quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Missão se faz com oração (e jejum também!)

Josivaldo de França Pereira


José Martins disse acertadamente: "A oração é a essência da obra missionária. Não é só uma atividade necessária ao sucesso da obra - é a obra em si. É a prática mais missionária possível, quando vivida de maneira bíblica". É evidente que Martins não está dizendo que oração e missões são a mesma coisa, e sim, que essas duas atividades devem vir interligadas uma na outra. Nunca é demais enfatizar a importância da oração na obra missionária.

Quando o Espírito Santo ordenou que a igreja de Antioquia separasse Paulo e Barnabé para a obra que os tinha chamado, a igreja estava em oração. Essa verdade está implícita e explícita em Atos 13.2 e 3, respectivamente. Implicitamente porque o versículo dois diz o seguinte: "E, servindo eles ao Senhor, e jejuando...". O fato da igreja estar jejuando subentende-se que ela estava também orando. Seria incoerente pensar que uma igreja que estava adorando a Deus e jejuando não estivesse em oração. Nem toda oração é feita em jejum, mas todo jejum bíblico é feito com oração. Além disso, temos uma evidência explícita de que a igreja de Antioquia realmente orava naquela ocasião: "Então, jejuando e orando..." (v3).

É significativo que em Atos 13.3 a palavra "jejuando" esteja na frente de "orando". No texto grego é a mesma coisa: nestéusantes kai proseuxamenoi. A disposição dessas palavras é importante por duas razões: 1) Não devemos pensar que a igreja de Antioquia jejuava porque trazia resquícios do judaísmo, como alguns parecem entender. Lucas era gentio (provavelmente da cidade de Antioquia da Síria) e, portanto, não teria interesse em dar tanta ênfase a uma prática estritamente judaica. Além do que, a igreja de Antioquia foi uma das igrejas mais anti-judaicas do passado, naquilo que se refere às práticas religiosas do judaísmo. Direta ou indiretamente o Concílio de Jerusalém de Atos 15 aconteceu em razão desse anti-judaísmo-cerimonialista. 2) Penso que Lucas fez questão em enfatizar a prática do jejum na igreja de Antioquia, primeiramente para mostrar que jejum e oração não são incompatíveis na vida de uma igreja e, em segundo lugar, mostrar como essa prática era (e deve ser) valorizada no meio de uma igreja verdadeiramente missionária.

Se muitas de nossas igrejas têm falhado na prática da oração, e mais ainda em rogar ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara, em interceder pelos missionários e orar pela obra missionária de modo geral, o que dizer então da prática do jejum em nossas igrejas? Acredito que as igrejas históricas vêm falhando em subestimar a importância do jejum na vida do povo de Deus. Quantos são os membros dessas igrejas que jejuam? Quantos de seus pastores jejuam? Muitos de nós mal oramos, diga-se de passagem.

Na minha própria denominação, Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), aprendi: "Sem o propósito de santificar de maneira particular qualquer outro dia que não seja o dia do Senhor, em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc., é recomendável a observância de dia de jejum ou, cessadas tais calamidades, de ações de graças" (Princípios de Liturgia, XI). Todavia, se o povo de Deus tivesse que jejuar apenas “em casos muito excepcionais de calamidades públicas, como guerras, epidemias, terremotos, etc.”, dificilmente haveria um dia de jejum neste país continental! Que o jejum deve ser praticado em dias de calamidades públicas não questionamos, pois a Bíblia nos dá vários exemplos disso. Contudo, na forma como foi redigido o princípio para a prática de jejum na IPB, ao invés de estimular o crente a praticá-lo, ele faz exatamente o contrário. Não que o princípio fora escrito com o objetivo de desestimular quem quer que seja, porém, na prática é o que tem acontecido. Creio que o capítulo sobre jejum deveria ser revisto pela IPB, primeiro porque ele não expressa corretamente a realidade brasileira, e também por não representar uma definição que manifeste o verdadeiro conceito bíblico de jejum.

Apesar da Igreja Primitiva ter vivido momentos de muitas provações, nada indica que naquela ocasião especial de Atos 13 a igreja de Antioquia estivesse jejuando e orando porque passava por momentos difíceis. Pelo contrário, o contexto próximo (cap. 12) indica que a Igreja Primitiva, de modo geral, estava vivendo um dos seus melhores dias. Pedro havia sido libertado milagrosamente da prisão e um dos maiores inimigos da igreja, o rei Herodes Agripa I, foi morto mediante a intervenção de um anjo do Senhor. Enquanto isso, “a palavra do Senhor crescia e se multiplicava" (At 12.24).

A igreja de Antioquia buscava a presença de Deus pelo simples prazer de estar servindo a Deus. E continuou assim quando enviou seus missionários e os sustentou com fervorosas orações. Que Deus conceda à igreja evangélica brasileira a graça de ser uma igreja que se alegre em estar em sua presença, intercedendo dia após dia pela obra missionária do Brasil e do mundo.

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