sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Um exemplo de superação

Josivaldo de França Pereira


“Entrando em Jericó, atravessava Jesus a cidade. Eis que um homem, chamado Zaqueu, maioral dos publicanos e rico, procurava ver quem era Jesus, mas não podia, por causa da multidão, por ser ele de pequena estatura. Então, correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque por ali havia de passar” (Lc 19.1-4).
 O que segue são lições preciosas da superação de Zaqueu para a nossa vida.
1.     Zaqueu superou a si mesmo
Zaqueu tinha um sonho, o de ver a Jesus de qualquer maneira, porém, por ser de baixa estatura, não conseguia concretizar seu desejo por causa da multidão. No entanto, Zaqueu não desistiu. Não ficou choramingando pelos cantos de Jericó, lamentando sua triste condição, com dó de si mesmo. Ao invés disso ele teve uma brilhante ideia. Correu e subiu em um sicômoro, uma árvore parecida com a amoreira, conhecida também como figueira brava, muito comum naquela região. Desse modo Zaqueu, que era baixinho, ficou bem mais alto que todo mundo.
O pequeno Zaqueu não podia acrescentar um côvado sequer à sua estatura, mas podia subir numa árvore. Faça como Zaqueu, use seu talento. Aprenda com esse pequeno grande homem que na vida não existe desafio que não possa ser superado. Tudo é possível para quem acredita e vai em busca de seu ideal.
Conta-se que Demóstenes, orador grego do séc. III a. C., desde criança sonhava em ser um grande orador. Contudo, ele tinha contra si a gagueira e um cacoete no ombro direito, além de ser constantemente ridicularizado por todos. Entretanto, a seu favor Demóstenes possuía a vontade de vencer. A gagueira ele superou fazendo exercícios com pedrinhas de rio na boca. O cacoete ele dominou colocando a ponta de uma espada junto ao ombro, que o feria enquanto ele treinava diante de um espelho. O reconhecimento e respeito de todos foi uma questão de tempo. Às vezes para superar a nós mesmos, nossos limites e temores é preciso sacrifício. Quando você pensar em desistir, lembre-se: Ainda é cedo.  
2.     Zaqueu superou a multidão
Zaqueu superou a multidão ficando mais alto que ela. Lembremos que Zaqueu era publicano, ainda mais odiado pelo povo por ser o chefe dos publicanos. Os publicanos eram coletores de impostos judeus que trabalhavam para o governo romano. Seus compatriotas os chamavam de traidores e ladrões, desclassificados entre os piores pecadores. Lucas relata que quando Jesus se hospedou na casa de Zaqueu, “Todos os que viram isto murmuravam, dizendo que ele se hospedara com homem pecador”. A multidão era um desafio para Zaqueu em todos os sentidos. Ele era desrespeitado pelo povo por ser pequeno e publicano. Se naquela marcha de travessia da cidade ele não saísse da frente, corria o risco de ser atropelado com gosto pela turba eufórica. Zaqueu era rico, mas seu dinheiro não podia ajudá-lo naquele momento. Pelo contrário, seu dinheiro era “amaldiçoado” pelos judeus porque os publicanos, geralmente, se enriqueciam ilicitamente à custa do seu próprio povo. A saída encontrada por Zaqueu foi se colocar acima da multidão. Ele não aceitou o decreto da derrota e muito menos se contentou em ficar apenas na mesma altura das pessoas. Zaqueu quis mais; Zaqueu fez mais. Correu adiante e subiu numa árvore para ver o maior de todos: Jesus.
Há uma lição importante aqui. Alegoricamente falando, podemos dizer que a multidão simboliza os muitos problemas e obstáculos que enfrentamos nesta vida. Com Zaqueu aprendemos que é possível encontrar a solução, pois para serem resolvidos é que os problemas existem. Observe que Zaqueu não ficou simplesmente parado à margem do caminho vendo a multidão passar, e a pensar: “Queria tanto ver Jesus”.  Não! Zaqueu foi à luta. Não se entregou; não desistiu. Faça o mesmo meu caro amigo, minha distinta amiga, não desista jamais de seus sonhos. Somente chega no final da jornada quem iniciou a caminhada dando o primeiro passo. Quem colhe os louros da vitória é quem nunca jamais deixou de lutar.
3.     Zaqueu superou a trajetória
Cada vez que eu leio a história de Zaqueu mais eu me impressiono com ele. Zaqueu era um homem empreendedor. Não foi por acaso que ele chegou a ser chefe dos publicanos. Era um homem vivo e ativo. Concordo com os que dizem que Zaqueu também era um homem justo por causa da confissão que ele fez a Jesus: “se nalguma cousa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais”, significando que ele não roubou ninguém de fato ou que, pelo menos, conscientemente ele não se lembrava disso.
Conhecedor da região, Zaqueu corre adiante da multidão, sobe na árvore mais alta e próxima do caminho, porque por ali Jesus havia de passar. Zaqueu era um homem de visão e se antecipou. Olhou adiante, calculou o trajeto e entendeu que Jesus passaria em tal lugar. Os homens e mulheres que marcaram a história foram pessoas que estavam à frente do seu tempo. Homens e mulheres que muitas vezes foram injustiçados, mas reconhecidos depois. Quem diria que um publicano seria protagonista de uma das mais belas histórias bíblicas?
Zaqueu viu quem era Jesus porque não deixou de seguir adiante. Ele se sujeitou ao ridículo ao subir numa árvore, porém, não se importou com nada. Por isso, sua recompensa foi muito mais que ver a Jesus. Ele mesmo foi visto por Jesus. Mais que isso, ele foi chamado pelo nome e ainda recebeu o Salvador em sua própria casa. Quando nos empenhamos em alcançar os nossos sonhos e ideais, alçamos voos como os da águia, enfrentamos temporais, raios e trovões porque acima de todas essas coisas está um céu límpido e esplendoroso. Com fé em Deus e força de vontade conseguimos mais do que esperamos.
Viva vencendo com Jesus!

Deus ou Satanás?

(Interpretação de 2Samuel 24.1 e 1Crônicas 21.1)
Josivaldo de França Pereira

“Tornou a ira do SENHOR a acender-se contra os israelitas, e ele incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, levanta o censo de Israel e de Judá” (2Sm 24.1).

“Então, Satanás se levantou contra Israel e incitou a Davi a levantar o censo de Israel” (1Cr 21.1).

Não é difícil entender o significado dessas passagens (2Sm 24.1 e 1Cr 21.1). Deus, na sua soberania, muitas vezes se utiliza de instrumentos variados para executar a sua vontade. Ele não é o autor do mal e nem pode ser tentado pelo mesmo (cf. Tg 1.13-15), porém, muitas vezes ele se utiliza de pessoas boas ou más, anjos bons ou ruins para executar os seus desígnios. Deus é soberano! É por isso que podemos entender sem contradição alguma essas passagens quando dizem que Deus incitou a Davi (2Sm 24.1) ou Satanás incitou a Davi (1Cr 21.1). Quem incitou Davi? Deus ou Satanás? Os dois. Satanás foi um instrumento de Deus para fazer o que ele queria que fosse feito. Satanás não faz nada sem o consentimento de Deus. Você se lembra quando ele quis tentar Jó? Ele não pôde ir além do que Deus permitiu que ele fosse.

Quem quis que o recenseamento do povo fosse feito, Deus, Satanás ou Davi? Os três! Teve Deus, Satanás e Davi as mesmas motivações para o levantamento do censo? Não. Satanás, por exemplo, visa sempre a destruição dos filhos e filhas de Deus. Deus, por sua vez, visa a correção para aperfeiçoamento de seu povo porque Deus é amor. Veja 2Samuel 24.14. Contudo, algumas coisas precisam ser esclarecidas. Por que Deus se irou contra o povo e por que incitou Davi a levantar o censo? A passagem em questão não especifica, mas tudo indica que Israel e Judá mais uma vez pecaram contra Deus. A expressão “Tornou a ira do SENHOR a acender-se contra os israelitas...” significa mais uma indignação de Deus contra mais um pecado do povo. O capítulo 21 do segundo livro de Samuel apresenta o resultado do penúltimo deles. Mas desde a saída do Egito até então não foram poucas as vezes que o povo provocou a ira do Senhor.

Incitar a Davi, isto é, estimular seu coração para contar o povo foi a maneira que Deus encontrou para executar juízo e justiça contra Israel e Judá. Que sentimento surgiu no coração de Davi para fazer o recenseamento do povo? Não podemos precisar ao certo, porém, sabe-se que uma das definições do verbo incitar é "enraivecer". É provável que enraivecido com o povo (por alguma razão que desconhecemos) Davi resolveu contá-lo. Mas o que essa raiva tinha a ver com o levantamento do censo? E por que Davi sofreu as consequências desse pecado se ele foi instigado por Deus? Davi era o representante legal do povo. Normalmente em Israel o povo expressava a devoção do seu rei. Quando o rei temia a Deus, o povo também temia. Quando o rei pecava contra Deus, o povo também pecava. A história dos reis de Judá e Israel é abundante nesse particular. No entanto, se foi o próprio Deus quem incitou a Davi, por que então ele foi responsabilizado pelo levantamento do censo? E que mal havia em fazer tal levantamento?

A primeira coisa que devemos ter em mente é que a soberania de Deus não anula a responsabilidade humana. O próprio Davi destacou esse fato quando chamou para si a responsabilidade do que havia feito (2Sm 24.10,17). Davi também quis fazer o recenseamento e se arrependeu com o que fez. Por isso, quando Deus se mostrou benigno para com a terra, seu perdão se estendeu a Davi também (2Sm 24.18-25). Que a soberania de Deus não anula a responsabilidade humana está claro em passagens bíblicas como, por exemplo, Lucas 22.22 e Romanos 9. 14-18. A soberania de Deus e a responsabilidade humana são uma verdade bíblica que, infelizmente, muitos crentes ainda não compreenderam. Davi e o povo não eram inocentes. Todos eles foram punidos por seus erros, como nós também o somos. E por que Davi pecou por fazer o levantamento do censo? É porque Deus havia dito a Abraão que a sua descendência seria incontável (Gn 15.5; 22.17). E mesmo quando fosse preciso fazer um recenseamento, alguns critérios básicos deveriam ser observados, conforme Êxodo 30.11-16. De qualquer forma, a maneira como Davi fez o recenseamento não agradou ao Senhor.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Salomão: o sábio que a filosofia desconhece

Josivaldo de França Pereira


Salomão foi o homem mais sábio do mundo. Era filho do rei Davi e sucessor ao trono do pai. Em sua oração pediu a Deus sabedoria para conduzir com prudência e justiça o povo de Israel. “Estas palavras agradaram ao Senhor, por haver Salomão pedido tal cousa. Disse-lhe Deus: Já que pediste esta cousa e não pediste longevidade, nem riquezas, nem a morte de teus inimigos; mas pediste entendimento, para discernires o que é justo; eis que faço segundo as tuas palavras: dou-te coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá” (1Rs 3.10-12). Nunca houve na terra, antes ou depois de Salomão (com exceção de Jesus Cristo [Mt 12.42; Lc 11.31]), alguém tão sábio como ele. Sócrates, Platão e Aristóteles e todos os filósofos que vieram antes ou depois deles não sobrepujaram Salomão em sabedoria.

A Bíblia relata: “Deu também Deus a Salomão sabedoria, grandíssimo entendimento e larga inteligência como a areia que está na praia do mar. Era a sabedoria de Salomão maior do que a de todos os do Oriente e do que toda a sabedoria dos egípcios. Era mais sábio do que todos os homens, mais sábio do que Etã, ezraíta, e do que Hemã, Calcol e Darda, filhos de Maol; e correu a sua fama por todas as nações em redor. Compôs três mil provérbios, e foram os seus cânticos mil e cinco. Discorreu sobre as plantas, desde o cedro que está no Líbano até ao hissopo que brota do muro; também falou dos animais e das aves, dos répteis e dos peixes. De todos os povos vinha gente a ouvir a sabedoria de Salomão, e também enviados de todos os reis da terra que tinham ouvido da sua sabedoria” (1Rs 4.29-34).

O episódio clássico da sabedoria de Salomão é o julgamento da causa de duas mulheres, onde cada uma alegava ser a mãe da mesma criança. Salomão propôs que o menino fosse cortado ao meio quando a verdadeira mãe se manifestou, implorando ao rei que não fizesse isso, mas que entregasse a criança à falsa mãe; esta, por sua vez, insistia que o menino fosse dividido ao meio (1Rs 3.16-26). “Então, respondeu o rei: Dai à primeira o menino vivo; não o mateis, porque esta é sua mãe. Todo o Israel ouviu a sentença que o rei havia proferido; e todos tiveram profundo respeito ao rei, porque viram que havia nele a sabedoria de Deus, para fazer justiça” (1Rs 3.27,28).

Como pode o homem mais sábio do mundo ser ignorado pela filosofia contemporânea? Por que a filosofia não faz menção de Salomão e de sua grande sabedoria? Por que os livros de sabedoria da Bíblia não são estudados pela filosofia? Algumas indicações “justificam” essa posição.

A filosofia é grega. A filosofia, entendida como aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade natural e humana, da origem e causas do mundo e de suas transformações, da origem e causas das ações humanas e do próprio pensamento, é um fato tipicamente grego. Isso não quer dizer, evidentemente, que outros povos, tão antigos quanto os gregos não possuam sabedoria, pois possuíam e possuem. Também não quer dizer que os outros povos não tivessem desenvolvido o pensamento e formas de conhecimento da Natureza e dos seres humanos, pois desenvolveram e desenvolvem. Quando se diz que a filosofia é um fato grego, o que se quer dizer é que ela possui certas características, apresenta certas formas de pensar e de exprimir os pensamentos, estabelece certas concepções sobre o que sejam a realidade, o pensamento, a ação, as técnicas, que são completamente diferentes das características desenvolvidas por outros povos e outras culturas, isto é, são diferentes do padrão de pensamento e de explicação que foi criado pelos gregos a partir do século VII a. C., época em que nasce a filosofia.[1] Contudo, o sistema filosófico grego é deficiente, como podemos ver no tópico seguinte.

A filosofia é mitológica. Não que a filosofia propriamente seja um mito. Na verdade a filosofia rompeu com a mitologia antiga. O problema é que as coisas que não são racionalmente explicadas, ou seja, conhecimentos misteriosos e secretos que precisariam ser revelados por divindades e não os conhecimentos que o pensamento humano, por sua própria força e capacidade, pode alcançar, são classificadas como mito, ou seja, uma história fictícia. Para a filosofia Adão e Eva e a Caixa de Pandora são histórias distintas com um final em comum: a tragédia humana. Por que a filosofia afirma com tanta frequência que a Bíblia está repleta de mitos? Por causa das descrições paralelas com a mitologia grega e de outros povos. A história de Adão e Eva lembra a de Pandora; as descrições paralelas de acontecimentos como o Dilúvio sob a perspectiva bíblica, às da mitologia babilônica; a existência de semelhanças entre os evangelhos que cercam Jesus e as imagens de deuses da mitologia grega, também. De igual modo, alguém como Salomão, que em sonho falou com Deus e recebeu deste sabedoria, é um mito, segundo a filosofia grega, bem como os livros sapienciais atribuídos a ele. “O ponto central da diferença entre a mitologia grega e a literatura bíblica é uma perspectiva radicalmente diversa da relevância da história. (...). Esta visão radicalmente oposta da história é essencial para compreender a antítese greco-judaica com respeito à questão do mito”.[2] A pergunta que se faz é: tem a filosofia algum valor? É claro que tem. A filosofia é uma forma de exercício intelectual. Ela fornece elementos de grande valor para uma análise crítica. Portanto, em si mesma a filosofia não é uma coisa má. O perigo são os filósofos. Por isso, é preciso que mais professores que amam a Deus e a Bíblia assumam o compromisso de lecionar filosofia, extraindo dela o que há de melhor para a formação de bons cidadãos.

CONCLUINDO:

A filosofia é uma criação humana, portanto, ela não é um sistema completo e infalível. “... nenhum sistema de filosofia já se revelou completo e perfeito”.[3] Um exemplo é o próprio Salomão ter ficado à margem das discussões filosóficas. Você encontrará opiniões valiosas em Spinoza, Kant, Sartre e outros, mas nenhum deles parece ter uma visão coerente da vida e do mundo como a que encontramos em Provérbios e Eclesiastes, por exemplo. Os próprios filósofos são seus melhores críticos. Hume criticou Locke; Kant criticou Hume; Hegel criticou Kant, e assim por diante. Não há “resultado seguro” mediante meras especulações filosóficas.[4]

O discurso de Paulo não foi bem aceito no Areópago de Atenas. Por quê? Porque a mensagem da cruz era loucura para os gregos, disse o apóstolo.



[1] Cf. Marilena Chauí, Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 18,19.

[2] R. C. Sproul, Razão Para Crer. 2ª Ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1991, p. 17.

[3] Colin Brown, Filosofia e Fé Cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 1983, p. 183.

[4] Sproul, p. 12.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Resenha Teísmo Aberto

Josivaldo de França Pereira


Bruce A. Ware, Teísmo Aberto: A Teologia de um Deus Limitado. São Paulo: Vida Nova, 2010, 144 pp. Tradução de Djair Dias Filho do original: Their God is too Small: Open Theism and the Undermining of Confidence in God, 2003.

O livro “Teísmo Aberto: A Teologia de um Deus Limitado”, de autoria de Bruce A. Ware, é simplesmente excelente. Não é uma obra exaustiva, como o próprio autor se antecipa a dizer. Alguns textos bíblicos importantes ficam de fora, porém, tais ausências são justificadas pelo fato deste livro ser “um resumo” da obra principal do autor: God´s Lesser Glory: The Diminished God of Open Theism, ainda não disponível em língua portuguesa. Contudo, naquilo que ele se propõe a abordar, ou seja, desmascarar aquela que talvez seja a maior heresia de todos os tempos – o chamado teísmo aberto – Ware é seguro, bíblico e convincente. Sua obra é clara, objetiva e sem rodeios. E embora o autor seja um erudito de renome, o livro não é acadêmico, sendo, portanto, simples e gostoso de ler, sem deixar de ser ao mesmo tempo profundo e contundente em sua exposição. A editora Vida Nova está de parabéns por essa iniciativa.

Seus editores destacam: “Fazendo uso de verdades bíblicas e relatos pessoais, Bruce Ware demonstra como o teísmo aberto solapa nossa confiança em Deus na vida cotidiana, especialmente quando passamos por momentos de sofrimento”.[1] E J. I. Packer complementa: “O teísmo aberto defende a redução da soberania de Deus ao negar seu pleno conhecimento do futuro. Caso ainda reste alguma dúvida quanto a esse ponto ficar aquém do ensinamento bíblico ou corromper a fé e esperança cristãs, o raciocínio pastoral de Bruce Ware certamente a dissipará.”[2] Nessa obra você, leitor, certamente encontrará as respostas que está procurando.

Teísmo Aberto: A Teologia de um Deus Limitado divide-se em cinco capítulos essenciais: O primeiro capítulo trata do teísmo aberto e a fé cristã. Ele mostra com clareza em que ponto a visão aberta sobre Deus vacila em áreas de nossa fé comum e da vida cristã. O capítulo 2, Teísmo aberto e presciência divina, considera o que as Escrituras ensinam acerca de Deus e seu conhecimento do futuro, ao contrário do que os proponentes do teísmo aberto defendem. No capítulo 3, Teísmo aberto e sofrimento, o autor aborda com profundidade uma das áreas que, segundo os teístas abertos, torna sua visão atraente à comunidade cristã, isto é, o problema do sofrimento e do mal. O quarto capítulo, Teísmo aberto e oração, fala da prática da oração na vida cristã e os problemas que são deixados ao cristão, nesse aspecto em particular, caso ele parta em direção ao teísmo aberto. No último capítulo, Teísmo aberto e esperança, Ware perguntará que tipo de esperança no Deus do teísmo aberto podemos ter precisamente. A resposta é muito interessante...

Vale a pena ler; vale a pena conferir. Este livro chega em boa hora ao público brasileiro. O teísmo aberto está se disseminando, criando raízes e se fortalecendo! É preciso que o povo de Deus esteja bem doutrinado e instruído na verdade, a fim de não ser levado de um lado para outro por qualquer vento de doutrina (cf. Ef 4.11-14).



[1] Cf. Comentário de contracapa do livro.

[2] Cf. Comentário da orelha de capa do livro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

ACERCA DOS QUE NUNCA OUVIRAM O EVANGELHO

Josivaldo de França Pereira


Deus castigaria com penas eternas alguém que jamais ouviu falar do evangelho? Não serão poucos os crentes bons e sinceros que responderão essa pergunta com um enfático NÃO! Mas, e a Bíblia? O que ela diz a respeito?

Em meu pastorado tenho sido constantemente indagado acerca do destino eterno daqueles que nunca ouviram falar de Jesus. E acredito que com os meus colegas de ministério não é diferente.

Numa ocasião alguém me perguntou como ficaria o homem da pedra lascada e as tribos primitivas que nunca ouviram o evangelho.

Não é preciso voltar tanto no tempo. Em nossos dias existem tribos indígenas, africanas e povos espalhados pelo mundo que nunca ouviram falar no nome de Jesus. São milhares e milhares de pessoas nessa categoria. E aí? Se essas pessoas morrerem sem conhecer a Jesus irão para o inferno? Deus seria justo se condenasse todos aqueles que nunca ouviram falar do evangelho?

É com temor e tremor e em espírito de oração que passo a falar desse assunto. Serei breve.

No capítulo 3 de Romanos, o apóstolo Paulo, ao tratar da questão da salvação e condenação diz: "Não há um justo, nem um sequer", e complementa: "Porque todos pecaram e destituído estão da glória de Deus". O que Paulo está dizendo nesses versículos é que a condição natural do ser humano é de pecador. Todos nós somos pecadores em Adão (Rm 5.12); nascemos em pecado (cf. Sl 51.5); portanto, nem nós nem ninguém mereceria a salvação.

É importante entendermos que a salvação é um dom da livre graça de Deus (At 15.11; Ef 2.5,8). Quer dizer: a salvação é um favor imerecido de Deus. Deus não é obrigado a salvar ninguém. Se ele fosse obrigado, a salvação deixaria de ser graça para ser dívida. E Deus não deve nada a ninguém! A salvação é uma questão de graça; a condenação sim é uma questão de justiça. Se Deus lançasse todo mundo no inferno, não dando a ninguém a oportunidade de ouvir o evangelho, mesmo assim ele seria justo porque todos pecaram. Nesse caso, observe que a proclamação do evangelho é necessária para que alguém seja salvo, mas não necessariamente para que alguém seja condenado (cf. Lc 12.47,48; Rm 2.12).

"Mas eles pecam por ignorância", diria alguém. A ignorância não justifica o erro. Se a ignorância justificasse o erro, para quê pregar o evangelho então? Vamos deixar todo mundo na ignorância e assim todos serão salvos. Pensar assim é não compreender a natureza de Deus em relação ao pecado.

Tem muita gente sincera pecando por ignorância. Mas nem mesmo a sinceridade justifica o erro e o pecado por ignorância (cf. Is 5.13; 44.19; 45.20; Rm 10.2). E o índio? O índio não é um inocente como alguns são levados a pensar. O índio é pecador por natureza e por isso precisamos pregar o evangelho a ele, na esperança de que se arrependa de seus pecados e se converta ao Senhor. E isso não sou eu quem diz. Um índio salvo, de nome Zenito, ao ser entrevistado por Joab Ferreira, missionário entre os índios Kiriri – BA, fez uma declaração interessante. Acompanhe um dos trechos da entrevista:

FERREIRA: - Muita gente acha que o índio é inocente, mesmo praticando o crime, roubo, adultério, etc., principalmente os índios que nunca ouviram falar de Jesus. O que você diz sobre isso?

ZENITO: - Não existe índio inocente, mesmo que não tenha ouvido falar de Jesus. Quando ele mata, rouba e adultera ele sabe que errou, mas continua fazendo porque esta é a vida dele, viver no pecado. Uma boa parte do medo que o índio tem é por causa das coisas erradas praticadas. Por isso ele não é inocente e nunca foi.[1]

Se o índio rejeitar a salvação ou nunca ouvir o evangelho, será condenado pela justiça de Deus por causa do que ele (índio) é por natureza: um pecador. Já vi colegas tentando "resolver" o problema dos índios que nunca ouviram falar de Jesus, com o argumento de que eles seriam salvos através do culto ao sol, lua, ou qualquer outro elemento da criação de Deus. Essa forma de pensar ignora completamente a seriedade da doutrina bíblica do pecado (cf. Rm 1.18-27).

Mas como os índios e tantos outros crerão se não há quem pregue? Na verdade há quem pregue, o que não há, na maioria das vezes, é boa vontade cristã para se pregar o evangelho. A igreja evangélica brasileira precisa se mexer. A proclamação do evangelho é o único meio de salvação de todos os povos (Rm 10.14-17). A igreja sabe disso. Mas não basta saber, é preciso praticar! Fomos chamados para proclamar Jesus Cristo. Essa é a nossa vocação (1Pe 2.9).

Se a igreja não fizer a sua parte, isto é, de pelo menos tentar livrar as pessoas de irem para o inferno (Pv 24.11,12; Tg 5.20), será responsabilizada por Deus pela condenação do pecador (Ez 33.8,9).

Vamos evangelizar meus irmãos! Para a glória de Deus e salvação dos perdidos.



[1] Cf. Boletim Informativo da Missão Novas Tribos do Brasil/Julho-Setembro de 1982.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Exigências da compaixão: o bom samaritano

(A mensagem de Lucas 10.33-35)

Josivaldo de França Pereira


Aurélio define compaixão como: “Pesar que nos desperta a desgraça, a dor, de outrem; dó, comiseração, piedade”. Isso e muito mais foi sentido pelo samaritano, ao ver um homem semimorto no caminho que vai de Jerusalém a Jericó. O homem tinha sido brutalmente espancado por salteadores. Um sacerdote e um levita tinham acabado de passar por ali, porém, ignoraram completamente o pobre homem. Quanto ao samaritano não sabemos o destino dele. Certamente ele não vinha de Jerusalém e nem ia para Jericó.[1] Jesus diz apenas que o samaritano “seguia o seu caminho” quando “passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele” (Lc 10.33). O samaritano não se limitou em contemplar aquela cena degradante, dizendo em seu coração: “Coitado, pobre homem”. Não! O ponto alto desta história é a compaixão em ação, pois nisso consiste o verdadeiro amor ao próximo. A compaixão é exigente, contudo, ela exige de nós menos do que geralmente imaginamos.

A compaixão exige um pouco do nosso tempo

O bom samaritano deixou de seguir seu caminho para assistir ao homem ferido. Não quis saber se este era judeu, gentio ou um conterrâneo seu. Ali estava um ser humano necessitado de ajuda. O texto nos diz que o samaritano tinha um animal, talvez um jumento, um meio de transporte muito comum na época. Tudo indica que ao avistar o homem caído na estrada ele desceu imediatamente do animal, interrompendo sua jornada de trabalho para acudir ao moribundo. Que o samaritano era uma pessoa ocupada e que tinha coisas importantes para fazer, percebe-se no verso 35. Ele pediu que o dono da hospedaria cuidasse do enfermo para ele, mas deixou claro que voltaria em breve. Talvez ele nem encontrasse mais o homem que, convalescido, seguiria seu caminho.

Aprendemos com o bom samaritano que o corre-corre da vida não é desculpa para deixarmos de fazer o bem. Na verdade, muitas vezes temos uma agenda apertada porque usamos mal o nosso tempo, desperdiçando as nossas horas com trivialidades banais. O nosso tempo rende quando é investido no bem-estar das pessoas.

A compaixão exige um pouco do nosso conforto

O bom samaritano abriu mão do seu próprio conforto para ajudar um homem que ele não conhecia. O importante para ele era socorrer aquela pessoa carente de cuidados. Ele deixou o conforto do seu caminho, e talvez estivesse viajando horas ou mesmo dias. Estava cansado, aguardando ansiosamente o momento de chegar em casa, rever sua família e amigos. No entanto, o samaritano abriu mão desse conforto também. Mas isso não é tudo. Ele abriu mão do seu próprio meio de transporte. A Bíblia diz que ele colocou o homem “sobre o seu próprio animal”, sugerindo que o samaritano seguiu a pé, caminhando ao lado de seu jumento, amparando o homem tragicamente ferido, até chegarem na hospedaria. Mas também isso não é tudo. Chegando na hospedaria ele ainda cuidou pessoalmente do enfermo. A hospedaria não foi um lugar de descanso para o samaritano. Foi para o enfermo. Supomos que o samaritano passou a noite em claro, ou quase isso, preocupado com o doente da cama vizinha.

Aprendemos com o bom samaritano que para fazer o bem, às vezes, é preciso deixar o conforto pessoal um pouco de lado. Precisamos sair do aconchego do lar, da acomodação de nossas igrejas para andar, digamos, “uma milha” com aqueles que precisam dum pouquinho de nós.

A compaixão exige um pouco dos nossos recursos

O samaritano usou o óleo (azeite) e o vinho que trazia consigo. O azeite e o vinho eram fontes de alimento e também serviam como primeiros socorros nos tempos antigos. Usava-se o azeite como paliativo e o vinho como antisséptico. Diante da gravidade do enfermo, é possível que o samaritano tivesse usado todo azeite e vinho com o tratamento do homem. Além disso, embora o texto não diga claramente, subtende-se que ele se dispôs a doar alguma peça de roupa também. Jesus disse que os salteadores roubaram “tudo” daquele homem. A NVI é muito feliz na tradução de Lucas 10.30 quando diz: “Estes lhe tiraram as roupas”.[2] Entretanto, isso ainda não é tudo, porque o bom samaritano usou seu próprio dinheiro no cuidado do homem. As duas moedas de prata que o samaritano deu para o dono da hospedaria eram suficientes para pagar o alojamento e a comida por vários dias. E como não bastasse, disse ao dono da hospedaria que qualquer gasto adicional com o enfermo seria pago por ele mesmo (o samaritano) quando retornasse.

Aprendemos com o bom samaritano que a vida do próximo tem valor. Não sabemos da condição financeira do samaritano. Talvez as duas moedas fossem todo o seu sustento naquela ocasião; indicando, assim, que uma boa condição financeira não é pré-requisito para socorrer alguém. Que o digam as igrejas da Macedônia que se ofereceram para ajudar os pobres da Judeia (cf. 2Co 8.1-4)!

Concluindo:

O bom samaritano socorreu um homem com muitos ferimentos e se empenhou para vê-lo completamente curado. Fez isso simplesmente por ter um coração compassivo. Dedicou um pouco do seu tempo, abriu mão do conforto do lar, dos amigos e de uma boa noite de sono, além de usar recursos pessoais e financeiros para atender quem mais precisava dele naquele momento.

E você, meu irmão, minha irmã, tem cumprido as exigências da compaixão?



[1] Jerusalém e Jericó eram as duas cidades com a maior concentração de judeus nos tempos bíblicos. Um samaritano não era bem-vindo em nenhuma dessas cidades.

[2] Para outras traduções semelhantes em português veja a Bíblia na Linguagem de Hoje e O Novo Testamento Vivo.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Atitudes para com o próximo

(A mensagem de Lucas 10.30-35)

Josivaldo de França Pereira

Um intérprete da lei se levantou com o intuito de por Jesus à prova, perguntando o que devia fazer para herdar a vida eterna. Jesus respondeu com duas outras perguntas: “Que está escrito na lei? Como interpretas?”. O homem respondeu citando os dois grandes mandamentos, ou seja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Jesus disse que a resposta estava correta, e completou: “faze isto e viverás”. Não satisfeito com a objetividade do Mestre, querendo justificar-se, o intérprete da lei indagou: “Quem é o meu próximo?”. Jesus prosseguiu contando a famosa história de Lucas 10.30-35, na qual se destacam três atitudes distintas em relação ao próximo.

1. Uma atitude inaceitável: O que é seu é meu.

A atitude inaceitável foi executada pelos salteadores. Eles fizeram simplesmente um estrago no homem que seguia tranquilamente seu caminho, porque “depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto”. Uma atitude sádica, covarde e bandida é o mínimo que se pode esperar de gente assim. O ladrão nunca aparece para trazer boas-novas ou fazer o bem a quem quer que seja. Parece surgir do nada, de repente, sem aviso prévio, causando terror e tragédia na vida das pessoas. Jesus sintetizou muito bem a ação de um salteador quando disse no evangelho de João: “O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir...” (Jo 10.10). A atitude inaceitável de um meliante resume-se nisto: “O que é seu é meu”.

2. Uma atitude não recomendável: O que é meu é meu.

A atitude não recomendável foi praticada pelo sacerdote e o levita. Ambos iam de Jerusalém para Jericó quando se depararam com um homem despido, ensanguentado e semimorto no meio do caminho. Note que o homem espancado pelos salteadores fazia o mesmo trajeto do sacerdote e o levita. Ele também “descia de Jerusalém para Jericó”. Isso indica que, no mínimo, ele era judeu e vizinho do sacerdote e do levita. Jericó era conhecida como a cidade dos sacerdotes e levitas. Provavelmente o sacerdote acabara de ministrar num culto e o levita de cantar no coral da Cidade Santa. Mas eles não praticaram o que fizeram lá. Adoração e louvor que não produzem compaixão para com o próximo não têm sentido para Deus. Religioso que não pratica o evangelho vai sempre “passar de largo” diante de quem precisa de ajuda. A atitude não recomendável de uma pessoa hipócrita e egoísta resume-se nisto: “O que é meu é meu”.

3. Uma atitude louvável: O que é meu é seu.

A atitude louvável foi realizada pelo samaritano. O homem que por natureza é odiado pelos judeus socorre um judeu. Ele fez o bem sem olhar a quem. É provável que ele tivesse um compromisso urgente, mas abriu mão de sua agenda para assistir ao necessitado. Socorrer uma vida vale mais que qualquer outra coisa. E foi o que o bom samaritano fez. Ele se aproximou do ferido, realizou os primeiros-socorros, transportou-o em seu próprio animal (indicando que ele mesmo seguiu a pé), levou-o para uma hospedaria e tratou pessoalmente dele. Não podendo ficar por mais tempo, no dia seguinte pediu que o hospedeiro cuidasse do homem ferido, pagando por isso. Contudo, retornaria para ver o próximo e indenizar o hospedeiro, caso este tivesse gastado alguma coisa a mais com o enfermo. A atitude louvável de uma pessoa bondosa e altruísta resume-se nisto: “O que é meu é seu”.