domingo, 1 de agosto de 2010

As bênçãos do presente e do porvir no Breve Catecismo de Westiminster - I

Josivaldo de França Pereira


Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
O tema proposto divide-se em duas partes distintas. A primeira parte trata das bênçãos nesta vida; a segunda, das bênçãos referentes ao momento da morte e à vida no além.

I. AS BENÇÃOS DO PRESENTE

Quanto às bênçãos nesta vida, o Breve Catecismo pergunta: “Quais são as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação ou delas procedem?” (Pergunta 36). A resposta são os seguintes tópicos:
1.   A certeza do amor de Deus
Entendemos por “bênção” tudo de bom que nos é concedido pelo favor imerecido de Deus. E a certeza do seu amor para conosco é uma das maiores bênçãos que o ser humano poderia receber.
Apesar de termos sido merecedores da justa ira de Deus, fomos objetos da maior prova do amor de Deus. “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). E é no relacionamento paternal de Deus para conosco que contemplamos com mais nitidez a profundidade desse amor (1Jo 3.1; 4.9). “Quanto melhor conhecemos seu amor – seu caráter, plenitude, bem-aventurança – mais forte será o impulso de nossos corações em amá-lo” (A. W. Pink). Porém, por mais que amemos a Deus, jamais conseguiremos compreender adequadamente a grandeza do seu amor. Quando João relata sobre o amor de Deus que o impulsionou a dar o seu Filho Unigênito ao mundo, usa a expressão “tal maneira” (Jo 3.16). Quando fala da grandeza do amor do Pai para conosco utiliza a expressão “quão grande” (1Jo 3.1, cf. ARC). O amor de Deus é incomparável! “Há nele uma profundidade que ninguém consegue sondar; há nele uma altitude que ninguém consegue escalar; há nele uma largura e um comprimento que desdenhosamente desafia a medição feita por todo e qualquer padrão humano” (Pink).
Quero concluir este item apresentando uma abordagem prática do amor de Deus, segundo J. I. Packer, que reflete bem o pensamento da Assembleia de Westminster:
“É verdade que Deus é amor para mim como cristão? E o amor de Deus é realmente tudo isso que foi dito? Se assim for, surgem algumas dúvidas.
Por que eu sempre reclamo e mostro descontentamento diante das circunstâncias nas quais Deus me colocou?
Por que estou sempre desconfiado, atemorizado ou deprimido?
Por que sempre me permito ficar frio, formal, e pouco dedicado ao serviço do Deus que me ama tanto?
Por que permito que minha lealdade se divida, de modo que Deus não tem todo o meu coração?”
2.   A paz de consciência
A paz de consciência é um dos resultados da certeza do amor de Deus. Saber que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e que agora “temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1), nos dá uma tranquilidade muito grande. E não poderia ser diferente, porque “a paz de Deus, necessariamente, tem que sossegar nossas mentes e dar descanso a nossos corações” (A. B. Simpson).
Era esta paz com Deus, que excede todo o entendimento e guarda as nossas mentes em Cristo Jesus (cf. Fp 4.7), que inundava o coração de Paulo e Silas, pois mesmo depois de serem açoitados, lançados no cárcere, e estando com os pés presos no tronco, ainda “oravam e cantavam louvores a Deus” (At 16.25). Foi essa sensação gostosa de dever cumprido que permitiu o sono tranquilo de Pedro, mesmo preso. “Quando Herodes estava para apresentá-lo (aos judeus), naquela mesma noite Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o cárcere” (At 12.6).
O mundo não sabe o que é esta paz. O mundo não sabe o que é ter esta paz (Is 48.22; 57.21). Disse Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). A paz do mundo é circunstancial e externa. “A verdadeira paz é uma bênção do evangelho, e somente do evangelho” (T. Guthrie). Portanto, compete à Igreja de Cristo, aos filhos e filhas de Deus, anunciar ao mundo o Príncipe da Paz (Is 9.6).
3. A alegria no Espírito Santo
A expressão “alegria no Espírito Santo” aparece somente em Romanos. Faz parte daquele versículo que diz: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
A alegria do crente não é apenas “no” Espírito, mas também “do” Espírito. É fruto do Espírito Santo (Gl 5.22). Assim como a paz de Cristo não é dada como o mundo a dá (Jo 14.27), a alegria, biblicamente falando, está reservada para os salvos. Por isso Paulo recomendou: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos” (Fp 4.4). E Pedro fala da atitude dos crentes para com Cristo assim: “a quem, não havendo visto amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). No entanto, em que consiste a alegria no Espírito ou em Cristo? Ela é “o resultado da presença direta de Cristo, de um sentimento de bem-estar nele e um sentimento de conformidade para tudo que vier” (Abbott).
Contudo, se a alegria é fruto do Espírito Santo e devemos nos alegrar nele e em Cristo, por que há tão pouca alegria na vida de muitos crentes? É lamentável quando verificamos que em boa parte dos crentes (para não dizer a maioria) existe uma predominância assustadora de tristeza. Crentes zangados, aborrecidos, nervosos... Onde está a alegria no Espírito que oferece bênçãos sobre bênçãos pelos méritos de Cristo? Quando folheamos a história da Igreja nos tempos do Novo Testamento, encontramos uma Igreja eminentemente feliz (Veja, por exemplo, At 2.46). O que está acontecendo hoje? Por que as igrejas já não são tão alegres? Considerando que a alegria do Senhor é a nossa força (Ne 8,10), que devemos nos alegrar sempre no Senhor (Fp 4.4), mas que o pecado entristece o Espírito de Deus (Ef 4.30), é provável que tenhamos respondido todas essas indagações.
4.   Aumento e perseverança na graça
O crescimento e perseverança na graça, ou seja, o “aumento de graça e perseverança nela até ao fim”, são dons do Espírito Santo. São bênçãos garantidas por ele durante todo o tempo que estivermos neste mundo. O Espírito que em nós habita nos habilita nessa progressão espiritual.
Por “aumento e perseverança na graça” entendemos que é uma ação constante do Espírito Santo no crente, assegurando-lhe a permanência e o desenvolvimento dos frutos da redenção, aperfeiçoando-o na eternidade. De acordo com a Bíblia, os salvos em Cristo nunca, jamais cairão do estado de graça de modo total e definitivo (Jo 6.39, 44; 10.28, 29; Fp 1.6). “Nada os pode separar do eterno e imutável amor de Deus. Foram predestinados para a glória eterna e estão, portanto, assegurados para o céu” (Steele e Curtis).
As passagens bíblicas que aparentemente contradizem a perseverança na graça são, na verdade, advertências para que andemos de modo digno do Senhor. Ignorando essa distinção, o arminianismo (movimento religioso surgido no século XVII) ensina que aqueles que creem e são verdadeiramente salvos, podem perder a salvação. Entretanto, nem todos os arminianos concordam com isso. Alguns defendem que os salvos estão eternamente seguros em Cristo no poder do Espírito Santo. Este último ponto de vista concorda com o ensino bíblico calvinista. O calvinismo afirma que “todos aqueles que são escolhidos por Deus e a quem o Espírito concedeu a fé, são eternamente salvos. São mantidos na fé pelo poder do Deus Todo Poderoso e nela perseveram até o fim” (Steele e Curtis).
O Deus que nos salvou, de uma vez por todas, nos conduzirá em triunfo até o fim. Glória a Deus!

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