terça-feira, 27 de julho de 2010

Panorama do Mundo do Novo Testamento

Josivaldo de França Pereira

Na época do Novo Testamento três povos contribuíram significativamente para a expansão do mundo de então, e em especial para a propagação do evangelho, a saber: os romanos, os gregos e os judeus.

O domínio romano

Uma das grandes contribuições de Roma nos tempos bíblicos foi a Pax Romana. As guerras entre as nações tornaram-se quase impossíveis sob a égide daquele poderoso império. Esta paz entre as nações favoreceu extraordinariamente a proclamação do evangelho entre os povos. Além disso, a administração romana tornou fácil e segura as viagens e comunicação entre as diferentes partes do mundo. Os piratas foram varridos dos mares e as esplêndidas estradas romanas davam acesso a todas as partes do império. Essas estradas notáveis realizaram naquela civilização o mesmo papel das nossas estradas de rodagem e estradas de ferro da atualidade. E elas eram tão bem vigiadas que os ladrões desistiam de seus assaltos.
Nichols comenta:
É provável que durante os primeiros tempos do Cristianismo o povo se locomovia de uma cidade para outra ou de um país para outro, muito mais do que em qualquer outra época, exceto depois da Idade Média. Os que sabem como as atuais facilidades de transporte têm auxiliado o trabalho missionário, podem compreender o que significava esse estado de coisas para a implantação do Cristianismo.[1]
Seria praticamente impossível ao apóstolo Paulo, e a outros de seu tempo, espalhar o evangelho mundo afora como o fizeram sem essa liberdade e facilidade de trânsito possibilitadas pelo Império Romano.

A influência grega

Era típico do Império Romano não influenciar na cultura dos povos conquistados. Por isso, no início da era cristã os povos que habitavam as regiões do Mediterrâneo já haviam sido profundamente influenciados pelo espírito do povo grego. Colônias gregas, algumas das quais com centenas de anos, foram amplamente disseminadas ao longo da costa do Mediterrâneo. Com seu comércio os gregos foram em toda parte. A influência deles espalhou-se e foi mais acentuada nas cidades e países onde se estabeleciam os mais importantes centros do mundo de então. A influência dos gregos foi tão poderosa que o período do domínio romano foi corretamente denominado de greco-romano. Quer dizer, Roma governava politicamente, mas a mentalidade dos povos desse império tinha sido moldada fundamentalmente pelos gregos.
Contudo, duas das maiores contribuições gregas para o advento do cristianismo foram a tradução do Antigo Testamento grego (a Septuaginta) e a disseminação da língua em que o evangelho seria pregado ao mundo pela primeira vez. Uma prova da extensão e da influência do grego está no fato de que a língua mais falada nos países situados às margens do Mediterrâneo era o dialeto grego conhecido por KOINÊ, o dialeto "comum". Era esta a língua universal do mundo greco-romano, usada para todos os fins no intercâmbio popular. Quem quer que a falasse seria entendido em toda parte, especialmente nos grandes centros onde o cristianismo foi primeiramente implantado. Os primeiros missionários, como por exemplo Paulo, fizeram quase todas as suas pregações nesta língua e nela foram escritos os livros que vieram a constituir o nosso Novo Testamento.

O povo judeu

Os judeus prepararam o "berço do cristianismo". Primeiramente porque anteciparam a vida religiosa em que foram instruídos o Senhor Jesus, os cristãos primitivos em geral e o apóstolo Paulo em particular (At 23.6; 26.5). Além disso, a expectativa messiânica e a preservação do Antigo Testamento pelos judeus foram fundamentais para a confirmação do evangelho. Vale lembrar que muitos gentios eram prosélitos ou simpatizantes do judaísmo, o que acabou se tornando um meio para se alcançar estas pessoas. "Num mundo intelectual que cresceu cansado dos mitos dos poetas gregos, não surpreende que a religião judaica fosse apreciada por seu conceito espiritual de Deus". [2] Era o costume de Paulo ir às sinagogas com o objetivo de evangelizar esses gentios.[3]
Talvez a maior contribuição que o cristianismo recebeu veio por parte dos judeus da Dispersão. Esses judeus, espalhados pelo mundo em virtude dos cativeiros que sofreram, podiam ser encontrados em quase todas as cidades daquela época. Em qualquer canto em que estivessem preservavam a religião judaica e estabeleciam suas sinagogas. Em muitos lugares realizavam trabalho missionário ativo. Assim, ganhavam entre os gentios numerosos prosélitos, tornando conhecidos os ensinamentos judaicos. A missão judaica foi uma precursora importante das missões cristãs porque espalhou, extensivamente entre os gentios, elementos básicos essenciais tanto ao judaísmo quanto ao cristianismo, como por exemplo, a remissão de pecados na pessoa do Messias. Muitos gentios, pelo contato com os judeus, foram inspirados por essa expectação, ficando assim preparados para a aceitação de Cristo como o Salvador que havia de vir.

[1] Robert H. NICHOLS, História da igreja cristã. 6a ed. São Paulo: CEP, 1985, p. 7.
[2] J. H. BAVINCK, An introduction to the science of missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1960, p. 27.
[3] Para outras possíveis razões do porquê de Paulo, o apóstolo dos gentios, pregar nas sinagogas, consulte Paul PIERSON, Atos que contam. Londrina: Descoberta, 2000, p. 120,121.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A lei do amor

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei perguntou a Jesus: "Mestre, qual é o grande mandamento? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas" (Mt 22.36-40).
O coração, a alma e a mente devem cooperar no amor a Deus. O "coração" é o centro da existência do ser humano, o manancial de todos os seus pensamentos, palavras e ações (cf. Pv 4.23). A "alma" é o centro da atividade emocional do ser humano; a "mente" não somente é o centro do intelecto, mas também de sua disposição e atitude. O que se quer dizer nessa passagem (Mt 22.36-40) é que devemos amar a Deus com todas as "faculdades" com as quais o Senhor nos capacitou.
Devemos usar todos estes poderes ao máximo. Observe-se o tríplice "todo... toda... toda...". O amor de Deus para conosco não deve receber de nossa parte uma resposta pela metade. Quando Deus ama, ama ao mundo; quando entrega, entrega seu Filho, ou seja, a si mesmo (cf. Jo 3.16). Um amor maior é impossível (Jo 15.13; Rm 5.6-10; 2Co 8.9). Certamente a resposta a esse amor não deve ser menos que a indicada em Romanos 11.33-36; 1Coríntios 6.20; 2Coríntios 9.15; Efésios 5.1,2; Filipenses 2.1-18 e Colossenses 3.12-17.
O segundo mandamento é semelhante ao primeiro porque também requer o amor. Amar ao próximo é o resultado natural do amor a Deus. Mas quem é este "próximo" que deve ser amado com o mesmo amor que eu amo a mim mesmo? A resposta é: Qualquer um que pela providência de Deus entre em contato comigo; qualquer um que eu possa ajudar, ainda que me odeie e nesse sentido seja meu inimigo (Mt 5.43-48). Além disso, a parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37) prova que, em lugar de perguntar, "quem é o meu próximo?", cada um deve "fazer-se próximo" daquele a quem possa ajudar de alguma maneira. Em suma, “o próximo” é todo aquele com quem devemos usar de misericórdia.[1]
"Este mandamento duplo (amar a Deus e amar ao próximo) é a coluna que sustenta toda 'lei e os profetas'. Tire-se a coluna e tudo se perde, porque o Antigo Testamento, com seus mandamentos e pactos, profecias e promessas, tipos e testemunhos, convites e exortações, aponta para o amor de Deus que exige a resposta de amor em troca".[2]



[1] Veja meu artigo "Quem é o meu próximo?" em www.ejesus.com.br.
[2] Guillermo Hendriksen. Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 850.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A criança no reino de Deus

Josivaldo de França Pereira

"Então, lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse, mas os discípulos os repreendiam. Jesus, porém, vendo isto, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele. Então, tomando-as nos braços e impondo-lhes as mãos, as abençoava."
(Mc 10.13-16)

A passagem supracitada aparece também nos registros de Mateus e Lucas. João a omite, certamente por uma questão de propósito. Entendemos que cada evangelista procurava relatar, de tudo quanto Jesus dizia, o que era mais relevante à situação de seus leitores originais.[1]
I
Marcos, apesar de entre os quatro escritores ser o autor do Evangelho mais curto, costuma enriquecer com mais detalhes os ensinamentos de Jesus. Nesta passagem (Mc 10.13-16) seu relato é mais longo, além de ser o único escritor a sublinhar o que Jesus sentiu quando os discípulos repreendiam aos que "lhe trouxeram algumas crianças para que as tocasse". Diz ele que Jesus "indignou-se" (eganáktesen). Somente aqui se usa esta palavra indicando ira, com respeito a Jesus. "Com certeza a indignação de nosso Senhor era um complemento de seu amor. Estava indignado com seus discípulos porque amava de forma mui profunda e terna os pequeninos e aos que os traziam".[2]
Os discípulos subestimaram o valor das crianças e ignoraram a verdadeira natureza do reino de Deus. Não é preciso que a criança chegue primeiro à vida adulta para poder participar do reino; ao contrário, é o adulto que precisa se converter e se tornar como criança para entrar nele (cf. Mt 18.2-4).
O exemplo da criança não salienta a inocência nem a humildade dela, mas sua receptividade e dependência. Semelhantemente, Jesus não está dizendo que seus discípulos devem imitar "qualidades infantis" como inocência, pureza ou humildade. O que Jesus quis ensinar é que o reino de Deus não é ganho ou comprado por obras ou merecimento. É necessário "receber o reino de Deus" como dádiva, como a criança que recebe um presente de um adulto responsável. Assim, devemos receber o reino de Deus do mesmo modo como uma criança recebe alguma coisa. Da mesma forma que a criança é receptiva e dependente, devemos confiar em Deus e receber dele o reino como um dom de sua graça.
II
Os discípulos não repreendiam diretamente as crianças, mas isso não os tornou menos culpados perante Jesus. Para o Mestre, repreender aqueles que querem trazer a ele suas crianças é o mesmo que rejeitar as próprias crianças. Mais que isso, é impedi-las de entrar no reino de Deus.
Por que os discípulos os repreendiam? Provavelmente por acharem que o Mestre estava cansado e não queria ser incomodado e/ou porque pensassem que as crianças (paida, podem ter entre oito dias e doze anos) eram muito jovens para entender a Jesus, pois os meninos judeus só poderiam tomar sobre si a responsabilidade de cumprir a Lei aos treze anos.[3] Um ditado rabínico dizia que dar atenção às crianças "era uma perniciosa perda de tempo".
Na época do Novo Testamento os adultos normalmente ignoravam as crianças. As crianças eram consideradas insignificantes e indignas de atenção; não podiam reivindicar coisa alguma. Podiam somente receber o que lhes era oferecido pelos adultos. Naquela cultura as crianças não eram valorizadas. Jesus, no entanto, ficou indignado com seus discípulos, porque ele valoriza as crianças. "Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus", disse Jesus. A atitude dos discípulos desagradou a Jesus porque ele é o amigo número 1 das crianças e sempre terá tempo para elas. Cristo ama as criancinhas. Ele as toma nos braços e as abençoa.
III
Mulholland comenta: "A desumanização da criança, tão comum na antiguidade, tem paralelo no abuso e no abandono de crianças de hoje".[4] São aterradoras as constantes notícias de exploração infantil em todos os sentidos. Da babá espancadora ao pai e mãe desalmados, do narcotraficante ao governo déspota que a utiliza como mero instrumento de guerra, do explorador da mão-de-obra barata ao pároco pedófilo depravado.
E nós, evangélicos, estamos honrando nossas crianças como deveríamos? Estamos aproximando nossas crianças do reino ou as afastamos dele com nossas palavras e exemplos? Na escola dominical elas estão nas melhores salas e com os melhores professores? Há espaço para elas no culto público da igreja? Inculcamos em suas cabecinhas a Palavra do Senhor (cf. Dt 6.7) e as ensinamos no caminho em que devem andar (cf. Pv 22.6)? Oramos com elas e por elas? Levamos a sério o culto doméstico? Enfim, o reino de Deus está sendo investido no coração de nossos filhos?
Muitas vezes vislumbramos um futuro profissional promissor para os nossos filhos, o que em si não é errado, mas lamentavelmente nem sempre temos a mesma disposição quando o assunto é o investimento de suas vidas no reino de Deus.
Pais crentes que pouco oram e leem a Bíblia com seus filhos, que vão esporadicamente à igreja e acham que faltar na escola dominical e/ou no culto vespertino não tem tanto problema, não avançam na vida cristã e pouco contribuem para o progresso espiritual da família. Nossos filhos desejam e precisam ver em nós seriedade e compromisso com as coisas de Deus. Quer seja na igreja, fora dela, e principalmente em casa.


[1] Cf. Dewey M. MULHOLLAND, Marcos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, s/d, p. 158.
[2] Cf. G. HENDRIKSEN, El Evangelio Según San Marcos. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 397.
[3] Op. cit., p. 158.
[4] Idem, p. 159.