segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Papa Não É O Anticristo - 1

Josivaldo de França Pereira


William Hendriksen (1900-1982), eminente teólogo reformado, afirma categoricamente no seu comentário de 2Tessalonicenses 2 que o papa não é o anticristo. Após transcrever o capítulo XXV.VI da Confissão de Fé de Westminster, ele diz que embora a proposição “o papa é o anticristo” continue sendo defendida nos dias de hoje, ela não tem apoio em 2Tessalonicenses 2.[1] “É lógico”, diz ele, “que se o homem do pecado é definitivamente uma pessoa escatológica, ele não pode ser o primeiro papa, nem o segundo, nem o terceiro, etc., e tampouco pode ser o conceito coletivo de ‘o papado’”.[2]

Diz ele ainda:

É verdade, porém, que qualquer homem (seja ele um ditador religioso ou político) que arrogue para si atributos e prerrogativas que pertencem à deidade possui traços anticristãos. Ele pode ser chamado “um anticristo”, um entre muitos dos precursores do anticristo final. Em tal homem o mistério da iniqüidade já está em operação. Mas chamar o papa de o anticristo é contrário a toda sã exegese. Ainda que nós, como evangélicos, com toda razão deploramos qualquer idolatria, mariolatria, superstição e cultos de tradição que se encontram na Igreja Católica Romana, males contra os quais devemos nos expressar com crescente vigor e seriedade, não temos direito de condenar tudo que existe naquela igreja. Devemos nos esforçar por ser honestos e justos para não suceder que, condenando os males de Roma, fechemos os nossos olhos aos muitos e sérios males que estão entrando sorrateiramente em todos os setores da igreja protestante. A proposição: “O papa é o anticristo”, ainda que inescusável – embora compreensível! – mesmo durante os dias de intensa luta que marcaram o nascimento do protestantismo, não é menos inescusável nos dias de hoje. E o veredicto de alguns, a saber, que todos os que não estejam prontos a identificar o homem do pecado de 2Tessalonicenses com o papa nunca experimentaram em seus corações e vida a veracidade da “justificação pela fé”, impressiona-nos com um juízo desprovido de caridade.[3]

Muitos dos aspectos da descrição de Paulo em 2Tessalonicenses 2 com respeito ao anticristo são derivados do livro de Daniel (cf. Dn 7.8,20,25; 8.4,9-14,25,26). Não é de se estranhar, visto que “o chifre pequeno” de Daniel 7, que cresceu depois de outros dez, é o anticristo, e “o chifre pequeno” de Daniel 8, que saiu de um dos chifres notáveis, é o imperador sírio Antíoco Epifânio, o mais infame precursor do anticristo. No ano 167/8 a. C. Antíoco profanou o templo de Jerusalém colocando nele uma estátua de Zeus. Erigiu um altar pagão no lugar do altar do sacrifício, sobre o qual imolou porcos.[4]

Além disso, em Mateus 24.15 (cf. Mc 13.14) “a abominação desoladora”, da qual Jesus se refere, deriva-se diretamente de Daniel 11.31; 12.11. A história, em certo sentido, se repete. Melhor dizendo: a profecia se realiza em múltiplos cumprimentos. O pensamento básico é sempre o mesmo. A cidade e o santuário de Deus são profanados, seja por Antíoco Epifânio e suas sacrílegas oferendas (Dn 8.9-14; cf. “Gogue” em Ez. 38,39), seja pelos exércitos romanos e suas normas idólatras (Lc 21.20; Mc 13.14); ou, finalmente, pelo próprio anticristo.[5]

Os primeiros escritores eclesiásticos entenderam os textos bíblicos sobre “o homem da iniqüidade” (2Ts 2) e “o anticristo” (1Jo 2) como uma profecia referente a uma pessoa específica que viveria na terra no final da história, e que seria totalmente derrotada por Cristo em seu retorno.[6] Segundo Hendriksen, “A igreja não deveria jamais ter se afastado desta interpretação”.[7]

Conclusão:

A Assembléia de Westminster se equivocou quando disse que o papa é o anticristo. Esse erro ocorreu, pelo menos, por dois motivos básicos. Em primeiro lugar, por causa da influência historicista da época, respaldada por reformadores de peso como Lutero e Calvino no século XVI. Estes, por sua vez, também foram influenciados pelo pensamento historicista que começou com Gregório I no século VI. Em segundo lugar, os teólogos de Westminster viviam em franca oposição a tudo que estava relacionado ao catolicismo romano. “Os estudiosos católicos retaliaram, taxando de anticristo os opositores de Roma”.[8] Atualmente as trocas de farpas entre católicos e protestantes já não existem mais. Conquanto nós, evangélicos, não concordemos com uma série de dogmas e tradições vigentes na Igreja Católica Romana, há pontos positivos nela dignos de louvor, como por exemplo, sua fidelidade na tradução das Escrituras e defesa da família.

Por fim, vale ressaltar que, mais do que destacar um erro, o objetivo deste ensaio é mostrar que (1) a Assembléia de Westminster disse o que realmente queria dizer quando afirmou que o papa é o anticristo; (2) ela nunca arrogou para si infalibilidade ou endeusamento como alguns parecem atribuí-la e devotá-la [cf. CFW, XXXI,3]; (3) o valor e relevância do trabalho da Assembléia de Westminster, bem como a qualidade de tudo que foi produzido por ela, não diminuem diante do exposto neste ensaio. A Confissão de Fé da Assembléia de Westminster, em especial, é a última das confissões reformadas clássicas e a mais influente no mundo. É também a mais elaborada, amadurecida e completa das confissões de tradição reformada que durante muito tempo vem abençoando o povo de Deus.[9]




[1]W. Hendriksen, New Testament Commentary: I and II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 174.

[2] Ibídem.

[3] Hendriksen, p. 174-175.

[4] Ainda que Antíoco Epifânio, ou seja, “Antíoco (o) ilustre (Deus)” ou “Antíoco (o) Deus que se revela”, ao requerer homenagem divina, não deixou de reconhecer a divindade de Zeus e não foi tão blasfemo como será o homem final da iniqüidade, posto que este último reconhecerá somente uma deidade, a saber, ele mesmo, que se assentará (não somente colocará sua imagem) no santuário de Deus, e reivindicará adoração divina somente para si.

[5] Hendriksen, p. 177.

[6] Eis algumas citações dos primeiros séculos da era cristã que afirmam ser “o homem do pecado” uma pessoa escatológica:

a) A Didaquê, o Ensino dos Doze Apóstolos: “... À medida que cresce a iniqüidade, eles se odiarão uns aos outros e se perseguirão e se trairão, e então aparecerá o enganador do mundo como um Filho de Deus, e fará sinais e maravilhas... E então aparecerão os sinais... primeiro, o sinal estendido no céu, então o sinal do sonido da trombeta, e por fim a ressurreição dos mortos” (XVI.iv-vi).

b) Justino Mártir, um dos mais famosos apologistas e pensadores cristãos dos meados do século II, escreveu em seu Diálogo com Trifão: “Que homens tolos! Pois não têm conseguido entender o que ficou provado por todas essas passagens, a saber, que dois eventos de Cristo se têm anunciado: o primeiro, no qual ele é exibido como sofredor, sem glória, sem honra, sujeito à crucificação; e, o segundo, no qual ele virá dos céus em glória, quando o homem da apostasia que profere coisas arrogantes contra o Altíssimo, intentará atrevidamente perpetrar feitos ilegais contra nós, cristãos” (CX).

c) Agostinho (354-430), pai da teologia ortodoxa e talvez o maior teólogo da antigüidade, disse em sua famosa obra A Cidade de Deus, ao comentar 2Tessalonicenses 2.1-11: “Não há dúvida de que o que se acha aqui se refere ao anticristo e ao dia do juízo, ou como Paulo o chama, o dia do Senhor...” (XX.xix). No mesmo capítulo Agostinho assinala ainda que em seus dias a interpretação que nos afasta do único anticristo final para uma grande multidão de anticristos já estava começando a ser popular.

[7] Hendriksen, p. 178.

[8] D. A. Hubbard, Anticristo. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 84.

[9] Para um estudo mais abrangente, veja meu texto “O Anticristo na Confissão de Fé de Westminster” em www.bibliaworldnet.com.br.

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