segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Apocalipse 3.20

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, comigo”.

Josivaldo de França Pereira

Há tempos ouço dizer que o texto de Apocalipse 3.20 trata de oração. Conquanto a oração seja indispensável na vida da igreja em geral, e de seus membros em particular, de fato não é sobre oração que Apocalipse 3.20 está tratando. O que leva alguns acharem que o texto fala de oração? Seria uma comparação às avessas de Mateus 7.7, “... batei, e abrir-se-vos-á”? Contudo, em Apocalipse 3.20 é Jesus quem bate à porta. Tem quem diga, ainda, que é Jesus quem abre a porta, supondo que ele esteja do lado de dentro. Grande equívoco! Quem bate à porta está do lado de fora e quem abre, evidentemente, está do lado de dentro. Por fim, mas não menos significativo, há quem diga também que Apocalipse 3.20 é só para quem já é crente. Será?
O texto de Apocalipse 3.20 refere-se tanto à igreja e seus membros – que por se afastarem da doutrina e prática do evangelho deixam Jesus do lado de fora de suas vidas e adoração porque estão mornos – como também aos frios pecadores que necessitam de evangelização. “Se os laodicenses nunca tivessem ouvido o evangelho, teriam sido frios no sentido espiritual”.[1] Kistemaker diz ainda: “Cristo não nutre nenhum interesse por um Cristianismo morno, porquanto é de nenhum valor. Ele prefere trabalhar ou com pessoas que são inflamadas com energia para cumprir sua ordem, ou com aquelas que nunca receberam informação acerca da mensagem de salvação e se dispõem a ouvir”.[2]
A natureza da ênfase de Apocalipse 3.20 não é aquela de Filipenses 2.13: “porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”. Mas sim, a de Filipenses 2.12: “... desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor”. Dito de outra maneira: “A ênfase é posta na responsabilidade de ir à porta e atender a quem está procurando acesso. O Senhor abriu o coração de Lídia (At 16.14); aqui, porém, ele aguarda a ação do proprietário”.[3] A soberania de Deus não anula a responsabilidade humana. 
Apocalipse 3.20 deve ser lido à luz do seu contexto amplo (Ap 3.14-22) e em especial com o verso 19: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te”. Note que a repreensão e disciplina de Jesus vão juntas em sua relação renovadora e amorosa. Além disso, “Enquanto ser zeloso é um mandamento no tempo presente para denotar continuidade, o imperativo ‘arrepende-te’ é uma ação definitiva. Equivale a dizer que os laodicenses devem fazer um giro de 180 graus, esquecendo o passado e adotando solicitamente sua nova vida em Cristo”.[4]
Ainda hoje o Senhor Jesus está junto à porta do coração de muitos, batendo reiteradamente, esperando da parte deles uma resposta.[5] O apelo ao arrependimento é amplo e inclusivo, conforme sugere o termo alguém. Entretanto, “Jesus não só está em pé junto à porta do coração de um pecador e bate reiteradamente, mas também fala e apela a ele ou a ela para que se arrependa”.[6] O convite de Jesus é para um relacionamento de confiança, intimidade e comunhão.[7]


[1] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 226.
[2] Idem, p. 227.
[3] Idem, p. 233,34. Veja também William Hendriksen, Mais Que Vencedores: interpretação do livro de Apocalipse. São Paulo: CEP, 1987, p. 101. Para um excelente estudo sobre a soberania divina e a responsabilidade humana, consulte J. I. Packer, Evangelização e Soberania de Deus. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 16-27.
[4] Kistemaker, p. 233.
[5] Para um interessante comentário do verbo “bater” de Apocalipse 3.20, veja R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado versículo Por versículo. Vol. 6. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 435.
[6] Kistemaker, p. 234.
[7] Cf. Charles R. Erdman, Apocalipse. São Paulo: CEP, S/d, p. 51; George Ladd, Apocalipse: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 53.

A soberania de Deus e a responsabilidade humana: Considerações gerais

Josivaldo de França Pereira

“A soberania de Deus” e “a responsabilidade humana” são duas verdades bíblicas com as quais não temos dificuldade alguma quando são estudadas separadamente. O problema surge quando unimos essas duas doutrinas. Contudo, diga-se de passagem: o problema não está na junção delas, mas em nossa mente limitada e falível.
Quando o príncipe dos pregadores, Charles Spurgeon, foi indagado sobre como ele reconciliava a soberania de Deus e a responsabilidade humana, sua resposta foi taxativa e categórica: “Nunca reconcilio amigos”. Na mente de Deus não existe nada de errado com essas doutrinas. Elas estão harmoniosamente interligadas. Já na nossa mente podem parecer confusas e caóticas. Sendo assim, por que devemos estudar algo que parece estar além de nossa compreensão? Simplesmente porque as doutrinas da soberania de Deus e responsabilidade humana não são irracionais. Até onde podem ser estudadas é preciso fazê-lo porque Deus quer nos abençoar através delas. Além disso, aceitar essas doutrinas é um ato de fé e obediência à Palavra de Deus. Guardá-las no coração proporciona equilíbrio espiritual e maturidade bíblica. Enfatizar a soberania de Deus em detrimento da responsabilidade humana é hiper-calvinismo. Enfatizar a responsabilidade humana em detrimento da soberania de Deus é arminianismo. Ou seja, é criar inimizade entre amigos; separação entre quem vive em perfeita paz e harmonia.
Por mais difícil que seja a compreensão dessas doutrinas, o calvinismo bíblico as aceita e as defende porque a Bíblia as ensina em pé de igualdade. “A soberania de Deus e a responsabilidade humana são verdades ensinadas lado a lado na mesma Bíblia; algumas vezes, de fato, no mesmo texto” (J. I. Packer). Por exemplo, em Lucas 22.22 está escrito: “Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!” (cf. At 2.23). Uma pessoa distraída (ou má intencionada) poderia perguntar: “Se o que aconteceu com Jesus foi determinado por Deus, então, que culpa teve Judas Iscariotes?”. A verdade é que a soberania de Deus não anula a responsabilidade do ser humano. Somos seres morais responsáveis por nossas atitudes. Por isso Jesus pregou: “... arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15).

sábado, 13 de novembro de 2010

O DEUS VIVO

Josivaldo de França Pereira


Deus é o único ser que tem vida em si mesmo (Jo 5.26). Sendo, portanto, o único que não tem causa fora de si, Deus é frequentemente revelado tanto no Antigo quanto no Novo Testamento como "o Deus vivo" (Dt 5.26; Js 3.10; Sl 84.2; Jr 10.10; Mt 26.63; Jo 6.69; Rm 9.26). "Tão certo como vive o Senhor" era uma fórmula comum para se fazer um juramento que caracterizava Deus como o ser cuja natureza é dinâmica, em contraste com os ídolos que são mudos e não podem se mover (Sl 115.5,7; Is 40.20; 44.9-20; Hc 2.18) e nem (se) salvar (Is 45.20). Por ser vivo, Deus "a todos dá vida, respiração e tudo mais" (At 17.25). "Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos..." (At 17.28; cf. Gn 2.7). Toda vida, seja qual for sua expressão, consequentemente tem nele a sua origem. Desse modo, somente Deus pode tirar a vida segundo a sua vontade (Dt 30.19; 2 Rs 5.7; Jó 34.14,15).

No Novo Testamento, a verdadeira vida que está em Deus é compartilhada com o Filho. A declaração de Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo", implica em uma confissão de que o Deus vivo agora está revelado em Jesus, e que este, por sua vez, é o doador da vida eterna àqueles que nele crêem (Jo 3.16). Em João 6.57 Jesus declarou que "o Pai, que vive" o enviara e que ele vivia pelo Pai. Isso foi perfeitamente demonstrado durante o seu ministério terreno. Considerou a vida como algo sagrado que Deus confiou ao ser humano e ele mesmo, Jesus, viveu consciente desse fato; por isso nos ensinou a repudiar "a ansiosa solicitude pela vida" (Mt 6.25-34), visto que até mesmo as formas mais simples de existência são alvos do amor do Pai (Mt 10.31; Lc 12.24). A vida verdadeira não consiste somente do alimento físico, mas em obedecer a palavra de Deus (Mt 4.4; Mc 3.5; Lc 6.46). Procurar colocar em segurança a própria vida, negligenciando de modo egoísta suas dimensões espirituais, é acabar perdendo-a; ao passo que perdê-la por amor a Cristo é salvá-la (Mt 10.39; 16.25).

Que Deus nos ajude a viver na certeza de que ele é a razão de nossa existência!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

"A favor dos vivos se consultarão os mortos?"

Josivaldo de França Pereira


Se não existisse na Bíblia nenhum outro texto que condenasse cabalmente o espiritismo, Isaías 8.19 já seria suficiente: “Quando vos disserem: Consultai os necromantes e adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?”. Duas perguntas retóricas que esperam de seus ouvintes um enfático “Sim” e “Não”, respectivamente.

Embora o termo tenha sido criado somente no século XIX, o espiritismo não é uma doutrina nova. Na Bíblia os seguidores e praticantes do espiritismo eram conhecidos especialmente como necromantes – de necromancia (do grego nekrós = morto + mancía = adivinhação; consulta) – aqueles que se comunicam com os mortos para fins de adivinhação ou consultas. Durante a peregrinação dos filhos de Israel no deserto, várias vezes Deus os advertiu a não seguirem as mesmas práticas espíritas dos povos que habitavam a terra de Canaã (Lv 19.31; 20.6,27; Dt 18.10-14), mas tal advertência não foi obedecida nem mesmo por alguns reis. Manassés, nos tempos de sua perversidade, praticou intensamente a necromancia (2Rs 21.6; 2Cr 33.6). Contudo, o exemplo clássico de espiritismo no Antigo Testamento é o de Saul, o primeiro rei de Israel.

Numa tentativa de ser fiel a Deus, o rei Saul desterrou os médiuns e adivinhos de Israel (1Sm 28.3,9), porém, quando se viu acossado pelos filisteus, procurou precipitada e desesperadamente por uma necromante, depois que o Senhor deixou de falar com ele. As constantes desobediências de Saul e sua falta de arrependimento tornaram impossível sua comunicação com Deus (1Sm 13.8-14; 15.1-31; 28.4-6). “Então, disse Saul aos seus servos: Apontai-me uma mulher que seja médium, para que me encontre com ela e a consulte. Disseram-lhe os seus servos: Há uma mulher em En-Dor que é médium. Saul disfarçou-se, vestiu outras roupas e se foi, e com ele, dois homens, e, de noite, chegaram à mulher; e lhe disse: Peço-te que me adivinhes pela necromancia e me faças subir aquele que eu disser” (1Sm 28.7,8). O intento de Saul era falar com Samuel, mesmo após a morte deste, acerca do que ele (Saul) deveria fazer em relação aos filisteus (1Sm 28.15). Mas o rei acabou pagando caro por isso. A Bíblia relata: “Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR, que, por isso, o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé” (1Cr 10.13,14).

No Brasil, o espiritismo tem-se proliferado de forma vertiginosa. O longa “Chico Xavier – O filme” foi assistido, em apenas três semanas de exibição, por mais de 2 milhões de pessoas nos cinemas brasileiros. É a maior bilheteria do cinema nacional nos três primeiros dias, desde 1995.[1] Em Caxias do Sul, uma das cidades do estado mais espírita do Brasil (o Rio Grande do Sul), o filme foi visto por mais de 500 mil pessoas em um só fim de semana. Detalhe: Segundo dados do IBGE/2010, Caxias do Sul tem 427 mil habitantes.

Um dos meios de necromancia mais famosos no mundo é a Tábua Ouija, também conhecida como “brincadeira do copo” ou “telégrafo dos mortos”. Convém ressaltar que, à luz da Bíblia, após a morte o ser humano perde todo contato com este mundo, seja para bem, seja para mal. A favor dos vivos se consultarão os mortos? É claro que não! (cf. Ec 9.5,6; Lc 16.19-31; Hb 9.27).[2]



[1] O primeiro dia de exibição de “Chico Xavier – O filme” foi em 02/04/2010, data em que o médium completaria 100 anos de idade.

[2] Quanto à interpretação de 1Samuel 28.11-20, consulte Joyce G. Baldwin, I e II Samuel: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 179-183.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dois amores

“... amai, pois, a verdade e a paz” (Zc 8.19)

Josivaldo de França Pereira


Uma das principais tarefas do profeta Zacarias (c. 520 a. C.) foi exortar os remanescentes que retornaram do cativeiro babilônico ao arrependimento e obediência a Deus, que lhe dera a incumbência de reconstruir o templo de Jerusalém e iniciar o culto segundo os preceitos da lei de Moisés. Quando foi trazida a Zacarias a questão do pranto e jejum, se era necessário continuar a prantear e jejuar por Jerusalém – agora que o povo retornara do cativeiro (Zc 7.1-3) – após as exortações do Senhor (Zc 7.4-14) a promessa foi que os dias de jejum se tornariam acontecimentos alegres e dias de festas. Contudo, tal prática não deveria ser separada de um elevado padrão ético de vida: o amor pela verdade e pela paz (Zc 8.19).

  1. “... amai, pois...”

“Amar” na Bíblia é muito mais que sentimento. É, na verdade, um mandamento, semelhante àquele proferido pelo Senhor Jesus: “O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”. “Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15.12,17). No texto de Zacarias 8.19, em especial, amar também é um imperativo, uma ordem de Deus para o seu povo. Conquanto “amar” seja um verbo intransitivo, isto é, um verbo que tem sentido completo e, por definição, não precisaria de complemento para ser compreendido, o texto bíblico sempre prefere indicar uma direção quando trata do verbo amar. Em Zacarias 8.19, o termo amar não somente aponta para os substantivos “verdade” e “paz”, como também é enfatizado pela conjunção “pois”. O que Martin Lloyd-Jones diz sobre a palavra “pois” em sua exposição de Efésios 4.1, pode ser facilmente aplicável em Zacarias 8.19: “Pois é uma palavra que, de maneira muito prática, diz-nos como ler as Escrituras”.[1] Pois significa “à luz disso, por causa disso, segue-se”.[2] Mostra-nos claramente a conexão entre fé e prática. É por isso que a expressão “amai, pois...” de Zacarias 8.19 aponta, conforme já mencionamos acima, para um elevado padrão ético de vida: o amor pela verdade e pela paz, ou seja, para os dois amores que deveriam nortear a vida e a conduta do povo de Deus.

  1. “... amai, pois, a verdade...”

“Verdade” aqui é o oposto da mentira, ou mais precisamente, de uma vida conduzida pela prática da mentira. A vida religiosa de Judá era uma mentira contra Deus (7.4-6) que, imediatamente, precisava ser modificada. Daí as exortações do Senhor ao povo por intermédio do profeta: “A palavra do SENHOR veio a Zacarias, dizendo: Assim falara o SENHOR dos Exércitos: executai juízo verdadeiro, mostrai bondade e misericórdia, cada um a seu irmão; não oprimas a viúva, nem o órfão, nem o estrangeiro, nem o pobre, nem intente cada um, em seu coração, o mal contra o seu próximo” (Zc 7.8-10). O jejum não glorificava a Deus, cada um visava seus próprios interesses. O templo estava abandonado e a adoração falsificada. Deus disse: “Eis as cousas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas, segundo a verdade, em favor da paz; nenhum de vós pense mal no seu coração contra o seu próximo, nem ame o juramento falso, porque a todas estas cousas eu aborreço, diz o SENHOR” (Zc 8.16,17). Amar a verdade não significa apenas amor ao próximo, mas principalmente amor a Deus. A “verdade” em Zacarias 8.19 aponta ainda para o Messias, a personificação da verdade (Jo 14.6). Há várias referências ao Messias no livro de Zacarias (Zc 3.8,9; 6.12,13; 9.9,10; 11.12; 12.8,10; 13.1,6,7). “Um fator sobre o qual todos concordam é que Zacarias enunciou com grande clareza vários aspectos da era messiânica”.[3]

3. “... amai, pois, a verdade e a paz”

A verdade e a paz estão estritamente relacionadas. Sem uma a outra não subsiste. É por isso que em Zacarias 8.16 está escrito: “... segundo a verdade, em favor da paz”. Paz aqui é o oposto da guerra e contenda. Assim, o profeta relembra o povo dos tempos de paz: “Não ouvistes vós as palavras que o SENHOR pregou pelo ministério dos profetas que nos precederam, quando Jerusalém estava habitada e em paz com as suas cidades ao redor dela, e o Sul e a campina eram habitados?” (Zc 7.7). E profetiza: “Porque, antes daqueles dias, não havia salário para homens, nem os animais lhe davam ganho, não havia paz para o que entrava, nem para o que saía, por causa do inimigo, porque eu incitei todos os homens, cada um contra o seu próximo. Mas, agora, não serei para com o restante deste povo como nos primeiros dias, diz o SENHOR dos Exércitos. Porque haverá sementeira de paz; a vide dará o seu fruto, a terra, a sua novidade, e os céus, o seu orvalho; e farei que o resto deste povo herde tudo isto” (Zc 8.10-12). É evidente que a “verdade” não provoca a discórdia, porém, onde falta a paz a verdade não tem vez. Mas quando reina a paz a verdade prevalece. Isso nos remete mais uma vez à pessoa e obra de Cristo. Jesus é o Príncipe da Paz, conforme predisse Isaías (Is 9.6). Paulo ensina que Cristo “é a nossa paz” (Ef 2.14). O próprio Jesus disse aos seus discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou, não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). A verdade e a paz estão diretamente ligadas à santidade de vida que Deus requer de sua igreja (Jo 17.17; Hb 12.14).

O profeta Zacarias instruiu o povo a continuar o que vinha fazendo, ou seja, jejuando, contudo, “uma transição ocorreria quando a verdade e a paz reinassem tanto nos corações individuais quanto na comunidade do remanescente”.[4] A ordem de Deus continua imperativa para cada um de nós hoje: “amai, pois, a verdade e a paz”.



[1] M. Lloyd-Jones. A unidade cristã: exposição sobre efésios 4.1-16. São Paulo: PES, 1994, p. 13.

[2] Idem, p. 14.

[3] Gerard Van Groningen. Revelação Messiânica no Velho Testamento. Campinas: LPC, 1995, p. 795.

[4] Idem, p. 816.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A Dúvida de João

Josivaldo de França Pereira


De acordo com o dicionário Caldas Aulete, dúvida significa: "Incerteza, vacilação, hesitação da inteligência entre a afirmativa e a negativa de um fato, ou de um asserto, como verdadeiro". Mateus relata que "Quando João ouviu, no cárcere, falar das obras de Cristo, mandou por seus discípulos perguntar-lhe: És tu aquele que estava para vir ou havemos de esperar outro?" (Mt 11.2,3). Alguns intérpretes acham que não foi João Batista quem duvidou se Jesus era ou não era "aquele que estava para vir", mas tão somente os discípulos dele (de João). Ele os enviou a Cristo a fim de que a dúvida deles fosse dissipada. Contudo, essa não parece ser uma interpretação segura. A afirmação de Jesus, "Ide e anunciai a João" (Mt 11.4), confirma que era João mesmo quem tinha a dúvida.

Em que consistia a dúvida de João? Os judeus tinham a ideia de que o reino vindouro do Messias seria um reino militarista, nacionalista e materialista. Os judeus pensavam que quando o Messias chegasse haveria de firmar-se como um grande Monarca, o qual haveria de libertá-los de toda a sua escravidão, e que elevaria os judeus acima de todos os demais povos, através do que se tornariam eles a raça conquistadora e proeminente. O próprio João Batista parece ter-se apoiado nesse conceito quando enviou seus discípulos para fazerem a Jesus a referida pergunta. É como se ele tivesse mandado dizer: "Eu sei tudo sobre esses milagres que tu fazes, mas quando terá lugar aquele grande acontecimento?".

Jesus respondeu a João citando as Escrituras (Mt 11.4-6), como costumeiramente fazia. Em que sentido era alentadora essa resposta? Não é verdade que João Batista já sabia tudo isso (cf. Mt 11.2), e que o fato de o saber havia contribuído substancialmente para criar a dúvida? É verdade, porém, a forma de Jesus se expressar era nova. Era nova no sentido de que os amigos que informaram João dos milagres de Cristo não haviam usado esse tipo de formulação. Por outro lado, a mensagem na forma em que Jesus a expressou tinha um som conhecido. João devia recordar-se de certas predições proféticas; a saber, Isaías 35.5,6; 61.1. É como se Jesus dissesse ternamente a João: "Você se lembra dessas profecias? Isto também foi predito acerca do Messias. E tudo isso está se cumprindo hoje em mim".

A mensagem dirigida a João Batista termina com as palavras: "E bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço" (Mt 11.6). Ou seja, “quem não permite que nada do que faço ou diga lhe sirva de laço, o induza a pecar”. Ainda que seja correto o ponto de vista segundo o qual nesta admoestação Jesus estivesse repreendendo João, a repreensão (se é que houve) era tão terna que não eclipsava em nenhuma forma o amor do Senhor por seu discípulo momentaneamente confuso. Na verdade, considerada corretamente, a admoestação contém uma bem-aventurança. "Bem-aventurado é aquele que...". O Senhor trata tão ternamente a João como o fez com o cego de nascença, a mulher pega em adultério, Pedro, Tomé, etc. Em vista do modo em que Jesus imediatamente procede a elogiar João publicamente, e a repreender aqueles que veem falta neste arauto e nAquele de quem ele deu testemunho (Mt 11.7-19), temos como certo que a mensagem de Jesus teve o efeito desejado em João. Porém, o que se destaca é a sabedoria e a ternura de Jesus, e isto tanto na mensagem de alento dirigida a João como no testemunho dado acerca de João.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Não desista...

Josivaldo de França Pereira


· Não desista de lutar

Desistir de lutar é morrer antes do tempo. As coisas que nos acontecem são golpes que nos machucam, mas são superáveis. Nietzsche dizia que “tudo aquilo que não me mata me torna mais forte”. O que nos derruba, porém não nos mata, nos possibilita reerguer com todo vigor.

· Não desista de amar a Deus

Não desista de amar a Deus porque os desígnios dele são perfeitos e o bom Deus sempre sabe o que faz. Muitas vezes não entendemos porque as coisas acontecem conosco, principalmente quando estamos vivendo um bom momento, ou mal acabamos de sair de uma adversidade. Deus ama você e espera que você o ame de todo coração. Confie nele e seja fiel.

· Não desista de amar o próximo

Não desista de amar o próximo, pois isso é um mandamento de Deus também. Muitas vezes enchemos nosso coração de tristeza e amargura por causa de decepções com as pessoas e, assim, achamos que ninguém merece nosso amor. Contudo, as pessoas que menos amam são as que mais precisam ser amadas por nós.

· Não desista de viver

Viver é bom, mas às vezes preferimos morrer. Pensar assim é errado porque a vida é dom de Deus. Sem presente não há futuro. Por isso viveremos mesmo depois da morte. A maior celebração da existência humana é viver. Viver com liberdade; viver com responsabilidade; viver com Jesus. Celebremos, pois, a vida, celebrando com júbilo ao Senhor.

Três homens que marcaram a minha vida

Josivaldo de França Pereira

Nem sempre conseguimos expressar com palavras a riqueza do exemplo bíblico e estilo de vida cristã que alguns homens de Deus nos legaram. No entanto, é o que tentarei fazer, embora resumidamente, com as três pessoas que me marcaram profundamente.
· Reverendo Daniel Mariano da Silveira
Eu era adolescente quando conheci o Rev. Daniel. Lembro-me como se fosse hoje. Eu o vi pela primeira vez no salão social de nossa igreja. Confesso que à primeira vista não me impressionou muito. Todavia, aquele homem de estatura mediana, aparentando muita calma e de fala mansa, certamente não fazia ideia do quanto influenciaria a minha vida. A primeira vez que o vi pregar fiquei boquiaberto. Sua oratória era impressionante. As mensagens do Rev. Daniel, suas aulas na escola dominical e seus estudos bíblicos semanais eram muito bons. Eu me recordo de uma série de lições sobre os reis de Judá que ele ministrou em nossa igreja. Ele falava fácil, com muita clareza e propriedade.
O Rev. Daniel foi meu pai na fé. Com ele eu fiz a minha pública profissão de fé e batismo. Foi meu tutor eclesiástico, conselheiro e amigo; exemplo de pastor e referência para o meu ministério. Faleceu em 2005 aos 80 anos de idade.
· Presbítero Jorge Pereira Cabral
Presbítero Jorge Pereira Cabral, ou Jorginho para os íntimos, era simplesmente o Presbítero. Homem de Deus; homem de oração, grande exemplo de vida cristã. Gostava muito de pregar e lecionar. E para onde quer que o convidassem, lá estava ele, cheio de alegria e entusiasmo.
Eu tinha uns dezessete anos de idade quando participava com ele, nas tardes de domingo, dos cultos no ponto de pregação da igreja. Insistia comigo para que no próximo domingo trouxesse uma palavra aos irmãos que ali congregavam. E eu sempre protelava dizendo “ainda não”. Eu nunca tinha pregado antes. Morria de medo e vergonha. Mas um dia eu disse a ele que ia aceitar tão honroso convite. Hoje sou pastor. O presbítero Jorge faleceu em 1984, aos 83 anos de idade. Costumava dizer: “Tenho oitenta e três anos de idade, se Deus me der mais oitenta e três eu peço mais cinco de caixinha”. Ele amava viver. Morreu trabalhando, enquanto consertava o telhado de uma residência. Uma semana antes de se encontrar com o Senhor da Glória ele me disse que estava chegando a hora de cruzar os braços e que era bom saber que eu podia ficar no lugar dele, lá no ponto de pregação. O que de fato aconteceu.
· Presbítero Lau Veríssimo da Silva
O presbítero Lau foi quem me ensinou, através de seu exemplo, amor e zelo, como se deve pastorear uma igreja. De fato, era um presbítero-pastor. Gostava de visitar os irmãos, se preocupando com cada um deles. Fazia questão de estar todos os dias no templo, para manter a documentação da igreja e o rol de membros em dia, e acompanhar de perto alguma reforma. Sua filosofia de vida era se colocar ao lado dos pastores para servir. Foi meu braço direito durante os cinco anos que pastoreei a I. P. Ribeirão Pires. Era um homem incansável, sábio e muito crente. O tipo de pessoa que surge mais ou menos a cada cem anos na face da terra. Não foram poucas as vezes que o vi chorar pela igreja. Pouco antes dele falecer em 2002, aos setenta e três anos de idade, minha esposa e eu fomos visitá-lo, pois estava doente. Chorou por não poder trabalhar na igreja que ele tanto amava.
Quando cheguei em Ribeirão Pires eu era um jovem pastor recém-formado. O presbítero Lau, por toda vida, sempre foi muito educado e respeitoso comigo, chamando-me de “reverendo” e “senhor”. Eu não seria metade do que fui em Ribeirão e, até hoje, as minhas deficiências pastorais seriam ainda maiores e mais evidentes se Deus não tivesse colocado o presbítero Lau no meu caminho.
Concluindo: Penso que não seria exagero de minha parte dizer que esses homens se enquadram perfeitamente naquela declaração do autor aos Hebreus, ou seja, “homens dos quais o mundo não era digno”. E do que é dito acerca de Abel, é que eles também, mesmo depois de mortos, ainda falam.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

2 de Novembro: Dia de Finados ou da Esperança Cristã?

Josivaldo de França Pereira


Dois de novembro, para a maioria dos brasileiros, é o dia oficial de finados. Um dia de saudades e tristeza pela morte de algum ente querido, mas também um dia de reflexão e valorização da vida.

Jesus ensinou que a vida humana é muito mais que mera existência humana. Disse nosso Senhor: “... Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente...” (Jo 11.25,26). Como bem enfatiza Bruce, “Jesus não é somente aquele que ressuscita e dá vida; ele é pessoalmente a ressurreição e a vida. Da mesma forma, no discurso em Cafarnaum, depois de ter alimentado a multidão, Jesus não somente dá pão do céu; ele mesmo é o pão vivo (6.27,35)”.[1]

A morte não tem a última palavra naqueles que são de Jesus. O que para muitos é o fim (finados), para aqueles que estão em Cristo é dia de esperança. Não da esperança em Cristo que se restringe apenas a esta vida (cf. 1Co 15.19), porém, da esperança que vai além, de que estarão para sempre com o Senhor, desfrutando de uma vida mais rica e mais completa.[2]

Uma das bem-aventuranças mais interessantes na Bíblia é aquela registrada por João no Apocalipse: “Então, ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Ap 14.13).

Esta bem-aventurança de Apocalipse 14.13 não é para todos, mas tão-somente para os mortos que morrem no Senhor. São palavras de conforto e alento a todos os que em Cristo serão recebidos nos portais celestiais (cf. Mt 25.34); para aqueles que confessaram seus pecados e receberam a Jesus em seus corações como Senhor e Salvador de suas vidas.

“Os crentes cujos olhos estão fixos em Jesus, que é o autor e aperfeiçoador de sua fé (Hb 12.2), não temem a morte, enquanto os incrédulos se enchem de medo do juízo e condenação (Ap 6.15-17)”.[3]No Senhor todos os crentes morrem, assim como também vivem em Cristo”.[4] Para esses a morte já não é uma satisfação pelo pecado, porém, a libertação definitiva do pecado e a passagem para a vida eterna.[5]

As almas dos que morrem no Senhor estão no céu, aguardando a restauração de todas as coisas e a ressurreição do corpo na vida futura. Portanto, para quem está em Cristo, dois de novembro é o Dia da Esperança Cristã!



[1] F. F. Bruce, João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 211. Veja também Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 418-420.

[2] Cf. Leon Morris, 1Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1992, p. 170.

[3] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 525.

[4] George Ladd, Apocalipse: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 147. V. t. Ray Summers, A Vida no Além. 2ª ed. Rio de janeiro: Juerp, 1979, p. 34.

[5] Veja meu texto “A Morte do Crente no Catecismo de Heidelberg” (Abril/2010).

O Espírito Santo, Missões e a Igreja Brasileira

Josivaldo de França Pereira


O Espírito Santo é eminentemente missionário e a missão da igreja no mundo é participar da missão do Espírito.

Esta declaração nos deve conduzir a uma reflexão séria, principalmente porque hoje, mais do que nunca, a sociedade brasileira necessita de uma mensagem evangélica confrontadora. O que não significa dizer que ela queira necessariamente ser tocada em suas feridas; porém, à luz da Bíblia, não podemos oferecer às pessoas um evangelho paliativo e barateado como temos visto hoje em dia. O cristianismo puro e simples (para usar o título em português do livro de C. S. Lewis) precisa ser a mensagem pregada e o estilo de vida de todo homem e de toda mulher salvos em Cristo.

É triste constatar o tipo de evangelho enganador que está sendo anunciado atualmente. Um evangelho descomprometido da ética cristã e da santidade de vida. Um evangelho falsificado que propõe atalhos ao invés do verdadeiro caminho. No meio artístico, por exemplo, ouve-se falar daquele e daquela como os mais novos irmãos na fé; entretanto, aqui e ali ficamos sabendo dos escândalos que esses "irmãos" cometem. Não negamos que haja conversões autênticas entre os artistas, porém, é preciso o quanto antes que o verdadeiro evangelho, com todas as suas implicações para a igreja e a sociedade, seja resgatado em nosso meio. É necessário que "o sal da terra" e "a luz do mundo", a igreja de Jesus Cristo, ofereça, mediante o evangelho da verdade, a verdadeira vida para todo aquele que perece em seus próprios pecados. E isso só acontecerá quando a igreja proclamar o evangelho de poder e no poder do Espírito, visto que ela também precisa enxergar além de si mesma, de sua institucionalização e de seus paradigmas obsoletos.

Além disso, em se tratando da apresentação do evangelho ao povo brasileiro, a igreja evangélica, não raramente, tem ido ou para o extremo da mensagem desencarnada, distante da realidade cotidiana do povo, mediante a apresentação de um evangelho transcendente que alcança as estrelas mas esquece da terra; ou tem, por outro lado, oferecido Jesus Cristo às pessoas como se ele fosse um produto de consumo à disposição nas prateleiras do mercado eclesiástico. Outras vezes apresenta-se Cristo no melhor dos estilos "fada madrinha". Em nome dele promete-se ao povo casa, carro, dinheiro; enfim, toda sorte de prosperidade. Cremos sinceramente que Cristo pode dar tudo e até mais do que é prometido ao povo em termos de prosperidade; contudo, não podemos perder de vista as implicações e exigências do evangelho autêntico. As pessoas não devem ser confrontadas somente em termos de: "Você não conseguiu? Venha para Jesus que você consegue", mas sim, encaradas como pecadoras que precisam urgentemente da graça redentora.

E por que precisamos nos preocupar com isso? Justamente porque a sociedade brasileira carece do evangelho que esteja encarnado na vida dos crentes e na vida dela mesma. Um cristianismo integral, como expressão de vidas santificadas e consagradas ao Senhor, é o que realmente impactará nosso país e o mundo. Cristianismo integral é a manifestação viva daquilo que dizemos acreditar. Paulo é um exemplo fabuloso de compromisso com a verdade do evangelho. Ele nunca a comprometia. Podia como poucos ser imitado como imitador de Cristo. Semelhantemente o povo brasileiro precisa ver na igreja de hoje pessoas que vivam o que dizem crer. A prática é a expressão do que acreditamos. Se não praticamos o que dizemos, então a nossa pregação não passará de retórica evangélica desqualificada.



O Papel do Espírito Santo no Livro de Atos

Josivaldo de França Pereira


O livro de Atos é um exemplo fabuloso de prática cristã autêntica sob o comando do Espírito Santo. Eis que o Livro está aí, diante de nós, para ser conferido, lido e relido pelo povo evangélico ou não, sob uma nova (ou velha?) ótica: a ótica do Espírito missionário. Em Atos o Espírito Santo faz a diferença. O livro de Atos se torna único no Novo Testamento porque nele o Espírito Santo se revela como um Espírito missionário. Por isso, abordar o segundo tratado de Lucas numa perspectiva missiológica é fazer verdadeira justiça ao seu autor. Há teologia em Atos? É claro que sim. Mas apresentá-lo missiologicamente é a maneira mais natural de fazê-lo.

Sendo o Espírito Santo missionário, o que segue é consequência natural, isto é, a igreja neotestamentária formada a partir do Pentecostes passa a ser naturalmente uma igreja missionária. A relação Espírito-igreja é a chave do sucesso em Atos. No entanto, do começo ao fim de seu segundo livro, Lucas deixa claro que o Espírito Santo é quem comanda a igreja em sua missão. O Espírito Santo é Deus, e Deus soberano. Ele conduziu em triunfo a Igreja Primitiva em sua missão evangelística, sendo o mesmo Espírito a conduzir nos dias de hoje a igreja brasileira em sua tarefa missionária. Num estudo sistemático, podemos observar que o Espírito Santo é quem vocaciona, capacita e dirige soberanamente seus obreiros e a igreja na missão. Além disso, é ele quem vai adiante, abrindo portas e preparando o caminho para o sucesso da obra missionária. E o mesmo Espírito que vocaciona, capacita e dirige os missionários e a igreja na missão, além de preparar o campo, é quem transforma esse mesmo campo em base missionária.

A visão missionária é uma dádiva do Espírito para a igreja do Senhor Jesus. Praticar essa visão, como o fez a igreja de Antioquia, é entender o verdadeiro propósito para o qual a igreja de Jesus existe. Tudo que o Espírito Santo fez em Atos visava a ação missionária da igreja. O Pentecostes, por exemplo, não aconteceu para que a igreja vivesse em torno de si mesma, comodamente, degustando tão somente aquela experiência sobrenatural. No Pentecostes o Espírito Santo capacitou a igreja e continuaria capacitando-a para ser testemunha de Jesus em todo o mundo. Concedeu o que a igreja esperava e o que ela buscava: poder para testemunhar. Poder para proclamar as boas novas de Deus em Cristo Jesus, mas também poder para vencer o medo, a covardia e a timidez por Cristo Jesus. Os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas, profecias, etc.) foram dados pelo Espírito Santo com o objetivo de que a igreja testemunhasse de Jesus ao redor do mundo. Nada do que a igreja recebe do Espírito tem nela um fim em si mesmo.

No passado o Espírito Santo e a Igreja Primitiva deram continuidade ao que Jesus começou a fazer e a ensinar. Hoje, é possível que nosso maior desafio seja o de jamais esquecer que a missão do Espírito e da igreja cristã não terminou com Atos 28.