quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Memória de João Calvino

Josivaldo de França Pereira

O primeiro biógrafo e sucessor imediato de João Calvino (1509-1564) em Genebra, o erudito Theodoro de Beza (1519-1605), fez o seguinte relato acerca da memória do Reformador:

Deixo de falar da grandeza de seu saber, do maravilhoso bom senso que nele havia, da singular complacência que revela no acomodar-se até aos mais pequeninos quanto necessidade havia, da afabilidade em suportar as fraquezas e as imperfeições aos outros, pois que seria isso um propósito quase sem fim. Tocarei somente na admirável excelência de sua memória, não que ele dela fizesse alarde, como se vê de embusteiros da atualidade que tanto se empenham em ter boa memória que se não importam em formar seu judicioso discernimento. Calvino, porém, tinha uma e outro bem equilibrados, e tudo acompanhado de mui profunda simplicidade.

Se é, pois, questão das coisas que havia outrora visto, seja em França, seja na Itália e Alemanha, quando isso vinha a propósito, disso sabia falar, particularmente em se tratando dos lugares e das pessoas, e disso auferia vantagem. Quanto aos interesses e causas desta igreja, e mesmo da República, quanto sua vocação o podia comportar, disso sabia na ponta do dedo, até mesmo nas mais insignificantes minúcias. No próprio consistório, pessoas se achavam que foram chamadas por alguma falta nova, às quais convencia de haverem sido convocadas anteriormente, referindo-lhes as evidências e rememorando as causas, e, ainda que fossem coisas passadas, havia sete, e dez, e doze anos, no entanto, consultados os registros do consistório, achava-se que era exatamente como ele afirmava. Em matéria de doutrina ou história, em suma, daquilo que havia lido outrora, era o mesmo, como bem o sabem quantos o hão ouvido atenciosamente, muito mais aqueles que com ele privaram mais intimamente. Em preparando suas preleções, jamais tinha diante de si senão o simples texto da Escritura e, contudo, vê-se como são coisas caracterizadas pelo apuro e boa forma. Mesmo quando prelecionava sobre Daniel, alguns anos antes de sua morte, embora em certas passagens tivesse muitas histórias a expor, como se vê que ele fez, não tinha nunca nenhum papel diante de si para ajudar-lhe a memória. E não era que houvesse tomado muito tempo para meditar sobre suas preleções, pois que, até mesmo quando o desejava fazer, não dispunha ele do necessário lazer. E, na verdade, o mais freqüentemente não tinha boa hora para preparar-se. Tinha ele, porém, um espírito a tal ponto afortunado, e de tão grande discernimento era dotado, que aprendia de relance o que lia e, de todo, o assimilava muito bem. Depois, a memória a tudo guardava fielmente. Aduzirei, ainda, uma outra evidência de sua admirável memória, que se via todos os dias: se estivesse a ditar e alguém sobreviesse para com ele falar, ou meia-hora, ou uma hora, mais freqüentemente vinha do lugar onde estava para atendê-lo e prolongava a conversa despreocupadamente, sem levar em conta o mister precedente, seja que ditasse cartas, ou comentário, ou outra coisa.[1]



[1] Theodoro de Beza. A vida e a morte de João Calvino. Trad. por Waldir Carvalho Luz. Campinas-SP: LPC, 2006, p. 107,8.

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