terça-feira, 30 de março de 2010

Uma Grande Mentira

Josivaldo de França Pereira


Jesus ressuscitou como havia prometido aos seus discípulos (Mt 16.21; 20.17-19). “No findar do sábado, ao entrar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. E eis que houve um grande terremoto; porque um anjo do Senhor desceu do céu; chegou-se, removeu a pedra e assentou-se sobre ela” (Mt 28.1,2). Os guardas tremeram de medo e ficaram como se estivessem mortos (Mt 28.4). “Mas o anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: “Não temais, porque sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui; ressuscitou, como havia dito. Vinde ver onde ele jazia” (Mt 28.5,6). As mulheres, não podendo se conter de tanta alegria, foram apressadamente anunciar a boa-nova aos discípulos. Por outro lado, “alguns da guarda foram à cidade e contaram aos principais sacerdotes tudo o que sucedera” (Mt 28.11).
O incidente que segue é relatado somente pelo evangelista Mateus: “Reunindo-se eles em conselho com os anciãos, deram grande soma de dinheiro aos soldados, recomendando-lhes que dissessem: Vieram de noite os discípulos dele e o roubaram enquanto dormíamos... Eles, recebendo o dinheiro fizeram como estavam instruídos. Esta versão divulgou-se entre os judeus até o dia de hoje” (Mt 28.12,13,15).
Enquanto as mulheres saíram do sepulcro para divulgar a verdade acerca da ressurreição de Jesus, os soldados foram usados para calar a verdade e sustentar a mentira. Como eram diabólicos os líderes religiosos de Israel!
Agora, é lamentável que os judeus, até hoje, tenham se deixado levar por uma mentira tão banal. Observe que os líderes judeus mandaram os soldados subornados dizerem: “Vieram de noite os discípulos dele e o roubaram, enquanto dormíamos” (Mt 28.13). Ora, se eles dormiam, como podiam saber que foram os discípulos?
As dificuldades com todas, as assim chamadas, soluções ao problema da tumba vazia, é que nenhuma delas é convincente. O corpo roubado, a teoria do desmaio (segundo a qual Jesus não estava realmente morto), a alucinação coletiva, etc., são todas elas teorias absurdas. Mas a fé dos cristãos, “ele vive, ele vive, e porque ele vive eu também viverei”, é convincente, verdadeira e satisfatória. Não só isso, mas também porque Jesus é o mesmo maravilhoso Salvador, cheio de santidade, bondade e amor perdoador para todos aqueles que, em sua pessoa, buscam refúgio verdadeiro. “Louvado seja Deus!”

quarta-feira, 24 de março de 2010

A última prova de Jó - Parte 2

Josivaldo de França Pereira

I
O que é preciso para ser um intercessor eficaz? Com Jó aprendemos que é preciso reconhecer a grandeza e soberania de Deus em todas as coisas: “Então, respondeu Jó ao SENHOR: Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado” (Jó 42.1,2). Penso que se não houvesse nenhum outro texto na Bíblia, apenas esse seria suficiente para combater a chamada “teologia aberta”, que ensina que Deus pode ser “surpreendido” pelo homem ou por alguma circunstância adversa. Uma grande heresia moderna! Deus não seria Deus se perdesse de vista um único átomo do universo. Deus pode tudo. Nenhum plano dele pode ser frustrado!
Para ser um intercessor eficaz, é necessário, ainda, o reconhecimento da condição humana perante Deus. Jó, aquele homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, que trazia à tona sua justiça para se defender perante Deus e os homens, diante da santidade e perfeição de Deus vai se achar o pior dos pecadores. Ninguém, por mais santo que seja, sustentará sua própria dignidade diante da majestade do Senhor. É verdade que ele já havia dito: “Se pequei, que mal te fiz a ti, ó Espreitador dos homens? Por que fizeste de mim um alvo para ti, para que a mim mesmo me seja pesado? Por que não perdoas a minha transgressão e não tiras a minha iniqüidade?...” (Jó 7.20,21). E: “Se eu pecar, tu me observas; e da minha iniqüidade não me perdoarás. Se for perverso, ai de mim! E, se for justo, não ouso levantar a cabeça, pois estou cheio de ignomínia e olho para a minha miséria” (Jó 10.14,15). Mas agora é diferente! Jó nunca havia se sentido assim antes. Como ele próprio viria a dizer: “... Na verdade, falei do que não entendia; cousas maravilhosas demais para mim, cousas que eu não conhecia” (Jó 42.3). “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42.5,6). Algo semelhante ocorreu com Isaías. Diante da visão celestial ele clamou: “... ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!” (Is 6.5). O reconhecimento da grandeza de Deus coloca o ser humano em seu devido lugar.
Outro princípio importante para ser um intercessor eficaz é a disposição para dar um bom testemunho de Deus no meio da adversidade. Mesmo não compreendendo o que nos acontece, precisamos ter firmado no coração e na mente as palavras do apóstolo Paulo aos crentes de Roma: “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Por duas vezes o próprio Deus testemunhou acerca de Jó perante Satanás: “Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal” (Jó 1.8; 2.3). São testemunhos que tratam do caráter de Jó, ou seja, o que Jó é e faz. Em Jó 42.7,8 por duas vezes Deus vai testemunhar a Elifaz e seus companheiros acerca do que Jó disse perante eles. “... porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”. Para dizer o que é reto e agradável ao Senhor, é preciso ter uma vida reta e agradável com Deus. Jesus disse que pelos frutos se conhece a árvore (Mt 7.20). “Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons” (Mt 7.18). Jó não falou de si mesmo. Ele disse de Deus o que era reto. Deus testemunhou acerca de Jó e Jó testemunhou acerca de Deus.
II
O último fator relevante para ser um intercessor eficaz é ser um servo obediente ao Senhor aonde quer que vá. A acusação de Deus contra Elifaz e seus companheiros foi: “porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó”. “Servo” significa “aquele que obedece a um senhor”. Jesus disse que “Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24). Jó foi um homem riquíssimo que prosperou com a honestidade do trabalho e a bênção de Deus. Jó era servo do Deus altíssimo. Deus conhecia Jó e o chamava de “meu servo”. Só é chamado assim por Deus quem verdadeiramente o obedece. Servo desobediente é uma contradição de termos. Mais uma vez lembramos as palavras do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo: “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mt 7.21-23).
Somente quem reconhece a grandeza e soberania de Deus sobre todas as coisas; somente quem tem o reconhecimento de sua condição humana, a de pecador diante da santidade de Deus; somente quem está disposto a dar um bom testemunho cristão no meio da adversidade; somente quem é servo obediente ao seu Senhor estará apto para se colocar entre a brecha e interceder a Deus em favor do próximo, como a Igreja primitiva fez em favor de Pedro (At 12.5), o autor aos Hebreus recomendou em sua carta (Hb 13.3) e Jó que, sem ressentimento no coração, intercedeu pelos amigos que tanto o acusaram. Qual o resultado da intercessão de Jó? A Bíblia diz: “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42.10). Jó não terminou sua oração e, provavelmente, nem chegou a falar dele mesmo quando o Senhor começou a abençoá-lo. Muitas vezes Deus age em nós e por nós quando pensamos mais nos outros e “esquecemos” um pouco de nós mesmos. Jó tinha “razões” para olhar seu estado e fazer dele o tema central de sua oração. Podia chorar e lamentar, mas preferiu amar seus amigos ingratos e interceder por eles, conforme dissera o Senhor (Jó 42.7-9). Colocar-se no lugar de seus amigos, sentir compaixão deles e interceder de coração por eles foi a última prova de Jó, e ele passou no teste antes mesmo de terminar sua oração.
Há uma história sobre Diógenes Laércio, um filósofo grego do século III, relatando que ele saiu num dia ensolarado pela rua com uma lanterna acesa na mão. Ao ser indagado pela cena incomum, Diógenes respondeu que estava à procura de um homem honesto. Hoje, o nosso Deus também está à procura de homens e mulheres que, além de honestos, estejam dispostos a serem verdadeiros intercessores. Que tal você e eu? 

quinta-feira, 11 de março de 2010

A última prova de Jó – Parte 1

Josivaldo de França Pereira


I
A provação de Jó seguiu uma série de etapas distintas. O homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal, maior de todos os do Oriente, perdeu seus animais, seus servos, seus filhos e sua saúde. Seus amigos o acusaram de pecado e impiedade contra Deus. Jó rebateu as críticas deles, dizendo: “Vós, porém, besuntais a verdade com mentiras e vós todos sois médicos que não valem nada. Tomara vos calásseis de todo, que isso seria a vossa sabedoria!” (Jó 13.4,5). “Tenho ouvido muitas cousas como estas; todos vós sois consoladores molestos. Porventura, não terão fim essas palavras de vento?...” (Jó 16.2,3). “Até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras? Já dez vezes me vituperastes e não vos envergonhais de injuriar-me.” (Jó 19.2,3).
Para o sofredor Jó, pior que a tragédia, foram os “consoladores molestos” nos quais seus amigos se tornaram; os quais, à semelhança dos inquisidores, tentaram arrancar dele a confissão que ele não podia fazer: a de que seu sofrimento era fruto de seu pecado moral oculto. Alguém disse que nem Deus e nem o diabo acreditavam que Jó merecesse a tragédia antes que ela caísse sobre ele. Quem começa a lançar suspeitas de que Jó merecia seu castigo foram seus amigos, e isso porque descreviam o mundo de uma forma irreal, como se todo justo tivesse que se dar bem na vida e todo ímpio fosse prontamente castigado (Jó 4-37). Jó nega as acusações deles até o momento em que decide parar de responder (Jó 31.40).
Muitas vezes é menos dolorido suportar os ataques de um inimigo declarado do que ser afligido por quem diz ser amigo de verdade. “O mal do diabo faz menos mal que o mal dos amigos”, dizia um pregador. Assim como Jó, Davi sabia disso por experiência própria. Diz o salmista: “Com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim, pois dele eu me esconderia; mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo. Juntos andávamos, juntos nos entretínhamos e íamos com a multidão à Casa de Deus... A sua boca era mais macia que a manteiga, porém no coração havia guerra; as suas palavras eram mais brandas que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas” (Sl 55.12,13,21). Ser injuriado por quem chamava você de “meu amigo” é muito doído. A vontade que dá é de não perdoar jamais o infeliz. Mas a Bíblia ensina diferente. Ela diz que de coração devemos fazer o que Deus manda. Até o inimigo devemos amar (Mt 5.43-48).
II
A última prova de Jó consistiu, impreterivelmente, em ele interceder pelos amigos que tanto o insultaram. O próprio Deus diria a Elifaz, o temanita: “A minha ira se acendeu contra ti e contra os teus dois amigos; porque não dissestes de mim o que era reto, como o meu servo Jó” (Jó 42.7). Numa leitura despretensiosa do livro de Jó, parece que os amigos dele disseram o que era justo acerca de Deus e que Jó, por sua vez, disse o que não era reto perante o Senhor. Mas foi justamente o contrário. Nem tudo o que os amigos de Jó diziam tinha sentido, eram somente “meias-verdades”. Por isso, toda vez que os amigos de Jó o acusavam, eles pecavam contra Deus. Peca-se contra Deus quando seus servos e servas são acusados injustamente. Jó não pecou contra Deus porque não atribuiu a ele falta alguma, foi sincero em suas queixas e sua consciência não o incriminava de pecado algum. Dizia ele que Deus não poupava a sua dor porque não negava as palavras do Santo (Jó 6.10; cf. 2.9,10). E mais: “Ensina-me, e eu me calarei; dai-me a entender em que tenho errado” (Jó 6.24). “Bem sabes tu que eu não sou culpado...” (Jó 10.7). “À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me reprova a minha consciência por qualquer dia da minha vida” (Jó 27.6).
Ser intercessor é muito mais que orar por alguém. É, na verdade, se colocar no lugar do outro e, em oração, sentir a dor dele. Jó não apenas orou por seus amigos. Ele os amou e clamou a Deus em favor deles, pondo-se no lugar de seus amigos como se ele próprio tivesse sua oração rejeitada por ter pecado contra Deus. Lembremos que Jó ainda não estava curado de sua enfermidade física quando foi chamado para a prática do ministério de intercessão (Jó 42.7-10). Contudo, o servo do Senhor estava fortalecido espiritualmente, pronto para exercer essa tarefa gloriosa, algo que ele já fazia em prol de seus filhos (Jó 1.5). Jó havia dito antes que agiria compassivamente se houvesse uma troca de papéis e ele estivesse no lugar de seus amigos importunos: “... poderia fortalecer-vos com as minhas palavras, e a compaixão dos meus lábios abrandaria a vossa dor” (Jó 16.4,5). E ainda: “Ao aflito deve o amigo mostrar compaixão, a menos que tenha abandonado o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14).