quarta-feira, 21 de abril de 2010

Um vazio a ser preenchido

Josivaldo de França Pereira


O que leva uma pessoa famosa, rica e bonita a se envolver com álcool e drogas? Um psicólogo diria que isso está ligado à mente; o sociólogo falaria em influência do meio; a filosofia levantaria algumas indagações, enfim, eu poderia me prolongar aqui citando a opinião de diversas ciências e dos profissionais das várias áreas do saber. É melhor poupá-lo desse enfado. A resposta que talvez não interessa a muitos, mas que é única e verdadeira, é que falta Jesus no coração das pessoas. Muitos dos que tentam se recuperar do vício, e não conseguem, dizem que já tentaram de tudo, porém, ainda não experimentaram Jesus Cristo de fato e de verdade. Jesus disse: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo 8.36). Na época em que eu ia ao Desafio Jovem de Santo André para compartilhar do amor de Cristo por eles, eu costumava lhes dizer, com toda a reverência, que Jesus é a única “droga” que realmente podia salvá-los. E salvava mesmo! A medicação deles era Jesus de manhã, tarde e noite.
O que precisa ficar claro no mundo em que vivemos, é que a espiritualidade não se impressiona com a riqueza, fama e beleza que a sociedade e a mídia tanto valorizam. Numa entrevista a um ator famoso da TV brasileira, a repórter indagava justamente sobre isso. Como um ator bonito, inteligente, rico e querido por todos se envolve com drogas? Sua resposta foi que “para o nosso espírito as coisas materiais não importam”, justamente porque as coisas exteriores não preenchem o vazio da alma. Alegria, paz e vida de verdade só Jesus pode dar (Jo 10.10; 14.27; 15.11). A satisfação da carne sacrifica o espírito. Quando se alimenta o pecado, desnutre-se a alma. Crendo ou não em Deus ninguém vive de fato sem ele. Conforme disse o apóstolo Paulo em Atenas, numa citação aos poetas gregos: “nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17.28).
Comentando o texto de Eclesiastes 3.11, que afirma ter Deus colocado a eternidade no coração do homem, Miguel Rizzo destacou: “Por que será que colocou Deus a aspiração do infinito na alma humana? Naturalmente para que o homem não se degrade, levado por instintos que podem prendê-lo apenas à materialidade das coisas que passam”. Em seu livro “Religião”, Miguel Rizzo acrescenta exemplos curiosos da eternidade divina na alma humana: Indígenas colocavam junto aos mortos as armas que estes haviam usado em vida, na certeza de que lhes seriam úteis nas lutas do além. Os groelandeses enterravam junto às crianças um cão para guiá-las através do bosque sombrio que supunham existir nos limites da outra vida. Os egípcios punham à disposição do morto, na sua tumba, um esboço de uma das regiões do além. Os gauleses ‘emprestavam’ dinheiro aos defuntos na expectativa de reavê-lo na outra vida. Os gregos colocavam, na boca dos cadáveres, uma moeda de prata, a fim de pagarem a passagem pela travessia de um rio que, segundo se cria, limitava os dois mundos.
A necessidade de re-ligações com o divino é um dos fenômenos mais notáveis da vida humana. Os missionários testemunham a presença religiosa, de uma maneira ou de outra, entre todas as nações e tribos da terra. O ser humano tem sido descrito como “incuravelmente religioso”. Isso é apenas outro modo de dizer que a espiritualidade é um fenômeno universal. Toda tentativa para extirpar a religiosidade do coração humano tem sido inútil. “O homem continua religioso e a fé, quando aponta realmente para o ideal divino, é que o liberta”. Apesar da entrada do pecado no mundo, ainda existe muito de Deus no ser humano. O homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança do Senhor. Essa imagem foi maculada pelo pecado, mas não anulada. Por isso, a alma do ser humano reclama pelo religare, a re-ligação humana com sua origem divina.
Existem vazios que só Deus preenche, e graças ao bom Deus existem recursos para satisfazer os anseios da alma. Onde? Na redenção que há em Cristo Jesus.

A Queda do Livre-Arbítrio

Josivaldo de França Pereira


A queda de Adão e Eva significou a perda do livre-arbítrio, ou seja, a liberdade de escolher entre o bem e o mal. De acordo com o Breve Catecismo de Westminster, “Nossos primeiros pais, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, caíram do estado em que foram criados, pecando contra Deus”.
Note que os nossos primeiros pais caíram do estado em que foram criados, pecando contra Deus, ao serem deixados à “liberdade da sua própria vontade”. A melhor interpretação da queda do livre-arbítrio é dada pela mesma Assembléia de Westminster, no capítulo IX da Confissão de Fé: “O homem, caindo em um estado de pecado, perdeu totalmente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação, de sorte que um homem natural, inteiramente adverso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso”.
É de fundamental importância que se fique claro o sentido da expressão “liberdade da vontade” do Breve Catecismo, na interpretação da Confissão de Fé. A “liberdade da vontade”, ou simplesmente “livre-arbítrio” do homem, acabou definitivamente por ocasião do primeiro pecado. Agostinho dizia que antes do pecado o homem podia afirmar “posso não pecar”; depois do pecado passou a dizer “não posso não pecar”. Antes de pecar Adão podia escolher entre o bem e o mal. Após o pecado a escolha do homem, concernente às coisas espirituais, é somente para o mal; daí a necessidade de uma atuação sobrenatural do Espírito Santo para convertê-lo. “Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14).
Pode-se dizer, então, que atualmente o ser humano tem liberdade da vontade ou livre-arbítrio somente num sentido secundário do termo, isto é, o homem pode querer ou não usar um determinado tipo de roupa; escolher ir ou não a algum lugar, e assim por diante. Alguns teólogos preferem o termo “livre-agência” para se referir ao sentido secundário, ou não espiritual, de livre-arbítrio. Seja como for, a terminologia “livre-arbítrio” não deve ser entendida no sentido de que o homem natural ainda possa buscar o bem espiritual por livre e espontânea vontade. Isso seria estranho ao ensino bíblico. Consulte João 6.44,65; 15.5; Romanos 3.9,10,12,23; 5.6; 8.7,8; 1Coríntios 2.14; 2Coríntios 3.5; Efésios 2.1,5; Filipenses 2.13; Colossenses 2.13; Tito 3.3-5, etc.

A Morte do Crente no Catecismo de Heidelberg

Josivaldo de França Pereira


Antes de abordarmos o tema “A Morte do Crente no Catecismo de Heidelberg”, permita-me uma rápida palavra acerca do Catecismo propriamente dito.
Apesar de ser de origem reformada, o Catecismo de Heidelberg é pouco conhecido no meio presbiteriano. Isso se explica, em termos, pelo fato dele não ser um dos símbolos de fé das igrejas presbiterianas. A Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos Maior e Breve, adotados por estas, surgiram quase 100 anos após o Catecismo de Heidelberg como mais elaborados, amadurecidos e completos. No entanto, isso não diminui em nada o valor do Catecismo de Heidelberg, principalmente porque nele alguns temas são tratados de modo bem original, como no caso do porquê da morte do crente.
O Catecismo de Heidelberg foi redigido em 1563 por Gaspar Oleviano e Zacarias Ursino, dois catedráticos da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, a pedido do príncipe Frederico III.
Concluída essa pequena apresentação, passemos ao estudo do porquê da morte do crente no Catecismo de Heidelberg.
Já que Cristo morreu por nós, por que também temos de morrer? Esta, que é a pergunta 42 do Catecismo de Heidelberg, traz ao mesmo tempo uma afirmação e uma indagação. A afirmação é: “Cristo morreu por nós”. E a indagação: “Por que também temos de morrer?”.
A morte de Cristo por nós é um assunto incontestável em todo e qualquer catecismo reformado. Portanto, não poderia ser diferente no Catecismo de Heidelberg.
Por que foi necessário que Cristo se humilhasse até à morte? Porque a justiça e a verdade de Deus não podiam ser satisfeitas por nossos pecados, senão com a mesma morte do Filho de Deus. Mas se Jesus satisfez plenamente a justiça e a verdade de Deus, morrendo na cruz do Calvário por nós, por que ainda temos de morrer? Por que não poderíamos ascender imediatamente ao céu no finalzinho de nossos dias na terra (como ocorrerá com os crentes que estiverem vivos quando Cristo voltar), sem termos de passar pelo doloroso processo da morte?
De acordo com o Catecismo de Heidelberg:
1. Nossa morte não é uma satisfação por nossos pecados.
Todo o tempo em que Cristo viveu neste mundo, e especialmente no final de sua vida, suportou no corpo e na alma a ira de Deus contra os nossos pecados, a fim de que, com sua paixão, como único sacrifício propiciatório, livrasse nosso corpo e alma da condenação eterna, e alcançasse para nós a graça de Deus, a justiça e a vida eterna. Cristo padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos para que, inocente, condenado pelo juiz temporal, livrasse-nos do severo juízo de Deus que haveria de vir sobre nós.
Por ser Cristo nosso Mediador, nosso segundo Adão, ele teve que passar pela morte como parte da pena do pecado que nós merecíamos; porém, para os salvos, a morte já não é uma satisfação ou castigo pelo pecado. Ela foi para Cristo; não para nós. “Para Cristo a morte foi parte da maldição; para nós a morte é uma fonte de bênção” (Hoekema).
2. Nossa morte é uma libertação do pecado.
A carga mais pesada que temos de levar nesta vida presente é o pecado. Quanto mais velhos nos tornamos, mais ainda nos pesa o fato de que falhamos em fazer a vontade de Deus. Sente-se um pouco do peso dessa carga quando lemos as palavras do apóstolo em Romanos 8.23: “E não somente ela (a criação), mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. Contudo, a morte porá fim ao pecado.
O autor aos Hebreus descreve aqueles que estão agora no céu como “espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.23). Paulo declara que “Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito“ (Ef 5.25-27).
3. Nossa morte é uma passagem para a vida eterna.
Nossa morte será também uma entrada na vida eterna. Essas palavras não têm a intenção de negar que há um sentido no qual o crente já possui a vida eterna aqui e agora, posto que o mesmo Catecismo ensina na pergunta 58 que nós já sentimos em nosso coração o princípio da bem-aventurança eterna. Entretanto, o que desfrutamos agora é somente o princípio. Entraremos na plenitude das riquezas da vida eterna somente depois de passarmos pelo portal da morte. Aos que vivem em Cristo, “o morrer é lucro” (Fp 1.21).
Isto significa que a morte, outrora nossa inimiga, foi transformada por meio da obra de Cristo em nossa amiga. “Nosso mais temido oponente foi transformado para nós no servo que abre a porta à bem-aventurança celestial. Portanto, a morte não é o fim para o cristão, mas um novo princípio glorioso” (Hoekema).

“Nossa morte não é uma satisfação por nossos pecados, mas uma libertação do pecado e uma passagem para a vida eterna” (Catecismo de Heidelberg, Resposta 42).

Os Móveis de Tobias

(Neemias 13.1-9)
Josivaldo de França Pereira


Neemias é conhecido por sua liderança e zelo religioso. Tinha amor profundo por Deus e por Jerusalém, a Cidade Santa. Quando, no exílio, recebeu a notícia do estado em que se encontrava Jerusalém e o povo, ele chorou, lamentou, jejuou e orou perante o Deus dos céus. Recebendo permissão do rei Artaxerxes, Neemias viajou a fim de restaurar os muros da cidade e cuidar da vida espiritual do povo. Após doze anos retornou à Babilônia, mas logo depois regressou para Jerusalém. Percebeu que a condição espiritual dos judeus ainda era ruim, a ponto de um ímpio como Tobias mudar “de mala e cuia” para a Casa de Deus.

1. Tobias, o dono dos móveis

Tobias é citado em várias partes do livro de Neemias como um homem perverso e de mau caráter (cf. Ne 2.10,19; 4.1-3,7; 6.10-13,19b). Alguém descreveu Tobias como um “homem mau, fraudulento, imprestável, politiqueiro, um homem que fazia negócios obscuros, ciumento (não havia feito nada pelo seu povo e agora que chega alguém interessado em reconstruir a cidade seu coração se enche de ódio), um homem que vivia maquinando e planejando como derrubar Neemias, usando a sua língua ferina, sua influência política”.
Tobias era amonita, contudo, tinha nome hebraico que significa “O Senhor é Deus”. Ou seja, ele tinha nome de crente, por assim dizer, mas não era crente, não pertencia ao povo de Deus. Além disso, quando Neemias chegou em Jerusalém, Tobias estava morando nas dependências da Casa de Deus, mais precisamente numa “câmara grande”. Isso não é curioso? Tobias praticamente morava dentro da Casa de Deus, mas não era de Deus. É provável que participasse dos cultos de louvor e adoração. Talvez para fazer média com os crentes, ou algum crente, porém, ele não era crente, não era um homem de Deus. Tobias era do Maligno! Um ímpio entre os santos. Um homem que não amava a Deus e nem ao povo de Deus, preocupado consigo mesmo.

2. Os móveis de Tobias

Os móveis de Tobias ocuparam o lugar dos móveis de Deus. Para que os móveis de Tobias entrassem na Casa de Deus foi preciso que os móveis de Deus saíssem. Os móveis de Tobias eram profanos e mundanos, mesmo sendo novos. Um símbolo de que as obras da carne e do pecado não podem ocupar o mesmo espaço do Espírito e da santificação. Uma representação do mundanismo inovacionista que invade sorrateira, mas também descaradamente, a Igreja do Senhor Jesus nos dias de hoje!
Os móveis de Deus podem ser “antigos”, mas são os móveis de Deus. Representam a sã doutrina, o puro evangelho da graça de Cristo, o culto segundo a vontade de Deus. Ou seja, as coisas que agradam a Deus porque provém do próprio Deus.

3. A faxina de Neemias

Sempre haverá alguém, levantado por Deus, com zelo pelo Senhor e pelas coisas referentes a ele. Aqui, esse alguém é Neemias. No entanto, a origem de tudo de ruim que estava acontecendo na Casa de Deus era Eliasibe, o sacerdote. O homem que devia representar o povo perante Deus estava “aparentado” com Tobias. A Bíblia diz: “Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno, do crente com o incrédulo? (2Co 6.14,15). Eliasibe não foi uma influência positiva na vida de Tobias, pelo contrário, Tobias é quem influenciou negativamente Eliasibe, a ponto deste permitir que um ímpio morasse na Casa de Deus. Conseqüentemente, Neemias lançou fora os móveis de Tobias e reintroduziu, em seu devido lugar, os móveis de Deus.
Meus irmãos, a Casa de Deus somos nós (cf. 2Co 6.16-18; 1Tm 3.15; Hb 3.6). Deus não quer que os móveis de Tobias façam parte de sua Casa (cf. Tg 4.8-10). Portanto, olhemos bem para os cômodos de nossas vidas. Lancemos fora os móveis de Tobias; lancemos fora a mobília que não agrada a Deus!


“Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1).