quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Ceia do Senhor no Breve Catecismo de Westminster

Josivaldo de França Pereira

 
Elaborado no século XVII pela famosa Assembleia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
Antes de estudarmos a Ceia do Senhor no Breve Catecismo, propriamente dito, faremos um breve histórico acerca da presença de Cristo na Ceia. Esse pano de fundo nos ajudará a compreender, de certa forma, o que o Breve Catecismo diz sobre a Ceia do Senhor. Em espírito de oração, estudemos este assunto na certeza de sermos ensinados por Deus.
A presença de Cristo na Ceia
As palavras de Cristo “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” (Mt 26.26,28; Mc 14.22,24), foram o ponto de divergência entre os reformadores do século XVI quanto à interpretação da presença de Cristo na Ceia, embora eles fossem unânimes em rejeitar o conceito católico romano sobre este assunto.
O conceito católico romano
Mediante a consagração do pão e do vinho pelo sacerdote, esses elementos transformam-se na substância da carne e sangue de Cristo, respectivamente.
Objeção: A expressão “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” não pode ser tomada literalmente. Visto que Jesus estava diante dos seus discípulos em carne e osso, ele não podia dizer que eles estavam com o seu corpo e o seu sangue nas mãos, e que deviam comê-lo e bebê-lo, respectivamente, de forma literal. A expressão “isto é o meu corpo, isto é o meu sangue” deve ser interpretada como “representa”, “simboliza”. Além disso, “É contrário ao senso comum crer que o que parece, cheira e tem gosto de pão e vinho seja, de fato, carne e sangue”.[1]
O conceito luterano
Lutero condenou o conceito romano da transubstanciação, mas defendeu o aspecto da presença física de Cristo na Ceia. O pão continua como pão e o vinho como vinho, porém, junto com as substâncias do pão e do vinho estão, temporariamente, as substâncias da carne e do sangue de Jesus.
Objeção: este conceito não melhora muito a doutrina romana. Faz as palavras de Jesus significar “isto acompanha meu corpo”, que é uma interpretação muito estranha.
O conceito zwingliano
Zwínglio, reformador suíço, rejeitou os dois conceitos anteriores da presença física de Cristo na Ceia. Para ele a Ceia do Senhor é tão somente uma lembrança da morte de Cristo, um memorial. Esse conceito é adotado pelas igrejas batistas.
Objeção: A Ceia não está relacionada apenas à obra passada de Cristo, mas também à sua obra atual de Mediador.
O significado da Ceia do Senhor no conceito presbiteriano
“A Ceia do Senhor é o sacramento no qual, dando-se e recebendo-se pão e vinho, conforme a instituição de Cristo, se anuncia a sua morte; e aqueles que participam dignamente tornam-se, não de uma maneira corporal e carnal, mas pela fé, participantes do seu corpo e do seu sangue, com todas as suas bênçãos para o seu alimento espiritual e crescimento em graça (Resposta 96; cf. 1Co 10.16; 11.23-26; Ef 3.17).
Os presbiterianos não negam a presença real de Cristo na Ceia. No entanto, entendem que a presença de Cristo não é em substâncias materiais, porém, presença espiritual, conforme afirmava o reformador francês João Calvino. A presença espiritual de Cristo na Ceia é tão real quanto a presença física do pão e do vinho. Contudo, ao falarmos da “presença espiritual” de Cristo na Ceia, devemos entender que o corpo e o sangue de Jesus não estão espiritualmente presentes nos elementos da Ceia, mas sim, “espiritual e realmente presentes à fé dos crentes nessa ordenança, como estão os próprios elementos aos seus sentidos corporais”.[2] Pela fé o crente se alimenta espiritualmente do corpo de Cristo, tão real e verdadeiramente, como come do pão e bebe do cálice.
A Ceia é um momento de profunda comunhão com o Senhor (1Co 10.16) e um anúncio ao mundo da morte de Cristo, “até que ele venha” (1Co 11.26). A ceia é uma dádiva de Deus a nós, ou como a expressou Leon Morris, “Na comunhão recebemos a Cristo. Não o apresentamos nem seu sacrifício ao Pai. Apresentamos, e podemos apresentar, somente a nós mesmos”.[3] É assim que devemos entender a expressão “dando-se e recebendo-se pão e vinho” no Breve Catecismo.
Finalmente, aqueles que participam da Ceia do Senhor são abençoados com verdadeiro alimento espiritual e crescimento na graça.
Exigência para participar dignamente da Ceia do Senhor
“Que se exige para participar dignamente da Ceia do Senhor? Exige-se daqueles que desejam participar dignamente da Ceia do Senhor que se examinem sobre o seu conhecimento em discernir o corpo do Senhor, sobre a sua fé para se alimentarem dele, sobre o seu arrependimento, amor e nova obediência, para não suceder que, vindo indignamente, comam e bebam para si a condenação” (Pergunta e Resposta 97; cf. Rm 6. 17,18; 1Co 11.27,31,32).
A Ceia do Senhor é um ato de fé e discernimento, conforme o ensino do Breve Catecismo à luz da Bíblia. A razão pela qual um descrente ou uma criança não possa participar da Ceia do Senhor é porque aquele não tem fé salvadora e verdadeira confiança em Cristo, e esta não tem discernimento quanto ao corpo e o sangue do Senhor.
Para que o crente participe dignamente da Ceia do Senhor é necessário que ele observe o seguinte: (1) Tenha consciência do valor e importância da Ceia do Senhor (1Co 11.27,29). Participar com dignidade e discernimento é receber com fé aquele ato solene; (2) Faça um autoexame de sua pessoa e conduta perante Deus (1Co 11.28). “Antes de tomarmos parte em tal serviço, o mínimo que podemos fazer é um rigoroso autoexame. Deixar de fazê-lo resultará em comungar ‘indignamente’ (v27”.[4] Esse é o momento em que a hipocrisia não tem vez, visto que não se estará julgando os outros, mas cada um a si mesmo, sob os olhares atentos de Deus. É uma ocasião solene de “arrependimento, amor e nova obediência” (Resposta 97); (3) Evite a condenação divina (1Co 11.29-32). Que condenação é essa? Morris diz com muita propriedade: “Paulo não quer dizer que a pessoa que comunga erroneamente incorre na pena eterna, mas cai sob a medida de condenação apropriada a seu ato”.[5]
“Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim como do pão e beba do cálice” (1Co 11.28). Que a nossa participação na Ceia do Senhor promova a glória de Deus.





[1] Louis Berkhof, Manual de Doutrina Cristã. Campinas/Patrocínio: Luz Para o Caminho/Ceibel, 1985, p. 292.
[2] Confissão de Fé de Westminster, XXIX, 7.
[3] Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 130.
[4] Idem, p. 131.
[5] Ibidem. 

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