sábado, 28 de novembro de 2009

Como um grão de mostarda

(A mensagem de Mateus 17.14-20 e Lucas 17.3-6)
Josivaldo de França Pereira


A expressão “grão de mostarda” aparece cinco vezes nos Evangelhos. Jesus a utilizou para ilustrar algo que se desenvolve rapidamente, partindo de um início ínfimo, tal como o reino dos céus (Mt 13.31,32; Mc 4.30-32; Lc 13.18,19) ou a fé d’algum indivíduo (Mt 17.20; Lc 17.6).[1] Aqui nos deteremos nesse último aspecto, ou seja, a fé comparada ao grão de mostarda, segundo Mateus 17.14-20 e Lucas 17.3-6.
Mateus registra que quando Jesus desceu do Monte da Transfiguração com Pedro, Tiago e João, o Mestre foi imediatamente procurado por um pai aflito, cujo filho continuava possesso porque os discípulos não puderam fazer nada por ele. Jesus expulsou o demônio e curou o menino. Em seguida os discípulos se aproximaram do Mestre e perguntaram em particular: “Por que motivo não pudemos nós expulsa-lo?”. O Senhor lhes respondeu: “Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível”.
Em Lucas temos o ensino de quantas vezes se deve perdoar a um irmão. Disse Jesus aos seus discípulos: “Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe”. Tendo seus corações confrontados por esse desafio, os discípulos disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé”. E o Senhor respondeu: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: Arranca-te e transplanta-te no mar; e ela vos obedecerá”.
Tanto Mateus quanto Lucas mencionam a expressão “grão de mostarda” proferida por Jesus como ilustração da fé. A diferença está no fato de que em Mateus temos “monte” e em Lucas “amoreira”. Mas o ponto importante é a necessidade de se ter uma fé como um grão de mostarda para transportar tanto o monte quanto a amoreira.
Em outro lugar, Jesus definiu o grão de mostarda como “a menor de todas as sementes sobre a terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra” (Mc 4.31,32; cf. Mt 13.32).
Muitos interpretam Mateus 17.20 e Lucas 17.6 como se Jesus quisesse dizer que se tivermos fé do tamanho de um grão de mostarda faremos isto ou aquilo. Parece que essa interpretação não está correta. Em Mateus 17.20 Jesus disse aos seus discípulos que o motivo pelo qual eles não puderam expulsar o demônio do jovem foi “Por causa da pequenez da vossa fé”. Como o nosso Senhor criticaria os seus discípulos pela pequenez da fé deles e em seguida diria que eles precisavam de uma fé do tamanho do grão de mostarda? Na verdade, Jesus nunca admirou uma fé pequena, principalmente daqueles que o acompanhavam em seu ministério e eram testemunhas dos sinais e prodígios que ele realizava, como foi o caso dos discípulos dele. A fé pequena é questionada por Jesus por está associada à dúvida e à insegurança (Mt 8.26; 14.31; 16.8).
Por outro lado, o Mestre sempre elogiou a pessoa detentora de grande fé. Acerca do centurião romano, que implorou pela cura de seu criado dizendo: “apenas manda com uma palavra, e o meu rapaz será curado”, a Bíblia relata que “admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem em Israel achei fé como esta” (Mt 8.10; cf. Lc 7.9). Nem é preciso dizer que o homem foi atendido, não é mesmo? E a mulher cananeia? À cananeia que clamava a Jesus em favor da sua filha que estava “horrivelmente endemoninhada”, o Senhor disse: “... Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se contigo como queres...” (Mt 15.28).
O que Jesus quis dizer com a expressão “fé como um grão de mostarda”? Ele quis dizer justamente o que a frase sugere, ou seja, assim como o grão de mostarda é pequeno mas se desenvolve numa hortaliça gigante, a fé que começa pequena deve aumentar mais e mais. Bem diferente do que muitos têm dito acerca de Mateus 17.20 e Lucas 17.6, o apóstolo Paulo interpretou com precisão o ensinamento de Cristo quando disse: “... ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes...” (1Co 13.2). Para transportar montes (qualquer que seja o sentido) é preciso de “tamanha” fé! Além disso, que o próprio Senhor Jesus não está falando que devemos ter fé do tamanho de um grão de mostarda em Mateus 17.20 e Lucas 17.6, está claro em passagens como Mateus 21.18-22 e Marcos 11.20-24.
Concluindo:
Não se transpõem os montes da vida com uma fé do tamanho de um grão de mostarda. É necessário, sim, ter fé como um grão de mostarda – começa pequena, mas não fica pequena. A fé é o presente de Deus para o ser humano, um presente que o beneficiário precisa exercitar, fortificar e ampliar constantemente.[2] De que maneira a fé cresce e se fortalece em nós? Muitas vezes o método divino para o crescimento e amadurecimento da nossa fé são as provações (cf. Tg 1.2,3). Segundo Douglas J. Moo, “o sofrimento é o meio através do qual a fé, testada no fogo da adversidade, pode ser purificada e então fortalecida”.[3]
Portanto, amados (a), não permaneça a nossa fé do tamanho de um grão de mostarda, mas sim, como um grão de mostarda que cresce para a glória de Deus Pai.
Que o Senhor o (a) abençoe.





[1] Cf. R. K. Harrison, Plantas. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1293.
[2] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 630.
[3] D. J. Moo, Tiago: Introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1990, p. 60.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Os Impedimentos de Deus e do Diabo na Missão de Paulo

Josivaldo de França Pereira


Não é segredo para ninguém que a missão de Paulo foi realizada em meio a muitas lutas e provações, conforme os relatos de Lucas no livro de Atos e do próprio Paulo em 2Coríntios 11.16-12.10. Ao profeta Ananias o Senhor Jesus resumiu o ministério de Paulo assim: “... Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (At 9.15,16).
Entretanto, chamam-nos a atenção duas passagens bíblicas. Em Atos 16.6,7 é dito: “E, percorrendo a região frígio-gálata, tendo sido impedidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia, defrontando Mísia, tentavam ir para Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu”. A outra passagem é 1Tessalonicenses 2.17,18: “Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente. Por isso, quisemos ir até vós (pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas duas); contudo, Satanás nos barrou o caminho”.
Em Atos é relatado que Paulo, durante sua segunda viagem missionária, foi impedido pelo Espírito Santo de ir à província da Ásia e Bitínia. Aos tessalonicenses o apóstolo fala dos impedimentos de Satanás quando tentou visitá-los por duas vezes, logo após sua segunda viagem missionária. Como Paulo sabia que um impedimento vinha de Deus e o outro do Diabo? Por que o Espírito Santo impediu que Paulo e seus companheiros pregassem na Ásia e fossem também para Bitínia? Como e por que Satanás conseguiu frustrar os planos de Paulo de visitar os crentes de Tessalônica?
A maioria dos comentaristas bíblicos admite não saber ao certo como foi que Paulo e seus companheiros entenderam que os impedimentos de Atos 16.6,7 indicavam que o Espírito santo possuía outro plano de viagem. É provável que Paulo e seus companheiros só compreenderam o significado dos impedimentos do Espírito após analisarem os fatos ocorridos. Aquele duplo impedimento (vv6,7), a visão de Paulo (v9) e a declaração de Lucas no verso 10 parecem lançar luz sobre essa possibilidade. Quanto ao por que daqueles impedimentos não há necessidade de se especular. A soberania do Espírito Santo na obra missionária é inquestionável. É ele quem dirige e coordena a missão, determinando quem vai, como se vai e para quem se vai pregar o evangelho.
Paulo desejava muito re-visitar os crentes de Tessalônica. Ele tentou “não somente uma vez, mas duas” e, como o próprio apóstolo diz, “Satanás nos barrou o caminho”. Não se sabe ao certo a natureza dos impedimentos de Satanás em 1Tessalonicenses 2.18. Os estudiosos sugerem várias possibilidades, embora reconheçam a dificuldade em precisar o que realmente aconteceu. É provável que os obstáculos para retornar a Tessalônica fossem as investidas maldosas, sutis e explicitas dos inimigos de Paulo (cf. 1Ts 2.13-16). Por isso, ele não teve dificuldade em atribui-las ao Maligno. Quanto ao porquê de Satanás ter barrado o caminho de Paulo e ter conseguido tal feito, é porque Deus permitiu que ele chegasse até esse ponto. O Diabo não vai além do que Deus quer. Deus o tem sob controle. Contudo, Satanás é vivo, sagaz  e causador de grandes estragos. 
Enquanto os impedimentos do Espírito Santo edificam, os de Satanás destroem os mais belos sonhos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Zaqueu, o publicano: a mensagem de Lucas 19.1-10

Josivaldo de França Pereira



Esta é a história de um pequeno grande homem chamado Zaqueu. Um judeu morador de Jericó, a cidade mais importante da Palestina depois de Jerusalém. Zaqueu era maioral dos publicanos (chefe dos coletores de impostos a serviço de Roma) e rico. Por serem judeus a serviço de Roma, os publicanos eram tidos por seus compatriotas como traidores. Muitos publicanos ficavam ricos extorquindo seu próprio povo, razão pela qual eram chamados também de ladrões. Contudo, o nome “Zaqueu” significa “aquele que é justo”. Um motivo a mais para ele não ser benquisto pelo povo. Em suma, os publicanos eram personas non gratas, classificados pelos judeus como os maiores pecadores do mundo. Normalmente quando se falava em pecadores, os publicanos encabeçavam a lista (cf. Mt 9.10,11; 11.19; Mc 2.15,16; Lc 5.30; 7.34; 15.1). 
Enquanto Jesus atravessava a cidade de Jericó, Zaqueu procurou desesperadamente vê-lo. Mas não podia por causa da multidão. Sendo ele de pequena estatura subiu a um sicômoro. Uma árvore semelhante à amoreira, conhecida também como figueira brava. A despeito de sua posição social, Zaqueu não se importou nem um pouco em ser ridicularizado pelas pessoas, pois, afinal de contas, ele já estava acostumado com os insultos e afrontas dos outros. Todavia, Zaqueu não queria apenas ver Jesus, ele queria ver quem era Jesus. Tanto se ouvia falar de Jesus de Nazaré, líder de grandes multidões, poderoso em palavra e obras, que Zaqueu almejou conhecê-lo também. Zaqueu era muito esperto. Diante da dificuldade em ver Jesus, por causa da multidão que vinha em sua direção e de sua baixa estatura, ele não desistiu. Correu adiante dela, colocou-se estrategicamente no lugar onde Jesus passaria, subindo numa árvore e, assim, acabou ficando mais alto que todo mundo. Quando se tem determinação e força de vontade o impossível torna-se possível, o problema vira solução e a dificuldade uma porta para as maiores conquistas.
O esforço de Zaqueu valeu a pena. Ao se aproximar da árvore o Mestre parou, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. Que cena gloriosa! Jesus chamou o publicano pelo nome e lhe fez um convite inesperado. Nada indica na Escritura que Jesus foi informado por alguém da multidão que havia um publicano de nome Zaqueu em cima de uma árvore. Nosso Senhor não foi a Jericó por acaso. Do modo como um dia foi-lhe necessário passar por Samaria e evangelizar uma mulher junto ao poço de Jacó, certamente foi necessário que ele passasse por Jericó e nos presenteasse com uma das mais belas histórias da Bíblia, contada de geração em geração a adultos e crianças.
Jesus chamou Zaqueu pelo nome, e o fez com amor e ternura. Não foi o chamado da reprimenda e da crítica; não foi o chamado do juízo e da condenação. Foi o chamado de quem queria ser conhecido pelo pecador. Jesus chamou Zaqueu com urgência. A hora era aquela. O momento era agora. A oportunidade de salvação chegou e estava ali, bem diante de seus olhos. “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. Zaqueu viu quem era Jesus, ouviu a sua voz chamando-o pelo nome e dizendo, ainda, que lhe convinha ficar hoje em sua casa. Que alegria! Quanta bênção na vida de um homem só!
Bastou Jesus falar uma única vez e Zaqueu desceu rapidamente da árvore. Tão importante quanto subir (ou mais) foi para ele a descida da árvore. Quando eu era criança gostava de subir em árvore. Eu me lembro que muitas vezes era mais fácil subir numa árvore do que descer dela. Era mais fácil subir depressa do que descer depressa. Para descer com segurança de uma árvore é preciso olhar constantemente para baixo, vendo onde pisa, sem pressa de alcançar o chão. Entretanto, Zaqueu desceu a toda a pressa, como um fruto maduro caindo em solo fértil. A alegria de Zaqueu foi indescritível e não era para menos. Jesus amou o homem mais odiado de Jericó. O Mestre se lembrou daquele que era esquecido por todos e trouxe para junto de si alguém desprezado pelos seus, pois todos os que viram aquela cena murmuravam, dizendo que Jesus se hospedara com homem pecador. O que dizer desses murmuradores? Eram pessoas que não conheciam a Deus. Não compreendiam o grande amor de Deus em Cristo Jesus que veio buscar e salvar o perdido. Não entendiam que Deus ergue do pó o desvalido e do monturo o necessitado. Ainda que Zaqueu fosse, materialmente, riquíssimo, espiritualmente ele era paupérrimo. Jesus trouxe para Zaqueu a razão do viver que o publicano nunca havia experimentado antes. Zaqueu teria paz, alegria e vida de verdade. Coisas que os murmuradores não têm.
O encontro de Jesus com Zaqueu resultou numa mudança profunda e permanente do publicano. Zaqueu se prontificou a fazer duas coisas. A primeira seria dar aos pobres metade de sua riqueza. A segunda atitude seria a de restituir quatro vezes mais alguém que, porventura, ele tivesse defraudado. Isso é o que teologicamente se denomina de conversão. A mudança de mente e de atitude quando somos alcançados pela graça maravilhosa do bondoso Deus. Só Jesus pode transformar uma vida. Quando ele alcança o nosso coração, mediante o chamado eficaz do Espírito Santo, nós nos tornamos (ou antes somos tornados) novas criaturas. A confissão de Zaqueu foi sincera. E Jesus, que conhece o íntimo do ser humano, pôde dizer: “Hoje, houve salvação nesta casa”.
Hoje é o dia aceitável para você também. Hoje é o dia da salvação! Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.