quarta-feira, 30 de junho de 2010

Maior é o que serve

Josivaldo de França Pereira

Por causa de sua natureza pecaminosa, o ser humano muitas vezes tem conceitos e atitudes equivocados acerca do poder. "Em qualquer lugar onde encontro uma criatura viva, encontro desejo de poder", dizia Nietzsche. É da natureza humana o “estar por cima” e “levar vantagem em tudo”. Contudo, o ensino bíblico quanto a ser maior é bem diferente. O evangelho resgata o verdadeiro conceito de domínio e poder que devem caracterizar uma vida cheia do Espírito Santo de Deus. Jesus Cristo é o nosso exemplo supremo. Ele é o Senhor que se fez servo (cf. Fp 2.6-8).
Quando a mãe de Tiago e João pediu a Jesus que no seu reino seus filhos se assentassem um à sua direita e o outro à sua esquerda (como se não bastasse a promessa do Senhor em Mateus 19.28), os demais discípulos ficaram indignados. Obviamente os dez não ficaram indignados contra os dois irmãos somente porque estes foram arrogantes e pretensiosos, mas principalmente porque tomaram a frente deles. “Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mt 20.25-28; cf. Mc 10.42-45).
Não foi a primeira vez que os discípulos se mostraram preocupados com o poder. “Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus. E quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe” (Mt 18.1-5; cf. Mc 9.33-37; Lc 9.46-48).
Tornar-se como criança é o mesmo “que se humilhar como esta criança”, ou seja, ser submisso e obediente ao Senhor, ter um coração aberto e confiante nele, ser totalmente dependente dele, assim como o é a criança em relação aos seus pais ou responsáveis.
Paulo ensinou o mesmo princípio do “maior é aquele que serve” quando exortou os filipenses dizendo: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3).
E Pedro, depois que aprendeu a importância da humildade, rogou aos presbíteros: “Pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho” (1Pe 5.2,3). “Nem como dominadores dos que vos foram confiados lembra as palavras de Jesus (Mc 10.42,43): ‘os que são considerados governadores dos povos, dominam sobre eles (a palavra gr. é a mesma), mas entre vós não é assim’. A isto ele acrescenta algumas palavras sobre o seu próprio modo de liderar: ‘vim para servir’ (Mc 10.45). Às vezes, os líderes cristãos têm a tendência a achar que os seus liderados são ‘ovelhinhas’ com as quais se pode fazer qualquer coisa” (Ênio R. Mueller). Ao invés de dominadores, devemos nos tornar modelos do rebanho que nos foi confiado (cf. At 20.28).
Paulo também recomendaria o mesmo ao jovem pastor Timóteo: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Tm 4.12).
No reino de Deus não há lugar para o ego exaltado. “Se alguém quer vir após mim”, disse Jesus, “a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Mt 9.23).

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Panorama do ministério do Espírito Santo em Atos

Josivaldo de França Pereira

Prometido por Jesus antes de sua ascensão, derramado no dia de Pentecostes, prometido a todas as pessoas e dado como dom a todos os que iam sendo salvos e batizados, o Espírito Santo está presente em toda parte do livro de Atos. Em linhas gerais, podemos dizer que o Espírito Santo atuou em Atos quando:
•Desceu sobre o povo de Deus no dia de Pentecostes (2.1-3);
•Os crentes foram enchidos por ele e passaram a falar em outras línguas (2.4,11; 10.46; 19.6);
•A igreja cresceu de 3000 para 5000 convertidos (2.41; 4.4);
•Pedro e os outros discípulos testemunharam ousadamente diante da perseguição (3.11-26);
•Os crentes ficaram cheios de poder quando oravam juntos após a prisão de Pedro e João (4.31);
•Os primeiros seguidores venceram o egoísmo e contribuíram liberalmente para a obra do Senhor (4.32-37);
•Estêvão, o primeiro mártir, pregou o evangelho cheio de fé e morreu com uma vitória gloriosa sobre a perseguição e vingança (6.8-7.60);
•Desceu sobre os samaritanos, indicando que a parede de separação entre judeus e samaritanos cristãos estava sendo definitivamente removida (8.14-17);
•A mensagem de perdão espalhou-se pela Etiópia e África (8.27-29);
•As igrejas na Judéia, Galiléia e Samaria vieram a se estabelecer firmemente (9.31);
•O evangelho da salvação alcançou o primeiro lar gentio (11.12);
•A maravilhosa igreja missionária de Antioquia começou a prosperar em preparação para seu envio de missionários (11.22-26);
•O amor mútuo das primeiras comunidades cristãs manifestou-se através da coleta incentivada pela profecia de Ágabo (11.28,29);
•A igreja de Antioquia lançou seu programa missionário (13.2);
•Paulo venceu seu primeiro inimigo, Elimas, em Chipre (13.9);
•Os apóstolos se alegraram com a perseguição sofrida em Antioquia da Pisídia (13.50-52);
•Os apóstolos reconheceram a obra entre os gentios e pronunciaram a liberdade da lei para os cristãos gentios (15.28);
•Paulo e seus companheiros foram impedidos de continuar na Ásia, sendo dirigidos à Europa (16.6-10);
•Desceu sobre os discípulos de João Batista em Éfeso (19.1-7);
•Os líderes foram escolhidos para tomar conta da igreja local em Éfeso (20.28);
•Ágabo profetizou a prisão de Paulo (21.10-11);
•Foi lembrado na última mensagem de Paulo registrada por Lucas (28.25).

Atos: Dos Apóstolos ou do Espírito Santo?

Josivaldo de França Pereira

Escolher o título que melhor representasse o livro de Atos sempre foi motivo de muita discussão na história da Igreja. Atos, como todos os livros do Novo Testamento, não dispunha de um título original. Qualquer título posterior seria um acréscimo não inspirado, portanto, sujeito a questionamentos. Desse modo, qual seria o título mais apropriado? Atos dos Apóstolos (nome que tradicionalmente acompanha nossa Bíblia), Atos do Espírito Santo ou simplesmente Atos? Para cada uma dessas opções temos defensores e opositores.
O título Atos dos Apóstolos é o tradicional, portanto, o mais comum e aceito pela maioria dos cristãos. Ele foi adicionado à Bíblia por volta do século II, sendo apoiado pelos principais doutores da Igreja Primitiva como Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano. Entretanto, o título em questão apresenta uma irregularidade: Dos doze apóstolos registrados no capítulo 1, Lucas relata somente o ministério de Pedro. É verdade que João acompanha Pedro ao templo "para a oração da hora nona" (At 3.1) e em Samaria (At 8.14), mas Lucas não menciona nenhuma fala ou atos específicos de João. Tiago, o irmão de João, é citado, além de Atos 1.13, somente em 12.2 por ocasião de sua morte. Paulo, que aparece pela primeira vez no capítulo 8, vai ocupar cerca da metade do segundo livro de Lucas. Obviamente, o título Atos dos Apóstolos é amplo demais para os propósitos de seu autor.
O segundo título sugerido, isto é, Atos do Espírito Santo, tem recebido, nas últimas décadas, a preferência dos vários segmentos da igreja evangélica, especialmente por parte das igrejas neo-pentecostais e carismáticas. A ênfase atual na pessoa do Espírito Santo tem contribuído positivamente para a aceitação desse título até mesmo pelas igrejas históricas. Mas nem todos estão dispostos a aceitar o título Atos do Espírito Santo como sugestão ao segundo livro de Lucas. Simon J. Kistemaker, por exemplo, rejeita-o com o seguinte argumento: "Não obstante a ênfase de Lucas no derramamento do Espírito Santo em Jerusalém (2.1-4), Samaria (8.17), Cesaréia (10.44-46) e Éfeso (19.6), o conteúdo do livro é muito mais amplo que o título (Atos do Espírito Santo) propõe cobrir".
A menos que estejamos enganados, o argumento de Kistemaker para descartar o título Atos do Espírito Santo está na verdade favorecendo-o. A obra do Espírito Santo em Atos não está limitada apenas àqueles eventos que ele menciona. Para se ter uma ideia, somente o nome completo “Espírito Santo” é empregado por Lucas pelo menos onze vezes em seu Evangelho e quarenta e três vezes em Atos! O próprio Kistemaker faz comentários excelentes das passagens pneumatológicas de Atos que ele não menciona no argumento acima. Diz ele ainda que uma vez que em Atos Jesus continua a sua obra (cf. At 1.1), "A ênfase, então, não recai tanto sobre o Espírito mas antes no que Jesus está realizando na igreja em Jerusalém, Samaria, Ásia Menor, Grécia e Itália". Correto, porém, não devemos esquecer (sem diminuirmos de forma alguma o valor e a importância da pessoa e obra de Cristo) que no segundo livro de Lucas os atos do Senhor Jesus são realizados pelo Espírito Santo ("o Espírito de Jesus" como Lucas o denomina em Atos 16.7), conforme o Mestre havia, em algumas ocasiões, prometido a seus discípulos (At 1.4; cf. Lc 24.49).
O livro de Atos é um tratado acerca da origem e expansão da igreja neotestamentária sob o comando do Espírito Santo, que por sua vez utilizou homens e mulheres como instrumentos de propagação do evangelho de Jesus Cristo.
Por último, a opção em designar o livro simplesmente como Atos evita, de certo modo, as objeções levantadas contra todos os nomes propostos para o segundo livro de Lucas, além de preservar a palavra que a maioria dos títulos carrega. Contudo, apesar de parecer atraente pela sua brevidade, Atos é um título deveras vago e sem sentido.[1]


[1] Para uma compreensão melhor do que foi dito aqui, veja meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Editora Descoberta, 2002.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Se cada um fizer a sua parte...

Josivaldo de França Pereira


Logo que os judeus de Tessalônica souberam que o evangelho era anunciado por Paulo também em Beréia, eles foram até lá para perturbar o povo. Sabendo disso, rapidamente os irmãos de Beréia organizaram a partida de Paulo para os lados do mar. “Os responsáveis por Paulo levaram-no até Atenas e regressaram trazendo ordem a Silas e Timóteo para que, o mais depressa possível, fossem ter com ele” (At 17.15).
Em Atenas Paulo esperou por Silas e Timóteo. E enquanto não chegavam, o apóstolo passou a evangelizar aquela gente (At 17.16,17). Esse fato sempre chamou minha atenção. Paulo poderia ter dito: "Eu não faço nada enquanto aqueles dois não chegarem". Paulo também não pensou: "Já que eles não chegam, cansei de esperar, vou evangelizar sozinho". Nada disso. Paulo trabalhava enquanto os esperava. O apóstolo não havia desistido de seus amigos. Mas enquanto eles não chegavam alguma coisa deveria ser feita pelos atenienses.
Creio que podemos tirar uma lição importante para a nossa vida também com "a espera em ação de Paulo". Quantas vezes dependemos tanto dos outros que achamos que não podemos fazer nada sozinhos. Você já pensou que se cada um de nós fizesse a sua parte, que bênção seria a igreja? Às vezes dizemos: "A igreja está assim e assado", mas e você, como está e o que está fazendo para melhorá-la? Você já imaginou como estaria a escola bíblica dominical se você não faltasse domingo que vem? Como estaria o culto à noite se você comparecesse e ainda trouxesse um visitante? Você já pensou como a igreja cantaria bem se você também cantasse? Como ficaria o meio de semana se você não faltasse nas reuniões de oração e nos estudos bíblicos? Enfim, como seria a nossa igreja e o nosso dia a dia se cada um de nós tivesse mais compromisso e levasse as coisas de Deus com mais seriedade?
Se cada um fizer a sua parte, como por exemplo, ajudar o necessitado, perdoar o ofensor, ler a Bíblia diariamente, orar todo dia, ter uma vida de obediência e de comunhão com Deus e com os irmãos, falar de Jesus para as pessoas, etc., que bênção seria...
Ah, se cada um fizesse a sua parte!

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Política à Luz da Bíblia

Josivaldo de França Pereira

1. A ideia bíblica
O que a Bíblia tem a dizer sobre política? Na verdade não encontramos na Bíblia a palavra “política” nem uma definição da mesma. Obviamente não poderia porque a Escritura Sagrada não é um manual ou tratado político. Entretanto, encontramos nela, do Gênesis ao Apocalipse, a ideia explícita de política. Folheando suas páginas verificamos que o conceito bíblico de política é o conceito do próprio Deus e de seus escritores sagrados. A arte de bem governar e administrar com competência são exigências constantes de Deus. Basta lermos, a guisa de exemplo, o livro do profeta Isaías. Isaías é corretamente denominado pelos estudiosos de “profeta da justiça social”. Sua reivindicação pela justiça social como resultado de uma política responsável e consciente era a reivindicação do próprio Deus que o enviara a profetizar.
2. Causa e solução das crises
A causa das crises sócioeconômicas a nível mundial está numa política defeituosa. E qual seria, por sinal, a causa deste defeito? É simples: a maioria dos líderes políticos está querendo dirigir o mundo sem Deus e sem a Bíblia. Acredite, o maior e melhor programa de governo de todos os tempos é a Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada. Leia Deuteronômio 17.18-20. Além disso, observe o exemplo do povo de Israel na Bíblia. Leia a história dos reis de Israel. Os reis que governaram sob o temor de Deus e em obediência à sua Palavra foram bem sucedidos. O segredo de uma política eficiente não está na forma de governo (monarquia, democracia, etc) e nem no regime político (parlamentarismo, presidencialismo), mas na aplicação prática dos princípios morais e civis da lei de Deus. Não estou dizendo que devemos restabelecer a teocracia que Israel por fim acabou abandonando. No mundo de pecado em que vivemos é impossível um governo eminentemente teocrático, contudo, quando os princípios bíblicos regem a conduta e a moral dos dirigentes Deus abençoa a nação. Quando João Calvino (1509-1564) aplicou em Genebra (Suíça) os princípios da “constituição de Deus”, a Bíblia, ele revolucionou de maneira extraordinária a vida daquela cidade. A reforma religiosa e político-social de Calvino é um marco da história que comprova, entre tantos outros exemplos semelhantes, que fé em Deus e administração pública são uma mistura que dá certo.
3. Jesus, Pedro e Paulo e a política
O maior conceito de política que a Bíblia nos apresenta foi dado pelo Senhor Jesus Cristo. Certa feita o Mestre foi interpelado por pessoas mal intencionadas sobre a questão do pagamento de impostos ao imperador romano. “É lícito pagar tributo a César, ou não?”, perguntaram. Jesus pediu que mostrassem uma moeda e interrogou: “De quem é esta efígie e inscrição?”. “De César”, responderam. Então lhes disse: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Em outras palavras o Mestre queria dizer: “Sim, devemos pagar imposto. Honrar a Deus não significa desonrar o imperador”.
Sem dúvida os apóstolos Pedro e Paulo tinham em suas mentes o ensino de Jesus ao tratarem em suas cartas de “alguns temas políticos”. Ambos enfatizam a importância da obediência e honra às autoridades pelo simples fato de serem “ministros de Deus”, conforme a expressão usada por Paulo. A desobediência civil é justificada na Bíblia somente quando as autoridades intencionalmente se opõem ao evangelho de Jesus para cometerem injustiças (cf. At 4.18,19). E se a desobediência civil não fosse justificável somente nesse sentido, Pedro e Paulo jamais insistiriam em suas epístolas pela obediência às autoridades (Rm 13.1-7; 1Tm 2.1,2; 1Pe 2.11-17). É interessante esse apelo apostólico porque Pedro e Paulo e as igrejas a quem eles se dirigiam viviam, naquela época, sob o governo déspota e tirano do imperador Nero. Porém, a recomendação de deveres não era pelo que o imperador e as demais autoridades significavam em si mesmos, e sim, porque ocupavam a posição político-administrativa instituída por Deus. Lembremos que quando Pilatos disse a Jesus: “Não sabes que tenho autoridade para te soltar, e autoridade para te crucificar?”, a resposta do nosso Senhor foi: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima (de Deus) não te fosse dada”. Quando Jesus diz em Mateus 22.21 “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” não quis dizer, como bem observou Francis Schaeffer:
DEUS e CÉSAR
Foi, é e sempre será assim:
DEUS
e
CÉSAR
Por causa dessa autoridade que vem de Deus é que o povo tem deveres para com as autoridades constituídas. E por causa dessa mesma autoridade vinda de Deus é que os políticos devem tratar o povo com justiça e respeito.
4. O propósito da política segundo a Bíblia
Observe que de acordo com a Bíblia, a política em si é boa porque foi instituída por Deus. O problema está no fato de que nem sempre a política é devidamente utilizada. Isso acontece porque nem todos estão aptos para entender o propósito da política. Qual a finalidade da política? Acredito que os teólogos da Assembléia de Westminster, Inglaterra (1643-1649), definiram biblicamente o propósito da política quando disseram: “Deus, o Senhor Supremo e Rei de todo o mundo, para a sua glória e para o bem público, constituiu sobre o povo magistrados civis (líderes políticos) que lhes são sujeitos, e a este fim, os armou com o poder da espada para defesa e incentivo dos bons e castigo dos malfeitores”. Veja nessa declaração que a finalidade da política é dupla. Deus a constituiu para 1) a sua própria glória e 2) o bem público. Perguntar não ofende: Será que este duplo propósito da política está sendo cumprido em termos de Brasil? É evidente que não, pois notamos ainda na declaração de Westminster que as autoridades receberam da parte de Deus o poder da espada para a defesa dos bons e castigo dos maus. A impunidade desonra a Deus.
Em suma, a Bíblia valoriza a política e os políticos. A primeira porque faz parte da própria essência administrativa de Deus. Os segundos porque são agentes de Deus (quer estejam conscientes ou não disso; quer acreditem ou não nisso) a fim de governarem com seriedade para que Deus seja glorificado e o povo respeitado.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Pecado Imperdoável - Entrevista a Revista Eclésia

Josivaldo de França Pereira

1) O que é o pecado imperdoável?
O pecado imperdoável é o mesmo pecado da blasfêmia contra o Espírito Santo, conforme destacou o próprio Senhor Jesus, em resposta aos fariseus que murmuravam por causa da multidão que se admirava pela cura de um endemoninhado. Enquanto a multidão dizia maravilhada: “É este, porventura, o Filho de Davi?”, os fariseus retrucavam: “Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios” (Mt 12.22-24). A expressão "blasfêmia contra o Espírito Santo" foi proferida somente por Jesus (Mt 12.31,32; Mc 3.28,29; Lc 12.10). O pecado imperdoável é conhecido também como "pecado para morte". Acredita-se que Hebreus 6.4-10; 10.26,27 e 1João 5.16 referem-se a esse tipo de pecado.


2) Alguns estudiosos afirmam que esse pecado seria atribuir a Satanás alguma obra de Deus. Porém, Jesus diz que ele não tem perdão. Nesse caso, caso a pessoa se equivoque, mesmo que se arrependa depois, nunca mais terá perdão?


De fato, conforme afirmam alguns estudiosos, o pecado imperdoável é "atribuir as coisas boas de Deus a um ato de Satanás" (Burge); "atribuir os milagres de Cristo à influência de Satanás" (Davis); "a rejeição deliberada e consciente da atividade de Deus, e a atribuição desta atividade ao diabo" (Davids). E isso acontece quando "o homem voluntária, maliciosa e intencionalmente atribui o que com clareza se reconhece como obra de Deus, à influência e operação de Satanás" (Berkhof); "um homem reconhece a missão de Jesus pelo Espírito Santo, mas a desafia, a amaldiçoa e a ela resiste" (Grundmann); "a incredulidade procede de conhecimento e da malícia deliberada" (Calvino). As afirmações desses renomados estudiosos estão respaldadas no próprio ensino de Jesus que disse que atribuir deliberadamente a Satanás uma obra que se sabe ser de Deus é pecado imperdoável. Os fariseus sabiam que a obra que Jesus realizava era de Deus, como disse Nicodemus a Jesus (Jo 3.1,2) e o ex-cego relembrou os próprios fariseus (Jo 9.31,33).
Se você é crente em Cristo Jesus e está preocupado se, porventura, já cometeu esse tipo de pecado, pode estar certo de que nunca o praticou; pois aquele que blasfemou contra o Espírito Santo nunca, enquanto viver, se arrependerá do seu pecado, visto que jamais sentirá o desejo de confessá-lo.


3) Quais são os maiores erros de interpretação dessa passagem?


Alguns dos principais erros em relação a essa doutrina é entender o pecado imperdoável como a "rejeição do evangelho" ou a "recusa da graça de Deus em Cristo Jesus" e que, por sua vez, "pode e deve ser corrigido", ou que "o pecado imperdoável torna-se perdoável através da conversão". O Senhor Jesus foi taxativo ao afirmar que esse tipo de pecado jamais seria perdoado, nem neste mundo nem no porvir. Quem o comete “é réu de pecado eterno” (Mc 3.29; cf. Mt 12.22-32). Em suma, a blasfêmia contra o Espírito Santo não é uma "rejeição", mas sim, uma "atribuição", isto é, atribuir de modo consciente e deliberado uma obra a Satanás quando na verdade sabe-se que é de Deus.


4) Por que pecar contra o Espírito não tem perdão, mas contra o Pai e o Filho tem?


Pecar contra o Espírito Santo é pecar contra Deus. É atribuir a Satanás a obra que é do Pai e do Filho. No entanto, nem todo pecado que se comete contra o Espírito Santo é pecado imperdoável (At 7.51; Ef 4.30). Bem como nem todo pecado que se comete contra o Pai e o Filho é perdoável. Quem insiste na prática do pecado, rejeitando a Jesus Cristo por toda a sua vida, certamente perecerá em seus próprios pecados (cf. Jo 3.18; 1Co 6.9,10; Ap 21.8). Sabemos que toda iniquidade é pecado (cf 1Jo 3.4), porém, existem graduações de pecado (cf. Lc 12.47,48). O pecado em consideração é o grau mais elevado de pecado que alguém pode cometer. Mas por que a blasfêmia contra o Espírito Santo é imperdoável e contra o Filho não é? (cf. Mt 12.32; Lc 12.10). Aqui entramos no mistério da Trindade e num campo que foge à compreensão humana. Sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo é o mesmo Deus. Contudo, a soberania divina determinou que não houvesse perdão à blasfêmia cometida contra a pessoa do Espírito Santo.


5) Como posso identificá-lo?


O pecado imperdoável é um tipo raro de pecado, difícil de ser identificado, pois quem comete esse pecado o faz deliberadamente contra o próprio Deus. Não é pecado contra o próximo e com ele compartilhado. Eu diria que somente Deus pode identificar o pecado imperdoável.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A visão da vara de amendoeira

Josivaldo de França Pereira


Sabe-se muito pouco da vida anterior de Jeremias, fora do que é dito no capítulo 1.1-3 de seu livro. Ele nasceu provavelmente por volta do ano 640 a. C., em Anatote, na terra de Benjamim, cerca de cinco quilômetros a nordeste de Jerusalém. Descendia de sacerdotes e seu ministério profético durou mais de 40 anos. Harrison comenta: “Jeremias se destaca entre os profetas hebreus por causa da dimensão em que revelou seus sentimentos pessoais. Os outros faziam suas profecias sem dizer muito do que se passava dentro deles, mas Jeremias revela seu coração turbulento de homem que foi escolhido um pouco contra a sua vontade para ser o arauto de Deus em sua geração”.[1]
A vara de amendoeira foi a primeira visão de Jeremias após o seu chamado. “Veio ainda a palavra do SENHOR, dizendo: Que vês tu, Jeremias? Respondi: vejo uma vara de amendoeira. Disse-me o SENHOR: Viste bem, porque eu velo sobre a minha palavra para a cumprir” (Jr 1.11,12).  É significativo o fato da primeira visão de Jeremias está associada ao zelo de Deus no cumprimento de sua palavra. Mas o que a visão da vara de amendoeira tem a ver com o significado dela, ou seja, em Deus velar sobre a sua palavra para cumpri-la?
Há um jogo de palavras no texto de Jeremias 1.11,12 que só fica claro no texto original. Em hebraico o substantivo “amendoeira” (shaqed: “aquele que acorda”) e o verbo “velo” (shoqed: “eu velo sobre”) são provenientes da mesma raiz hebraica. Entretanto, isso não é tudo. A amendoeira é a primeira árvore a florescer na primavera do Oriente Médio. O que Deus está dizendo a Jeremias é que, do modo como o ramo da amendoeira é o primeiro a florescer, a despertar, ele (Deus) faria o mesmo em relação à sua palavra. A visão ilustra a prontidão com que Deus cumpre suas promessas. Assim como os primeiros botões da amendoeira anunciavam a primavera, a palavra pronunciada por Deus apontava para seu rápido cumprimento. E quem já leu todo o livro de Jeremias sabe como Deus cumpriu e cumpriria à risca tudo que prometeu acerca do cativeiro Babilônico e outras profecias.
A Bíblia inteira mostra como Deus é zeloso no cumprimento de sua palavra. “Nenhuma promessa falhou de todas as boas palavras que o SENHOR falara à casa de Israel; tudo se cumpriu” (Js 21.45). “Porque eu, o SENHOR, falarei, e a palavra que eu falar se cumprirá e não será retardada; porque, em vossos dias, ó casa rebelde, falarei a palavra e a cumprirei, diz o SENHOR Deus” (Ez 12.25). “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra” (Mt 5.17,18). “A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44).
“Como velei sobre eles, para arrancar, para derribar, para subverter, para destruir e para afligir, assim velarei sobre eles para edificar e para plantar, diz o SENHOR” (Jr 31.28).


[1] R. K. Harrison, Jeremias e Lamentações. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1989, p. 27.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Fidelidade dos Recabitas

(Jeremias 35)

Josivaldo de França Pereira

Os recabitas pertenciam à tribo dos queneus, um povo de origem midianita que habitava em Canaã. O principal líder dos recabitas foi Jonadabe, filho de Recabe, que lhes ordenou a abstinência de vinho, a não terem residência fixa, a não plantarem vinhas e a viverem em tendas, a fim de preservarem os hábitos e costumes antigos.


A fidelidade provada – Jr 35.1-11


O profeta Jeremias, a mando do Senhor, testou a fidelidade dos recabitas ao mandado de Jonadabe (morto há mais de duzentos anos), pondo diante deles taças cheias de vinho, mas eles recusaram beber. É importante destacar a justiça de Deus nessa prova. O Senhor pediu que Jeremias fizesse o teste com os recabitas sem a costumeira expressão “Assim diz o Senhor”, ou seja, os recabitas não tiveram que escolher entre obedecer ao Senhor e a Jonadabe. Não foram induzidos à desobediência a Deus. Os recabitas passaram facilmente pela prova de fidelidade a qual foram submetidos.


A fidelidade comparada – Jr 35.12-17


Deus comparou os recabitas com os homens de Judá e moradores de Jerusalém e disse que, enquanto os recabitas eram obedientes às ordens de um homem morto, os judeus, por sua vez, não eram obedientes ao Deus vivo. Após tantos anos a memória de Jonadabe continuava sendo honrada pelo seu povo, porém, o Deus de Israel, que até de madrugada falava ao seu povo por intermédio dos profetas para arrependimento de pecados, não era ouvido. O resultado seria o inevitável cativeiro babilônico.


A fidelidade recompensada – Jr 35.18,19


Como prêmio da fidelidade dos recabitas a Jonadabe, Deus prometeu que nunca faltaria varão da estirpe de Jonadabe que estivesse todos os dias na sua presença. Ainda hoje existem recabitas no Oriente Médio, especialmente na Mesopotâmia e no Yemen, na península arábica. Deus mantém a sua promessa há quase três mil anos!
Que lições aprendemos com o capítulo 35 do livro de Jeremias? Aprendemos, primeiramente, que não existe fidelidade sem obediência. Além disso, se alguém pode ser abençoado por sua fidelidade e obediência a um homem, será ainda muito mais abençoado sendo fiel e obediente ao próprio Deus.

Deus o fez pecado por nós

(A mensagem de 2Coríntios 5.21)
 Josivaldo de França Pereira 

A Bíblia é muitíssimo clara quando diz que Jesus não tinha pecado e, portanto, nunca pecou, embora tenha sido ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança (Hb 2.17,18; 4.15; 1Pe 2.22 [cf. Is 53.9]; 1Jo 3.5). Por isso, quando Paulo afirma que “Deus o fez pecado por nós” significa que o Deus Pai atribuiu a seu Filho Jesus o pecado de todos nós. Ou seja, o nosso pecado foi atribuído e assumido por Jesus como se fosse dele mesmo, ao entregar-se ao Pai por nós como se pecador fosse. “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13).
Na cruz o Pai não pôde contemplar seu Filho amado porque este encarnou os nossos pecados (Mt 27.46). Isso se torna ainda mais claro quando lemos em Romanos 8.3: “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado”. E também em Filipenses 2.7: “antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens...”.
Observe as expressões: “em semelhança de carne pecaminosa” de Romanos 8.3 e “semelhança de homens” de Filipenses 2.7. As duas expressões são sinônimas e significam, no mínimo, que Jesus assumiu a natureza humana não na condição de Adão antes da queda, nem na condição em que o mesmo Cristo ressuscitou, ascendeu e está no céu, e muito menos na qual ele se manifestará no dia de sua gloriosa vinda. O que a Bíblia quer dizer é que Jesus não tinha pecado algum, mas trazia em seu corpo as consequências e resultados do pecado (Is 53.2). Jesus sentiu dor, fome e sede, chorou e, por fim, morreu.
Entretanto, Romanos 8.3 e Filipenses 2.7 devem ser lidos à luz de Hebreus 4.15: “... antes, foi ele tentado em todas as cousas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. Havia semelhança, similitude entre Cristo e nós; porém, não havia absoluta e completa identidade.
Com qual objetivo “Aquele que não conheceu pecado” Deus “o fez pecado por nós”? Deus fez com que seu Filho amado pagasse a pena de morte pelos nossos pecados para que pudéssemos ser libertados e declarados justos aos olhos dele, uma vez satisfeita a sua santa justiça.


As faces do tempo

Josivaldo de França Pereira



O tempo pode ser definido como “1. A sucessão dos anos, dias, horas, etc., que envolve a noção de presente, passado e futuro. 2. Momento ou ocasião apropriada para que uma coisa se realize. 3. Época, estação” (Aurélio).
Há quatro coisas que podemos considerar acerca do tempo.
O tempo cura
Há um antigo ditado popular que diz: “O tempo é o melhor remédio”. E é mesmo! Nada melhor que o tempo para curar a dor de um coração abatido e dilacerado por uma perda significativa. As feridas da dor geralmente são cicatrizadas pela soma dos dias. Graças ao tempo suportamos as tristes lembranças do passado e adquirimos forças para seguirmos em frente. É no decorrer do tempo que somos motivados a continuar vivendo sem perder a esperança.
O tempo ensina
“O tempo é o melhor mestre”, disse Johannes Peter Schimitt. O tempo nos ensina a crescer e nele aprendemos com nossos erros e acertos. O tempo nos torna maduros e experientes. Além disso, o tempo mostra que vale a pena prosseguir adiante apesar dos percalços da vida. Ele indica que quando uma porta se fecha muitas outras se abrem. São as oportunidades que surgem como bálsamo da alma. Nada nos acontece por acaso. As lições do tempo são para uma vida melhor e feliz. O tempo é um instrumento de Deus para o aperfeiçoamento e progresso da nossa vida enquanto ainda estamos neste mundo.
O tempo não erra
O tempo não erra e nem comete injustiça. Cedo ou tarde a verdade aparece, pois não há nada encoberto que não seja revelado (cf. Lc 12.2). O que fizemos ou recebemos de certo ou errado um dia será recompensado ou condenado. O tempo é justo. James Balmes disse corretamente que o tempo é o grande juiz de todas as opiniões. E isso não é tudo: Às vezes não entendemos porque certas coisas nos acontecem, e porque de repente tudo parece virar de ponta cabeça. Mas um dia vamos ter a resposta. Por isso, para quem se sente injustiçado e prejudicado por alguém, tirar desforra de ofensa não é a melhor saída. É preciso ser paciente, confiar e descansar em Deus, pois ele é o Senhor do tempo e da justiça.
O tempo é valioso
“O tempo é a moeda de sua vida. Tenha cuidado para não deixar que os outros a gastem por você” (Carl Sandburg). “O tempo realmente vale ouro. Matar o tempo é um crime” (Monteiro Lobato). “O tempo passa rapidamente. Não podemos economizá-lo nem comprá-lo. Resta-nos utilizá-lo de uma maneira saudável enquanto ele transcorre” (Paul E. Holdcraft). Uma das coisas mais desperdiçadas na vida é o tempo. O tempo exige disciplina a fim de ser bem administrado. “Os homens eminentes nunca se queixaram de falta de tempo. Alexandre, o Grande, e João Wesley realizaram todas as suas gigantescas obras nas comuns 24 horas de cada dia” (Fred Smith). Tanto o jovem quanto o idoso precisam utilizar o tempo com inteligência e sabedoria. Assim orou Moisés: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12). Não desperdice seu tempo. “A própria eternidade não poderia recobrar os minutos já perdidos” (Johann Schiller). “Se amais a vida, não desperdiceis o tempo, que é a teia da existência. A preguiça tudo dificulta; o trabalho tudo facilita” (Benjamin Franklin).

“O tempo é demasiadamente lento – para os que esperam; veloz – para os que temem; prolongado – para os que sofrem; curto – para os que se divertem; mas, para os que amam, o tempo não conta” (Henry van Dyke).