quinta-feira, 11 de março de 2010

A última prova de Jó – Parte 1

Josivaldo de França Pereira


I
A provação de Jó seguiu uma série de etapas distintas. O homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, maior de todos os do Oriente, perdeu seus animais, seus servos, seus filhos e sua saúde. Seus amigos o acusaram de pecado e impiedade contra Deus. Jó rebateu as críticas deles, dizendo: “Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras e vós todos sois médicos que não valem nada. Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria!” (Jó 13.4,5). “Tenho ouvido muitas cousas como estas; todos vós sois consoladores molestos. Porventura, não terão fim essas palavras de vento?...” (Jó 16.2,3). “Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras? Já dez vezes me vituperastes e não vos envergonhais de injuriar-me.” (Jó 19.2,3).
Para o sofredor Jó, pior que a tragédia, foram os “consoladores molestos” nos quais seus amigos se tornaram; os quais, à semelhança dos inquisidores, tentaram arrancar dele a confissão que ele não podia fazer: a de que seu sofrimento era fruto de seu pecado moral oculto. Alguém disse que nem Deus e nem o diabo acreditavam que Jó merecesse a tragédia antes que ela caísse sobre ele. Quem começa a lançar suspeitas de que Jó merecia seu castigo foram seus amigos, e isso porque descreviam o mundo de uma forma irreal, como se todo justo tivesse que se dar bem na vida e todo ímpio fosse prontamente castigado (Jó 4-37). Jó nega as acusações deles até o momento em que decide parar de responder (Jó 31.40).
Muitas vezes é menos dolorido suportar os ataques de um inimigo declarado do que ser afligido por quem diz ser amigo de verdade. “O mal do diabo faz menos mal que o mal dos amigos”, dizia um pregador. Assim como Jó, Davi sabia disso por experiência própria. Diz o salmista: “Com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim, pois dele eu me esconderia; mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo. Juntos andávamos, juntos nos entretínhamos e íamos com a multidão à Casa de Deus... A sua boca era mais macia que a manteiga, porém no coração havia guerra; as suas palavras eram mais brandas que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas” (Sl 55.12,13,21). Ser injuriado por quem chamava você de “meu amigo” é muito doído. A vontade que dá é de não perdoar jamais o infeliz. Mas a Bíblia ensina diferente. Ela diz que de coração devemos fazer o que Deus manda. Até o inimigo devemos amar (Mt 5.43-48).
II
A última prova de Jó consistiu, impreterivelmente, em ele interceder pelos amigos que tanto o insultaram. O próprio Deus diria a Elifaz, o temanita: “A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42.7). Numa leitura despretensiosa do livro de Jó, parece que os amigos dele disseram o que era justo acerca de Deus e que Jó, por sua vez, disse o que não era reto perante o Senhor. Mas foi justamente o contrário. Nem tudo o que os amigos de Jó diziam tinha sentido, eram somente “meias-verdades”. Por isso, toda vez que os amigos de Jó o acusavam, eles pecavam contra Deus. Peca-se contra Deus quando seus servos e servas são acusados injustamente. Jó não pecou contra Deus porque não atribuiu a ele falta alguma, foi sincero em suas queixas e sua consciência não o incriminava de pecado algum. Dizia ele que Deus não poupava a sua dor porque não negava as palavras do Santo (Jó 6.10; cf. 2.9,10). E mais: “Ensina-me, e eu me calarei; dai-me a entender em que tenho errado” (Jó 6.24). “Bem sabes tu que eu não sou culpado...” (Jó 10.7). “À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprova a minha consciência por qualquer dia da minha vida” (Jó 27.6).
Ser intercessor é muito mais que orar por alguém. É, na verdade, se colocar no lugar do outro e, em oração, sentir a dor dele. Jó não apenas orou por seus amigos. Ele os amou e clamou a Deus em favor deles, pondo-se no lugar de seus amigos como se ele próprio tivesse sua oração rejeitada por ter pecado contra Deus. Lembremos que Jó ainda não estava curado de sua enfermidade física quando foi chamado para a prática do ministério de intercessão (Jó 42.7-10). Contudo, o servo do Senhor estava fortalecido espiritualmente, pronto para exercer essa tarefa gloriosa, algo que ele já fazia em prol de seus filhos (Jó 1.5). Jó havia dito antes que agiria compassivamente se houvesse uma troca de papéis e ele estivesse no lugar de seus amigos importunos: “... poderia fortalecer-vos com as minhas palavras, e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor” (Jó 16.4,5). E ainda: “Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, a menos que tenha abandonado o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14).

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