sábado, 9 de outubro de 2010

O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA

Josivaldo de França Pereira

A fé e o arrependimento são os dois elementos da conversão. Não há salvação onde a fé esteja desassociada do arrependimento. John Murray escreveu: "A fé, desassociada do arrependimento, de fato não seria a fé que conduz à salvação. (...) a fé sempre existe dentro de um contexto. O arrependimento faz parte integral desse contexto". A fé e o arrependimento são atos simultâneos da conversão, isto é, não existe separação cronológica entre eles. Podemos dizer que o pecador creu em Jesus porque se arrependeu de seus pecados ou, então, que o pecador se arrependeu de seus pecados porque creu em Jesus.

Mas o que é o arrependimento para a vida?

1. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É DOM DE DEUS

E não poderia ser diferente. Se a fé é dom de Deus para a salvação do pecador (cf. At 13.48; Ef 2.8; Fp 1.29; 2Tm 3.2; Tt 1.1), o arrependimento também precisa ser. Porque o arrependimento para a vida, do mesmo modo que a fé, "é uma graça salvadora".

A expressão "arrependimento para a vida" é extraída de Atos 11.18. Após a justificativa de Pedro, por ter pregado o evangelho aos gentios, Lucas registra a atitude dos irmãos da Igreja Primitiva assim: "E, ouvindo eles estas cousas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida". Note, é dito que o arrependimento para a vida "foi por Deus concedido". E a vida ou vida eterna, que é o objetivo do dom do arrependimento, é aquela qualidade inigualável de vida que só Deus pode dar. "Vida eterna não é simples existência eterna; significa existir com todas as faculdades desenvolvidas em plenitude de alegria. Não é existir como a erva seca, mas sim, como a flor em toda a sua beleza" (C. H. Spurgeon).

O tema do arrependimento para a vida como dom de Deus é abordado por Paulo, direta ou indiretamente, em todas as suas epístolas. Destaquemos dois exemplos. Escrevendo aos coríntios o apóstolo observa: "Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus... Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte" (2Co 7.9,10). Podemos ver na Bíblia casos de "tristeza segundo Deus", como por exemplo, Davi (2Sm 12.13; Sl 51), Pedro (Mc 14.72) e o apóstolo Paulo (At 9.1-22); e casos de "tristeza do mundo", como por exemplo, Esaú (Gn 27.1-40; Hb 12.15-17) e Judas Iscariotes (Mt 27.3-5). A tristeza segundo Deus leva o pecador a Cristo. A tristeza do mundo afasta o pecador de Cristo.

A outra passagem em que Paulo fala do arrependimento como dom de Deus é 2Timóteo 2.25: "Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade". Esse arrependimento para a vida é obra de Deus, no entanto, é também uma exigência de Deus ao pecador, visto que Deus não pode crer e muito menos se arrepender no lugar do pecador. O ser humano é moralmente responsável por seus atos perante o Senhor (cf. Tg 1.13-15).

2. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É MUDANÇA DE MENTE E DO CORAÇÃO

O Breve Catecismo de Westminster declara que "o pecador, tendo um verdadeiro sentimento do seu pecado e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de horror pelos seus pecados". Isso é verdade, principalmente quando compreendemos que todos os nossos atos passam primeiro pela nossa mente e coração. E o que isso significa, em termos práticos? "O que precisamos compreender", diz James Packer, "é que a consciência pesada do homem natural de forma alguma é a mesma coisa que convicção de pecado. (...). Convicção de pecado não é simplesmente sentir-se miserável por causa de si mesmo, de seus próprios fracassos e de sua incapacidade em enfrentar as exigências da vida. (...). Ficar convencido do pecado não é simplesmente sentir que se está em situação embaraçosa, mas perceber que se tem ofendido a Deus, zombando de sua autoridade, desafiando-o, opondo-se a ele, desagradando-o". Mudança de mente e de coração é isso.

Arrependimento que não produz uma profunda convicção de pecado não é arrependimento verdadeiro. Para que haja arrependimento de verdade é necessário que o pecador tenha "um verdadeiro sentimento do seu pecado". Quando foi a última vez que você ouviu uma pregação que levasse o pecador a se encher de tristeza e de horror pelos pecados dele? Por que esse tipo de pregação não é comum nas rádios e TV? Reflita sobre isso enquanto prosseguimos. Não pregar contra o pecado tem sido uma prática comum em nossos dias. O que é lamentável. Quando lemos as pregações do Novo Testamento verificamos que a chamada de pecadores ao arrependimento era o tema central.

Em seu livro O Evangelho Segundo Jesus, John MacArthur faz uma observação interessante: "O evangelho segundo Jesus é, antes de tudo, uma ordem ao arrependimento. (...). Desde o início do ministério de Jesus, o centro da sua mensagem foi a chamada ao arrependimento. De fato, quando o Senhor começou a pregar, a primeira palavra de sua mensagem foi ‘arrependei-vos’ (Mt 4.17). Esta foi também a primeira palavra da pregação de João Batista (Mt 3.2), e foi a própria base do evangelho pregado pelos apóstolos (At 3.19; 20.21; 26.20)". E ele conclui: "Qualquer que negligenciar a chamada dos pecadores ao arrependimento não estará pregando o evangelho segundo Jesus".

3. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É MUDANÇA DE ATITUDE

Quando um pecador abandona seus pecados, ele se volta para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe nova obediência. Jesus disse que é pelos frutos que se conhece a árvore (Mt 12.33). Isto é, a conduta de uma pessoa determina o que passa em sua mente e em seu coração. A mudança de comportamento do pecador para obedecer a Deus comprova que realmente houve uma transformação em seu ser. "É importantíssimo observar essa significação", diz Murray. "Pois o arrependimento consiste de uma radical transformação de pensamento, atitude e direção".

Paulo tinha esta "mudança de atitude" em mente quando descreveu a nova vida dos tessalonicenses. "Deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro" (1Ts 1.9). Veja os três elementos do arrependimento: voltar-se para Deus; abandonar o erro; propor-se a servir a Deus. É importante destacar que na língua grega os verbos "deixar", "converter" e "servir" de 1Tessalonicenses 1.9 estão no tempo aoristo. E o que isso significa? Significa que o que aconteceu na vida dos tessalonicenses foi um ato completo, acabado e definitivo, iniciado pelo próprio Deus.

Como mudança de atitude o arrependimento para a vida é "um redirecionamento da vontade humana, uma decisão propositada de abandonar toda injustiça e em seu lugar buscar a retidão" (MacArthur). A Bíblia diz: "O que encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Pv 28.13). A sua mente, o seu coração e as suas atitudes comprovam que você é verdadeiramente convertido? Poderia relacionar alguns pontos que confirmam o seu arrependimento para a vida?

Que Deus o abençoe e ajude a você e a mim.

2 comentários:

  1. Shalom!

    Parabéns pela linda exposição. Deixo duas pérolas sobre o arrependimento:

    "Pecado e inferno estão casados, a não ser que o ARREPENDIMENTO (enfâse minha) anuncie o divórcio" Spurgeon

    "Sempre que Deus pretende dar vida, ele dá arrependimento" Matthew Henry

    Nele e para a glória Dele,

    Pr Marcello de Oliveira

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  2. Tudo bem meu amigo? É sempre bom e agradável receber sua visita.
    Realmente são duas pérolas mesmo!
    Obrigado e um forte abraço do amigo Josivaldo.

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