quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gritos na escuridão

Josivaldo de França Pereira

De repente um alvoroço de vozes e passos retumbantes de muita gente ecoaram nos ouvidos do cego Bartimeu. “O que está acontecendo?”, indagava o pobre homem que, assentado à beira do caminho, arriscava-se a ser pisoteado pela turba alvoraçada de Jericó. “É Jesus!”, disseram alguns. O Mestre não passava despercebido por onde quer que andasse.
“Jesus!”. O mendigo das empoeiradas ruas de Jericó já ouvira falar nesse nome. Era o mesmo Jesus dos sinais e maravilhas, das palavras poderosas e cheias de vida. Era o mesmo Jesus de Nazaré a quem Bartimeu nunca vira, mas sabia do que ele era capaz de fazer em seu favor.
Quanto tempo Bartimeu esperava por isso? Quantas súplicas esse homem não fizera a Deus? E sem perder mais um minuto sequer, em meio às trevas que roubara a sua visão, mas não a sua voz, clama com toda força a quem podia lhe dar luz: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Ele estava aflito e desesperado, e rogava com fé e esperança, tentando adivinhar a direção em que Jesus se encontrava. Até então não podia saber se o Mestre falava ou se ele estava calado. Bartimeu ouvia a voz da multidão, e por isso sabia que Jesus ainda estava por perto. Aquele homem não via nada, mas pela fé “via” Jesus. Não via a multidão, mas “viu” Jesus. E insistia, gritando ainda mais alto: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”.
Bartimeu sabia o que queria. Quem sabe do que realmente precisa não desiste de lutar. O sofredor conhece a sua própria dor. E como a oportunidade nem sempre se repete, o cego clamava: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”. Os que iam à frente repreendiam o pobre homem para que se calasse. Uma caricatura da sociedade hipócrita e preconceituosa. Daqueles que dizem muitas vezes serem religiosos, que parecem tão próximos de Cristo, mas se comportam como se o Senhor fizesse pouco caso dos pobres e marginalizados deste mundo. Afinal de contas, o que é um mendigo a mais ou a menos? Jesus se importa com quem não tem vez, com quem está à margem da sociedade por não ter o “perfil” social que agrada aos olhos da soberba e arrogância do ser humano. Só damos valor a alguém quando acreditamos que ele também pode ser amado por Jesus. O que disso passar é retórica religiosa.
Por um momento Jesus se “esquece” da multidão e se “lembra” do pobre Bartimeu. Jesus manda buscá-lo. Não sabemos a quem Jesus mandou. Não conhecemos o nome e nem quantos foram chamar o mendigo. O importante é obedecer à voz do Mestre e aquele homem precisava de ajuda. O Senhor não faz por nós o que podemos fazer para ele.
A grande multidão contrastava com o solitário e cego mendigo, sentado abjetamente à beira da estrada. Contudo, Jesus não se esqueceu daquele que clamava no deserto de sua solidão. Para Deus uma única vida vale muito! Não temos como dimensionar a grandeza do amor de Deus por uma única e mísera pessoa. Ele alcança a quem aparentemente nunca poderia ser alvo de misericórdia e compaixão. “Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama”. Sim, o Filho de Davi ouviu os gritos do pobre homem que desesperadamente clamava por socorro. Não foi preciso repetir o recado. Sem vacilar o cego salta do pó da terra como a Fênix que ressurge das cinzas para a vida. Estava radiante de alegria porque sabia que chegou a hora de receber o milagre tão esperado.
Bartimeu lançou ao chão sua capa, seu abrigo das noites frias, proteção contra as intempéries do dia a dia. Era algo de valor para ele, mas ele a deixou para traz em troca de um valor superior. Como a samaritana que abandonou seu cântaro para anunciar Jesus aos seus conterrâneos, e como Paulo que largou tudo por amor a Cristo, Bartimeu lançou de si a capa na certeza de que não mais voltaria para buscá-la. O Mestre estava ali e queria falar com ele. Quê convite glorioso! Por isso, quando Jesus manda chamá-lo ele não perde tempo. Não podia deixar passar sua grande oportunidade de se encontrar com Jesus e pedir a ele aquilo que mais necessitava, - a visão. “Que queres que eu te faça?”, pergunta o compassivo Mestre. Certamente Jesus sabe o que um cego mais deseja; contudo, queria que ele mesmo pedisse. “Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E, imediatamente, tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora”.
Pela fé Bartimeu contemplou sua cura mesmo antes de recebê-la. Assim, querido irmão, caríssima irmã, clame ao Senhor! Não há treva tão intensa que não possa ser dissipada pela sua gloriosa luz.

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