segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dois amores

“... amai, pois, a verdade e a paz” (Zc 8.19)

Josivaldo de França Pereira


Uma das principais tarefas do profeta Zacarias (c. 520 a. C.) foi exortar os remanescentes que retornaram do cativeiro babilônico ao arrependimento e obediência a Deus, que lhe dera a incumbência de reconstruir o templo de Jerusalém e iniciar o culto segundo os preceitos da lei de Moisés. Quando foi trazida a Zacarias a questão do pranto e jejum, se era necessário continuar a prantear e jejuar por Jerusalém – agora que o povo retornara do cativeiro (Zc 7.1-3) – após as exortações do Senhor (Zc 7.4-14) a promessa foi que os dias de jejum se tornariam acontecimentos alegres e dias de festas. Contudo, tal prática não deveria ser separada de um elevado padrão ético de vida: o amor pela verdade e pela paz (Zc 8.19).

  1. “... amai, pois...”

“Amar” na Bíblia é muito mais que sentimento. É, na verdade, um mandamento, semelhante àquele proferido pelo Senhor Jesus: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”. “Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15.12,17). No texto de Zacarias 8.19, em especial, amar também é um imperativo, uma ordem de Deus para o seu povo. Conquanto “amar” seja um verbo intransitivo, isto é, um verbo que tem sentido completo e, por definição, não precisaria de complemento para ser compreendido, o texto bíblico sempre prefere indicar uma direção quando trata do verbo amar. Em Zacarias 8.19, o termo amar não somente aponta para os substantivos “verdade” e “paz”, como também é enfatizado pela conjunção “pois”. O que Martin Lloyd-Jones diz sobre a palavra “pois” em sua exposição de Efésios 4.1, pode ser facilmente aplicável em Zacarias 8.19: “Pois é uma palavra que, de maneira muito prática, diz-nos como ler as Escrituras”.[1] Pois significa “à luz disso, por causa disso, segue-se”.[2] Mostra-nos claramente a conexão entre fé e prática. É por isso que a expressão “amai, pois...” de Zacarias 8.19 aponta, conforme já mencionamos acima, para um elevado padrão ético de vida: o amor pela verdade e pela paz, ou seja, para os dois amores que deveriam nortear a vida e a conduta do povo de Deus.

  1. “... amai, pois, a verdade...”

“Verdade” aqui é o oposto da mentira, ou mais precisamente, de uma vida conduzida pela prática da mentira. A vida religiosa de Judá era uma mentira contra Deus (7.4-6) que, imediatamente, precisava ser modificada. Daí as exortações do Senhor ao povo por intermédio do profeta: “A palavra do SENHOR veio a Zacarias, dizendo: Assim falara o SENHOR dos Exércitos: executai juízo verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimas a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo” (Zc 7.8-10). O jejum não glorificava a Deus, cada um visava seus próprios interesses. O templo estava abandonado e a adoração falsificada. Deus disse: “Eis as cousas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas, segundo a verdade, em favor da paz; nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu próximo, nem ame o juramento falso, porque a todas estas cousas eu aborreço, diz o SENHOR” (Zc 8.16,17). Amar a verdade não significa apenas amor ao próximo, mas principalmente amor a Deus. A “verdade” em Zacarias 8.19 aponta ainda para o Messias, a personificação da verdade (Jo 14.6). Há várias referências ao Messias no livro de Zacarias (Zc 3.8,9; 6.12,13; 9.9,10; 11.12; 12.8,10; 13.1,6,7). “Um fator sobre o qual todos concordam é que Zacarias enunciou com grande clareza vários aspectos da era messiânica”.[3]

3. “... amai, pois, a verdade e a paz”

A verdade e a paz estão estritamente relacionadas. Sem uma a outra não subsiste. É por isso que em Zacarias 8.16 está escrito: “... segundo a verdade, em favor da paz”. Paz aqui é o oposto da guerra e contenda. Assim, o profeta relembra o povo dos tempos de paz: “Não ouvistes vós as palavras que o SENHOR pregou pelo ministério dos profetas que nos precederam, quando Jerusalém estava habitada e em paz com as suas cidades ao redor dela, e o Sul e a campina eram habitados?” (Zc 7.7). E profetiza: “Porque, antes daqueles dias, não havia salário para homens, nem os animais lhe davam ganho, não havia paz para o que entrava, nem para o que saía, por causa do inimigo, porque eu incitei todos os homens, cada um contra o seu próximo. Mas, agora, não serei para com o restante deste povo como nos primeiros dias, diz o SENHOR dos Exércitos. Porque haverá sementeira de paz; a vide dará o seu fruto, a terra, a sua novidade, e os céus, o seu orvalho; e farei que o resto deste povo herde tudo isto” (Zc 8.10-12). É evidente que a “verdade” não provoca a discórdia, porém, onde falta a paz a verdade não tem vez. Mas quando reina a paz a verdade prevalece. Isso nos remete mais uma vez à pessoa e obra de Cristo. Jesus é o Príncipe da Paz, conforme predisse Isaías (Is 9.6). Paulo ensina que Cristo “é a nossa paz” (Ef 2.14). O próprio Jesus disse aos seus discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). A verdade e a paz estão diretamente ligadas à santidade de vida que Deus requer de sua igreja (Jo 17.17; Hb 12.14).

O profeta Zacarias instruiu o povo a continuar o que vinha fazendo, ou seja, jejuando, contudo, “uma transição ocorreria quando a verdade e a paz reinassem tanto nos corações individuais quanto na comunidade do remanescente”.[4] A ordem de Deus continua imperativa para cada um de nós hoje: “amai, pois, a verdade e a paz”.



[1] M. Lloyd-Jones. A unidade cristã: exposição sobre efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994, p. 13.

[2] Idem, p. 14.

[3] Gerard Van Groningen. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 795.

[4] Idem, p. 816.

2 comentários:

  1. Belo texto, Deus continue te usando poderosamente!!

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  2. Obrigado meu grande amigo. Continue postando seus preciosos comentários.
    Um forte abraço.

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