvez em alusão à sua pequena estatura física. Todavia, alguns eruditos entendem que seu novo nome possa ser um apelido familiar, como “nosso pequeno”; “pequerrucho”, ou coisa parecida. Porém, é possível que o próprio apóstolo tenha escolhido o nome Paulo por ser um tanto similar a Saulo, sem que houvesse nisso qualquer alusão especial, como também, no mundo moderno, não damos muita significação aos nossos nomes próprios, ainda que, originalmente, todos os nomes próprios tivessem sua respectiva significação.[4]
Seu passado
O divisor de águas na vida de Paulo foi seu encontro com Jesus no caminho de Damasco; o antes e o depois de sua conversão. Antes de sua conversão, Paulo era um judeu comprometido e zeloso com suas tradições. O orgulho dele com sua herança judaica (Rm 3.1,2; 9.1-5; 2Co 2.22; Gl 1.13,14 e Fp 3.4-6) o levou a perseguir a comunidade cristã (Gl 1.13; Fp 3.6; 1Co 15.8; cf. At 8.1-3; 9.1-30).
Desde seu nascimento, por volta do ano 5 d.C., até seu aparecimento em Jerusalém como perseguidor dos cristãos, há pouca informação sobre a vida de Paulo. Sabe-se pelo testemunho dele mesmo que era da tribo de Benjamim e zeloso membro do partido dos fariseus (Rm 11.1; Fp 3.5; At 23.6). Era cidadão romano (At 16.37; 21.39; 22.25-28). Nasceu em Tarso, um centro grego de cultura e intelectualidade, cidade universitária localizada na Cilícia, nas proximidades da costa nordeste do Mar Mediterrâneo, ao norte de Chipre.
Alguns eruditos supõem que Paulo se tornou familiarizado com diversas filosofias gregas e cultos religiosos durante sua juventude em Tarso.[5] Entretanto, Atos 22.3 parece indicar que Paulo apenas nasceu em Tarso e foi educado em Jerusalém. “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje”.
As Escrituras atestam a profundidade do passado pecaminoso de Paulo antes da sua conversão. Quando jovem, Paulo recebeu autoridade oficial para dirigir uma perseguição contra os cristãos, na qualidade de membro de uma sinagoga ou concílio do Sinédrio, conforme ele mesmo descreve em Atos 26.10 (“e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam”) e Atos 26.12 (“Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado”). A lembrança de seu passado de perseguição o acompanhou por toda sua vida e o manteve constantemente humilde diante de Deus (Gl 1.13; Fp 3.6; 1Tm 1.13).
Além do mais, à luz da educação e preeminência precoce de Paulo (cf. At 7.58; Gl 1.14), supomos que sua família desfrutava de alguma posição político-social. O acesso do sobrinho de Paulo entre os líderes de Jerusalém (At 23.16,20) parece favorecer essa hipótese. Profissionalmente, Paulo era fabricante de tendas. Um bem valioso que o ajudaria muitas vezes no futuro (cf. At 18.13; 1Co 4.12; 2Ts 3.8).  A cidade de Tarso, onde ele nasceu, tinha abundância de cabras monteses. O pelo comprido desses animais era tecido e usado para vestimentas ou tendas; esse material era conhecido como pano da Cilícia. Segundo Oswald Sanders, a vantagem dessa profissão é que podia ser exercida em qualquer lugar sem, contudo, exigir equipamento caro.[6]
Sua conversão
Embora não existam evidências bíblicas de que Paulo conheceu Jesus durante seu ministério terreno, seus parentes crentes (cf. Rm 16.7,11,21) e sua experiência com o martírio de Estevão (At 8.1) devem ter produzido algum impacto nele. A pergunta (e principalmente, a afirmação do Cristo ressurreto, conforme registrada em Atos 26.14) dá a entender isso. “E, caindo todos nós por terra,” discursa Paulo perante o rei Agripa, “ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões”.
A experiência de conversão de Paulo provocou uma revisão radical no seu estilo de vida e da sua cosmovisão. Passou de principal perseguidor a principal protagonista do movimento cristão primitivo; de "zeloso pelas tradições dos nossos pais" a "apóstolo dos gentios”.
 Ainda sobre a conversão de Paulo, Carriker faz-nos uma breve, mas não menos relevante observação. Diz ele:
A conversão de Paulo não era resultado de grandes sentimentos de culpa pelo pecado, como tipificado na tradição luterana. Alguns (como K. Stendahl) até preferem falar dum "chamamento" em vez de conversão, e observam que Paulo mesmo prefere esse primeiro termo. Dizem que Paulo não "mudou de religião", de judeu para cristão, mas que permaneceu judeu, qualificando sua fé como a de um judeu cristão.[7]
Apesar desta constatação, o próprio Carriker admite preferir usar o termo conversão “para descrever o encontro de Paulo com Jesus, pois obviamente ele revisou radicalmente sua percepção sobre Jesus. Embora ele não tenha abandonado todos os elementos do judaísmo, alguns pontos fundamentais foram completamente reformulados”.[8] E mais:
Mesmo que Paulo tenha reformulado radicalmente muitos dos seus conceitos judaicos, ainda mantinha muitas convicções em comum, mesmo em termos da sua missão. Por exemplo:
A. Paulo aceitou as Escrituras Hebraicas como a Palavra revelada de Deus, e constantemente elaborou sua perspectiva em diálogo com as Escrituras, usando técnicas rabinas adquiridas do judaísmo.
B. Na elaboração da sua eclesiologia, Paulo retinha um papel especial para Israel, embora sempre mantivesse o acesso dos gentios à salvação também.
C. Empregou temas do uso corrente da pregação missionária judaica na sua pregação missionária e na sua estimação do mundo gentílico.[9]
Vale lembrar, ainda, que os três relatos da conversão de Paulo (Atos 9, 22 e 26) são importantes não somente pelo significado da sua conversão propriamente dita, mas também pelo modo de se entender a pessoa de Paulo na sua união com Cristo e em seu ministério entre os gentios.
Seu ministério
A partir do encontro com Jesus no caminho de Damasco, Paulo passaria de perseguidor a perseguido; de causador de sofrimentos a sofredor. O Senhor resumiria, ao relutante Ananias, o árduo ministério de Paulo nestes termos: “Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (At 9.15, 16).
À parte de um intervalo no deserto da Transjordânia, Paulo viveu os primeiros anos de seu ministério pregando na cidade de Damasco (At 9.19; Gl 1.17). Pressionado pelos judeus de Damasco, o apóstolo fugiu para Jerusalém, onde Barnabé o apresentou aos irmãos duvidosos de sua conversão (At 9.26-28). Seu ministério em Jerusalém dificilmente durou duas semanas, pois novamente os judeus procuravam matá-lo (At 9.29). Para evitá-los, Paulo retornou à cidade de seu nascimento (At 9.30), passando ali um "período de silêncio" por cerca de dez anos.
Certamente, esse período é silencioso apenas para nós, pois Barnabé, ouvindo falar de sua obra e relembrando seu primeiro encontro com o apóstolo, solicitou a este que fosse para Antioquia da Síria ajudá-lo numa florescente missão entre os gentios (At 11.19-26). De Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados para socorrer os irmãos pobres da Judeia (At 11.29,30). Os dois permaneceriam juntos até a primeira viagem missionária. Paulo realizaria mais duas viagens com outros companheiros, plantando igrejas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor e, por fim, sofreria o martírio em Roma.
O mundo de sua época  
Na época de Paulo, três povos contribuíram significativamente para a expansão do mundo de então e, em especial, na propagação do evangelho, a saber: os romanos, os gregos e os judeus.
O domínio romano
Uma das grandes contribuições de Roma nos tempos bíblicos foi a Pax Romana. As guerras entre as nações tornaram-se quase impossíveis sob a égide daquele poderoso império. Essa paz entre as nações favoreceu extraordinariamente a proclamação do evangelho entre os povos. Além disso, a administração romana tornou fácil e segura as viagens e comunicação entre as diferentes partes do mundo. Os piratas foram varridos dos mares e as esplêndidas estradas romanas davam acesso a todas as partes do império. Essas estradas notáveis realizaram naquela civilização o mesmo papel das nossas estradas de rodagem e estradas de ferro da atualidade. E elas eram tão bem vigiadas que os ladrões desistiam de seus assaltos.
Robert Nichols comenta:
É provável que durante os primeiros tempos do cristianismo o povo se locomovia de uma cidade para outra ou de um país para outro, muito mais do que em qualquer outra época, exceto depois da Idade Média. Os que sabem como as atuais facilidades de transporte têm auxiliado o trabalho missionário, podem compreender o que significava esse estado de coisas para a implantação do cristianismo.[10]
Seria praticamente impossível ao apóstolo Paulo, e a outros de seu tempo, espalhar o evangelho pelo mundo como o fizeram sem essa liberdade e facilidade de trânsito possibilitadas pelo império romano.

A influência grega

Era típico do Império Romano não influenciar na cultura dos povos conquistados. Por isso, no início da era cristã os povos que habitavam as regiões do Mediterrâneo já haviam sido profundamente influenciados pelo espírito do povo helênico. Colônias gregas, algumas das quais com centenas de anos, foram amplamente disseminadas ao longo da costa do Mediterrâneo. Com seu comércio os gregos foram a toda parte. A influência deles espalhou-se, sendo mais acentuada nas cidades e países onde se estabeleciam os mais importantes centros do mundo de então. A influência dos gregos foi tão poderosa que o período do domínio romano foi corretamente denominado de greco-romano. Quer dizer, Roma governava politicamente, mas a mentalidade dos povos desse império tinha sido moldada fundamentalmente pelos gregos. O helenismo (nome que se dá à civilização grega) dominou o mundo por 600 anos.
Contudo, duas das maiores contribuições gregas para o advento do cristianismo foram a tradução do Antigo Testamento grego (a Septuaginta) e a disseminação da língua em que o evangelho seria pregado ao mundo pela primeira vez. Uma prova da extensão e da influência do grego está no fato de que a língua mais falada nos países situados às margens do Mediterrâneo era o dialeto conhecido por koinê, o dialeto "comum". Era essa a língua universal do mundo greco-romano, usada para todos os fins no intercâmbio popular. Quem quer que a falasse seria entendido em toda parte, especialmente nos grandes centros onde o cristianismo foi primeiramente implantado. Os primeiros missionários, como por exemplo Paulo, fizeram quase todas as suas pregações nessa língua e nela foram escritos os livros que vieram a constituir o nosso Novo Testamento.

O povo judeu

Os judeus prepararam o berço do cristianismo. Primeiramente, porque anteciparam a vida religiosa em que foram instruídos o Senhor Jesus, os cristãos primitivos em geral, e o apóstolo Paulo, em particular (At 23.6; 26.5). Além disso, a expectativa messiânica e a preservação do Antigo Testamento pelos judeus foram fundamentais para a confirmação do evangelho. Vale lembrar que muitos gentios eram prosélitos ou simpatizantes do judaísmo, o que acabou se tornando um meio para se alcançar essas pessoas. Paulo ia às sinagogas com o objetivo de evangelizar também esses gentios. Segundo Bavinck, num mundo intelectual que cresceu cansado dos mitos dos poetas gregos, não surpreende que a religião judaica fosse apreciada por seu conceito espiritual de Deus. [11]
Talvez, a maior contribuição que o cristianismo recebeu veio por parte dos judeus da Dispersão. Esses judeus, espalhados pelo mundo em virtude dos cativeiros que sofreram, podiam ser encontrados em quase todas as cidades daquela época. Em qualquer canto em que estivessem preservavam a religião judaica e estabeleciam suas sinagogas.  Em muitos lugares realizavam trabalho missionário ativo. Assim, ganhavam entre os gentios numerosos prosélitos, tornando conhecidos os ensinamentos judaicos. A missão judaica foi uma precursora importante das missões cristãs porque espalhou, extensivamente entre os gentios, elementos básicos essenciais tanto ao judaísmo quanto ao cristianismo, como por exemplo, a remissão de pecados na pessoa do Messias. Muitos gentios, pelo contato com os judeus, foram inspirados por essa expectativa, ficando assim preparados para a aceitação de Cristo como o Salvador que havia de vir.
Deus, em sua maravilhosa providência, preparou não só as condições externas que favoreceram a expansão do cristianismo, mas também o homem que iria fazer uso dessas condições. Paulo era hebreu de hebreus, versado na sabedoria dos gregos e cidadão romano de nascença.








[1] Hernandes Dias Lopes, Paulo, o maior líder do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2014, p. 147.
[2] F. F. Bruce, Paulo, o apóstolo da graça: Sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2014, p. 450.
[3] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 605-06.
[4] Cf. Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 187.
[5] Consulte E. E. Ellis, Paulo. In: O Novo Dicionário da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 1217.
[6] J. Oswald Sanders, Paulo, o Líder: Uma visão para a liderança cristã hodierna. São Paulo: Vida, 2005, p. 11.
[7] Timóteo Carriker, Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992, p. 226.
[8] Ibidem. Veja mais sobre a conversão de Paulo em John Stott, A Mensagem de Atos. Série a Bíblia Fala Hoje. 2ª ed. São Paulo: ABU, 2015, p. 185-202.
[9] Carriker, p. 223-24.
[10] Robert H. Nichols, História da Igreja Cristã. 6a ed. São Paulo: CEP, 1985, p. 7.
[11] J. H. Bavinck, An Introduction to the Science of Missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1960, p. 27.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Zacarias, filho de Baraquias ou de Joiada?

Josivaldo de França Pereira

Somente Mateus e Lucas relatam a seguinte declaração de Jesus: “para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar” (Mt 23.35; cf. Lc 11.50,51a).
O contexto da referida passagem bíblica são os vários ais ditos por Jesus contra os escribas e fariseus hipócritas (Mt 23.13-36; “interpretes da lei” em Lc 11.46-52). Em Mateus 23.34 (cf. Lc 11.49) o Mestre diz: “Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade”. O versículo 35 (cf. Lc 11.50,51a) é, portanto, a sentença específica para o verso anterior (cf. Lc 11.49) e o versículo 36 a sentença geral de toda perícope: “Em verdade vos digo que todas estas cousas hão de vir sobre a presente geração” (cf. Lc 11.51b).
A história de Zacarias e sua trágica morte entre o santuário e o altar encontram-se registradas em 2Crônicas 24.20,21. O rei Joás, depois que o pai de Zacarias morreu, desviou-se severamente dos caminhos do Senhor, juntamente com todo povo, servindo a idolatria. Deus se irou muito contra Judá e Jerusalém, porém, enviou profetas para reconduzi-los a si. Mas o povo não deu ouvido (cf. 2Cr 24.17-19).
O Espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote que cuidou de Joás até o fim, o qual advertiu o povo em nome do Senhor (cf. 2Cr 24.20). Contudo, “Conspiraram contra ele e o apedrejaram, por mandado do rei, no pátio da Casa do SENHOR” (2Cr 24.21). Pouco antes de morrer, Zacarias disse: “O SENHOR o verá e o retribuirá” (2Cr 24.22). Cerca de 600 anos depois o Deus que tudo vê retribuía à rebelde geração dos judeus a profecia de Zacarias na pessoa de Cristo (cf. Mt 23.29-36; Lc 11.47-51). “... Jesus na verdade cita esse incidente ao pronunciar o mesmo juízo sobre seus contemporâneos (cf. Mt 23.33-36; Lc 11.47-51)”.[1] E como fariam igual com os profetas e apóstolos, sábios e escribas que o Senhor enviaria (cf. Mt 23.34; Lc 11.49), no ano 70 d. C. Jerusalém cai em meio a indescritíveis horrores.
Por que nosso Senhor disse que seria requerido todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias? Sabemos que a história do justo Abel se encontra no primeiro livro da Bíblia, o Gênesis (Gn 4.1-7). A de Zacarias, como vimos, acha-se no segundo livro das Crônicas. Pois bem, Jesus está citando a Bíblia hebraica que começa em Gênesis e termina em Crônicas. Na Bíblia moderna o Antigo Testamento termina em Malaquias. Ela segue o conteúdo da Bíblia hebraica, mas a ordem e disposição dos livros, como conhecemos hoje, são as da Septuaginta e da Vulgata Latina, com exceção dos livros apócrifos, no caso da Bíblia protestante. Na passagem de Mateus 23.35 e Lucas 11.50,51, Jesus está dizendo, portanto, que todos os justos de Deus mortos por pessoas que se rebelaram contra o próprio Deus, desde o primeiro livro da Bíblia (Gênesis) até o último (Crônicas, o último livro da Bíblia até então), seriam vingados.
Entretanto, o texto de Mateus 23.35 afirma que Zacarias é filho de Baraquias[2], enquanto que em 2Crônicas 24.20,22 ele é filho de Joiada. Na verdade, o Zacarias filho de Baraquias (ou Berequias) é o profeta-autor do penúltimo livro do Antigo Testamento (Zc 1.1).
As três principais soluções existentes para este conflito são: (a) O pai do Zacarias assassinado tinha dois nomes: Joiada e Baraquias (Lutero). (b) Como ocorre com frequência nas Escrituras, “pai” pode significar “avô” (Grosheide). (c) Numa das primeiras cópias do Evangelho de Mateus, um copista que tinha em mente o nome do pai do profeta menor inseriu erroneamente, e sem nenhum fundamento, a expressão “filho de Baraquias” (Ridderbos). Jesus jamais cometeria esse equívoco por sua perfeição (cf. 1Pe 2.22), e nem mesmo Mateus por sua inspiração (cf. Jo 14.26).
Concluo fazendo minhas as palavras do Dr. Hendriksen: “Qualquer das três [soluções] poderia ser correta. Contudo, com Ridderbos creio que c é a solução mais simples”.[3]






[1] Martin J. Selman, 1 e 2Crônicas: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2008, p. 366.
[2] O Evangelho de Lucas omite a filiação de Zacarias (cf. Lc 11.51).
[3] Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 880. Para outras sugestões, consulte Russell N. Champlin, O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 551-53. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A Dádiva da Alegria

Alegria é a qualidade ou estado de quem tem prazer de viver, de quem denota jovialidade; contentamento, satisfação. A alegria é uma dádiva do Deus triúno aos seres humanos de modo geral, e em especial para aqueles que o amam com sinceridade de coração. A bênção da verdadeira alegria pertence aos filhos de Deus. Deus é a fonte da alegria. A Bíblia nos ensina que a alegria é parte integrante da essência de Deus Pai, Filho e Espírito Santo.
Em Neemias 8.10 lemos que a alegria do Senhor é a nossa força. E o Senhor Jesus, por sua vez, declara: “Tenho-vos dito estas cousas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo” (Jo 15.11; cf. 17.13). Na carta de Paulo aos Romanos aprendemos, ainda, que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A alegria é o segundo gomo, por assim dizer, do fruto do Espírito (cf. Gl 5.22).
No relacionamento trinitário a felicidade norteia a vida de cada uma das pessoas de Deus. É por isso que a Bíblia nos recomenda a estarmos prontos e dispostos para vivermos a alegria de Deus em nossa vida pessoal, familiar e social. Sendo assim, precisamos expressar, em todos os nossos relacionamentos, a maravilhosa graça da alegria de Deus em nosso viver, em demonstrações práticas para com Deus e o próximo.
Deus deve ser o motivo de nosso louvor, expressão maior de nossa alegria (cf. Tg 5.13). A Bíblia relata que o carcereiro de Filipos, “com todos os seus, manifestava grande alegria, por terem crido em Deus” (At 16.34). Por isso, Paulo insiste: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, alegrai-vos” (Fp 4.4). As Escrituras, portanto, ensinam-nos que a verdadeira felicidade está em um contentamento em Deus.
Na declaração paulina de Filipenses 4.4, percebemos também que a alegria cristã deve ser, entre outras coisas, constante e transcircunstancial (cf. At 16.23-25; Fp 4.10-13). E Pedro não é menos enfático quando fala a respeito de Jesus: “A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). O próprio Cristo, por causa da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz (Hb 12.2).[1]
Meu irmão, minha irmã, você tem verdadeiramente se apropriado dessa bênção chamada ALEGRIA? Você não veio ao mundo para naufragar no mar da infelicidade. Fomos todos chamados em Cristo para sermos pessoas felizes. Assim, queridos, levantemos a cabeça e aprendamos a superar a dor e a angústia, a tristeza e o desânimo através da sublimidade de uma alegria celestial e além das circunstâncias. Não permita jamais que os embates desta vida o derrotem, pelo contrário, aprendamos a viver contente em toda e qualquer situação (cf. Fp 4.11), superando todas as dificuldades em Cristo Jesus.
A igreja do Novo Testamento era formada por crentes que sabiam sofrer. Portanto, não se entregue, não se renda. Viva feliz com Jesus![2]



[1] De acordo com a melhor tradução da preposição grega antí em Hebreus 12.2.
[2] Literatura sugerida: John Piper, Teologia da alegria: A plenitude da satisfação em Deus. São Paulo: Shedd, 2001; Martyn Lloyd-Jones, A vida de alegria: Exposições sobre filipenses. 2 vols. São Paulo: PES; Jeremiah Burroughs, Aprendendo a estar contente. São Paulo: PES, 1990.