domingo, 3 de outubro de 2010

O Domínio do Ser Humano sobre a Criação

Josivaldo de França Pereira


A imagem de Deus imputada na pessoa, a de “reinar” ou “dominar”, que é constatada em Gênesis 1.26, é elaborada logo depois nos versículos 27 e 28. O versículo 27 esclarece que esta tarefa pertence ao homem e à mulher. Somente os dois juntos realizam a primeira ordenança de Deus, e nenhum dos dois separadamente é capaz de realizá-la de maneira completa (cf. Gn 2.18). Juntos, homem e mulher, tornam-se o mais completo reflexo da imagem de Deus. Deus criou o homem macho e fêmea e lhes chamou pelo nome de "Adão" (Gn 5.1,2).[1]

Como o versículo 27 esclarece quanto aos sujeitos da imagem de Deus no ser humano, o versículo 28 o faz quanto ao conteúdo da função dada de “dominar” a criação. Elabora a imagem de Deus no ser humano em três áreas de responsabilidade e administração: a sua experiência social e familiar (“multiplicar”, “encher”, “dar nome”); a sua responsabilidade econômica e ecológica (“sujeitar”, “cultivar”, “guardar”) e o governo (“dominar”, “dar nome”). Estes mandamentos (Gn 1.28; 2.15,18-25) marcaram o início de uma série de obrigações: o mandato para a família e a comunidade, a lei e a ordem, a cultura e a civilização que se alarga e se aprofunda ao longo do desdobramento da revelação divina. Deste modo, Deus chama a humanidade para o papel de vice-regente sobre o mundo. Todos devem participar responsavelmente dessa tarefa.[2]

Dietrich Bonhoeffer, seguindo a perspectiva da teologia luterana, distingue entre quatro mandatos ou instituições nesta tarefa: trabalho, casamento, governo e igreja. Abraham Kuyper, seguindo a perspectiva da teologia reformada, resume estes mandatos em dois: o cultural (para a humanidade toda) e o redentor (para a humanidade redimida). O mandato cultural chama toda a humanidade na ordenança e na administração da criação, isto é, na obra da civilização e da cultura. O mandato redentor, que começa a surgir a partir de Gênesis 12 e que se torna explícito com a vinda de Jesus, chama o povo redimido de Deus a participar com ele na missão da redenção. São dois mandatos: um horizontal e outro vertical.[3]

Porque o ser humano porta a imagem de Deus, sua função é dominar a terra e se submeter a Deus. Quando alguém manifesta esta característica original de sujeitar a terra e dominar sobre as suas estruturas, como tarefa comum e universal, a sua natureza especial se torna visivelmente efetiva e ele se manifesta o constituinte responsável do Senhor cósmico e divino. Como senhor sobre o restante da criação e vice-regente com Deus, a pessoa encontra a sua própria dignidade na sua sujeição a Deus. Ela é criatura e depende de Deus e somente no seu relacionamento com Deus ela encontra a sua verdadeira humanidade.[4]

Apesar da queda, o mandato cultural não foi anulado. Embora o labor humano tenha adquirido uma dimensão dolorosa pela disciplina divina (Gn 3.17-19), deve continuar a exercer seu domínio na criação. Lamentavelmente, por causa do pecado o ser humano tem exercido seu domínio na criação de maneira incorreta. Por estar caído ele explora as coisas criadas como se elas fossem nada em si próprias, e como se ele tivesse um direito autônomo sobre elas. Certamente, cristãos que regressaram, por intermédio da obra do Senhor Jesus Cristo, à comunhão com Deus, deveriam demonstrar um uso apropriado da natureza. Nós devemos ter domínio sobre ela, mas nós não vamos usá-la de forma semelhante ao caído que ainda necessita da redenção. Enquanto a pessoa caída tem domínio sobre a natureza, mas usa-o incorretamente, o cristão é chamado a mostrar este domínio, porém, fazendo isto de forma correta: tratando a criação como tendo valor em si mesma, exercendo domínio sem ser destrutivo.[5]

De acordo com Francis Schaeffer, a "Igreja deveria ter ensinado e praticado isto sempre, mas geralmente tem falhado, e nós precisamos confessar nosso fracasso".[6] Diz ele ainda que "quando a Igreja coloca suas crenças na prática em relação ao homem e a natureza, existe cura substancial. Um dos primeiros frutos dessa cura é uma nova percepção de beleza".[7] "Nós (cristãos) deveríamos tratar a natureza com um respeito gigantesco".[8]

Além disso, Schaeffer comenta:

O homem está separado, como pessoa, da natureza porque ele é feito à imagem de Deus. Quer dizer, ele tem personalidade, e como tal ele é único na criação; mas ele está unido a todas as outras criaturas como ser criado. O homem está separado de todas as outras coisas, mas isso não significa que não há também uma relação para baixo correta do ponto de vista de o homem ser criado e finito.[9]

Leonardo Boff, do mesmo modo, entende que a relação do homem com a natureza deve ser de coexistência, isto é, "não é de domínio sobre, mas de convivência. Não é pura intervenção, mas interação e comunhão".[10] E ainda: “O ser humano precisa sentir-se natureza. Quanto mais mergulha nela, mais sente quando deve mudar e quando deve conservar em sua vida e em suas relações”.[11] Não temos o direito de destruir uma árvore, maltratar um animal ou matar um pássaro, simplesmente porque achamos que podemos fazê-lo. Deus nunca desejou que o ser humano perdesse de vista a perspectiva do verdadeiro conceito de “domínio” e “sujeição”, resultando na exploração desordenada e destrutiva do que ele criou (cf. Hc 2.17).[12]



[1] A palavra hebraica 'ãdam pode ser usada como nome próprio (Adão, cf. Gn 5.1), como "homem" (gênero masculino, cf. Gn 2.7), como "homem" no sentido genérico de ser humano (masculino e/ou feminino, cf. Gn 1.26,27), ou ainda como "homem" para se referir à raça humana (cf. Gn 6.5).

[2] Cf. Timóteo CARRIKER. Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992, p. 23,24.

[3]Idem, p.24. Outros eruditos reformados, como Gerard Van Groningen, destacam três mandatos: o mandato espiritual, o mandato social e o mandato cultural (Cf. Criação e Consumação. Vol. I. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 90,91).

[4] Idem, p. 29,30.

[5] Cf. SCHAEFFER. Poluição e a Morte do Homem. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49,50.

[6] Idem, p. 50.

[7] Ibidem.

[8] Idem, p. 51.

[9] Idem, p. 37.

[10] Leonardo BOFF. Saber Cuidar: Ética do humano - compaixão pela terra. 8a ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, p. 95.

[11] Idem, p. 116.

[12] Para um entendimento mais amplo do que foi tratado aqui, veja meu artigo A globalização como desafio para a missão da Igreja. In: Missão Integral Transformadora. Londrina: Editora Descoberta, 2005, p. 93-112.

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