quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Bênçãos Naturais: Fruto da Graça Comum

Josivaldo de França Pereira


Um dos principais frutos da graça comum[1]são as muitas bênçãos naturais que os seres humanos recebem nesta vida presente. Quanto a esse fruto em particular, a graça comum pode ser definida como aquelas bênçãos gerais, como a chuva e o fulgor do sol, o alimento e a bebida, a vestimenta e o teto, as quais Deus concede a todas as pessoas sem relutância ou discriminação.
Embora muitos faça pouco caso das bênçãos de Deus, ainda assim eles recebem abundantes provas da bondade do Senhor todos os dias, mesmo que eles não sejam eficazmente chamados para a salvação. Há várias passagens bíblicas revelando que Deus derrama suas bênçãos sobre todas as pessoas sem exceção, isto é, sobre justos e injustos, eleitos e não eleitos, como por exemplo: Gn 17.18,20; 39.5; Sl 36.6; 145.9,15,16; Jn 4.10,11; Mt 5.44,45; Mc 8.2; Lc 6.35,36; At 14.16,17; 1Tm 4.10. Essas dádivas vêm como bênçãos não só para os bons, mas também para os maus.
Alguns entendem que o propósito da graça comum é tornar os réprobos e malvados indesculpáveis perante o Senhor. Contudo, a palavra “graça” (charis, em grego) por definição significa “bênção imerecida”, livremente concedida ao ser humano por Deus. Portanto, o propósito divino na graça comum é tão somente o de abençoar a todos. A graça comum, em si, não torna o pecador indesculpável. É o pecador que se autocondena quando rejeita o Deus da graça que se revela em sua criação (cf. Rm 1.20).
Jesus ensinou que até o inimigo devemos amar (Mt 5.44). E ilustrou dizendo que o Pai celeste “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.45). O Salmo 145.9 diz que “O Senhor é bom para todos”. Nisto consiste a graça comum de Deus: os maus recebem o mesmo tanto de sol e chuva que os bons. Semelhantemente, Deus não é menos gracioso quando os bons são afetados pelas tragédias e calamidades naturais. “Ocorrem períodos de seca e falhas na lavoura, porém Deus não abandona a sua criação. Ele sempre providencia produção agrícola para sustentar tanto os seres humanos quanto os animais”.[2] Deus não somente fornece bastante alimento para toda a sua criação, mas também enche o coração do ser humano de alegria (cf. At 14.17). Mesmo se o pecador negligencia ou se recusa a expressar ação de graças por todas as bênçãos de Deus, ainda assim o Senhor sacia o coração do pecador de prazer e contentamento.[3]
A Bíblia ensina com clareza que Deus derrama bênçãos indizíveis sobre todas as pessoas, portanto, é insustentável a afirmação de que Deus nunca abençoa aos réprobos, ainda que lhes dê muitas dádivas (como sol e chuva) que são boas em si mesmas. Contudo, em Gênesis 39.5 lemos que “... o SENHOR abençoou a casa do egípcio por amor de José; a bênção do SENHOR estava sobre tudo o que tinha, assim em casa como no campo”. Em Romanos 12.14 Paulo exorta: “abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis”. Isto só pode significar uma coisa: Deus também abençoa aos que o maldizem (cf. Lc 6.35,36; Rm 2.4).[4]
Por que os maus e injustos são agraciados por Deus com toda sorte de bênçãos naturais? Porque Deus é amoroso, benigno e misericordioso (Mt 5.44,45; Lc 6.35,36; At 14.17).


[1] Para outros frutos da graça comum, consulte Louis Berkhof, Teologia Sistemática. 7ª Ed. Espanhola. Grand Rapids: T.E.L.L., 1987, p. 526-528.
[2] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 34.
[3] Ibidem. V. t. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Mateo. Grand Rapids: SLC, 1986, p. 329.
[4] Cf. Berkhof, op. cit., p. 528,529.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A Graça na Lei

Josivaldo de França Pereira


A lei moral, representada pelos dez mandamentos, deve ser interpretada além do mero literalismo. Entender os dez mandamentos apenas em seu sentido literal seria cair no mesmo erro dos escribas e fariseus. O Novo Testamento nos ensina que a lei moral é espiritual e que, portanto, precisa ser interpretada com maior amplidão.

No chamado “Sermão do Monte”, o Senhor Jesus cita alguns dos dez mandamentos e expõe a verdadeira interpretação deles. A verdade é que os antigos não viram (ou não quiseram ver) que os mandamentos nunca se limitam ao aspecto literal. “O que importa é o espírito da lei”, disse Martyn Lloyd-Jones, “e não somente a letra da lei”. E nisso reside nossa grande dificuldade.

Quando o Mestre afirma que a ira contra um irmão quebra o sexto mandamento (“Não matarás”), e “qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela”, isso nos envergonha e humilha. Pois quem, em sã consciência, afirmará que nunca matou ou adulterou, segundo a verdadeira interpretação da lei? Estaríamos todos perdidos se para sermos salvos precisássemos cumprir à risca a lei de Deus (embora ele a tenha dado com esta última finalidade [cf. Sl 119.4])! Por isso Jesus, a graça encarnada, é o nosso Redentor. Ele cumpriu a lei em todos os sentidos e aspectos. Contudo, ele não nos isentou do dever de nos conduzirmos de acordo com a lei moral. A lei não salva, mas isso não significa que não temos compromisso com ela. “Não há salvação sem santificação”, diziam os puritanos.

Os mandamentos de Deus não são penosos quando dependemos da sua graça para cumpri-los. Se falhamos muito é porque não levamos os mandamentos a sério, descansamos em uma falsa compreensão da Bíblia, e ainda não buscamos a graça capacitadora de Deus. O Senhor exige obediência, mas concede graça. Se estivermos dispostos a fazer o que ele pede, ele nos proverá o necessário.

Peçamos a Deus, portanto, com sinceridade de coração, o auxílio para fazermos a sua vontade, porque o Senhor abençoará e recompensará aqueles que, pelo menos, se esforçam para fazer da melhor maneira o que ele exige. Deus nos deu os seus mandamentos não para sermos subjugados a regras opressivas, mas para promover, pela sua graça, o livre desenvolvimento de nosso caráter espiritual. Porque “a lei é santa; e o mandamento, santo, e justo, e bom” (Rm 7.12).

sábado, 23 de outubro de 2010

A Lei na Graça

Josivaldo de França Pereira


A Bíblia ensina que o cristão não é um fora da lei, mas alguém que está “debaixo da lei de Cristo” (1Co 9.21). Embora Cristo tenha abolido as leis civis e cerimoniais, os mandamentos morais de Deus permanecem absolutos, de modo que: a graça divina não é licença para a libertinagem, e sim, liberdade para a santidade em Cristo Jesus. As falsas deduções acerca da lei foram condenadas por Paulo nas epístolas aos Romanos, aos Coríntios e aos Tessalonicenses, e também pelo próprio Senhor Jesus nos três primeiros capítulos do Livro de Apocalipse.

O antinomismo (do grego anti [“contra”] e nomos [“lei”]) é uma doutrina antiga que ensina não ser necessário aos cristãos pregarem e/ou obedecerem à lei moral do Antigo Testamento. Havia alguns na Igreja Primitiva que diziam: “Ah, não estamos mais debaixo da lei, estamos sob a graça; quer dizer que o que fazemos não importa. Uma vez que não estamos mais debaixo da lei, mas sim debaixo da graça, vamos pecar, para que a graça seja mais abundante! Vamos fazer o que quisermos; isso não importa. Deus é amor, fomos perdoados, estamos em Cristo, nascemos de novo; portanto, façamos tudo que quisermos”. O antinomismo é uma prática condenada em toda parte do Novo Testamento.

Martin Lloyd-Jones disse acertadamente: “É um trágico engano pensar que quando temos a graça, não há nela nenhum elemento da lei, mas que há uma espécie de licença. Isso é uma contradição do ensino bíblico concernente à lei e à graça. Existe graça na lei; existe lei na graça”.

Toda e qualquer posição que diga, “somente a lei”, ou diga, “somente a graça”, é necessariamente errada porque na Bíblia temos “a lei” e “a graça”. Não é, “a lei ou a graça”; é “a lei e a graça”.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Jó: Paciente ou Perseverante?

Josivaldo de França Pereira


Duas das principais versões da Bíblia em português, Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Nova Versão Internacional (NVI), traduzem o texto de Tiago 5.11 assim:
“Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo” (ARA);
“Como vocês sabem, nós consideramos felizes aqueles que mostraram perseverança. Vocês ouviram falar sobre a perseverança de Jó e viram o fim que o Senhor lhe proporcionou. O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia” (NVI).[1]
Paciência e perseverança são palavras distintas que podem ser definidas do seguinte modo: “Paciência” – “sf. 1. Qualidade de quem sabe esperar. 2. Virtude de quem sabe suportar dores, infortúnios, etc., com resignação”.  “Perseverança” – “sf. Qualidade ou procedimento de perseverante; pertinácia, constância, firmeza” (Aurélio).
Jó foi paciente ou perseverante em meio à provação? As traduções da Bíblia favoreceram a proverbial “paciência de Jó”, contudo, a melhor tradução da palavra hypomonen em Tiago 5.11 é “perseverança”. Jó dificilmente poderia ser denominado de “homem paciente”. O profeta Ezequiel menciona Jó junto com Noé e Daniel, porém, conforme bem observa Kistemaker, “o profeta ressalta não a paciência, mas a retidão, como a virtude característica de Jó (Ez 14.14,20)”.[2] Diz ele ainda: “Mesmo no Livro de Jó, a paciência não é uma das virtudes excepcionais de Jó. Ele deixa transparecer sua impaciência quando amaldiçoa o dia de seu nascimento (3.1) e quando diz que os longos discursos de seus três amigos não têm fim (16.3)”.[3]
Além disso, por mais de trinta vezes Jó ergue aos céus sua queixa contra Deus, de maneira nada suave. Ele se sente entrincheirado por Deus (3.23); diz que foi atingido pelas flechas venenosas de Deus (6.4); chama Deus de espreitador dos homens (7.19-21); acusa Deus de ser insensível à sua oração e à sua dor (Jó 9.16-18); queixa-se do silêncio de Deus diante da sua terrível angústia (10.2); queixa-se também de ser oprimido sem causa (10.3-9); de não ser perdoado (10.14); acusa Deus de precipitar contra ele males sem fim (10.17) e de não lhe ter permitido morrer no ventre de sua mãe só para deixá-lo sem alento (10.18-22). No seu desespero chega a dizer que os que provocam a Deus é que estão seguros e que os tiranos é que gozam a paz, mas o justo e o reto servem de irrisão para os seus amigos (12.4-6); acusa Deus de estar irado incessantemente contra ele (14.13) e de ter destruído toda a sua família (16.7); atribui a Deus a sua magreza (16.8); sente-se desprezado por ele (16.9) e diz ainda que Deus o entregou nas mãos dos ímpios (16.10,11); levanta a sua queixa de que Deus o agarrou pelo pescoço, tirou a sua paz e o crivou de flechas (16.12,13); afastou dele a sua família e jogou contra ele os seus irmãos, parentes e criados (19.13-16). Jó derrama a sua lamentação contra Deus ao ver a prosperidade e a paz dos perversos sem que Deus os castigue, enquanto ele próprio é afligido (21.4-15); ao mesmo tempo, declara que Deus tirou o seu direito e amargurou a sua alma (27.2); acusa Deus de não guardá-lo mais, não guiá-lo, não ser mais seu amigo, nem estar mais ao seu lado, como nos tempos de outrora (29.2-6). Jó acusa Deus de ter afrouxado a corda do seu arco (30.11) e de tê-lo jogado na lama (30.19). Jó finalmente acusa Deus de não se apresentar para responder às suas queixas (31.35).[4]
Qual o legado de Jó na provação? “Embora Jó tenha reclamado amargamente do tratamento que lhe foi dado por Deus, ele nunca abandonou sua fé; no meio da incompreensão, ele se apegou em Deus e continuou a esperar nele (cf. Jó 1.21; 2.10; 16.19-21; 19.25-27)”.[5] “Deus abençoou Jó por causa de sua fé perseverante”.[6]

“Como vocês sabem, nós consideramos felizes aqueles que mostraram perseverança. Vocês ouviram falar sobre a perseverança de Jó e viram o fim que o Senhor lhe proporcionou. O Senhor é cheio de compaixão e misericórdia.”
 (Tg 5.11, NVI)


[1] Das oito versões da Bíblia em português que tenho em mãos, cinco delas (Almeida Revista e Atualizada, Edição Revista e Corrigida, Edição Revisada, A Bíblia na Linguagem de Hoje e a Edição Alfalit Brasil), traduzem a expressão grega “hypomonen Iob” de Tiago 5.11 como “paciência de Jó”; duas delas, a Nova Versão Internacional e a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, dizem “perseverança de Jó”, e a Bíblia Viva interpreta: “Jó é um exemplo dum homem que continuou a confiar no Senhor no sofrimento”.
[2] Simon J. Kistemaker, Comentário do Novo testamento: Tiago e Epístolas de João. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 230.
[3] Ibidem.
[4] Cf. Hernandes Dias Lopes, Restauração sim, explicação nem sempre. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 41-44.
[5] Douglas J. Moo, Tiago: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1990, p. 171.
[6] Kistemaker, op. cit., p. 230.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

A Memória de João Calvino

Josivaldo de França Pereira

O primeiro biógrafo e sucessor imediato de João Calvino (1509-1564) em Genebra, o erudito Theodoro de Beza (1519-1605), fez o seguinte relato acerca da memória do Reformador:

Deixo de falar da grandeza de seu saber, do maravilhoso bom senso que nele havia, da singular complacência que revela no acomodar-se até aos mais pequeninos quanto necessidade havia, da afabilidade em suportar as fraquezas e as imperfeições aos outros, pois que seria isso um propósito quase sem fim. Tocarei somente na admirável excelência de sua memória, não que ele dela fizesse alarde, como se vê de embusteiros da atualidade que tanto se empenham em ter boa memória que se não importam em formar seu judicioso discernimento. Calvino, porém, tinha uma e outro bem equilibrados, e tudo acompanhado de mui profunda simplicidade.

Se é, pois, questão das coisas que havia outrora visto, seja em França, seja na Itália e Alemanha, quando isso vinha a propósito, disso sabia falar, particularmente em se tratando dos lugares e das pessoas, e disso auferia vantagem. Quanto aos interesses e causas desta igreja, e mesmo da República, quanto sua vocação o podia comportar, disso sabia na ponta do dedo, até mesmo nas mais insignificantes minúcias. No próprio consistório, pessoas se achavam que foram chamadas por alguma falta nova, às quais convencia de haverem sido convocadas anteriormente, referindo-lhes as evidências e rememorando as causas, e, ainda que fossem coisas passadas, havia sete, e dez, e doze anos, no entanto, consultados os registros do consistório, achava-se que era exatamente como ele afirmava. Em matéria de doutrina ou história, em suma, daquilo que havia lido outrora, era o mesmo, como bem o sabem quantos o hão ouvido atenciosamente, muito mais aqueles que com ele privaram mais intimamente. Em preparando suas preleções, jamais tinha diante de si senão o simples texto da Escritura e, contudo, vê-se como são coisas caracterizadas pelo apuro e boa forma. Mesmo quando prelecionava sobre Daniel, alguns anos antes de sua morte, embora em certas passagens tivesse muitas histórias a expor, como se vê que ele fez, não tinha nunca nenhum papel diante de si para ajudar-lhe a memória. E não era que houvesse tomado muito tempo para meditar sobre suas preleções, pois que, até mesmo quando o desejava fazer, não dispunha ele do necessário lazer. E, na verdade, o mais freqüentemente não tinha boa hora para preparar-se. Tinha ele, porém, um espírito a tal ponto afortunado, e de tão grande discernimento era dotado, que aprendia de relance o que lia e, de todo, o assimilava muito bem. Depois, a memória a tudo guardava fielmente. Aduzirei, ainda, uma outra evidência de sua admirável memória, que se via todos os dias: se estivesse a ditar e alguém sobreviesse para com ele falar, ou meia-hora, ou uma hora, mais freqüentemente vinha do lugar onde estava para atendê-lo e prolongava a conversa despreocupadamente, sem levar em conta o mister precedente, seja que ditasse cartas, ou comentário, ou outra coisa.[1]



[1] Theodoro de Beza. A vida e a morte de João Calvino. Trad. por Waldir Carvalho Luz. Campinas-SP: LPC, 2006, p. 107,8.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Igreja: Culto ou Missões?

Josivaldo de França Pereira


Uma igreja só pode ser verdadeiramente missionária se for verdadeiramente adoradora e vice-versa.[1] Orlando Costas acerta quando diz que "o culto está intrinsecamente relacionado com a ação de Deus na história e a conversão das nações ao Deus trino e uno".[2]

E ainda:

O culto, em sua dimensão humana, surge da missão. É o resultado espontâneo da experiência da redenção. Do mesmo modo, a missão deve ser vista como um acontecimento cultual, porquanto celebra o que Deus tem feito por homens e mulheres em Jesus Cristo e os chama a receber e compartilhar o dom da graça de Deus.[3]

Um dos maiores males que têm assolado, dividido e enfraquecido a igreja evangélica brasileira em nossos dias são os constantes debates em torno da tarefa prioritária da igreja. E não estamos nos referindo à questão da evangelização e responsabilidade social, outro assunto desnecessariamente polarizado.[4] Ao contrário, estamos falando da dicotomia existente entre culto e missões. E a discussão não é se a igreja deve adorar ou evangelizar (embora às vezes é o que de fato acontece), mas sim, o que deve ser considerado em primeiro lugar.

As opiniões são as mais variadas e extremistas até. De um lado temos os que insistem que "missões são a segunda mais importante atividade no mundo", ou que "missões existem porque o culto não existe". Do outro lado, tem quem afirme ser "um absurdo dizer que muitas são as responsabilidades da igreja. Igreja é missões". Para os defensores da primeira posição, só o fato do culto ser dirigido a Deus e as missões aos homens já definiria, por si só, a questão da prioridade da igreja. Os defensores da segunda posição argumentam, por sua vez, que é preciso mais que adoração. "É preciso ter paixão pelos perdidos e obedecer ao Ide de Jesus". Será que precisamos mesmo priorizar uma tarefa em detrimento da outra, como temos visto na prática? Será que podemos afirmar que culto é mais importante que missões ou vice-versa? Mais uma vez contamos com o argumento equilibrado de Orlando Costas:

Não existe dicotomia alguma entre culto e missão. O culto é a reunião do povo enviado ao mundo para celebrar o que Deus fez em Cristo e está fazendo mediante a participação deles na ação testemunhal do Espírito. A missão é a culminação e antecipação do culto. No culto e na missão a comunidade redimida dá evidência concreta do fato de que é, ao mesmo tempo, um povo de oração e testemunho".[5]

Vemos, então, que o culto deve levar a igreja a fazer missões (cf. At 2.42-47), e missões, por sua vez, devem levar os perdidos a prestarem culto a Deus (cf. At 13.44-49); pois uma adoração que não leva a igreja a evangelizar não passa de mera contemplação, e uma evangelização que não leva os pecadores a adorarem a Deus está fora dos propósitos do próprio Deus. "A liturgia sem missão é como um rio sem manancial, a missão sem culto é como um rio sem mar. Ambos são necessários. Sem um o outro perde sua vitalidade e significado".[6] Culto e missões são tarefas primordiais da igreja. Devem caminhar lado a lado se queremos fazer justiça ao nome de Deus. São tarefas distintas que se completam. Os dois lados, por assim dizer, de uma mesma moeda. Não são fins em si mesmos; são, porém, meios para se chegar ao fim que é o de "glorificarmos a Deus e nos alegrarmos nele para sempre".

É claro que, quanto à duração, missões são temporárias e a adoração é eterna, continuará no céu; mas enquanto estamos neste mundo não temos o direito de priorizar uma tarefa em detrimento da outra. O Deus que exige ser adorado é o mesmo que ordena seu povo a pregar o evangelho a todas as etnias do mundo. E mesmo que a evangelização seja dirigida ao homem, não significa que seja uma invenção humana. Deus é o autor do culto e de missões e requer uma e outra coisa de nós. Por isso, como igreja de Jesus Cristo, não podemos deixar de trabalhar e adorar.

"Alguns trabalham sem se preocupar em adorar a Deus, outros o adoram sem trabalhar, porém, o cristão autêntico tanto adora como trabalha" (Allan H. Ferry).



[1] Segundo Orlando Costas, "a prova de uma vigorosa experiência cultual será a participação dinâmica na missão: a prova de um fiel compromisso missionário será uma profunda experiência de culto" (Orlando E. COSTAS, Compromiso y misión. San José-Costa Rica: Editorial Caribe, 1979, p. 151).

[2] Idem, p. 150.

[3] Ibidem.

[4] Cf. Evangelização e responsabilidade social. 2a ed. São Paulo-Belo Horizonte: ABU Editora/Mundo Cristão, 1985, p. 17-25.

[5] COSTAS, op. cit., p. 150.

[6] Idem, p. 150,151.

sábado, 9 de outubro de 2010

O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA

Josivaldo de França Pereira

A fé e o arrependimento são os dois elementos da conversão. Não há salvação onde a fé esteja desassociada do arrependimento. John Murray escreveu: "A fé, desassociada do arrependimento, de fato não seria a fé que conduz à salvação. (...) a fé sempre existe dentro de um contexto. O arrependimento faz parte integral desse contexto". A fé e o arrependimento são atos simultâneos da conversão, isto é, não existe separação cronológica entre eles. Podemos dizer que o pecador creu em Jesus porque se arrependeu de seus pecados ou, então, que o pecador se arrependeu de seus pecados porque creu em Jesus.

Mas o que é o arrependimento para a vida?

1. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É DOM DE DEUS

E não poderia ser diferente. Se a fé é dom de Deus para a salvação do pecador (cf. At 13.48; Ef 2.8; Fp 1.29; 2Tm 3.2; Tt 1.1), o arrependimento também precisa ser. Porque o arrependimento para a vida, do mesmo modo que a fé, "é uma graça salvadora".

A expressão "arrependimento para a vida" é extraída de Atos 11.18. Após a justificativa de Pedro, por ter pregado o evangelho aos gentios, Lucas registra a atitude dos irmãos da Igreja Primitiva assim: "E, ouvindo eles estas cousas, apaziguaram-se e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para a vida". Note, é dito que o arrependimento para a vida "foi por Deus concedido". E a vida ou vida eterna, que é o objetivo do dom do arrependimento, é aquela qualidade inigualável de vida que só Deus pode dar. "Vida eterna não é simples existência eterna; significa existir com todas as faculdades desenvolvidas em plenitude de alegria. Não é existir como a erva seca, mas sim, como a flor em toda a sua beleza" (C. H. Spurgeon).

O tema do arrependimento para a vida como dom de Deus é abordado por Paulo, direta ou indiretamente, em todas as suas epístolas. Destaquemos dois exemplos. Escrevendo aos coríntios o apóstolo observa: "Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus... Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte" (2Co 7.9,10). Podemos ver na Bíblia casos de "tristeza segundo Deus", como por exemplo, Davi (2Sm 12.13; Sl 51), Pedro (Mc 14.72) e o apóstolo Paulo (At 9.1-22); e casos de "tristeza do mundo", como por exemplo, Esaú (Gn 27.1-40; Hb 12.15-17) e Judas Iscariotes (Mt 27.3-5). A tristeza segundo Deus leva o pecador a Cristo. A tristeza do mundo afasta o pecador de Cristo.

A outra passagem em que Paulo fala do arrependimento como dom de Deus é 2Timóteo 2.25: "Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade". Esse arrependimento para a vida é obra de Deus, no entanto, é também uma exigência de Deus ao pecador, visto que Deus não pode crer e muito menos se arrepender no lugar do pecador. O ser humano é moralmente responsável por seus atos perante o Senhor (cf. Tg 1.13-15).

2. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É MUDANÇA DE MENTE E DO CORAÇÃO

O Breve Catecismo de Westminster declara que "o pecador, tendo um verdadeiro sentimento do seu pecado e percepção da misericórdia de Deus em Cristo, se enche de tristeza e de horror pelos seus pecados". Isso é verdade, principalmente quando compreendemos que todos os nossos atos passam primeiro pela nossa mente e coração. E o que isso significa, em termos práticos? "O que precisamos compreender", diz James Packer, "é que a consciência pesada do homem natural de forma alguma é a mesma coisa que convicção de pecado. (...). Convicção de pecado não é simplesmente sentir-se miserável por causa de si mesmo, de seus próprios fracassos e de sua incapacidade em enfrentar as exigências da vida. (...). Ficar convencido do pecado não é simplesmente sentir que se está em situação embaraçosa, mas perceber que se tem ofendido a Deus, zombando de sua autoridade, desafiando-o, opondo-se a ele, desagradando-o". Mudança de mente e de coração é isso.

Arrependimento que não produz uma profunda convicção de pecado não é arrependimento verdadeiro. Para que haja arrependimento de verdade é necessário que o pecador tenha "um verdadeiro sentimento do seu pecado". Quando foi a última vez que você ouviu uma pregação que levasse o pecador a se encher de tristeza e de horror pelos pecados dele? Por que esse tipo de pregação não é comum nas rádios e TV? Reflita sobre isso enquanto prosseguimos. Não pregar contra o pecado tem sido uma prática comum em nossos dias. O que é lamentável. Quando lemos as pregações do Novo Testamento verificamos que a chamada de pecadores ao arrependimento era o tema central.

Em seu livro O Evangelho Segundo Jesus, John MacArthur faz uma observação interessante: "O evangelho segundo Jesus é, antes de tudo, uma ordem ao arrependimento. (...). Desde o início do ministério de Jesus, o centro da sua mensagem foi a chamada ao arrependimento. De fato, quando o Senhor começou a pregar, a primeira palavra de sua mensagem foi ‘arrependei-vos’ (Mt 4.17). Esta foi também a primeira palavra da pregação de João Batista (Mt 3.2), e foi a própria base do evangelho pregado pelos apóstolos (At 3.19; 20.21; 26.20)". E ele conclui: "Qualquer que negligenciar a chamada dos pecadores ao arrependimento não estará pregando o evangelho segundo Jesus".

3. O ARREPENDIMENTO PARA A VIDA É MUDANÇA DE ATITUDE

Quando um pecador abandona seus pecados, ele se volta para Deus, inteiramente resolvido a prestar-lhe nova obediência. Jesus disse que é pelos frutos que se conhece a árvore (Mt 12.33). Isto é, a conduta de uma pessoa determina o que passa em sua mente e em seu coração. A mudança de comportamento do pecador para obedecer a Deus comprova que realmente houve uma transformação em seu ser. "É importantíssimo observar essa significação", diz Murray. "Pois o arrependimento consiste de uma radical transformação de pensamento, atitude e direção".

Paulo tinha esta "mudança de atitude" em mente quando descreveu a nova vida dos tessalonicenses. "Deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro" (1Ts 1.9). Veja os três elementos do arrependimento: voltar-se para Deus; abandonar o erro; propor-se a servir a Deus. É importante destacar que na língua grega os verbos "deixar", "converter" e "servir" de 1Tessalonicenses 1.9 estão no tempo aoristo. E o que isso significa? Significa que o que aconteceu na vida dos tessalonicenses foi um ato completo, acabado e definitivo, iniciado pelo próprio Deus.

Como mudança de atitude o arrependimento para a vida é "um redirecionamento da vontade humana, uma decisão propositada de abandonar toda injustiça e em seu lugar buscar a retidão" (MacArthur). A Bíblia diz: "O que encobre as suas transgressões, jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia" (Pv 28.13). A sua mente, o seu coração e as suas atitudes comprovam que você é verdadeiramente convertido? Poderia relacionar alguns pontos que confirmam o seu arrependimento para a vida?

Que Deus o abençoe e ajude a você e a mim.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Impureza no Banco dos Réus

Josivaldo de França Pereira


Sexo é uma bênção de Deus quando praticado dentro do casamento. Fora dele é fornicação, prostituição, adultério, homossexualismo, etc. O sexo, quando deturpado, torna-se objeto da justa e santa ira de Deus.

Quando olhamos para as páginas do Antigo Testamento, verificamos que os dois grandes juízos de Deus contra a humanidade foram motivados por aquela espécie de pecado conhecida como impureza ou perversão sexual. Na época do dilúvio “Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). Não muito tempo depois do Dilúvio Deus destruiu Sodoma e Gomorra porque os homens dessas cidades “eram maus e grandes pecadores contra o SENHOR” (Gn 13.13). “Disse mais o SENHOR: Com efeito, o clamor de Sodoma e Gomorra tem-se multiplicado, e o seu pecado se tem agravado muito” (Gn 18.20). Ló recebeu dois anjos em sua casa: “Mas, antes que se deitassem, os homens daquela cidade cercaram a casa, os homens de Sodoma, assim os moços como os velhos, sim, todo o povo de todos os lados; e chamaram por Ló e lhe disseram: Onde estão os homens que, à noitinha, entraram em tua casa? Traze-os fora a nós para que abusemos deles” (Gn 19.4,5).

O Breve Catecismo de Westminster ensina que Deus “... proíbe todos os pensamentos, palavras e ações impuros”. [1] O Catecismo de Heidelberg complementa dizendo que Deus “... proíbe toda impureza em nossas ações, nossos gestos, nossas palavras, nossos pensamentos e desejos, e tudo que incita o ser humano a isso”.[2]

A licenciosidade humana certamente será uma das grandes motivadoras do Juízo Final. O dia da grande ira e do furor do nosso Deus contra tudo aquilo que vai de encontro a sua santidade e pureza. O Novo Testamento declara: “Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas ... herdarão o reino de Deus” (1Co 6.9,10). E ainda: “Ora, os céus que agora existem e a terra, pela mesma palavra, têm sido entesourados para fogo, estando reservados para o Dia do Juízo e destruição dos homens ímpios” (2Pe 3.7). E mais: “como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição” (Jd 7). Veja também Romanos 1.18-27; Hebreus 13.4; 2Pedro 2.5-10; Apocalipse 21.8.

Não se sabe o dia e nem a hora que Cristo há de voltar, contudo, sua vinda é certa e tudo aquilo que é bom, perfeito e agradável ao Senhor, por fim, triunfará para a honra e glória de Deus Pai.



[1] O Breve Catecismo de Westminster, Resposta 72.

[2] El Catecismo de Heidelberg, Resposta 109.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Moralidade, o Preconceito e o Jeitinho Brasileiro

Josivaldo de França Pereira

Eis aí duas palavras que desfrutam de não pouca confusão nestes últimos tempos: Moralidade e preconceito. Embora sejam vocábulos com significados completamente distintos (veja no dicionário), na prática parecem significar muitas vezes a mesma coisa. O preconceito é um comportamento condenável tanto pela Bíblia quanto pela sociedade. Até aí tudo bem. O problema é que nem sempre a sociedade consegue enxergar a diferença entre moralidade e preconceito.

O que se ouve dizer a respeito dos pastores e do povo evangélico em geral, por serem contrários ao homossexualismo e ao comportamento nada convencional de alguns artistas "cristãos", é que os pastores e as igrejas evangélicas são preconceituosos.

Existe uma confusão. Que devemos amar o pecador é inquestionável, mas nada justifica a aceitação de tais práticas. É certo que não devemos atirar a primeira pedra; contudo, o mesmo Senhor e Mestre que sabiamente nos ensinou assim, também disse àquela pecadora: "Vai e não peques mais".

A graça divina é um favor imerecido do Senhor para conosco. Contudo, a maravilhosa graça de Deus é antes de tudo graça transformadora. Escrevendo aos Romanos Paulo tratou dessa questão assim: "Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?" (Rm 6.1,2). E aos Coríntios: "E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas" (2Co 5.17). Apenas para citarmos alguns exemplos.

Não podemos e não devemos amolecer com o pecado. Temos que odiá-lo. Quer seja o pecado que habita em nós ou aquele que está no mundo. O pecado não deve ser visto com bons olhos ou acariciado como se fosse simplesmente a coisa mais natural do mundo. O jeitinho brasileiro que há muito vem sendo combatido pela mídia e pela sociedade não pode, agora, fazer parte da vida do povo evangélico brasileiro. Não é possível fazer coro com supostos “evangélicos”, dizendo simplesmente "não é bem assim". O pecado pode mudar de nome, mas para Deus toda e qualquer transgressão de sua lei sempre será pecado (1Jo 3.4; cf. Tg 2.10). Deus é conservador. Ele jamais mudará a sua Palavra para satisfazer os desejos perversos de nosso coração.

Aquele que verdadeiramente aceitou a Jesus como Senhor e Salvador de sua vida chora seu próprio pecado, o pecado da igreja e do mundo. Meu maior consolo é saber que existe no povo de Jesus uma sabedoria que vem do alto. Pouco valerá surgirem pensadores com esta ou aquela receita mirabolante para a igreja, dizendo isso ou aquilo para o povo de Deus fazer ou mudar. A igreja sempre será devidamente orientada pelo Espírito Santo para distinguir o certo do errado.

“Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.9-11).

Preconceito ou Moralidade?

Josivaldo de França Pereira

Ser contrário ao homossexualismo é ser preconceituoso ou é uma questão de dignidade moral? Antes de qualquer declaração sobre esse assunto, talvez seja importante uma definição de termos, ainda que breve.

Homossexualismo é a atração e/ou prática sexual entre pessoas do mesmo sexo. Quando ocorre entre indivíduos do sexo feminino recebe também o nome de lesbianismo.

Preconceito é o juízo, conceito ou opinião formados antecipadamente, sem fundamento ou maior reflexão, ponderação ou conhecimento dos fatos; ideia preconcebida; intolerância com relação a raças, credos, minorias etc.

Moralidade é a qualidade ou caráter do que é moral; conformidade com os preceitos da moral sã; conduta moral. Moral é, por sua vez, o conjunto de regras de conduta ou hábitos julgados válidos para um grupo ou pessoa determinada.

A sociedade geralmente confunde os termos “preconceito” e “moralidade”, tratando-os como se fossem sinônimos. Isso não é de se estranhar, pois de acordo com a Bíblia, a sociedade caminha na contramão da vontade de Deus (1Jo 5.19).

A Bíblia é implacável com o pecado e, portanto, ela não poderia ser diferente com o homossexualismo (Lv 18.22; Rm 1.26,27; 1Co 6.9). Dizer não à atração e/ou prática sexual entre pessoas do mesmo sexo não é preconceito de modo algum, visto que o homossexualismo é uma perversão sexual e um desvio de conduta moral. No entanto, é preciso entender que o homossexual, como pessoa, não pode ser objeto de preconceito; quer direta ou indiretamente; seja por parte de grupos radicais como skinheads e neonazistas com seu preconceito violento e assassino; seja por parte da própria igreja com seu preconceito velado e hipócrita.

O homossexual deve ser respeitado como ser humano que é; portanto, não pode ser discriminado por sua opção sexual. Do modo como Deus odeia o pecado, mas pode amar o pecador, devemos agir assim também.

A igreja evangélica precisa orientar o homossexual à luz da Palavra, com amor cristão e sincero, a fim de que ele abandone a prática do pecado e viva a santificação que Deus requer de todos nós (Hb 12.14).

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Verdadeira Adoração

Josivaldo de França Pereira
Jesus declarou à mulher samaritana: “Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (Jo 4.22,23). Hoje, quase dois mil anos após aquela declaração, Deus continua buscando adoradores que o adorem em espírito e em verdade. E quem são esses adoradores? Nosso Senhor deixou claro que Deus não vive numa busca desenfreada e desesperada por qualquer adorador. Ele não quer ser adorado por qualquer “tipo” de pessoa, por assim dizer, e muito menos de qualquer maneira. Ele é e sempre será adorado de verdade por aqueles que verdadeiramente lhe pertencem. O verbo grego zetéo (procurar, buscar) de João 4.23 sugere exatamente isso. O Pai busca seus eleitos com o intuito de torná-los seus adoradores.
Lembremos da história do profeta Elias e de seu lamento. Por duas vezes Elias se queixou a Deus: “Tenho sido zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida” (1Rs 19.10,14). A situação política, social e religiosa de Israel estava um caos nos tempos de Elias. O profeta se encontrava desanimado e abatido. Venceu triunfalmente os profetas de Baal, mas agora estava assustado com as ameaças da terrível rainha Jezabel. Elias sentia-se só e como único adorador do verdadeiro Deus na face da terra.
A resposta de Deus ao profeta foi: “Conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda boca que não o beijou” (1Rs 19.18). Mais tarde o apóstolo Paulo citaria esse episódio para falar do futuro de Israel: “Pergunto, pois: terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo? De modo nenhum! Porque eu também sou israelita da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o seu povo, a quem de antemão conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura refere a respeito de Elias, como insta perante Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas, arrasaram os teus altares, e só eu fiquei, e procuram tirar-me a vida. Que lhe disse, porém, a resposta divina? Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora, no tempo de hoje, sobrevive um remanescente segundo a eleição da graça. E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Rm 11.1-6). No texto grego o verbo “reservei” utilizado por Paulo está no aoristo, significando que o Senhor escolheu e conhece definitiva e profundamente seus adoradores. É importante e fundamental conhecer a Deus para que ele seja verdadeiramente adorado (cf. Jr 9.23,24; Os 6.3,6; Jo 17.3; 1Jo 2.4; 3.6), porém, mais importante do que conhecer a Deus é ser conhecido por Deus (cf. Ex 33.17; Jr 1.5; Jo 10.14,27; Rm 8.29; Gl 4.9; 2Tm 2.19).
“Conhecer a Deus é mais do que saber sobre ele; é entrar em contato com ele enquanto se revela a você e ser dirigido por ele à medida que toma conhecimento de você.”[1]                            


[1] J. I. Packer, O conhecimento de Deus. 2a ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p. 31.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A ESCOLA DOMINICAL E A RESPONSABILIDADE DA IGREJA TODA

Josivaldo de França Pereira

Assumir responsabilidades não é uma tarefa que todos desejam, não é mesmo? Transferir a responsabilidade individual para outro ou outros é a coisa mais fácil de fazer, porém, nem sempre é a melhor saída ou a decisão mais inteligente. Você, eu, ou seja, cada um de nós é responsável pela boa ou má qualidade de nossa escola bíblica dominical. Se cada um fizer a sua parte como bom aluno, bom professor, bons pais, bom superintendente e bom pastor, a igreja toda sai beneficiada. Para isso, é necessário que a escola dominical seja encarada por toda igreja como uma responsabilidade da igreja toda.

A igreja é o corpo místico de Cristo, formado por diversos membros que precisam interagir mutuamente. Quando alguma coisa não vai bem na igreja é preciso união, espírito de equipe e determinação para se obter a solução do problema, a fim de que juntos possam, também, desfrutar a conquista dessa solução. Paulo diz aos coríntios que se apenas um membro do corpo sofre, todo corpo padece com ele; semelhantemente, se um deles é honrado, todo corpo se alegra (cf. 1Co 12.26). Quer dizer, de acordo com o ensino bíblico, o que é do interesse de um, deve ser do interesse de todos e vice-versa. Não deve haver divisão no corpo, “pelo contrário, cooperem os membros com igual cuidado em favor uns dos outros” (1Co 12.25). Do mesmo modo, não se pode ter uma boa escola dominical se ela não for para todos e do interesse de todos. É importante ponderarmos nisso para que a escola dominical caminhe bem, isto é, com resultados que possam ser vistos muito além das manhãs de domingo.

De que maneira a escola dominical ajuda a igreja? Justamente quando todos participam do processo de ensino-aprendizagem. Sherron George diz acertadamente: “O ministério de ensino envolve a igreja toda. Não são apenas alguns membros da igreja que participam do processo educativo, mas a igreja toda. Todos ensinam de uma forma ou de outra, e todos aprendem.”[1]

Escrevendo aos efésios, Paulo diz: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.15,16). Observe que Paulo ensina que o crescimento e cooperação de cada junta, ou cada membro, promove a edificação de “todo o corpo”. O verbo “cresçamos” sugere crescimento corpóreo.[2] Seguindo a verdade em amor o povo de Deus cresce, amadurece e se fortalece mutuamente para a glória de Deus. E para todas essas coisas a escola dominical irá, com certeza, ajudar bastante a igreja.

A escola bíblica dominical é uma bênção de Deus e uma responsabilidade nossa. A saúde de uma igreja depende muito do valor e da importância que ela dá à escola dominical. Quando a igreja toda assume a responsabilidade de fazer uma escola dominical cada vez melhor, quem sai ganhando é a própria igreja.

Vale a pena investir na escola bíblica dominical!



[1] Sherron K. George, Igreja ensinadora: Fundamentos bíblico-teológicos e pedagógicos da educação cristã. Campinas: LPC, 1993, p. 19. (Itálico da autora).

[2] Ibidem.

domingo, 3 de outubro de 2010

O Domínio do Ser Humano sobre a Criação

Josivaldo de França Pereira


A imagem de Deus imputada na pessoa, a de “reinar” ou “dominar”, que é constatada em Gênesis 1.26, é elaborada logo depois nos versículos 27 e 28. O versículo 27 esclarece que esta tarefa pertence ao homem e à mulher. Somente os dois juntos realizam a primeira ordenança de Deus, e nenhum dos dois separadamente é capaz de realizá-la de maneira completa (cf. Gn 2.18). Juntos, homem e mulher, tornam-se o mais completo reflexo da imagem de Deus. Deus criou o homem macho e fêmea e lhes chamou pelo nome de "Adão" (Gn 5.1,2).[1]

Como o versículo 27 esclarece quanto aos sujeitos da imagem de Deus no ser humano, o versículo 28 o faz quanto ao conteúdo da função dada de “dominar” a criação. Elabora a imagem de Deus no ser humano em três áreas de responsabilidade e administração: a sua experiência social e familiar (“multiplicar”, “encher”, “dar nome”); a sua responsabilidade econômica e ecológica (“sujeitar”, “cultivar”, “guardar”) e o governo (“dominar”, “dar nome”). Estes mandamentos (Gn 1.28; 2.15,18-25) marcaram o início de uma série de obrigações: o mandato para a família e a comunidade, a lei e a ordem, a cultura e a civilização que se alarga e se aprofunda ao longo do desdobramento da revelação divina. Deste modo, Deus chama a humanidade para o papel de vice-regente sobre o mundo. Todos devem participar responsavelmente dessa tarefa.[2]

Dietrich Bonhoeffer, seguindo a perspectiva da teologia luterana, distingue entre quatro mandatos ou instituições nesta tarefa: trabalho, casamento, governo e igreja. Abraham Kuyper, seguindo a perspectiva da teologia reformada, resume estes mandatos em dois: o cultural (para a humanidade toda) e o redentor (para a humanidade redimida). O mandato cultural chama toda a humanidade na ordenança e na administração da criação, isto é, na obra da civilização e da cultura. O mandato redentor, que começa a surgir a partir de Gênesis 12 e que se torna explícito com a vinda de Jesus, chama o povo redimido de Deus a participar com ele na missão da redenção. São dois mandatos: um horizontal e outro vertical.[3]

Porque o ser humano porta a imagem de Deus, sua função é dominar a terra e se submeter a Deus. Quando alguém manifesta esta característica original de sujeitar a terra e dominar sobre as suas estruturas, como tarefa comum e universal, a sua natureza especial se torna visivelmente efetiva e ele se manifesta o constituinte responsável do Senhor cósmico e divino. Como senhor sobre o restante da criação e vice-regente com Deus, a pessoa encontra a sua própria dignidade na sua sujeição a Deus. Ela é criatura e depende de Deus e somente no seu relacionamento com Deus ela encontra a sua verdadeira humanidade.[4]

Apesar da queda, o mandato cultural não foi anulado. Embora o labor humano tenha adquirido uma dimensão dolorosa pela disciplina divina (Gn 3.17-19), deve continuar a exercer seu domínio na criação. Lamentavelmente, por causa do pecado o ser humano tem exercido seu domínio na criação de maneira incorreta. Por estar caído ele explora as coisas criadas como se elas fossem nada em si próprias, e como se ele tivesse um direito autônomo sobre elas. Certamente, cristãos que regressaram, por intermédio da obra do Senhor Jesus Cristo, à comunhão com Deus, deveriam demonstrar um uso apropriado da natureza. Nós devemos ter domínio sobre ela, mas nós não vamos usá-la de forma semelhante ao caído que ainda necessita da redenção. Enquanto a pessoa caída tem domínio sobre a natureza, mas usa-o incorretamente, o cristão é chamado a mostrar este domínio, porém, fazendo isto de forma correta: tratando a criação como tendo valor em si mesma, exercendo domínio sem ser destrutivo.[5]

De acordo com Francis Schaeffer, a "Igreja deveria ter ensinado e praticado isto sempre, mas geralmente tem falhado, e nós precisamos confessar nosso fracasso".[6] Diz ele ainda que "quando a Igreja coloca suas crenças na prática em relação ao homem e a natureza, existe cura substancial. Um dos primeiros frutos dessa cura é uma nova percepção de beleza".[7] "Nós (cristãos) deveríamos tratar a natureza com um respeito gigantesco".[8]

Além disso, Schaeffer comenta:

O homem está separado, como pessoa, da natureza porque ele é feito à imagem de Deus. Quer dizer, ele tem personalidade, e como tal ele é único na criação; mas ele está unido a todas as outras criaturas como ser criado. O homem está separado de todas as outras coisas, mas isso não significa que não há também uma relação para baixo correta do ponto de vista de o homem ser criado e finito.[9]

Leonardo Boff, do mesmo modo, entende que a relação do homem com a natureza deve ser de coexistência, isto é, "não é de domínio sobre, mas de convivência. Não é pura intervenção, mas interação e comunhão".[10] E ainda: “O ser humano precisa sentir-se natureza. Quanto mais mergulha nela, mais sente quando deve mudar e quando deve conservar em sua vida e em suas relações”.[11] Não temos o direito de destruir uma árvore, maltratar um animal ou matar um pássaro, simplesmente porque achamos que podemos fazê-lo. Deus nunca desejou que o ser humano perdesse de vista a perspectiva do verdadeiro conceito de “domínio” e “sujeição”, resultando na exploração desordenada e destrutiva do que ele criou (cf. Hc 2.17).[12]



[1] A palavra hebraica 'ãdam pode ser usada como nome próprio (Adão, cf. Gn 5.1), como "homem" (gênero masculino, cf. Gn 2.7), como "homem" no sentido genérico de ser humano (masculino e/ou feminino, cf. Gn 1.26,27), ou ainda como "homem" para se referir à raça humana (cf. Gn 6.5).

[2] Cf. Timóteo CARRIKER. Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Sepal, 1992, p. 23,24.

[3]Idem, p.24. Outros eruditos reformados, como Gerard Van Groningen, destacam três mandatos: o mandato espiritual, o mandato social e o mandato cultural (Cf. Criação e Consumação. Vol. I. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 90,91).

[4] Idem, p. 29,30.

[5] Cf. SCHAEFFER. Poluição e a Morte do Homem. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49,50.

[6] Idem, p. 50.

[7] Ibidem.

[8] Idem, p. 51.

[9] Idem, p. 37.

[10] Leonardo BOFF. Saber Cuidar: Ética do humano - compaixão pela terra. 8a ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, p. 95.

[11] Idem, p. 116.

[12] Para um entendimento mais amplo do que foi tratado aqui, veja meu artigo A globalização como desafio para a missão da Igreja. In: Missão Integral Transformadora. Londrina: Editora Descoberta, 2005, p. 93-112.