quarta-feira, 24 de março de 2010

A última prova de Jó - Parte 2

Josivaldo de França Pereira

I
O que é preciso para ser um intercessor eficaz? Com Jó aprendemos que é preciso reconhecer a grandeza e soberania de Deus em todas as coisas: “Então, respondeu Jó ao SENHOR: Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.1,2). Penso que se não houvesse nenhum outro texto na Bíblia, apenas esse seria suficiente para combater a chamada “teologia aberta”, que ensina que Deus pode ser “surpreendido” pelo homem ou por alguma circunstância adversa. Uma grande heresia moderna! Deus não seria Deus se perdesse de vista um único átomo do universo. Deus pode tudo. Nenhum plano dele pode ser frustrado!
Para ser um intercessor eficaz, é necessário, ainda, o reconhecimento da condição humana perante Deus. Jó, aquele homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, que trazia à tona sua justiça para se defender perante Deus e os homens, diante da santidade e perfeição de Deus vai se achar o pior dos pecadores. Ninguém, por mais santo que seja, sustentará sua própria dignidade diante da majestade do Senhor. É verdade que ele já havia dito: “Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado? Por que não perdoas a minha transgressão e não tiras a minha iniqüidade?...” (Jó 7.20,21). E: “Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me perdoarás. Se for perverso, ai de mim! E, se for justo, não ouso levantar a cabeça, pois estou cheio de ignomínia e olho para a minha miséria” (Jó 10.14,15). Mas agora é diferente! Jó nunca havia se sentido assim antes. Como ele próprio viria a dizer: “... Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, cousas que eu não conhecia” (Jó 42.3). “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.5,6). Algo semelhante ocorreu com Isaías. Diante da visão celestial ele clamou: “... ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Is 6.5). O reconhecimento da grandeza de Deus coloca o ser humano em seu devido lugar.
Outro princípio importante para ser um intercessor eficaz é a disposição para dar um bom testemunho de Deus no meio da adversidade. Mesmo não compreendendo o que nos acontece, precisamos ter firmado no coração e na mente as palavras do apóstolo Paulo aos crentes de Roma: “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Por duas vezes o próprio Deus testemunhou acerca de Jó perante Satanás: “Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1.8; 2.3). São testemunhos que tratam do caráter de Jó, ou seja, o que Jó é e faz. Em Jó 42.7,8 por duas vezes Deus vai testemunhar a Elifaz e seus companheiros acerca do que Jó disse perante eles. “... porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”. Para dizer o que é reto e agradável ao Senhor, é preciso ter uma vida reta e agradável com Deus. Jesus disse que pelos frutos se conhece a árvore (Mt 7.20). “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mt 7.18). Jó não falou de si mesmo. Ele disse de Deus o que era reto. Deus testemunhou acerca de Jó e Jó testemunhou acerca de Deus.
II
O último fator relevante para ser um intercessor eficaz é ser um servo obediente ao Senhor aonde quer que vá. A acusação de Deus contra Elifaz e seus companheiros foi: “porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”. “Servo” significa “aquele que obedece a um senhor”. Jesus disse que “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24). Jó foi um homem riquíssimo que prosperou com a honestidade do trabalho e a bênção de Deus. Jó era servo do Deus altíssimo. Deus conhecia Jó e o chamava de “meu servo”. Só é chamado assim por Deus quem verdadeiramente o obedece. Servo desobediente é uma contradição de termos. Mais uma vez lembramos as palavras do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.21-23).
Somente quem reconhece a grandeza e soberania de Deus sobre todas as coisas; somente quem tem o reconhecimento de sua condição humana, a de pecador diante da santidade de Deus; somente quem está disposto a dar um bom testemunho cristão no meio da adversidade; somente quem é servo obediente ao seu Senhor estará apto para se colocar entre a brecha e interceder a Deus em favor do próximo, como a Igreja primitiva fez em favor de Pedro (At 12.5), o autor aos Hebreus recomendou em sua carta (Hb 13.3) e Jó que, sem ressentimento no coração, intercedeu pelos amigos que tanto o acusaram. Qual o resultado da intercessão de Jó? A Bíblia diz: “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42.10). Jó não terminou sua oração e, provavelmente, nem chegou a falar dele mesmo quando o Senhor começou a abençoá-lo. Muitas vezes Deus age em nós e por nós quando pensamos mais nos outros e “esquecemos” um pouco de nós mesmos. Jó tinha “razões” para olhar seu estado e fazer dele o tema central de sua oração. Podia chorar e lamentar, mas preferiu amar seus amigos ingratos e interceder por eles, conforme dissera o Senhor (Jó 42.7-9). Colocar-se no lugar de seus amigos, sentir compaixão deles e interceder de coração por eles foi a última prova de Jó, e ele passou no teste antes mesmo de terminar sua oração.
Há uma história sobre Diógenes Laércio, um filósofo grego do século III, relatando que ele saiu num dia ensolarado pela rua com uma lanterna acesa na mão. Ao ser indagado pela cena incomum, Diógenes respondeu que estava à procura de um homem honesto. Hoje, o nosso Deus também está à procura de homens e mulheres que, além de honestos, estejam dispostos a serem verdadeiros intercessores. Que tal você e eu? 

Nenhum comentário:

Postar um comentário