quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Papa Não É O Anticristo - 2

Josivaldo de França Pereira


A Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos retirou da Confissão de Fé de Westminster a expressão “homem do pecado e filho da perdição”, talvez por entender que “o anticristo” e “o homem do pecado e filho da perdição” fossem pessoas distintas. O “homem do pecado (ou da “iniqüidade”), o filho da perdição”, descrito por Paulo em 2Tessalonicenses 2, é a mesma pessoa mencionada por João em 1João 2 como sendo o anticristo. As razões para considerá-los como uma única pessoa são as seguintes:

a) O “homem da iniqüidade” será revelado imediatamente antes da vinda de Cristo. Ou seja, o anticristo (aquele que se coloca no lugar de e/ou contra-Cristo), acerca do qual os leitores receberam informações prévias, virá “na última hora” (2Ts 2.8; 1Jo 2.18);

b) O “mistério da iniqüidade” já se encontra em andamento. Mesmo agora existem “muitos anticristos” (2Ts 2.7; 1Jo 2.18). Em ambos os casos a idéia é a seguinte: embora os crentes estejam certos em esperar um indivíduo específico no fim dos tempos, um indivíduo em que uma ímpia oposição a Cristo se cristalizará, devem antes fixar sua atenção nos “muitos” anticristos já presentes em seus próprios dias e época, pelo fato de que o mistério da iniqüidade está operando agora mesmo;

c) A vinda do “homem da iniqüidade” é segundo a operação de Satanás, com grandes sinais e milagres, todos eles falsos. Semelhantemente, o anticristo é chamado de mentiroso e enganador (2Ts 2.9; 1Jo 2.22; 2Jo 7).[1]

Além disso, não são poucos os teólogos reformados que interpretam “o anticristo” do artigo da Confissão de Fé (XXV.VI) como sendo “um princípio ou sistema antagônico a Cristo”.[2] Entretanto, pensar assim é incorrer num duplo equívoco contra a Assembléia de Westminster. Primeiro, seria como admitir que os teólogos de Westminster não disseram o que realmente queriam dizer e, segundo, que “o anticristo” da Confissão de Fé não é propriamente uma pessoa. O artigo da Confissão de Fé é claro, taxativo e literal. Para a Assembléia de Westminster o papa é o anticristo, “aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus” (cf. 2Ts 2.3,4). Portanto, uma pessoa específica, não escatológica, segundo os teólogos de Westminster.

Definitivamente o anticristo não é um poder abstrato ou um conceito coletivo.[3] Com toda certeza o princípio da iniqüidade, sempre presente no mundo (cf. 1Jo 4.3), será finalmente incorporado no “homem do pecado”; mas isso não significa que ambos – o princípio e o homem – sejam um e o mesmo.

É verdade que o autêntico e final “homem do pecado” também tem seus precursores, porém, o que é retratado em 2Tessalonicenses 2 não é um precursor, mas o próprio “homem da iniqüidade”.[4] Esse ponto de vista é baseado não tanto nos termos “homem da iniqüidade” ou “filho da perdição” (expressões que, por seu caráter e significado semíticos, talvez não sejam conclusivas para a tese de que “o homem da iniqüidade” em 2Tessalonicenses 2 é uma pessoa), mas no fato de que toda descrição aqui apresentada é de caráter pessoal. O homem da iniqüidade “se opõe”, “se exalta”, “se assenta no templo de Deus”, “proclama a si mesmo como Deus”, e será “morto”. Cristo é uma pessoa. Certamente o homem do pecado, “o anticristo”, também é uma pessoa. Como Cristo fez, “o homem do pecado” realiza sinais e maravilhas, tem sua “Parousia” e sua “revelação”. Seria estranho, portanto, se “o homem da iniqüidade” não fosse uma pessoa.[5]

Entretanto, “o homem da iniqüidade” não é apenas uma pessoa; ele é uma pessoa que pertence ao fim dos tempos, isto é, uma pessoa escatológica, de acordo com 2Tessalonicenses 2. Segundo Hendriksen, “uma cuidadosa leitura de 2Ts 2.3, 4, 8 e 9 deve ser suficiente para convencer a qualquer um de que, aqui, estamos tratando de uma predição exata acerca de uma pessoa certa e específica que receberá sua sentença quando Cristo voltar”.[6] E completa: “Outras explicações podem ser filosóficas, mas não são exegéticas”.[7]



[1] Cf. William Hendriksen, New Testament Commentary: I and II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 172.

[2] Cf. A. A. Hodge, Comentario de la Confesión de Fe de Westminster. Barcelona: CLIE, 1987, p. 296; G. I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1964, p. 194; J. Ligon Duncan (ed.), The Westminster Confession in the 21st Century. Bookwell: Mentor, 2004, p. 363-365; Robert Shaw, An Exposition of the Westminster Confession of Faith. Great Britain: Christian Focus Publications, 1992, p. 267-271.

[3] Cf. Hendriksen, op. cit., p. 171.

[4] Idem, p. 171,172.

[5] Idem, p. 172. V.t. Antonio A. Hoekema, La Biblia y el Futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 183.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

2 comentários:

  1. A denominação presbiteriana que o irmão mencionou em seu artigo, fez as alterações por motivos teológicos, i.é., por adotar a neoortodoxia. A questão deles não era a literalidade da CFW, mas por não crerem inclusive nas declarações da Escritura Sagrada. O texto foi alterado em 2 momentos distintos em que a UPCUSA e depois numa nova adaptação denominacional passaram para PCUSA. Deste modo a CFW também mudou nas mãos da UPCUSA ficou da seguinte forma: "The Lord Jesus Christ is the only head of the Church, and the claim of any man to be the vicar of Christ and the head of the Church is unscriptural, without warrant fact, and is a usurpation dishonoring to the Lord Jesus Christ." A revisão feita pela PCUSA trás o seguinte texto "The Lord Jesus Christ is the only head of the Church, and the claim of any man to be the vicar of Christ and the head of the Church is without warrant in fact or in Scripture, even anti-Christian, a usurpation dishonoring to the Lord Jesus Christ." O texto original da CFW 1646 trás o seguinte texto "There is no other head of the Church but the Lord Jesus Christ: nor can the Pope of Rome in any sense be head thereof; but is that Antichrist, that man of sin and son of perdition, that exalteth himself in the Church against Christ, and all that is called God."

    Em sua 2a. nota você citou Robert Shaw que fez uma interpretação da CFW XXV.6 estranha à intencionalidade dos divines. Veja a minha tradução e notas em http://doutrinacalvinista.blogspot.com/2010/12/o-monarca-britanico-e-o-anticristo.html .

    Assim, prefiro fechar o assunto aceitando a interpretação de Gordon H. Clark sobre o assunto, conforme pode ser lido em http://doutrinacalvinista.blogspot.com/2010/12/escrito-por-gordon-h.html .

    Grato pela contribuição do seu artigo à assunto tão importante para a nossa subscrição confessional.

    Em Cristo,
    Ewerton B. Tokashiki

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  2. São discussões saudáveis. Deus o abençoe amado irmão e feliz ano novo.

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