segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Salomão: o sábio que a filosofia desconhece

Josivaldo de França Pereira


Salomão foi o homem mais sábio do mundo. Era filho do rei Davi e sucessor ao trono do pai. Em sua oração pediu a Deus sabedoria para conduzir com prudência e justiça o povo de Israel. “Estas palavras agradaram ao Senhor, por haver Salomão pedido tal cousa. Disse-lhe Deus: Já que pediste esta cousa e não pediste longevidade, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos; mas pediste entendimento, para discernires o que é justo; eis que faço segundo as tuas palavras: dou-te coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá” (1Rs 3.10-12). Nunca houve na terra, antes ou depois de Salomão (com exceção de Jesus Cristo [Mt 12.42; Lc 11.31]), alguém tão sábio como ele. Sócrates, Platão e Aristóteles e todos os filósofos que vieram antes ou depois deles não sobrepujaram Salomão em sabedoria.

A Bíblia relata: “Deu também Deus a Salomão sabedoria, grandíssimo entendimento e larga inteligência como a areia que está na praia do mar. Era a sabedoria de Salomão maior do que a de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. Era mais sábio do que todos os homens, mais sábio do que Etã, ezraíta, e do que Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol; e correu a sua fama por todas as nações em redor. Compôs três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Discorreu sobre as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes. De todos os povos vinha gente a ouvir a sabedoria de Salomão, e também enviados de todos os reis da terra que tinham ouvido da sua sabedoria” (1Rs 4.29-34).

O episódio clássico da sabedoria de Salomão é o julgamento da causa de duas mulheres, onde cada uma alegava ser a mãe da mesma criança. Salomão propôs que o menino fosse cortado ao meio quando a verdadeira mãe se manifestou, implorando ao rei que não fizesse isso, mas que entregasse a criança à falsa mãe; esta, por sua vez, insistia que o menino fosse dividido ao meio (1Rs 3.16-26). “Então, respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo; não o mateis, porque esta é sua mãe. Todo o Israel ouviu a sentença que o rei havia proferido; e todos tiveram profundo respeito ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça” (1Rs 3.27,28).

Como pode o homem mais sábio do mundo ser ignorado pela filosofia contemporânea? Por que a filosofia não faz menção de Salomão e de sua grande sabedoria? Por que os livros de sabedoria da Bíblia não são estudados pela filosofia? Algumas indicações “justificam” essa posição.

A filosofia é grega. A filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um fato tipicamente grego. Isso não quer dizer, evidentemente, que outros povos, tão antigos quanto os gregos não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que os outros povos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem. Quando se diz que a filosofia é um fato grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas, isto é, são diferentes do padrão de pensamento e de explicação que foi criado pelos gregos a partir do século VII a. C., época em que nasce a filosofia.[1] Contudo, o sistema filosófico grego é deficiente, como podemos ver no tópico seguinte.

A filosofia é mitológica. Não que a filosofia propriamente seja um mito. Na verdade a filosofia rompeu com a mitologia antiga. O problema é que as coisas que não são racionalmente explicadas, ou seja, conhecimentos misteriosos e secretos que precisariam ser revelados por divindades e não os conhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade, pode alcançar, são classificadas como mito, ou seja, uma história fictícia. Para a filosofia Adão e Eva e a Caixa de Pandora são histórias distintas com um final em comum: a tragédia humana. Por que a filosofia afirma com tanta frequência que a Bíblia está repleta de mitos? Por causa das descrições paralelas com a mitologia grega e de outros povos. A história de Adão e Eva lembra a de Pandora; as descrições paralelas de acontecimentos como o Dilúvio sob a perspectiva bíblica, às da mitologia babilônica; a existência de semelhanças entre os evangelhos que cercam Jesus e as imagens de deuses da mitologia grega, também. De igual modo, alguém como Salomão, que em sonho falou com Deus e recebeu deste sabedoria, é um mito, segundo a filosofia grega, bem como os livros sapienciais atribuídos a ele. “O ponto central da diferença entre a mitologia grega e a literatura bíblica é uma perspectiva radicalmente diversa da relevância da história. (...). Esta visão radicalmente oposta da história é essencial para compreender a antítese greco-judaica com respeito à questão do mito”.[2] A pergunta que se faz é: tem a filosofia algum valor? É claro que tem. A filosofia é uma forma de exercício intelectual. Ela fornece elementos de grande valor para uma análise crítica. Portanto, em si mesma a filosofia não é uma coisa má. O perigo são os filósofos. Por isso, é preciso que mais professores que amam a Deus e a Bíblia assumam o compromisso de lecionar filosofia, extraindo dela o que há de melhor para a formação de bons cidadãos.

CONCLUINDO:

A filosofia é uma criação humana, portanto, ela não é um sistema completo e infalível. “... nenhum sistema de filosofia já se revelou completo e perfeito”.[3] Um exemplo é o próprio Salomão ter ficado à margem das discussões filosóficas. Você encontrará opiniões valiosas em Spinoza, Kant, Sartre e outros, mas nenhum deles parece ter uma visão coerente da vida e do mundo como a que encontramos em Provérbios e Eclesiastes, por exemplo. Os próprios filósofos são seus melhores críticos. Hume criticou Locke; Kant criticou Hume; Hegel criticou Kant, e assim por diante. Não há “resultado seguro” mediante meras especulações filosóficas.[4]

O discurso de Paulo não foi bem aceito no Areópago de Atenas. Por quê? Porque a mensagem da cruz era loucura para os gregos, disse o apóstolo.



[1] Cf. Marilena Chauí, Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 18,19.

[2] R. C. Sproul, Razão Para Crer. 2ª Ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991, p. 17.

[3] Colin Brown, Filosofia e Fé Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p. 183.

[4] Sproul, p. 12.

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