sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Exigências da compaixão: o bom samaritano

(A mensagem de Lucas 10.33-35)

Josivaldo de França Pereira


Aurélio define compaixão como: “Pesar que nos desperta a desgraça, a dor, de outrem; dó, comiseração, piedade”. Isso e muito mais foi sentido pelo samaritano, ao ver um homem semimorto no caminho que vai de Jerusalém a Jericó. O homem tinha sido brutalmente espancado por salteadores. Um sacerdote e um levita tinham acabado de passar por ali, porém, ignoraram completamente o pobre homem. Quanto ao samaritano não sabemos o destino dele. Certamente ele não vinha de Jerusalém e nem ia para Jericó.[1] Jesus diz apenas que o samaritano “seguia o seu caminho” quando “passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele” (Lc 10.33). O samaritano não se limitou em contemplar aquela cena degradante, dizendo em seu coração: “Coitado, pobre homem”. Não! O ponto alto desta história é a compaixão em ação, pois nisso consiste o verdadeiro amor ao próximo. A compaixão é exigente, contudo, ela exige de nós menos do que geralmente imaginamos.

A compaixão exige um pouco do nosso tempo

O bom samaritano deixou de seguir seu caminho para assistir ao homem ferido. Não quis saber se este era judeu, gentio ou um conterrâneo seu. Ali estava um ser humano necessitado de ajuda. O texto nos diz que o samaritano tinha um animal, talvez um jumento, um meio de transporte muito comum na época. Tudo indica que ao avistar o homem caído na estrada ele desceu imediatamente do animal, interrompendo sua jornada de trabalho para acudir ao moribundo. Que o samaritano era uma pessoa ocupada e que tinha coisas importantes para fazer, percebe-se no verso 35. Ele pediu que o dono da hospedaria cuidasse do enfermo para ele, mas deixou claro que voltaria em breve. Talvez ele nem encontrasse mais o homem que, convalescido, seguiria seu caminho.

Aprendemos com o bom samaritano que o corre-corre da vida não é desculpa para deixarmos de fazer o bem. Na verdade, muitas vezes temos uma agenda apertada porque usamos mal o nosso tempo, desperdiçando as nossas horas com trivialidades banais. O nosso tempo rende quando é investido no bem-estar das pessoas.

A compaixão exige um pouco do nosso conforto

O bom samaritano abriu mão do seu próprio conforto para ajudar um homem que ele não conhecia. O importante para ele era socorrer aquela pessoa carente de cuidados. Ele deixou o conforto do seu caminho, e talvez estivesse viajando horas ou mesmo dias. Estava cansado, aguardando ansiosamente o momento de chegar em casa, rever sua família e amigos. No entanto, o samaritano abriu mão desse conforto também. Mas isso não é tudo. Ele abriu mão do seu próprio meio de transporte. A Bíblia diz que ele colocou o homem “sobre o seu próprio animal”, sugerindo que o samaritano seguiu a pé, caminhando ao lado de seu jumento, amparando o homem tragicamente ferido, até chegarem na hospedaria. Mas também isso não é tudo. Chegando na hospedaria ele ainda cuidou pessoalmente do enfermo. A hospedaria não foi um lugar de descanso para o samaritano. Foi para o enfermo. Supomos que o samaritano passou a noite em claro, ou quase isso, preocupado com o doente da cama vizinha.

Aprendemos com o bom samaritano que para fazer o bem, às vezes, é preciso deixar o conforto pessoal um pouco de lado. Precisamos sair do aconchego do lar, da acomodação de nossas igrejas para andar, digamos, “uma milha” com aqueles que precisam dum pouquinho de nós.

A compaixão exige um pouco dos nossos recursos

O samaritano usou o óleo (azeite) e o vinho que trazia consigo. O azeite e o vinho eram fontes de alimento e também serviam como primeiros socorros nos tempos antigos. Usava-se o azeite como paliativo e o vinho como antisséptico. Diante da gravidade do enfermo, é possível que o samaritano tivesse usado todo azeite e vinho com o tratamento do homem. Além disso, embora o texto não diga claramente, subtende-se que ele se dispôs a doar alguma peça de roupa também. Jesus disse que os salteadores roubaram “tudo” daquele homem. A NVI é muito feliz na tradução de Lucas 10.30 quando diz: “Estes lhe tiraram as roupas”.[2] Entretanto, isso ainda não é tudo, porque o bom samaritano usou seu próprio dinheiro no cuidado do homem. As duas moedas de prata que o samaritano deu para o dono da hospedaria eram suficientes para pagar o alojamento e a comida por vários dias. E como não bastasse, disse ao dono da hospedaria que qualquer gasto adicional com o enfermo seria pago por ele mesmo (o samaritano) quando retornasse.

Aprendemos com o bom samaritano que a vida do próximo tem valor. Não sabemos da condição financeira do samaritano. Talvez as duas moedas fossem todo o seu sustento naquela ocasião; indicando, assim, que uma boa condição financeira não é pré-requisito para socorrer alguém. Que o digam as igrejas da Macedônia que se ofereceram para ajudar os pobres da Judeia (cf. 2Co 8.1-4)!

Concluindo:

O bom samaritano socorreu um homem com muitos ferimentos e se empenhou para vê-lo completamente curado. Fez isso simplesmente por ter um coração compassivo. Dedicou um pouco do seu tempo, abriu mão do conforto do lar, dos amigos e de uma boa noite de sono, além de usar recursos pessoais e financeiros para atender quem mais precisava dele naquele momento.

E você, meu irmão, minha irmã, tem cumprido as exigências da compaixão?



[1] Jerusalém e Jericó eram as duas cidades com a maior concentração de judeus nos tempos bíblicos. Um samaritano não era bem-vindo em nenhuma dessas cidades.

[2] Para outras traduções semelhantes em português veja a Bíblia na Linguagem de Hoje e O Novo Testamento Vivo.

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