segunda-feira, 21 de junho de 2010

Atos: Dos Apóstolos ou do Espírito Santo?

Josivaldo de França Pereira

Escolher o título que melhor representasse o livro de Atos sempre foi motivo de muita discussão na história da Igreja. Atos, como todos os livros do Novo Testamento, não dispunha de um título original. Qualquer título posterior seria um acréscimo não inspirado, portanto, sujeito a questionamentos. Desse modo, qual seria o título mais apropriado? Atos dos Apóstolos (nome que tradicionalmente acompanha nossa Bíblia), Atos do Espírito Santo ou simplesmente Atos? Para cada uma dessas opções temos defensores e opositores.
O título Atos dos Apóstolos é o tradicional, portanto, o mais comum e aceito pela maioria dos cristãos. Ele foi adicionado à Bíblia por volta do século II, sendo apoiado pelos principais doutores da Igreja Primitiva como Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano. Entretanto, o título em questão apresenta uma irregularidade: Dos doze apóstolos registrados no capítulo 1, Lucas relata somente o ministério de Pedro. É verdade que João acompanha Pedro ao templo "para a oração da hora nona" (At 3.1) e em Samaria (At 8.14), mas Lucas não menciona nenhuma fala ou atos específicos de João. Tiago, o irmão de João, é citado, além de Atos 1.13, somente em 12.2 por ocasião de sua morte. Paulo, que aparece pela primeira vez no capítulo 8, vai ocupar cerca da metade do segundo livro de Lucas. Obviamente, o título Atos dos Apóstolos é amplo demais para os propósitos de seu autor.
O segundo título sugerido, isto é, Atos do Espírito Santo, tem recebido, nas últimas décadas, a preferência dos vários segmentos da igreja evangélica, especialmente por parte das igrejas neo-pentecostais e carismáticas. A ênfase atual na pessoa do Espírito Santo tem contribuído positivamente para a aceitação desse título até mesmo pelas igrejas históricas. Mas nem todos estão dispostos a aceitar o título Atos do Espírito Santo como sugestão ao segundo livro de Lucas. Simon J. Kistemaker, por exemplo, rejeita-o com o seguinte argumento: "Não obstante a ênfase de Lucas no derramamento do Espírito Santo em Jerusalém (2.1-4), Samaria (8.17), Cesaréia (10.44-46) e Éfeso (19.6), o conteúdo do livro é muito mais amplo que o título (Atos do Espírito Santo) propõe cobrir".
A menos que estejamos enganados, o argumento de Kistemaker para descartar o título Atos do Espírito Santo está na verdade favorecendo-o. A obra do Espírito Santo em Atos não está limitada apenas àqueles eventos que ele menciona. Para se ter uma ideia, somente o nome completo “Espírito Santo” é empregado por Lucas pelo menos onze vezes em seu Evangelho e quarenta e três vezes em Atos! O próprio Kistemaker faz comentários excelentes das passagens pneumatológicas de Atos que ele não menciona no argumento acima. Diz ele ainda que uma vez que em Atos Jesus continua a sua obra (cf. At 1.1), "A ênfase, então, não recai tanto sobre o Espírito mas antes no que Jesus está realizando na igreja em Jerusalém, Samaria, Ásia Menor, Grécia e Itália". Correto, porém, não devemos esquecer (sem diminuirmos de forma alguma o valor e a importância da pessoa e obra de Cristo) que no segundo livro de Lucas os atos do Senhor Jesus são realizados pelo Espírito Santo ("o Espírito de Jesus" como Lucas o denomina em Atos 16.7), conforme o Mestre havia, em algumas ocasiões, prometido a seus discípulos (At 1.4; cf. Lc 24.49).
O livro de Atos é um tratado acerca da origem e expansão da igreja neotestamentária sob o comando do Espírito Santo, que por sua vez utilizou homens e mulheres como instrumentos de propagação do evangelho de Jesus Cristo.
Por último, a opção em designar o livro simplesmente como Atos evita, de certo modo, as objeções levantadas contra todos os nomes propostos para o segundo livro de Lucas, além de preservar a palavra que a maioria dos títulos carrega. Contudo, apesar de parecer atraente pela sua brevidade, Atos é um título deveras vago e sem sentido.[1]


[1] Para uma compreensão melhor do que foi dito aqui, veja meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Editora Descoberta, 2002.

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