segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Rosto de Estêvão

“Todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo” (At 6.15)

Josivaldo de França Pereira

Estêvão foi um dos sete homens escolhidos pelos judeus de origem helenista para atenderem ao serviço social na igreja de Jerusalém (At 6.1-6). Mas ele também se destacou como evangelista, e realizador de prodígios e grandes sinais entre o povo (At 6.8). Aqueles que não conseguiram resistir aos poderosos argumentos de Estêvão, a favor de Jesus, trataram logo de subornar homens mentirosos e falsas testemunhas para incriminá-lo injustamente (At 6.9-14). É nesse contexto de acusações infames que, perante o Sinédrio (o tribunal judeu da época), o rosto de Estêvão foi visto por todos os que ali estavam como se fosse rosto de anjo. Uma manifestação da presença de Deus, semelhante àquela experimentada por Moisés no deserto, conforme Êxodo 34.29-35. Estêvão recebeu o mesmo sinal do favor divino conferido a Moisés. O mesmo legislador contra quem Estêvão também era acusado de falar mal da lei (At 6.13,14).
Por que o rosto de Estêvão foi visto pelos membros do Sinédrio como se fosse o rosto de um anjo? Suposições nos levariam a possíveis erros, no entanto, extrair do texto a resposta é garantia de acerto. O rosto de Estêvão foi visto como rosto de anjo por que:
1)  Era o rosto de um homem de boa reputação, cheio do Espírito e de sabedoria (At 6.3).
Estêvão, assim como os sete homens escolhidos para servir às mesas, devia preencher os seguintes pré-requisitos: ter boa reputação, ser cheio do Espírito Santo e de sabedoria.  É claro que para a tarefa de distribuir alimento e dinheiro, a pessoa deve ter uma reputação acima de qualquer suspeita e uma recomendação que seus colegas e superiores fornecem alegremente (cf. At 10.22; 16.1,2; 22.12). E ainda, uma pessoa que ajuda os carentes deve ser cheia do Espírito Santo e sabedoria (cf. Nm 27.16-18).[1] Estêvão devia ter sido participante da experiência do pentecostes não menos que os apóstolos. Devia ter experimentado pessoalmente a promessa feita pelo Senhor Jesus de que aos seus seguidores seria dado o divino Espírito Santo. Semelhantemente, ser cheio de sabedoria é uma qualidade que, naturalmente, resulta do poder habitador do Espírito Santo.[2] Para o Espírito de Deus não há nenhuma separação entre o sagrado e o secular. Estêvão não somente distribuía comida e verbas com sabedoria, mas também pregava a Palavra e realizava milagres (At 6.8-10).
2) Era o rosto de um homem cheio de fé e do Espírito Santo (At 6.5).
O nome “Estêvão” significa “coroa”. Um nome deveras sugestivo, visto que ele recebeu a coroa da justiça por ocasião do seu martírio. Estêvão foi um daqueles que preencheu os requisitos determinados pelos apóstolos, pois Lucas relata que Estêvão é um homem “cheio de fé e do Espírito Santo”. Ele é conhecido por sua fé, como o demonstra no seu ensino e pregação.[3] A fé é um aspecto da vida no Espírito, um desenvolvimento espiritual do crente, que resulta do poder transformador do Espírito que nele habita, uma evidência da graça divina em sua vida. A atuação do Espírito Santo pode ser imitada fraudulentamente, mas o serviço cristão contínuo e frutífero só pode ser produto da influência verdadeira exercida pelo Espírito de Deus, e um fruto espiritual autêntico é a prova suprema de sua presença.[4] Paulo, que certamente foi impactado pelo testemunho de Estêvão (At 7.58; 8.1,3; 22.20), diria mais tarde aos crentes de Éfeso: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito” (Ef 5.18).
3)  Era o rosto de um homem cheio de graça e poder (At 6.8).
Estêvão foi um homem “cheio de graça e poder”. Kistemaker observa que, com as palavras “graça” e “poder”, Lucas liga o trabalho de Estêvão de misericórdia, cura, ensino e pregação à obra dos apóstolos.[5] Num contexto anterior, Lucas escreve que os apóstolos continuavam a proclamar a ressurreição de Jesus com “grande poder” e que experimentavam “abundante graça” (At 4.33). Assim, Deus abençoa o trabalho de Estêvão no mesmo grau que tem abençoado os feitos dos apóstolos. Para ser exato, Lucas raramente adjetiva os milagres e prodígios realizados pelos apóstolos. Mas, no caso de Estêvão, revela que os prodígios e sinais são grandes. No grego, o tempo verbal indica que Estêvão continuava a realizá-los. Se ele já realizava milagres antes de os apóstolos o terem ordenado não está claro, mas é provável. Deduz-se que a expressão “prodígios e grandes sinais” descreva o ministério de cura de Estêvão e, especialmente em razão desses milagres, ele era uma bênção para o povo. Não obstante tudo isso, seus próprios conterrâneos o mataram pouco tempo depois.[6]
4)  Era o rosto de um homem que falava com sabedoria e no Espírito (At 6.10).
Judeus de vários lugares da Dispersão eram incapazes de sobrepor-se a Estêvão. Certamente não discutiram em razão dos milagres de cura e do apoio da população local. Os opositores de Estêvão representavam as sentinelas dos muros de Sião e estavam vigilantes na sua defesa da lei de Moisés, do templo e das observâncias religiosas; portanto, debatiam com Estêvão pontos de doutrina e assuntos de adoração. Lucas declara simplesmente que Estêvão falava com sabedoria e no Espírito. Isso é suficiente por ora, pois, no capítulo 7, Lucas narra o conteúdo do discurso de Estêvão. Ele repete os requisitos apostólicos dos sete homens nomeados para o cargo: homens “cheios do Espírito e de sabedoria” (At 6.3). Estêvão compreendeu o cumprimento da promessa de Jesus de conceder aos seus seguidores palavras de sabedoria para que nenhum de seus opositores fosse capaz de refutá-los (Lc 21.15; cf. Mt 10.20). Note-se ainda que o termo “sabedoria” aparece apenas quatro vezes em Atos, duas delas relacionadas a Estêvão (At 6.3,10) e duas em seu discurso perante o Sinédrio (At 7.10,22). Com o Espírito de Deus e com a sabedoria do alto, Estêvão era capaz de debater com os seus oponentes nas sinagogas judaicas. E, cheio do Espírito, ele pôde rebater os argumentos dirigidos a ele à sua interpretação das Escrituras. Se os judeus de fala grega tivessem percebido que estavam se opondo ao Espírito Santo, saberiam que enfrentavam uma batalha da qual não poderiam sair vitoriosos (cf. At 5.33-39).[7]
5)  Era o rosto da “tua testemunha”, segundo Paulo (At 22.20).
No auge de sua defesa em Jerusalém, Paulo revela o que respondeu a Jesus na primeira aparição deste a ele: “Quando se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, consentia nisso e até guardei as vestes dos que o matavam” (At 22.20). Paulo demonstra, nessas palavras, que o testemunho de Estêvão causou-lhe uma impressão muito forte e duradoura. E essa foi uma das mais significativas contribuições de Estêvão para a causa cristã. Na verdade, Paulo havia se tornado o sucessor de Estêvão em alcançar os judeus de fala grega (cf. At 6.8-10; 9.29).[8] Com base no vocábulo original grego para traduzir “testemunha” é que surgiu a nossa palavra moderna “mártir”. As primeiras testemunhas do cristianismo, com tanta frequência foram martirizadas, que o termo passou a ser usado para indicar o testemunho delas. Enquanto testemunhava por Jesus, Estêvão foi morto por seus acusadores com a total aprovação do Sinédrio. Lucas não fornece evidências sobre se, em alguma época, Paulo tivesse sido membro do concílio judeu. Em lugar disso, ele dá a entender que Paulo era comissionado pelo Sinédrio para perseguir os cristãos. Nessa passagem (At 22.20), Paulo confessa que ele próprio consentira na morte de Estêvão. Ele guardara as roupas dos homens que atiravam as pedras em Estêvão, o primeiro mártir cristão.[9]    
Concluindo:
Estêvão mostrou ser um homem dotado de graça singular, pois mesmo sob perseguição ele orou, semelhante a Jesus, solicitando o perdão de Deus para seus algozes (At 7.60; cf. Lc 23.34).
Estêvão obteve a distinção de ter sido o primeiro mártir cristão, tornando-se assim o cabeça de uma imensa legião espiritual. Por causa da morte de Estêvão levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém, que só serviu para espalhar ainda mais o evangelho por toda a parte (cf. At 8.1-4).
Estêvão poderia ter ficado a servir as mesas durante toda a vida, porém, no caso dele, uma coisa conduzia a outra. Que o exemplo de Estêvão nos desafie a viver conforme a mensagem daquele antigo hino: “Que a beleza de Cristo se veja em mim!”.



[1] Cf. Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 297.
[2] Cf. R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo Por Versículo: Atos/Romanos. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002, p.130. O autor faz um comentário minucioso e muito bom dessa passagem.
[3] Kistemaker, op. cit., p. 300.
[4] Champlin, op. cit., p. 132.
[5] Kistemaker, op. cit., p. 303.
[6] Idem, p. 303, 04.
[7] Idem, p. 306. Vt. I. Howard Marshall, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1985, p. 126; Champlin, op. cit., p. 136.
[8] Estêvão e Paulo são parecidos até mesmo no conceito universal do evangelho. Champlin (op. cit., p. 131) comenta: “Embora não tivesse sido através do sermão de Estêvão que foi pela primeira vez proclamada a missão universal do evangelho, pelo menos o evangelho foi nessa ocasião mais claramente delineado e enfatizado, porque ele mostrou que a presença de Deus não pode ser localizada”. Compare Atos 7.48 com Atos 17.24.
[9] Kistemaker, Atos. Vol. 2, p. 396, 97; Champlin, op. cit., p. 476; Marshall, op. cit., p. 333.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Seminarista

Josivaldo de França Pereira

Era seu primeiro dia de aula. Ele chegou animado, radiante de alegria e muito ansioso para iniciar sua formação teológica. Muito espiritual, com razão estranhou o linguajar daquele colega no intervalo da aula. "Tudo bem, deixa pra lá", pensou ele, "nada que possa ser denominado de escândalo". Antes de iniciar a próxima aula, leu a Bíblia e fez uma breve oração. Não era possível fazer muita coisa. Primeiro porque o intervalo era pequeno e segundo porque a maioria da classe conversava enquanto um ou outro realmente bagunçava.
Uma idéia brilhante surgiu quando alguém lá do fundo pediu silêncio e propôs à turma que todos chegassem "mais cedo amanhã" para que se fizesse uma devocional antes da primeira aula. Outro sugeriu que devocionais fossem feitas todos os dias e que cada dia alguém trouxesse "uma palavrinha". A classe apoiou.
A primeira semana foi bem. Na segunda semana não teve devocional na terça, quinta e sexta. Na terceira as devocionais acabaram-se de uma vez por todas. O curioso é que a falta de constância do grupo estava se refletindo na vida devocional de cada um também. Em casa quem costumava orar e ler a Bíblia todos os dias andava faltoso. Outros já não liam a Bíblia havia um bom tempo.
Começou-se as pesquisas para os trabalhos, os estudos para as provas e as devocionais foram todas para o espaço. A leitura diária da Bíblia há muito foi substituída pelas leituras dos livros. Seminarista tem que ler muito mesmo! A leitura faz parte de sua boa formação. Mas nada disso à custa de uma vida de oração e comunhão com Deus!
É preciso que nossos seminários atentem para a vida devocional de seus alunos. A espiritualidade cristã deve acompanhar nossos jovens durante o decorrer de seus estudos para que se tornem pastores piedosos e bênçãos em suas igrejas. Quantos iniciaram bem o seminário e saíram deles "céticos" em relação a Deus e à vida? Precisamos criar em nossos meninos o hábito da leitura bíblica diária. E os professores devem ser exemplos nesse particular.
Há pastores que alegam não ter tempo para uma leitura diária da Bíblia e oração. É isso que Deus quer? Claro que não. O pastor não deve somente falar de Deus ou sobre Deus. Ele precisa falar com Deus. O pastor não deve somente falar da Bíblia ou tomá-la em suas mãos apenas para fazer seu sermão. Ele precisa ter seu momento devocional com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra. Uma boa sugestão é iniciarmos nossas manhãs assim. Por que não começar o café da manhã com Deus, como fazia o salmista? "De manhã, SENHOR, ouves a minha voz; de manhã te apresento a minha oração e fico esperando" (Sl 5.3); "Eu, porém, cantarei a tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericórdia; pois tu me tens sido alto refúgio e proteção no dia da minha angústia" (Sl 59.16); "Faze-me ouvir, pela manhã, da tua graça, pois em ti confio; mostra-me o caminho por onde devo andar, porque a ti elevo a minha alma" (Sl 143.8).
Seminaristas, pastores, líderes e crentes em geral, não se esqueçam da recomendação do Senhor Jesus para com o Deus Pai: "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas" (Mt 6.33).

Do Cume ao Sopé

Josivaldo de França Pereira

Uma das experiências mais marcantes na vida de pelo menos três discípulos de Cristo foi a da transfiguração de nosso Senhor. Pedro lembrou-se dela e a fez conhecida em uma de suas cartas assim: "Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo" (2Pe 1.16-18). Esse episódio aparece subentendido nas primeiras declarações de João em sua primeira carta (1Jo 1.1-4). E Tiago, seu irmão, provavelmente o teria relatado em alguma epístola se porventura não houvesse sido morto precocemente (At 12.1,2).
Foi sem dúvida uma experiência marcante e inesquecível. Contudo, mais impressionantes foram as lições que Cristo deixou para eles e para nós.
"Senhor, bom é estarmos aqui, façamos três tendas...". Estava tudo muito bom, mas faltava uma coisa, posto que aquela visão não tinha um fim em si mesma. A gloriosa transfiguração de Cristo era um prelúdio de sua exaltação e também não tinha um fim em si mesma. Os discípulos não sabiam o que diziam quando desejavam ficar ali para sempre. Estava bom. Estava gostoso. Quem não gostaria de desfrutar de uma comunhão tão gloriosa como aquela na presença de Deus? Apesar disso, não sabiam o que diziam. Era preciso descer imediatamente daquele monte porque lá embaixo a realidade era outra; e bem diferente!
Era preciso descer do monte imediatamente. E enquanto desciam, imaginamos o que se passava na mente daqueles três. "Já que não podemos ficar, vamos contar a todos o que acabamos de presenciar, logo que chegarmos lá embaixo". Entretanto, o Senhor que conhece os intentos do coração, a presunçosa vaidade humana, diz aos seus discípulos que eles não deveriam, por enquanto, falar a ninguém o que aconteceu ali. O que aconteceu naquele monte foi fantástico e fabuloso, mas podia ficar para depois, para outra hora. Novamente Jesus ensina que algo mais urgente carecia de uma atenção especial.
Ao sopé do monte acontecia uma batalha espiritual sem precedentes. Nunca os discípulos, que lá estavam, se sentiram tão humilhados e impotentes diante de um quadro como aquele. Um pai desesperado com seu filho endemoninhado; pressão por todos os lados para que o menino fosse liberto, e nada do diabo sair daquele corpo. O que houve? Excesso de autoconfiança? Exibicionismo, presunção, arrogância? Não. Simplesmente falta de mais preparação e dependência do Senhor, mesmo que ele parecesse distante. Jesus vem ao encontro deles. E vem em resposta a suas orações. Pense no desespero deles, olhando uns para os outros e todos olhando para o cume do monte, suplicando desesperadamente em seu íntimo pela descida imediata de Jesus. Nunca o Mestre fez tanta falta como naquele momento.
Jesus, amigo fiel e verdadeiro, jamais abandona os seus. Mas não foi somente por causa dos seus discípulos que ele desceu. Ouviu a oração do coração aflito de um pai que não sabia mais o que fazer. Trouxe o menino aos discípulos e nada de cura e libertação. A fé se esvaiu. A esperança acabou e o homem não sabia mais o que fazer.  "Por acaso, podes fazer alguma coisa?". É a última tentativa de quem não sabe o que fazer e nem a quem recorrer. De onde virá o socorro? Jesus é a última tentativa. Disseram ao homem que Jesus curava, que seus discípulos também faziam maravilhas, porém, os discípulos não puderam fazer absolutamente nada. "Será que Jesus pode fazer algo pelo meu filho?". "Mestre, oh! Mestre, me ajuda. Teus discípulos não puderam fazer nada por ele; mas se tu podes alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos". O amor pelo filho, o desespero em vê-lo naquela situação, arrancaram do fundo de seu íntimo uma gota escondida de esperança: "Se podes fazer alguma coisa, ajuda a ele e a mim porque não aguento mais". 
É impressionante o contraste entre a cena da transfiguração no cume do monte e o da desfiguração presenciada no sopé dele. Na primeira temos a gloriosa manifestação de Cristo a ponto de suas vestes se tornarem resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra poderia alvejá-las. No segundo episódio contemplamos a degradação de uma vida escravizada por Satanás, necessitada desesperadamente de alívio e libertação, levando ao caos e desespero aqueles que presenciavam ou conviviam com aquela triste realidade.
Que deve significar para a igreja do novo milênio a transfiguração de Cristo "no monte santo" e sua descida cá embaixo? Qual a relação entre a atitude de seus discípulos, tanto dos que estavam no monte como dos que estavam embaixo, com a dos discípulos de hoje? O que aprendemos com aquele pai e seu filho endemoninhado, mas liberto por Jesus?
Hoje em dia a busca de uma vida contemplativa parece mais em moda do que nunca. O que antes era comum de se ver e ouvir no mundo zen, passa para o lado de cá, da igreja. Cada vez mais livros e livros são escritos sobre o tema. Pastores buscam a contemplação e levam seus rebanhos a imitá-los.  A igreja está mais espiritualista do que nunca. A igreja de hoje e não poucos líderes parecem viver a realidade de dois mundos distintos. O mundo contemplativo, a nossa "verdadeira" realidade, e o mundo real que não faz parte de nossa realidade. Isso tudo tem algum sentido prático? Não estaria faltando ortopraxia na teologia conceitual de nossos líderes e igrejas? Qual o valor de uma fé sem obras?
Não estou dizendo que a contemplação não faça parte da vida cristã. O que estou dizendo é que a vida cristã não se resume nisso. As pessoas nas quais eu percebo uma alienação absurda do mundo são as que dizem ou se julgam ser as mais espirituais. Tenho visto pouco empenho evangelístico e missionário por parte dessas pessoas, além de pouco ou nenhum envolvimento social da parte delas. É preciso orar sim; é preciso buscar a comunhão de Deus sim; precisamos nos congregar para adorar ao nosso Deus, mas isso tudo (válido e importante), não pode ter um fim em si mesmo. Cantamos que "bom é estarmos aqui, louvando a Deus". Dizemos ainda que esta é "a casa de Deus". Mas e daí?
Do alto do monte de nossa contemplação é preciso aprender com o Mestre a olharmos para baixo e vermos a sociedade escravizada da qual fazemos parte, com compaixão e misericórdia. São muitos os que não têm voz e nem vez neste mundo desumano.
A igreja é a voz profética da sociedade. Há um ditado popular que diz que "quem cala consente". Por isso mesmo, precisamos ser e fazer a diferença aqui e agora. O mundo precisa saber pela igreja que Jesus é a melhor escolha; a única alternativa de vida. A esperança do desesperado; a vitória de quem guerreia contra a carne, o mundo e Satanás. Que ele ergue do pó o desvalido e do monturo o necessitado. Enfim, que ele, e somente ele, é vida de verdade.
No alto do monte Jesus viu a Deus e não se esqueceu dos que estavam embaixo. No alto do monte ele olhou para baixo; estando embaixo não deixou de olhar para cima. Ajudar os aflitos era parte de sua missão e culto a Deus. Pedro e João aprenderam as lições do Mestre, como os demais também, porque mais tarde, com um outro Tiago, Pedro e João recomendaram a Paulo e Barnabé que se lembrassem dos pobres, "o que também me esforcei por fazer", disse o apóstolo.
Para refletir: Suba o monte santo sem se esquecer dos que ficaram embaixo.