sexta-feira, 23 de julho de 2010

A criança no reino de Deus

Josivaldo de França Pereira

"Então, lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava."
(Mc 10.13-16)

A passagem supracitada aparece também nos registros de Mateus e Lucas. João a omite, certamente por uma questão de propósito. Entendemos que cada evangelista procurava relatar, de tudo quanto Jesus dizia, o que era mais relevante à situação de seus leitores originais.[1]
I
Marcos, apesar de entre os quatro escritores ser o autor do Evangelho mais curto, costuma enriquecer com mais detalhes os ensinamentos de Jesus. Nesta passagem (Mc 10.13-16) seu relato é mais longo, além de ser o único escritor a sublinhar o que Jesus sentiu quando os discípulos repreendiam aos que "lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse". Diz ele que Jesus "indignou-se" (eganáktesen). Somente aqui se usa esta palavra indicando ira, com respeito a Jesus. "Com certeza a indignação de nosso Senhor era um complemento de seu amor. Estava indignado com seus discípulos porque amava de forma mui profunda e terna os pequeninos e aos que os traziam".[2]
Os discípulos subestimaram o valor das crianças e ignoraram a verdadeira natureza do reino de Deus. Não é preciso que a criança chegue primeiro à vida adulta para poder participar do reino; ao contrário, é o adulto que precisa se converter e se tornar como criança para entrar nele (cf. Mt 18.2-4).
O exemplo da criança não salienta a inocência nem a humildade dela, mas sua receptividade e dependência. Semelhantemente, Jesus não está dizendo que seus discípulos devem imitar "qualidades infantis" como inocência, pureza ou humildade. O que Jesus quis ensinar é que o reino de Deus não é ganho ou comprado por obras ou merecimento. É necessário "receber o reino de Deus" como dádiva, como a criança que recebe um presente de um adulto responsável. Assim, devemos receber o reino de Deus do mesmo modo como uma criança recebe alguma coisa. Da mesma forma que a criança é receptiva e dependente, devemos confiar em Deus e receber dele o reino como um dom de sua graça.
II
Os discípulos não repreendiam diretamente as crianças, mas isso não os tornou menos culpados perante Jesus. Para o Mestre, repreender aqueles que querem trazer a ele suas crianças é o mesmo que rejeitar as próprias crianças. Mais que isso, é impedi-las de entrar no reino de Deus.
Por que os discípulos os repreendiam? Provavelmente por acharem que o Mestre estava cansado e não queria ser incomodado e/ou porque pensassem que as crianças (paida, podem ter entre oito dias e doze anos) eram muito jovens para entender a Jesus, pois os meninos judeus só poderiam tomar sobre si a responsabilidade de cumprir a Lei aos treze anos.[3] Um ditado rabínico dizia que dar atenção às crianças "era uma perniciosa perda de tempo".
Na época do Novo Testamento os adultos normalmente ignoravam as crianças. As crianças eram consideradas insignificantes e indignas de atenção; não podiam reivindicar coisa alguma. Podiam somente receber o que lhes era oferecido pelos adultos. Naquela cultura as crianças não eram valorizadas. Jesus, no entanto, ficou indignado com seus discípulos, porque ele valoriza as crianças. "Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus", disse Jesus. A atitude dos discípulos desagradou a Jesus porque ele é o amigo número 1 das crianças e sempre terá tempo para elas. Cristo ama as criancinhas. Ele as toma nos braços e as abençoa.
III
Mulholland comenta: "A desumanização da criança, tão comum na antiguidade, tem paralelo no abuso e no abandono de crianças de hoje".[4] São aterradoras as constantes notícias de exploração infantil em todos os sentidos. Da babá espancadora ao pai e mãe desalmados, do narcotraficante ao governo déspota que a utiliza como mero instrumento de guerra, do explorador da mão-de-obra barata ao pároco pedófilo depravado.
E nós, evangélicos, estamos honrando nossas crianças como deveríamos? Estamos aproximando nossas crianças do reino ou as afastamos dele com nossas palavras e exemplos? Na escola dominical elas estão nas melhores salas e com os melhores professores? Há espaço para elas no culto público da igreja? Inculcamos em suas cabecinhas a Palavra do Senhor (cf. Dt 6.7) e as ensinamos no caminho em que devem andar (cf. Pv 22.6)? Oramos com elas e por elas? Levamos a sério o culto doméstico? Enfim, o reino de Deus está sendo investido no coração de nossos filhos?
Muitas vezes vislumbramos um futuro profissional promissor para os nossos filhos, o que em si não é errado, mas lamentavelmente nem sempre temos a mesma disposição quando o assunto é o investimento de suas vidas no reino de Deus.
Pais crentes que pouco oram e leem a Bíblia com seus filhos, que vão esporadicamente à igreja e acham que faltar na escola dominical e/ou no culto vespertino não tem tanto problema, não avançam na vida cristã e pouco contribuem para o progresso espiritual da família. Nossos filhos desejam e precisam ver em nós seriedade e compromisso com as coisas de Deus. Quer seja na igreja, fora dela, e principalmente em casa.


[1] Cf. Dewey M. MULHOLLAND, Marcos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, s/d, p. 158.
[2] Cf. G. HENDRIKSEN, El Evangelio Según San Marcos. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 397.
[3] Op. cit., p. 158.
[4] Idem, p. 159.

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