sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Os nove primeiros capítulos de 1Crônicas

Josivaldo de França Pereira


Os nove primeiros capítulos do primeiro livro das Crônicas formam a mais longa lista genealógica da Bíblia. Contudo, longe de ser uma sequência enfadonha de nomes, 1Crônicas 1-9 é uma fonte de informação histórica e de interpretação das Escrituras Sagradas. Mesmo assim, 1Crônicas 1-9 é uma das partes mais negligenciadas da Bíblia, como também os são os demais capítulos dela que contêm porções genealógicas. A começar por nós pastores, raramente pregamos nos textos genealógicos. Em nossas leituras bíblicas normalmente passamos por cima deles. Os crentes, de modo geral, igualmente não apreciam os textos genealógicos. Numa biblioteca, folheando uma antiga Bíblia inglesa, notei que praticamente cada página dela estava grifada e com anotações. Seu antigo dono com certeza foi um grande estudioso da Escritura Sagrada. No entanto, quis saber se ele fez o mesmo com os nove primeiros capítulos de 1Crônicas. Curiosamente não havia nenhum sinal de que ele passou por ali. Concluí que aquele homem de Deus ou não encontrou nada de interessante naqueles capítulos, ou simplesmente os pulou. Não creio na primeira hipótese.

Para mim é impossível ler 1Crônicas 1-9 sem que eu fique fascinado com esses capítulos. A primeira vez que li os livros das Crônicas foi na minha adolescência. E ainda hoje, quando não sou mais adolescente, nunca começo a leitura de 1Crônicas pelo capítulo 10. Lendo 1Crônicas 1-9 você descobrirá que esses capítulos não tratam simplesmente de uma lista de nomes. Observe a origem dos povos, os personagens importantes que deram nomes a cidades famosas, e também os acontecimentos históricos que dão sentido ao livro e à Bíblia. Note a providência de Deus na preservação de um povo exclusivamente seu. Penso que H. L. Ellison está correto quando diz: “A finalidade das genealogias coincide com a principal finalidade do livro de Crônicas. É evidente que o interesse se concentra sobretudo sobre a linhagem davídica e os descendentes de Levi (nota-se a omissão notória da casa de Eli, que não servia no templo de Jerusalém). Seguem-se, por ordem de importância, as duas tribos especialmente relacionadas com a monarquia: Judá e Benjamim. A menção, apenas de passagem, de tantas personalidades nas genealogias mostra que a sua omissão mais adiante é propositada; não haviam servido os propósitos de Deus. Por outro lado, a menção de tantos nomes sem importância garante que do povo de Deus ninguém é esquecido”.[1]

É sempre bom ter em mente que 1Crônicas 1-9 vai além de meros nomes. Existem informações relacionadas a eles que nos ajudam a compreender enredos e fatos históricos relevantes. Eis alguns exemplos: Você sabia que em 1Crônicas há o registro de uma cidade cujo nome homenageia um casal? É Calebe-Efrata (1Cr 2.24). Calebe era viúvo de Azuba, sua esposa, quando se casou com Efrata (1Cr 2.19). Um dos bisnetos de Calebe e Efrata foi Belém. E de novo vemos o nome de Efrata associado a mais uma cidade: Belém-Efrata (Mq 5.2; cf. Gn 48.7; Rt 4.11), a antiga Belém de Judá, cidade onde nasceu o Senhor Jesus. A Palavra de Deus não nos oferece informações adicionais acerca da pessoa de Efrata. Entretanto, percebe-se que ela foi uma mulher valorosa e importante. Você sabia que Jabez e sua famosa oração estão em 1Crônicas 4.9,10? E que José do Egito tornou-se primogênito no lugar de Rúben de acordo com o que está registrado em 1Crônicas 5.1,2? Sabia que é somente em 1Cronicas 2 que temos o registro de todos os irmãos de Davi? Lendo 1Samuel 16 conhecemos por nome apenas três irmãos do rei Davi; a saber: Eliabe, Abinadabe e Samá (1Sm 16.6,8,9). Já em 1Crônicas 2.13-17 aprendemos que: “Jessé gerou a Eliabe, seu primogênito, a Abinadabe, o segundo, a Siméia [ou Samá], o terceiro, a Natanael, o quarto, a Radai, o quinto, a Ozém, o sexto, e a Davi, o sétimo. As irmãs destes foram Zeruia e Abigail. Os filhos de Zeruia foram três: Abisai, Joabe e Asael. Abigail deu à luz a Amasa; e o pai de Amasa foi Jéter, o ismaelita”. Agora você sabe que Davi teve seis irmãos e duas irmãs. Que Zeruia, cujos filhos foram Abisai, Joabe e Asael, era uma mulher e irmã de Davi. E de quebra fica sabendo também porque Davi mandou dizer a Amasa: “Não és tu meu osso e minha carne?" (2Sm 19.13). Amasa era sobrinho de Davi, filho de sua irmã Abigail. Davi prometera a Amasa que ele seria comandante do exército no lugar de Joabe, seu outro sobrinho. Joabe não gostou da ideia e matou seu primo (2Sm 20.10). Mais tarde, por ordem de Davi, Salomão mandaria matar Joabe (1Rs 2.5,6,28-35).

Você sabia que Davi teve um filho chamado Daniel? Veja 1Crônicas 3.1. Daniel era filho de Davi e Abigail (não confundir com Abigail, irmã de Davi). A mãe de Daniel (não confundir com o profeta) era viúva de Nabal, o carmelita (1Sm 25.39). Você sabia, ainda, que na Bíblia nomes como os de Abraão e Davi são exclusivos, mas o mesmo não acontece com os de Samuel (1Cr 7.2) e Elias (1Cr 8.27)? Por último, mas não menos significativo, as genealogias da Bíblia em geral, e de 1Crônicas 1-9 em especial, não estão ali por acaso. Há um propósito maior e fundamental de Deus para elas; ou seja, apontar para Jesus, o Deus-homem, sua missão e realeza.



[1] H. L. Ellison, 1 e 2 Crônicas. In: O Novo Comentário da Bíblia, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1987, p. 400.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A graça contra-ataca

Josivaldo de França Pereira

A graça divina é o favor imerecido de Deus para quem está ou estava em débito com ele, ou seja, todo mundo, por causa do pecado da desobediência de nossos primeiros pais no jardim do Éden. O pecado causou uma desgraça monumental!
Embora a graça seja inerente à essência de Deus, ela se torna evidente e manifesta por ocasião do pecado. E mesmo que a entrada do pecado no mundo tenha sido uma tragédia de proporção gigantesca, não é ele, o pecado, que tem a última palavra em questões espirituais. Segundo Abraham Booth, graça “É o livre, absoluto e eterno favor de Deus, manifesto na concessão de bênçãos espirituais e eternas a culpados e indignos.” [1]
Após a queda dos nossos primeiros pais, a promessa de Deus veio logo em seguida como socorro divino para a humanidade, expresso no que Lutero chamou de protoevangelho (o primeiro evangelho): “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). De acordo com Heber Carlos de Campos, “Deus não toma providências quando os problemas aparecem. Tudo já foi planejado devidamente, de tal modo que Deus não é apanhado de surpresa em nada do que acontece no mundo. A sua graça fez a eterna provisão para os nossos pecados.” [2]
A mesma graça é percebida ainda quando Deus expulsou Adão e Eva do paraíso, a fim de que não comessem da árvore da vida e vivessem eternamente (Gn 3.22-24). Viver eternamente, nesse caso, não seria a vida eterna abençoada, porém, significaria viver eternamente sob a maldição de Deus. Imagine se mesmo com a entrada do pecado no mundo não morrêssemos jamais!? Viveríamos o inferno na terra com nossas dores e doenças; angústias e tristezas sem fim. A velhice seria terrível e insuportável.
Em Cristo recebemos a verdadeira vida eterna, expressão da graça de Deus para conosco. “Porque todos nós temos recebido da sua plenitude e graça sobre graça. Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1.16,17). O Evangelho de Jesus Cristo, pela sua natureza, é chamado de “evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Dos lábios de Jesus saíam “palavras de graça” (Lc 4.22). É ele quem confirma “a palavra da sua graça” (At 14.3). Como bem observou James Moffatt, “não havendo graça, não há evangelho”.[3]
A graça é um dos atributos de Deus que Paulo mais gosta. “Quando Paulo fala da graça de Deus ele não poupa elogios a ela. Ele usa expressões majestosas para qualificá-la.” [4] Ele diz, por exemplo, que a graça de Deus reina, é rica e abundante (Rm 5.17,21; 2Co 4.15; 9.8,14; Ef 1.7; 2.7). Na verdade o apóstolo chega a declarar que a graça é mais que abundante. Ela é superabundante! Diz ele: “... onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20). Segundo Calvino, “Depois que o pecado afundou e afogou os seres humanos, a graça é mais conhecida, evidente e magnífica que o pecado. Como uma correnteza transbordante, ela cresceu em abundância e não somente sobrepujou, mas também desfez este dilúvio de pecado.” [5]
O pecado é grande e forte, contudo, não mais que a graça de Deus. O pecado é grande e forte em relação a nós, mas ínfimo e impotente diante da graça de Deus. Por isso, o pecado sempre será contra-atacado pela graça em nosso favor. A graça nunca perde para o pecado.


[1]Citado por A. W. Pink em Os atributos de Deus. São Paulo: PES, 1985, p. 68,69. Veja também Abraham Booth, Somente pela graça. São Paulo: PES, 1986, p. 13-15.
[2] Heber Carlos de Campos, O ser de Deus e os seus atributos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 290.
[3] James Moffatt, Grace in the New Testament. New York: Ray Long & Richard R. Smith, 1932, p. 15.
[4] Campos, op. cit., p. 290.
[5] Juan Calvino, Epistola a los Romanos. Grand Rapids: SLC, 1988, p. 151.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Orgulhoso, fábula de Monteiro Lobato

Josivaldo de França Pereira


Monteiro Lobato (1882-1948) é um dos principais nomes da literatura brasileira. Escreveu prosas geniais, histórias infantis magníficas e contos que nos remetem ao ensinamento bíblico, como é o caso da fábula “o orgulhoso”. Vamos conferir?
“Era um jequitibá enorme, o mais imponente da floresta. Mas orgulhoso e gabola. Fazia pouco das árvores menores e ria-se com desprezo das plantinhas humildes. Vendo a seus pés uma pequena planta de haste fina e flexível, disse:
--- Que triste vida levas, tão pequenina, sempre à beira d’água, vivendo entre saracuras e rãs... Qualquer ventinho te dobra. Um tisio que pouse em tua haste já te verga que nem bodoque. Que diferença entre nós! A minha copada chega às nuvens e as minhas folhas tapam o sol. Quando ronca a tempestade, rio-me dos ventos e divirto-me cá do alto a ver os teus apuros.
--- Muito obrigada! – respondeu a plantinha ironicamente. – Mas fique sabendo que não me queixo e cá à beira d’água vou vivendo como posso. Se o vento me dobra, em compensação não me quebra e, cessado o temporal, ergo-me direitinha como antes. Você, entretanto...
--- Eu, quê?
--- Você, jequitibá, tem resistido aos vendavais de até aqui: mas resistirá sempre? Não revirará um dia de pernas para o ar?
--- Rio-me dos ventos como me rio de ti – murmurou com ar de desprezo a orgulhosa árvore.
Meses depois, na estação das chuvas, sobreveio certa noite uma tremenda tempestade. Raios coriscavam um atrás do outro e o ribombo dos trovões estremecia a terra. O vento infernal foi destruindo tudo quanto se opunha à sua passagem.
A plantinha, apavorada, fechou os olhos e curvou-se rente ao chão. E ficou assim encolhidinha até que o furor dos elementos se acalmasse e uma fresca manhã de céu limpo sucedesse àquela noite de horrores. Ergueu, então, a haste flexível e pôde ver os estragos da tormenta. Inúmeras árvores por terra, despedaçadas e, entre as vítimas, o jequitibá orgulhoso, com a raizama colossal à mostra.”
Esta belíssima fábula nos leva, pelo menos, a uma passagem bíblica: Ezequiel 31. Nessa passagem Faraó, o rei do Egito, é comparado a uma árvore frondosa e soberba, mas prestes a ser derrubada e destruída pela ira do Senhor, como ele fez com a poderosa Assíria. “Todas as aves do céu habitarão na sua ruína, e todos os animais do campo se acolherão sob os seus ramos, para que todas as árvores junto às águas não se exaltem na sua estatura, nem levantem o seu topo no meio dos ramos espessos, nem as que bebem as águas venham a confiar em si, por causa da sua altura; porque todos os orgulhosos estão entregues à morte e se abismarão às profundezas da terra, no meio dos filhos dos homens, com os que descem à cova” (Ez 31.13,14).
A soberba está entre os pecados que Deus mais detesta (Pv 8.13). “Olhar altivo e coração orgulhoso, a lâmpada dos perversos, são pecado” (Pv 21.4). A consequência para um coração elevado e um ego exaltado é a ruína. “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda” (Pv 16.18). “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra” (Pv 29.23). Daí a recomendação urgente e necessária do apóstolo Paulo: “Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos” (Rm 12.16).

Lembre-se: Quanto maior a altura, maior o tombo...

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DOS DESAFIOS SOCIOECLESIAIS DA IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA

Josivaldo de França Pereira

Nosso objetivo neste pequeno artigo é mostrar que a igreja evangélica brasileira só pode ser verdadeiramente missionária quando no desempenho de sua missão integral. E isso pode ser visto através de alguns desafios importantes.

A. Os desafios sociais da igreja

Não são poucos e nem pequenos os problemas sociais brasileiros. A igreja evangélica brasileira tem diante de si desafios enormes nessa área. Porém, de início, é preciso que encaremos com maturidade o dilema de até onde podemos e devemos nos envolver nestes desafios. Que a igreja evangélica brasileira não deve se esquivar de sua missão holística é o nosso comum acordo com a Declaração de Lausanne:
Embora a reconciliação com o homem não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que evangelização e o envolvimento sócio-político são ambos parte do nosso dever cristão.[1]
É preciso, sim, que a igreja seja a consciência da sociedade e a voz profética que denuncia os desmandos desta mesma sociedade. A igreja deve encarar os desafios sociais brasileiros com seriedade e coragem. E até onde podemos e devemos ir nesta questão toda? Até onde os direitos sejam verdadeiramente assegurados, o amor ao próximo evidenciado, a moral dignificada, o evangelho e o bom testemunho não sejam prejudicados e, sobretudo, o nome de Jesus Cristo seja glorificado.

B. Os desafios eclesiais da igreja

Certamente um dos maiores desafios da igreja brasileira na atualidade é vencer seus próprios desafios. Uma lição é preciso aprender com a igreja de Jerusalém. A igreja de Jerusalém estava consciente de sua missão no mundo. Era uma igreja unida em seus propósitos e se amava de verdade. Internamente ela estava pegando fogo, desejosa de pregar o evangelho, em obediência ao mandado de Cristo. Porém, externamente os desafios eram humanamente insuperáveis. Pilatos, Herodes e muita gente se levantaram contra a igreja de Deus. Então a igreja orou: "Agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes as mãos para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus" (At 4.29,30). E Deus atendeu ao clamor de sua igreja (At 4.31). Atendeu porque a igreja deixou de lado seus próprios interesses para servir a Deus no mundo.
Hoje, o que muito se vê, em nível de igreja local, é a própria igreja criando obstáculos para não fazer a obra do Senhor. Externamente, desfruta-se de uma liberdade religiosa como nunca se viu aqui no Brasil, mas, internamente, muitas de nossas igrejas estão presas e enfermas quando na verdade são elas que deveriam estar libertando e curando.[2]

CONCLUINDO: A igreja evangélica precisa resgatar sua missão terapêutica na sociedade de hoje, olhando para as pessoas não como seres divididos em compartimentos, mas como quem necessita de assistência na totalidade do seu ser.


[1] O Pacto de Lausanne. Série Lausanne. São Paulo: ABU Editora, 1984, iv.
[2] Cf. Dr. Ricardo ZANDRINO, Curar também é tarefa da igreja. São Paulo: Nascente, 1986, p. 51-87; Esly Regina CARVALHO, A igreja: comunidade terapêutica. In: STEUERNAGEL, Valdir R. (ed.). A missão da igreja. Belo Horizonte: Missão Editora, 1994, p. 373-382. Segundo David J. BOSCH (Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. São Leopoldo: Sinodal, 2002, p. 477), "A salvação em Cristo é salvação no contexto da sociedade humana rumo a um mundo íntegro e curado".

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Gritos na escuridão

Josivaldo de França Pereira

De repente um alvoroço de vozes e passos retumbantes de muita gente ecoaram nos ouvidos do cego Bartimeu. “O que está acontecendo?”, indagava o pobre homem que, assentado à beira do caminho, arriscava-se a ser pisoteado pela turba alvoraçada de Jericó. “É Jesus!”, disseram alguns. O Mestre não passava despercebido por onde quer que andasse.
“Jesus!”. O mendigo das empoeiradas ruas de Jericó já ouvira falar nesse nome. Era o mesmo Jesus dos sinais e maravilhas, das palavras poderosas e cheias de vida. Era o mesmo Jesus de Nazaré a quem Bartimeu nunca vira, mas sabia do que ele era capaz de fazer em seu favor.
Quanto tempo Bartimeu esperava por isso? Quantas súplicas esse homem não fizera a Deus? E sem perder mais um minuto sequer, em meio às trevas que roubara a sua visão, mas não a sua voz, clama com toda força a quem podia lhe dar luz: “Jesus, filho de Davi, tem compaixão de mim!”. Ele estava aflito e desesperado, e rogava com fé e esperança, tentando adivinhar a direção em que Jesus se encontrava. Até então não podia saber se o Mestre falava ou se ele estava calado. Bartimeu ouvia a voz da multidão, e por isso sabia que Jesus ainda estava por perto. Aquele homem não via nada, mas pela fé “via” Jesus. Não via a multidão, mas “viu” Jesus. E insistia, gritando ainda mais alto: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”.
Bartimeu sabia o que queria. Quem sabe do que realmente precisa não desiste de lutar. O sofredor conhece a sua própria dor. E como a oportunidade nem sempre se repete, o cego clamava: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!”. Os que iam à frente repreendiam o pobre homem para que se calasse. Uma caricatura da sociedade hipócrita e preconceituosa. Daqueles que dizem muitas vezes serem religiosos, que parecem tão próximos de Cristo, mas se comportam como se o Senhor fizesse pouco caso dos pobres e marginalizados deste mundo. Afinal de contas, o que é um mendigo a mais ou a menos? Jesus se importa com quem não tem vez, com quem está à margem da sociedade por não ter o “perfil” social que agrada aos olhos da soberba e arrogância do ser humano. Só damos valor a alguém quando acreditamos que ele também pode ser amado por Jesus. O que disso passar é retórica religiosa.
Por um momento Jesus se “esquece” da multidão e se “lembra” do pobre Bartimeu. Jesus manda buscá-lo. Não sabemos a quem Jesus mandou. Não conhecemos o nome e nem quantos foram chamar o mendigo. O importante é obedecer à voz do Mestre e aquele homem precisava de ajuda. O Senhor não faz por nós o que podemos fazer para ele.
A grande multidão contrastava com o solitário e cego mendigo, sentado abjetamente à beira da estrada. Contudo, Jesus não se esqueceu daquele que clamava no deserto de sua solidão. Para Deus uma única vida vale muito! Não temos como dimensionar a grandeza do amor de Deus por uma única e mísera pessoa. Ele alcança a quem aparentemente nunca poderia ser alvo de misericórdia e compaixão. “Tem bom ânimo; levanta-te, ele te chama”. Sim, o Filho de Davi ouviu os gritos do pobre homem que desesperadamente clamava por socorro. Não foi preciso repetir o recado. Sem vacilar o cego salta do pó da terra como a Fênix que ressurge das cinzas para a vida. Estava radiante de alegria porque sabia que chegou a hora de receber o milagre tão esperado.
Bartimeu lançou ao chão sua capa, seu abrigo das noites frias, proteção contra as intempéries do dia a dia. Era algo de valor para ele, mas ele a deixou para traz em troca de um valor superior. Como a samaritana que abandonou seu cântaro para anunciar Jesus aos seus conterrâneos, e como Paulo que largou tudo por amor a Cristo, Bartimeu lançou de si a capa na certeza de que não mais voltaria para buscá-la. O Mestre estava ali e queria falar com ele. Quê convite glorioso! Por isso, quando Jesus manda chamá-lo ele não perde tempo. Não podia deixar passar sua grande oportunidade de se encontrar com Jesus e pedir a ele aquilo que mais necessitava, - a visão. “Que queres que eu te faça?”, pergunta o compassivo Mestre. Certamente Jesus sabe o que um cego mais deseja; contudo, queria que ele mesmo pedisse. “Então, Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E, imediatamente, tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora”.
Pela fé Bartimeu contemplou sua cura mesmo antes de recebê-la. Assim, querido irmão, caríssima irmã, clame ao Senhor! Não há treva tão intensa que não possa ser dissipada pela sua gloriosa luz.

Superação

Josivaldo de França Pereira


Superação é o ato de 1. alcançar vitória sobre; derrotar; 2. livrar-se de; afastar, ultrapassar (problemas, obstáculos); 3. ser ou tornar-se superior(a) em quantidade, eficiência, talento, criatividade etc.; exceder, sobrepujar (Cf. Dicionário Silveira).
Ao passarmos por momentos difíceis que quase nos fazem acreditar que é o fim, na verdade são situações que nos preparam, muitas vezes, para os desafios da vida, os quais não suportaríamos sem uma experiência prévia preparatória.
Há derrotas que valem mais que dez vitórias porque, naquele momento, é do que precisamos para extrair do fundo da alma as melhores e mais excelentes lições de vida. É louvável que as vitórias sejam almejadas, porém, elas nem sempre são tão enriquecedoras quanto aquilo que conquistamos durante o período de dificuldades. Às vezes é preciso chegar ao fundo do poço para se aprender mais da bondade e do amor de Deus por nós. Portanto, o que muitas vezes parece ser o fim, na verdade é apenas o início de uma jornada vitoriosa.
Na maioria das vezes aprendemos mais com aquilo que perdemos do que com aquilo que ganhamos. Segundo Nietzsche, “tudo aquilo que não me mata me torna mais forte”. Se não me matou, mas apenas me derrubou, eu levanto mais forte. Michael Jordan, conhecido como o pelé do basquete, disse o seguinte: “Errei mais de 9.000 cestas e perdi quase 300 jogos. Em 26 diferentes finais de partidas fui encarregado de jogar a bola que venceria o jogo... e falhei. Eu tenho uma história repleta de falhas e fracassos em minha vida. E é exatamente por isso que sou um sucesso."
Há dois provérbios chineses que nos levam a refletir:
“A derrota só será uma bebida amarga se concordarmos em tragá-la”.
“O fracasso é a mãe do sucesso”.
Querido irmão, distinta irmã, Deus espera que sejamos fiéis a ele, buscado em oração e na sua Palavra, pois ele está conosco para nos animar e proteger em nossas provações. Quem suporta e persevera nas provas da fé e do coração, experimentará a boa dádiva que vem do Senhor.
Amém? Que Deus o (a) abençoe.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Por que falar de predestinação?

Josivaldo de França Pereira


Não tenho a menor dúvida que a doutrina da predestinação pode ser ensinada a todos. Aos crentes e não-crentes; aos novos e velhos; aos adultos e também às crianças (respeitando-se, evidentemente, a faixa etária e o nível de compreensão de cada um). Pode ser falada tanto numa igreja antiga e tradicional, como numa igreja jovem e pentecostal, por razões que veremos logo adiante. No entanto, reconheço que nem todos estão aptos para ensiná-la ou até mesmo para ouvi-la. Os primeiros por não se disporem a estudá-la com o interesse e diligência que a doutrina da predestinação exige; os segundos, no caso dos maiores (talvez por terem sido instruídos de forma equivocada), por estarem cheios de preconceito e desconfiança não justificada acerca dessa doutrina. A ignorância leva ao erro.
Por que esta doutrina bíblica deve ser divulgada? Principalmente por causa disso mesmo, por ser uma “doutrina bíblica”. A doutrina da predestinação não é uma invenção humana. Ela é 100% bíblica e uma grande benção na vida de quem abre o coração para ela.
Qual deve ser nossa postura diante de tão sublime verdade? Os teólogos de Westminster foram precisos quando disseram: “A doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo à vontade de Deus, revelada em sua Palavra, e prestando obediência a ela, possam, pela evidência de sua vocação eficaz, certificar-se de sua eterna eleição. Assim, a todos os que sinceramente obedecem ao Evangelho, esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e admiração para com Deus, bem como de humildade, diligência e abundante consolação” (CFW III,8).
Quando os teólogos de Westminster dizem que “a doutrina da predestinação deve ser tratada com especial prudência e cuidado”, não estão querendo dizer: “Atenção! Essa doutrina da predestinação é perigosa! Cuidado com ela!”. Muito pelo contrário, a continuação do artigo mostra que eles, na verdade, a incentivavam, pois o que eles estavam dizendo era exatamente isto: A doutrina da predestinação é um “alto mistério” que, por isso mesmo, não deve ser ignorada e, muito menos, banalizada, visto que uma de suas finalidades é levar o ser humano, salvo em Cristo Jesus, a “certificar-se de sua eterna eleição”, fornecendo-lhe “motivo de louvor, reverência e admiração para com Deus, bem como de humildade, diligência e abundante consolação”.
Além disso, o estudo da predestinação nos mostra que não devemos cair no erro da soberba e nem da falsa modéstia. Não podemos, por um lado, pensar que é possível ter domínio completo sobre esse assunto. A doutrina da predestinação é um “alto mistério”, mas, por outro lado, não devemos achar que ela não deve ser estudada de modo algum, com o argumento de que seu entendimento está além da nossa compreensão. O que dela estiver ao nosso alcance deve ser estudado sim, do contrário, pecaríamos contra Deus que nos deu a sua Palavra com a inspirada doutrina da predestinação. A Bíblia é clara: “As coisas encobertas pertencem ao SENHOR nosso Deus; porém, as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Dt 29.29). “Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, assim não tropeçareis em tempo algum” (2Pe 1.10).

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

O Relativo e o Absoluto

Josivaldo de França Pereira


Depois de Einstein o mundo passou a ser visto de maneira diferente. O espaço e o tempo, que Newton considerava absolutos e independentes, tornaram-se relativos e interligados. Energia e massa são manifestações diversas da mesma coisa, podendo, portanto, ser transformadas uma na outra. A gravitação não se deve mais a uma força de atração, mas a uma deformação do espaço na vizinhança das massas.
Infelizmente, parece que a relatividade defendida por Einstein no mundo físico tem sido adotada e aplicada pela sociedade pós-moderna nas questões espirituais também. A sociedade de nossos dias, de modo geral, já não defende a verdade como absoluta. Hoje, fala-se de uma verdade relativa, como se isso fosse possível. Toda verdade é verdade absoluta. Toda verdade é verdade de Deus. E por falar em Deus, o mesmo também já não passa de um conceito relativo no mundo atual. A Bíblia, a Sagrada Palavra de Deus, não é absoluta em sua autoridade. Tudo nela é relativo. O resultado tem sido o surgimento de uma geração cética e ateísta que não crê em Deus, na Bíblia e na importância das igrejas e seus pastores. A Europa, bem como os Estados Unidos da América, está um caos em sua espiritualidade. Templos são fechados e/ou vendidos porque as pessoas estão deixando de se congregarem. Países que foram referenciais da obra missionária agora precisam ser re-evangelizados. A decadência de um povo não é fruto da crise econômica, mas do abandono de Deus. A origem dos males sociais não é monetária, mas espiritual.
Contudo, a Bíblia permanece absoluta como a inerrante e inspirada Palavra de Deus. Jesus Cristo é Senhor sobre tudo e todos. A verdade é uma só e a Igreja do Senhor Jesus sempre existirá. O tempo e o espaço podem até ser relativos na teoria de Einstein, porém, o Deus Criador de todas as coisas foi, é e sempre será Absoluto.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O reformador do mundo

Josivaldo de França Pereira


Certo homem tinha o hábito de pôr defeito em todas as coisas. O mundo para ele estava errado e a natureza equivocada.
“Aqui mesmo, neste pomar”, disse ele a um amigo, “você tem a prova disso”. “Ali está uma jabuticabeira enorme sustendo frutas pequeninas, e lá adiante vejo uma colossal abóbora presa ao caule duma planta rasteira. Não era lógico que fosse justamente o contrário? Se as coisas tivessem de ser reorganizadas por mim, eu trocaria as bolas, passando as jabuticabas para a aboboreira e as abóboras para a jabuticabeira.”
Assim discorrendo o homem dizia que tudo estava errado e só ele era capaz de dispor com inteligência o mundo. “Mas o melhor” – concluiu – “não é pensar nisto e tirar uma soneca à sombra destas árvores”. E estirou-se de papo para cima à sombra da jabuticabeira. Dormiu e sonhou com um mundo novo, reformado inteirinho pelas suas mãos.
De repente, no melhor da festa, plaf! uma jabuticaba caiu do galho e lhe acertou em cheio no nariz. O homem despertou de um pulo. Meditou sobre o caso e reconheceu, afinal, que o mundo não era tão mal feito assim. E seguiu para casa refletindo: “Pois não é que se o mundo fosse arrumado por mim a primeira vítima teria sido eu? Eu, eu mesmo, morto pela abóbora por mim posta no lugar da jabuticabeira? Hum! Deixemo-nos de reformas. Fique tudo como está, que está tudo muito bem”.
Aplicação:
Muitos princípios poderiam ser extraídos deste conto, mas penso que nada se compara ao fato de que às vezes agimos como “o reformador do mundo” quando nos achamos mais sábios que Deus e, portanto, as coisas podiam ser bem diferentes do que são. Quando temos um problema murmuramos: “Deus podia fazer assim ou assado”, até que no final aprendemos que Deus realmente sabe o que faz e nós não sabemos o que dizemos, pois se todas as coisas fossem feitas do nosso jeito os primeiros a serem acertados pelas “abóboras” da vida seríamos nós mesmos.

Enquanto oravam

Josivaldo de França Pereira


A oração é um meio de graça através do qual Deus nos abençoa e santifica. Oramos porque cremos que Deus escuta a nossa oração (Sl 65.2). Contudo, Deus é tão bom que muitas vezes responde uma oração antes mesmo que ela seja concluída. É o que aprendemos com três grandes personagens do Antigo Testamento.


Uma das passagens mais belas da Bíblia é aquela que fala do desfecho final da provação de Jó. Sem ressentimento no coração Jó intercedeu pelos amigos que tanto o acusaram. “Mudou o SENHOR a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o SENHOR deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42.10). Jó não terminou sua oração e, provavelmente, nem chegou a falar dele mesmo quando o Senhor começou a abençoá-lo. Muitas vezes Deus age em nós e por nós quando pensamos mais nos outros e “esquecemos” um pouco de nós mesmos. Jó tinha “razões” para olhar seu estado e fazer dele o tema central de sua oração. Podia chorar e lamentar, mas preferiu amar seus amigos ingratos e interceder por eles, conforme dissera o Senhor (Jó 42.7-9). Deus aceitou a oração de Jó antes mesmo de terminá-la porque ele era um “homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1.1,8; 2.3).

Esdras

Esdras ficou profundamente triste e angustiado quando foi informado de que o povo que voltou do exílio para Jerusalém não se separou dos povos de outras terras com suas abominações. Leia Esdras 9. Contudo, no capítulo 10 temos um relato ainda mais impressionante. É que durante a oração de Esdras uma santa interrupção aconteceu: “Enquanto Esdras orava e fazia confissão, chorando prostrado diante da Casa de Deus, ajuntou-se a ele de Israel mui grande congregação de homens, de mulheres e de crianças; pois o povo chorava com grande choro. Então, Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel. Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a lei" (Ed 10.1-3). Deus respondeu a oração de Esdras enquanto ele orava. O povo se aproximou dele extremamente arrependido, de coração compungido e quebrantado.

Daniel

Daniel é um dos poucos servos de Deus na Bíblia que aparentemente não cometem um erro sequer. No entanto, o próprio Daniel se apressa em dizer que ele também é pecador juntamente com o seu povo. A oração que ele faz no capítulo 9 é tremenda. Diz ele: “Falava eu ainda, e orava, e confessava o meu pecado e o pecado do meu povo de Israel, e lançava a minha súplica perante a face do SENHOR, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus. Falava eu, digo, falava ainda na oração, quando o homem Gabriel, que eu tinha observado na minha visão ao princípio, veio rapidamente voando, e me tocou à hora do sacrifício da tarde” (Dn 9.21,22). Gabriel veio até Daniel para instruí-lo e fazê-lo entender o sentido da visão que tivera (Dn 9.22). Diz o anjo a Daniel: “No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a cousa e entende a visão” (Dn 9.23). Deus ouviu a oração de Daniel ainda “no princípio” de suas súplicas.
Deus tem tanto prazer em nos ouvir que muitas vezes atende as nossas petições até enquanto oramos. E você, já orou hoje?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

O Soldado, o Atleta e o Lavrador: A Mensagem de 2Timóteo 2.3-6

Josivaldo de França Pereira

Estava eu fazendo mais uma pesquisa para a produção de um texto intitulado “o soldado, o atleta e o lavrador”, com base em 2Timoteo 2.3-6, quando me deparei com a exposição bíblica de John Stott em “Tu, porém: a mensagem de 2Timoteo”. Lúcida, fascinante, profunda! Eu não faria melhor e, muito menos, igual. Com pequenas adaptações não comprometedoras, espero que o texto de Stott abençoe tanto a sua vida quanto abençoou a minha. Boa leitura!
*****
No restante deste segundo capítulo de sua carta, Paulo prossegue abordando o ministério do ensino, ao qual Timóteo foi chamado. Como ilustração, Paulo faz uso de seis vívidas metáforas. As três primeiras são suas imagens favoritas: o soldado, o atleta, e o lavrador. Em cartas anteriores ele já fizera uso delas, em várias ocasiões, para salientar muitas verdades. Aqui todas elas enfatizam que a obra de Timóteo exigirá vigor, envolvendo tanto labuta quanto sofrimento.
1. O Soldado dedicado. “Participa dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus. Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou” (2Tm 2.3,4).
As experiências como prisioneiro deram a Paulo ampla oportunidade de observar os soldados romanos e de meditar no paralelo existente entre o soldado e o cristão. Em cartas anteriores, Paulo referiu-se à guerra com principados e potestades, na qual o cristão está envolvido; referiu-se à armadura que deve vestir e as armas que deve usar (Ef 6.10-20; 1Tm 1.18; 6.12; 2Co 6.7; 10.3-5; cf. Rm 6.13-14). Mas aqui o bom soldado de Jesus Cristo é assim chamado por ser um homem dedicado, que mostra sua dedicação por se achar sempre disposto a sofrer e estando permanentemente em guarda. Os soldados em serviço não contam com segurança e facilidade. Pelo contrário, dureza, riscos e sofrimento são aceitos sem contestação. É como Tertuliano expressou em seu livro Address to Martyrs (Palavra aos Mártires): "Nenhum soldado vai à guerra cercado de luxúrias, nem vai à batalha deixando um quarto confortável, mas sim uma tenda estreita e provisória, em que há muita dureza, severidade e desconforto". De igual modo, o cristão não deve esperar dias fáceis. Se for fiel ao evangelho, certamente experimentará oposição e escárnio. Ele deverá sofrer em conjunto com seus companheiros de armas.
O soldado deve sempre se achar disposto a se concentrar no exército, e também a sofrer. Quando em serviço ativo, "não se embaraça em negócios". Ao contrário, liberta-se dos afazeres de natureza civil, a fim de dedicar-se às armas, satisfazendo assim aos seus oficiais superiores, ou "estando inteiramente à disposição de seu oficial comandante". Na expressão de E. K. Simpson, "o espetáculo da disciplina militar fornece uma grande lição de comprometimento". Assim, na Segunda Guerra Mundial, com frequência se dizia, com um sorriso bem significativo: "estamos em guerra". Era uma palavra de alerta, suficiente para justificar toda austeridade, auto-renúncia ou abstenção de atividades irrelevantes, em vista da situação de emergência do momento.
O cristão, que deve viver neste mundo e não se alienar dele, não pode, certamente, esquivar-se das comuns obrigações de seu lar, de seu local de trabalho e de sua comunidade. É verdade que, como cristão, ele deve estar sobremodo consciente do seu dever de bem cumpri-las e não evadir-se delas. Nem deve esquecer-se também do que Paulo relembrou a Timóteo em sua primeira carta, ao dizer que "tudo o que Deus criou é bom e, recebido com ações de graça, nada é recusável..." e que "Deus tudo nos proporciona unicamente para nosso aprazimento" (1Tm 4.4; 6.17). Assim, o que se proíbe ao bom soldado de Cristo não são as atividades "seculares", nem "os envolvimentos em negócios desta vida" que, mesmo sendo perfeitamente inocentes, o impeçam de lutar as batalhas de Cristo. Este conselho aplica-se especialmente ao pastor ou ministro cristão. Ele é chamado a dedicar-se ao ensino e ao cuidado do rebanho de Cristo; e há outras passagens, além desta, que o advertem a, se possível, não tomar a carga adicional de prover o seu sustento com algum emprego "secular".
É fato que o próprio apóstolo proveu amiúde o seu próprio sustento, confeccionando tendas; não obstante, ele deixa claro que em seu caso a razão era pessoal e excepcional, ou seja, para que pudesse propor "de graça o evangelho", e assim não criar "qualquer obstáculo ao evangelho de Cristo" (1Co 9.12,18). Ele ainda vindicou o princípio, para si mesmo e para todo ministro, por ordem do Senhor, de que os que pregam o evangelho devem viver do evangelho (1Co 9.14). De fato, a sua óbvia expectativa era esta a regra geral, e isto precisa ser lembrado em dias como os nossos, quando ministérios "auxiliares", "suplementares" e de tempo parcial" têm aumentado em número, ficando o pastor com seus negócios ou com sua profissão, exercendo o seu ministério com o tempo que sobra. Não se pode dizer que tais ministérios estejam em oposição às Escrituras; contudo é difícil conciliá-los com a determinação apostólica de evitar os envolvimentos em negócios desta vida. A liturgia para a ordenação de presbíteros da Igreja Anglicana exorta os candidatos com as seguintes palavras: "Atentai para o zelo que deveis ter na leitura e no ensino das Escrituras ... e por esta mesma causa deveis renunciar e deixar de lado (tanto quanto possível) todos os cuidados e zelos mundanos, ... entregai-vos inteiramente a este ofício, ... aplicai-vos inteiramente a esta causa e dirigi todos os vossos esforços neste sentido".
A aplicação de tal versículo não é somente restrita a pastores. Cada cristão é, num certo grau, um soldado de Cristo, ainda que seja tímido como Timóteo. Não importando qual seja o nosso temperamento, não podemos evitar o conflito cristão. Se queremos ser bons soldados de Cristo, devemos dedicar-nos à batalha, comprometendo-nos com uma vida de disciplina e de sofrimento, e evitando tudo o que possa nos "envolver" e assim nos desviar do seu propósito.
2. O Atleta sujeito às regras. “Igualmente, o atleta não é coroado se não lutar segundo as normas” (2Tm 2.5).
Agora Paulo desvia os seus olhos da imagem do soldado romano para a do competidor nos jogos gregos. Em nenhuma competição atlética do mundo antigo (assim como hoje também) o competidor dava uma demonstração de força ou de habilidade ao acaso. Cada esporte tinha as suas regras para a competição, e às vezes também para o treino preparatório.
Cada prova também tinha o seu prêmio, e os prêmios conferidos aos jogos gregos não eram medalhas de ouro ou troféus de prata, e sim coroas de ouro. Contudo, nenhum atleta era "coroado" se não tivesse competido "de acordo com as regras", mesmo que o seu desempenho tivesse sido brilhante. "Fora do regulamento não há prêmio", essa era a palavra de ordem!
A vida cristã é geralmente comparada, no Novo Testamento, a uma corrida, não no sentido de estarmos competindo uns com os outros (conquanto tenhamos que "preferir em honra uns aos outros" – Rm 12.10), mas no sentido da severa autodisciplina do treinamento (1Co 9.24-27), no sentido de que devemos nos desembaraçar de todo peso morto (Hb 12.1-2) e, especialmente nesta passagem, no sentido de que devemos observar as regras.
Devemos correr a corrida cristã nominös, "segundo as leis". A despeito do estranho ensino da assim chamada "nova moral", que insiste em que a lei foi abolida por Cristo, o cristão acha-se sob a obrigação de viver "segundo a lei", de guardar as regras, de obedecer as leis morais de Deus. De fato, ele não está "debaixo da lei", como meio de salvação, que o aprova ou o recomenda perante Deus, antes ela lhe serve como guia de conduta. Ao invés de abolir a lei, Deus enviou o seu Filho para morrer por nós a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós", e agora envia o seu Espírito para morar em nós e escrever a sua lei em nossos corações! (Rm 8.3-4, Jr 31.33). Além disso não pode haver de outro modo, não porque nossa obediência à lei poderia nos justificar, mas sem a lei damos evidência de nunca termos sido justificados.
O contexto mostra que competir "de acordo com as regras" tem uma aplicação mais vasta do que à que se refere à nossa conduta moral. Paulo está descrevendo o serviço cristão, não somente a vida cristã. Parece estar dizendo que os prêmios pelo serviço dependem da fidelidade. O mestre cristão deve ensinar a verdade, construindo com materiais sólidos sobre o fundamento que é Cristo, se quer que a sua obra permaneça e não seja consumida pelo fogo (cf. 1Co 3.10-15). Assim, Timóteo deve confiar o depósito a homens fiéis. Somente se ele, como Paulo, perseverar até a fim, combatendo também o bom combate, completando a carreira e guardando a fé, somente assim poderá ele esperar receber, no último dia, a mais desejável de todas as coroas: "a coroa da justiça" (2Tm 4.7,8).
3. O Lavrador diligente. “O lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos” (2Tm 2.6).
Tendo o atleta de competir com honestidade, o lavrador, por sua vez, tem de trabalhar arduamente. O sucesso na lavoura só é conseguido com muito trabalho. Isso é verdade particularmente em países em desenvolvimento, antes de se ter as técnicas da mecanização moderna. Em tais circunstâncias, o sucesso da exploração agrícola depende tanto do suor como da habilidade. Mesmo sendo o solo pobre, o tempo inclemente, ou estando o lavrador indisposto, este deve permanecer em seu trabalho. Uma vez posta a mão no arado, não há que olhar para trás. O Rev. Moule escreve sobre a "extenuante e prosaica labuta" do agricultor. Ao contrário do soldado e do atleta, a vida do agricultor é "totalmente desprovida de emoção, distante de toda fascinação decorrente do perigo e do aplauso".
Contudo, a primeira parte da colheita pertence ao lavrador que trabalha. É seu direito. A boa produção deve-se mais a seu esforço e perseverança do que a qualquer outro fator. É por isso mesmo que o preguiçoso jamais será um bom agricultor, como ressalta o livro de Provérbios. Ele sempre porá a perder sua colheita, talvez por dormir quando deveria esta colhendo, talvez por ter sido pouco ativo no lavrar a terra no outono anterior, ou talvez por permitir que os seus campos se cubram de urtigas e espinhos (Pv 10.5; 20.4; 24.30,31).
A que espécie de colheita se refere o apóstolo? Duas interpretações apresentam maiores evidências bíblicas.
Primeira, a santidade como colheita. Verdadeiramente, a santidade é "fruto (ou colheita) do Espírito", sendo que o próprio Espírito é o principal agricultor, que produz uma boa safra de qualidades cristãs na vida do cristão. No entanto, nós também temos que fazer a nossa parte. Temos de "andar no Espírito" e "semear no Espírito" (Gl 5.6; 6.8), seguindo os seus impulsos e disciplinando-nos, para fazermos a colheita da santidade. Muitos cristãos surpreendem-se por não verificarem, em suas vidas, crescimento na santidade. Será que estamos negligenciando o cultivo desse campo que é o nosso caráter? "Pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gl 6.7). Como o Rev. Ryle enfatiza repetidas vezes em seu notável livro Santidade: "não há prêmio sem esforço". Por exemplo:
"Jamais abandonarei a minha convicção de que não há progresso espiritual sem esforços. Não creio no sucesso de um agricultor que se contenta em apenas semear os seus campos, abandonando-os em seguida até a colheita, assim como não creio ser possível que um crente alcance muita santidade sem ser diligente em sua leitura bíblica, em suas orações e no bom uso dos seus domingos. Nosso Deus é um Deus que se importa com os meios, e nunca abençoará a alma de quem se julga ser tão elevado e espiritual a ponto de achar que pode progredir sem eles".
Na expressão de Paulo, "o lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos". E a santidade é uma colheita.
A segunda interpretação é que a conquista de conversões é também uma colheita. "A seara na verdade é grande", disse Jesus referindo-se aos muitos que esperam por ouvir e receber o evangelho (Mt 9.37; cf. Jo 4.35; Rm 1.13). Nesta seara é claro que "é Deus quem dá o crescimento" (1Co 3.6,7), mas ainda assim não temos a liberdade de ficar à toa. Não só isso, mas tanto a semeadura da boa semente da Palavra de Deus como a colheita são trabalhos duros, especialmente quando há poucos trabalhadores. Com muito custo almas são ganhas para Cristo, não com a engenhosa e automática aplicação de uma fórmula, mas com lágrimas, suor e dores, e especialmente com oração e sacrifícios. Novamente, o "lavrador que trabalha" é que pode esperar obter bons resultados.
Este ponto de que o serviço cristão é um trabalho árduo é hoje tão impopular em certos círculos de cristãos festivos que sinto ser necessário sublinhá-lo com vigor. Já mencionei que o verbo significa "labutar, mourejar". Arndt e Gingrich apontam que, antes de tudo, o sentido é o de "cansar-se, fatigar-se", ou seja, "trabalhar arduamente, exaurindo todas as forças com o trabalho pesado; empenhar-se, esforçar-se". Tanto o substantivo Kopos como o verbo kopiaö foram termos favoritos de Paulo, e talvez nos seja salutar saber que ele cria ser necessário ao serviço cristão tão grande empenho.
Depreende-se que esse verbo pode ser empregado com referência ao trabalho manual, e Paulo aplicou-o ao seu serviço de confeccionar tendas. "E nos afadigamos", ele escreveu, "trabalhando com as nossas próprias mãos" (1Co 4.12; cf. Ef 4.28; 1Ts 4.11). Mas, em seu modo de ver, o trabalho espiritual envolvia também muito esforço. Ele reconhecia de imediato a dedicação das pessoas, tendo enviado saudações especiais no final de sua carta aos Romanos, "a Maria que muito trabalhou por vós" e "à estimada Pérside, que também muito trabalhou no Senhor" (Rm 16:6, 12b). Não que dos outros Paulo esperasse mais do que ele próprio podia dar de si mesmo. Suas labutas pelo evangelho eram fenomenais. Ele podia escrever sobre "trabalhos, vigílias, jejuns" porque, assim como fora o seu Mestre antes dele, não poucas vezes as suas atividades sobrepujavam a sua necessidade de comer e dormir. Por isso mesmo é que pôde reivindicar em relação aos outros apóstolos: "trabalhei muito mais do que todos eles" (2Co 6.5; 1Co 15.10; cf. Gl 4.11; Fp 2.16). Se instássemos com ele sobre a natureza de sua lida, creio que ele nos responderia em termos de duas prioridades apostólicas: "oração e ... ministério da palavra" (At 6.4), já que aludiu em sua primeira carta a Timóteo aos seus anciãos "que se afadigam na palavra e no ensino" (1Tm 5.17), e aos colossenses descreveu a sua labuta com as palavras "esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim" (Cl 1.29 – 2.1; 1Tm 4.10), num contexto que parece referir-se à luta em oração a que se entregara em favor dos colossenses.
A bênção de Deus foi abundante no ministério do apóstolo Paulo. Não há dúvida que a este respeito muitas explicações poderiam ser dadas. Mas até que ponto consideramos essa bênção decorrente do zelo e do interesse, da quase obsessiva devoção com que Paulo se entregava ao trabalho? Ele se dava ao trabalho sem pensar no que isso lhe custava; lutava sem dar atenção às feridas; trabalhava sem procurar descansar; servia sem procurar pela recompensa, a não ser o gozo de fazer a vontade do seu Senhor. E Deus fazia prosperar os seus esforços. Mais uma vez, "o lavrador que trabalha deve ser o primeiro a participar dos frutos".
*****
Até aqui, então, temos visto três metáforas com as quais Paulo ilustra as responsabilidades do obreiro cristão. Nelas ele isolou três aspectos da sinceridade que deveria ser encontrada em Timóteo e em todos aqueles que, como Timóteo, procurem compartilhar "o bom depósito", já recebido anteriormente. Elas são: a dedicação de um bom soldado, a obediência de um bom atleta as regras da competição, e a diligente labuta de um bom agricultor. Sem isso não podemos esperar resultados. Não haverá vitória para o soldado se ele não se entregar aos seus deveres militares; não haverá coroa para o atleta, se ele não observar o regulamento; e não haverá colheita para o lavrador, se ele não trabalhar na exploração da terra.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As Bênçãos do Presente e do Porvir no Breve Catecismo de Westminster – II

Josivaldo de França Pereira


Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
O tema proposto divide-se em duas partes distintas. A primeira parte trata das bênçãos nesta vida; a segunda, das bênçãos referentes ao momento da morte e à vida no além.

II. AS BENÇÃOS DO PORVIR

Vimos na parte anterior que, de acordo com o Breve Catecismo, as bênçãos nesta vida são: a certeza do amor de Deus, a paz de consciência, a alegria no Espírito Santo e o aumento e perseverança na graça. Agora veremos, no mesmo Breve Catecismo, “Quais são as bênçãos que os fiéis recebem de Cristo na hora da morte?” (Pergunta 37) e também “Quais são as bênçãos que os fiéis recebem de Cristo na ressurreição?” (Pergunta 38).
1.   Na hora da morte
“Quais são as bênçãos que os fiéis recebem de Cristo na hora da morte?” (Pergunta 37). A morte do crente é, em si mesma, uma bênção (Sl 116.15; Ap 14.13). As bênçãos que aqui estudaremos estão diretamente relacionadas ao corpo e à alma dos crentes.
a)  Quanto às almas dos crentes
É dito que “As almas dos fiéis na hora da morte são aperfeiçoadas em santidade, e imediatamente entram na glória...” (Resposta 37). Compare essa afirmação com a confirmação de Lucas 23.43; Atos 7.55, 59; Filipenses 1.23; Apocalipse 14.13.
Ninguém é recebido na glória eterna sem que antes seja “aperfeiçoado em santidade”. Se Deus nos levasse para o céu como nos encontramos atualmente, o céu se transformaria num inferno, com certeza. A importância deste “aperfeiçoamento” se faz necessária devido ao fato que, nesta vida, a santificação não alcançou e nunca alcançaria a perfeição que convém aos santos. Os crentes ainda precisam lutar muito contra o pecado, enquanto viverem no mundo (1Rs 8.46; PV 20.9; Ec 7.20; Tg 3.2; 1Jo 1.8). Há uma luta constante entre a carne e o espírito na vida dos filhos de Deus, e até o melhor deles é pecador (cf. Rm 7.7-25). Mas alguém poderia perguntar: “Se não alcançamos a perfeição nesta vida terrena, por que devemos nos esforçar para conquistá-la?” (cf. Mt 5.48). A resposta é: Deus recompensará o nosso esforço (Fp 3.12-14). A santificação é e deve ser sempre progressiva em nossa vida. Subindo um degrau por dia, chegaremos ao topo da escada celestial!
No entanto, ainda resta-nos uma coisa. O que o Breve Catecismo pretende dizer quando afirma que por ocasião da morte as almas dos crentes (que nem morrem nem dormem), aperfeiçoadas em santidade, “imediatamente entram na glória”? O significado disso é que: Após a morte e antes da ressurreição dos corpos, as almas dos crentes já estão com o Senhor, desfrutando da bênção de sua presença.
b)  Quanto aos corpos dos crentes
O Breve Catecismo nos ensina que “... os corpos que continuam unidos a Cristo, descansam na sepultura até a ressurreição” (Resposta 37, cf. Jo 5.28, 29; 14.2, 3; 1Ts 4.14; Hb 12.22, 23).
É consoladora a verdade de que os corpos dos crentes “descansam na sepultura até a ressurreição”. A Bíblia nos ensina que “Preciosa é aos olhos do Senhor a morte dos seus santos” (Sl 116.15). E também: “Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13). Não devemos entender que os corpos dos crentes que “descansam na sepultura” estão divinamente protegidos da decomposição. Muitos corpos já desapareceram por completo nas sepulturas, e aqueles que foram lançados ao mar ou cremados são ossos e cinzas, respectivamente. Com a expressão ”descansam na sepultura” o Breve Catecismo sugere que todos aqueles que morreram, independente de como morreram e como se encontram seus corpos atualmente, estão sob os cuidados do Senhor, aguardando o dia da ressurreição.
A mensagem da esperança cristã nos tempos apostólicos era a da ressurreição após a morte (Rm 8.19-25; 1Co 15; 1Ts 4.13-18). Ressuscitar e estar com Cristo tem sido realmente a sua maior esperança?
2. No dia da ressurreição
“Quais são as bênçãos que os fiéis recebem de Cristo na ressurreição?” (Pergunta 38).
a)  Na ocasião do juízo final
Diz o Breve Catecismo: “Na ressurreição, os fiéis, sendo ressuscitados em glória, serão publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo...” (Resposta 38, cf. Mt 10.32; 25.34; 1Co 15.43).
A ressurreição dos crentes é uma bênção porque eles ressuscitarão “em glória”. Não temos palavras para descrever essa “glória”. Haverá isenção de pecados e defeitos, sem dúvida. Mas como será, propriamente, o corpo glorificado dos salvos em Cristo Jesus, não sabemos ao certo. Semelhantemente não sabemos o que é o corpo de “desonra” que os ímpios terão. Creio que é o bastante sabermos isto: “Os corpos dos injustos serão pelo poder de Cristo ressuscitados para a desonra, os corpos dos justos serão pelo seu Espírito ressuscitados para a honra e para serem semelhante ao próprio corpo glorioso dele” (Confissão de Fé de Westminster, XXXII, 3; cf. At 24.15; Jo 5.28, 29; Fp 3.21).
Aprendemos ainda que seremos “publicamente reconhecidos e absolvidos no dia do juízo”. É quando ouviremos a doce e suave voz de Jesus dizendo: “... Vinde, benditos de meu Pai: entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34). É o dia em que estaremos diante do tribunal de Cristo (Rm 14.10; 1Co 5.10), não para sermos julgados e condenados, porém, para recebermos a nossa coroa, símbolo da justiça (2Tm 4.8) e da vida gloriosas (Ap 2.10).
b)  Resultará em felicidade sem fim
A conclusão da resposta 38 do Breve Catecismo é que no último dia os crentes serão “... tornados perfeitamente felizes no pleno deleite de Deus, por toda a eternidade” (cf. Sl 16.11). E não é essa a promessa do Senhor Jesus ao servo bom e fiel, subentendida na parábola dos talentos? “Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.21).
Não há coisa mais desejada na vida do que a felicidade. Só o fato de sabermos que estaremos para sempre com o Senhor, já nos enche o coração de grande alegria. Pois por melhor que seja a vida do crente aqui neste mundo, não podemos dizer sinceramente que nossa vida é céu. Somos constantemente alvejados por problemas e angústias em nosso viver. É impossível ser plena e ininterruptamente feliz neste mundo. Mas louvado seja o Senhor porque os crentes um dia serão “perfeitamente felizes no pleno deleite de Deus, por toda a eternidade”. O apóstolo João nos recorda dessa verdade quando diz: “Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram” (Ap 21.3, 4).

Em breve os mortos ressurgirão,
Todos os crentes se encontrarão.
Juntos, alegres, ao céu subirão
Quando Jesus regressar!
                                                                                           (A. D.)

                                                                                                                   Amém.


domingo, 1 de agosto de 2010

As bênçãos do presente e do porvir no Breve Catecismo de Westiminster - I

Josivaldo de França Pereira


Elaborado no século XVII pela famosa Assembléia de Westminster (Inglaterra), o Breve Catecismo forma, juntamente com o Catecismo Maior e a Confissão de Fé de Westminster, a tríade teológica dos símbolos de fé ou padrões doutrinários das igrejas presbiterianas de origem reformada.
O tema proposto divide-se em duas partes distintas. A primeira parte trata das bênçãos nesta vida; a segunda, das bênçãos referentes ao momento da morte e à vida no além.

I. AS BENÇÃOS DO PRESENTE

Quanto às bênçãos nesta vida, o Breve Catecismo pergunta: “Quais são as bênçãos que nesta vida acompanham a justificação, a adoção e a santificação ou delas procedem?” (Pergunta 36). A resposta são os seguintes tópicos:
1.   A certeza do amor de Deus
Entendemos por “bênção” tudo de bom que nos é concedido pelo favor imerecido de Deus. E a certeza do seu amor para conosco é uma das maiores bênçãos que o ser humano poderia receber.
Apesar de termos sido merecedores da justa ira de Deus, fomos objetos da maior prova do amor de Deus. “Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). E é no relacionamento paternal de Deus para conosco que contemplamos com mais nitidez a profundidade desse amor (1Jo 3.1; 4.9). “Quanto melhor conhecemos seu amor – seu caráter, plenitude, bem-aventurança – mais forte será o impulso de nossos corações em amá-lo” (A. W. Pink). Porém, por mais que amemos a Deus, jamais conseguiremos compreender adequadamente a grandeza do seu amor. Quando João relata sobre o amor de Deus que o impulsionou a dar o seu Filho Unigênito ao mundo, usa a expressão “tal maneira” (Jo 3.16). Quando fala da grandeza do amor do Pai para conosco utiliza a expressão “quão grande” (1Jo 3.1, cf. ARC). O amor de Deus é incomparável! “Há nele uma profundidade que ninguém consegue sondar; há nele uma altitude que ninguém consegue escalar; há nele uma largura e um comprimento que desdenhosamente desafia a medição feita por todo e qualquer padrão humano” (Pink).
Quero concluir este item apresentando uma abordagem prática do amor de Deus, segundo J. I. Packer, que reflete bem o pensamento da Assembleia de Westminster:
“É verdade que Deus é amor para mim como cristão? E o amor de Deus é realmente tudo isso que foi dito? Se assim for, surgem algumas dúvidas.
Por que eu sempre reclamo e mostro descontentamento diante das circunstâncias nas quais Deus me colocou?
Por que estou sempre desconfiado, atemorizado ou deprimido?
Por que sempre me permito ficar frio, formal, e pouco dedicado ao serviço do Deus que me ama tanto?
Por que permito que minha lealdade se divida, de modo que Deus não tem todo o meu coração?”
2.   A paz de consciência
A paz de consciência é um dos resultados da certeza do amor de Deus. Saber que “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1), e que agora “temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1), nos dá uma tranquilidade muito grande. E não poderia ser diferente, porque “a paz de Deus, necessariamente, tem que sossegar nossas mentes e dar descanso a nossos corações” (A. B. Simpson).
Era esta paz com Deus, que excede todo o entendimento e guarda as nossas mentes em Cristo Jesus (cf. Fp 4.7), que inundava o coração de Paulo e Silas, pois mesmo depois de serem açoitados, lançados no cárcere, e estando com os pés presos no tronco, ainda “oravam e cantavam louvores a Deus” (At 16.25). Foi essa sensação gostosa de dever cumprido que permitiu o sono tranquilo de Pedro, mesmo preso. “Quando Herodes estava para apresentá-lo (aos judeus), naquela mesma noite Pedro dormia entre dois soldados, acorrentado com duas cadeias, e sentinelas à porta guardavam o cárcere” (At 12.6).
O mundo não sabe o que é esta paz. O mundo não sabe o que é ter esta paz (Is 48.22; 57.21). Disse Jesus: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). A paz do mundo é circunstancial e externa. “A verdadeira paz é uma bênção do evangelho, e somente do evangelho” (T. Guthrie). Portanto, compete à Igreja de Cristo, aos filhos e filhas de Deus, anunciar ao mundo o Príncipe da Paz (Is 9.6).
3. A alegria no Espírito Santo
A expressão “alegria no Espírito Santo” aparece somente em Romanos. Faz parte daquele versículo que diz: “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
A alegria do crente não é apenas “no” Espírito, mas também “do” Espírito. É fruto do Espírito Santo (Gl 5.22). Assim como a paz de Cristo não é dada como o mundo a dá (Jo 14.27), a alegria, biblicamente falando, está reservada para os salvos. Por isso Paulo recomendou: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, alegrai-vos” (Fp 4.4). E Pedro fala da atitude dos crentes para com Cristo assim: “a quem, não havendo visto amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). No entanto, em que consiste a alegria no Espírito ou em Cristo? Ela é “o resultado da presença direta de Cristo, de um sentimento de bem-estar nele e um sentimento de conformidade para tudo que vier” (Abbott).
Contudo, se a alegria é fruto do Espírito Santo e devemos nos alegrar nele e em Cristo, por que há tão pouca alegria na vida de muitos crentes? É lamentável quando verificamos que em boa parte dos crentes (para não dizer a maioria) existe uma predominância assustadora de tristeza. Crentes zangados, aborrecidos, nervosos... Onde está a alegria no Espírito que oferece bênçãos sobre bênçãos pelos méritos de Cristo? Quando folheamos a história da Igreja nos tempos do Novo Testamento, encontramos uma Igreja eminentemente feliz (Veja, por exemplo, At 2.46). O que está acontecendo hoje? Por que as igrejas já não são tão alegres? Considerando que a alegria do Senhor é a nossa força (Ne 8,10), que devemos nos alegrar sempre no Senhor (Fp 4.4), mas que o pecado entristece o Espírito de Deus (Ef 4.30), é provável que tenhamos respondido todas essas indagações.
4.   Aumento e perseverança na graça
O crescimento e perseverança na graça, ou seja, o “aumento de graça e perseverança nela até ao fim”, são dons do Espírito Santo. São bênçãos garantidas por ele durante todo o tempo que estivermos neste mundo. O Espírito que em nós habita nos habilita nessa progressão espiritual.
Por “aumento e perseverança na graça” entendemos que é uma ação constante do Espírito Santo no crente, assegurando-lhe a permanência e o desenvolvimento dos frutos da redenção, aperfeiçoando-o na eternidade. De acordo com a Bíblia, os salvos em Cristo nunca, jamais cairão do estado de graça de modo total e definitivo (Jo 6.39, 44; 10.28, 29; Fp 1.6). “Nada os pode separar do eterno e imutável amor de Deus. Foram predestinados para a glória eterna e estão, portanto, assegurados para o céu” (Steele e Curtis).
As passagens bíblicas que aparentemente contradizem a perseverança na graça são, na verdade, advertências para que andemos de modo digno do Senhor. Ignorando essa distinção, o arminianismo (movimento religioso surgido no século XVII) ensina que aqueles que creem e são verdadeiramente salvos, podem perder a salvação. Entretanto, nem todos os arminianos concordam com isso. Alguns defendem que os salvos estão eternamente seguros em Cristo no poder do Espírito Santo. Este último ponto de vista concorda com o ensino bíblico calvinista. O calvinismo afirma que “todos aqueles que são escolhidos por Deus e a quem o Espírito concedeu a fé, são eternamente salvos. São mantidos na fé pelo poder do Deus Todo Poderoso e nela perseveram até o fim” (Steele e Curtis).
O Deus que nos salvou, de uma vez por todas, nos conduzirá em triunfo até o fim. Glória a Deus!