sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O Papa Não É O Anticristo - 3

Josivaldo de França Pereira


1. Gregório I, Joaquim de Fiore, os franciscanos de Paris, João Wycliffe e algumas versões da Bíblia

1.1. Gregório I (550-604)

A ideia segundo a qual o anticristo é o papa, remonta ao próprio papa! Foi Gregório I, o Grande, quem disse que qualquer que arrogue para si o título de “sacerdote universal” é o precursor do anticristo. Ele fez essa declaração numa carta em que denunciou as pretensões do “patriarca”, seu contemporâneo do Leste. A ideia se manteve viva através da Idade Média e era sussurrada aqui e ali cada vez que algum ocupante da cadeira papal se mostrava arrogante e cobiçoso de poder.[1]

1.2. Joaquim de Fiore (c. 1132-1202)

No final do século XII o monge franciscano Joaquim de Fiore identificou a Babilônia do Apocalipse com a Roma profana e algumas das sete cabeças da besta (Ap 17.3,9,10) com os governantes de seu tempo.[2]

1.3. Os franciscanos de Paris (séc. XIII)

Os seguidores de Francisco de Assis, conhecidos como franciscanos de Paris, viam o anticristo como um pseudopapa.[3]

1.4. João Wycliffe (c. 1330-1384)

João Wycliffe, um dos precursores da Reforma Protestante, chegou a escrever um tratado de nome Concerning Christ and his Adversary, Antichrist (A respeito de Cristo e seu Adversário, o Anticristo). Defendeu a proposição “o papa é o anticristo”, dando doze razões.[4]

1.5. Algumas versões da Bíblia

Pelo menos duas versões antigas da Bíblia são contundentes, em suas explicações marginais, em associar o papa ao anticristo. A primeira é a versão holandesa “autorizada” ou “oficial” (Staten-Bijbel) de 1637. Tudo que pertence ao “homem da iniqüidade”, “o anticristo”, “a besta que emerge do mar”, “a besta que emerge da terra” (Apocalipse 13), é aplicado de forma bem enfática ao papa e toda sua comitiva. Assim, o fogo que “a besta” faz descer do céu diz ser a representação do edito de excomunhão da parte do papa. O número “666” (Ap 13.18) interpreta-se como significando “Lateinos”, visto que o papa é a cabeça da igreja latina.

Mas se isto nos parece um tanto jocoso, na verdade não é menos que aquela declaração no prefácio da versão autorizada da Bíblia inglesa (King James Version) de 1611, na qual “o mais elevado e poderoso príncipe, Tiago, pela graça de Deus, rei da Grã-Bretanha, França e Irlanda, Defensor da Fé, etc.” é reconhecido por haver, por meio de um tratado, acertado “tal golpe no Homem do Pecado (significando o papa) que não poderá sarar”.[5]

2. O contexto da Reforma: Lutero e Calvino

A ideia de que o papa é o anticristo foi acolhida com naturalidade e entusiasmo por muitos líderes da Reforma, dentre os quais se destacam Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564).[6] Em 11 de outubro de 1520, Lutero escreveu que se sentia muito mais aliviado desde que se havia convencido inteiramente de que o papa é o anticristo.[7]

Segundo Calvino, o papa é o anticristo anunciado por Paulo. Para alguns, diz ele, parece que somos amigos do maldizer e muito atrevidos quando chamamos de anticristo ao pontífice romano. Mas os que dizem isto, afirma ele, não compreendem que acusam o próprio Paulo, pois nós falamos de acordo com o que ele diz. E prossegue: E para que ninguém nos acuse de torcermos as palavras de Paulo contra o pontífice romano, como se ele as houvesse dito com outra finalidade, em breves palavras demonstrarei que o que diz o apóstolo não pode ser entendido senão acerca do papado. Escreve São Paulo que o anticristo se assentará no templo de Deus (2Ts 2.4). E em outro lugar o Espírito Santo, pintando a imagem do anticristo na pessoa de Antíoco, mostra que seu reino consistirá em falar grandes coisas e dizer blasfêmias contra o Altíssimo (Dn 7.8,25; Ap 13.5). Daí concluirmos que sua tirania é muito mais contra as almas do que os corpos; ele se arremessará contra o reino espiritual de Cristo. Além disso, a tirania será tal que não suprimirá o nome de Cristo e de sua Igreja; antes, tomará o nome de Cristo por pretexto, e se esconderá por trás de uma máscara com o título de Igreja. Embora todas as seitas e heresias, que desde o princípio têm surgido, pertençam ao reino do anticristo, no entanto, quando Paulo prediz que terá lugar uma apostasia (2Ts 2.3), com essa descrição declara que aquela sede de abominação será erigida quando surgir na Igreja uma certa apostasia universal, ainda que muitos membros da Igreja perseverem na verdadeira unidade da fé. Quando ele acrescenta que já no seu tempo o anticristo começou a edificar o mistério da iniqüidade que logo haverá de se consumar claramente (2Ts 2.7), com isto compreendemos que esta iniqüidade não será de um homem só, nem tão pouco há de terminar com a morte de um único homem. Finalmente, posto que nos dá como sinal para conhecer o anticristo que tirará de Deus sua glória para atribuí-la a si mesmo, este é o principal indício que temos de levar em conta para reconhecê-lo; principalmente quando toda soberba acomete até causar a ruína manifesta da Igreja. Portanto, como consta que o pontífice romano tem se apropriado desavergonhadamente do que é próprio e exclusivo de Deus e de Cristo, não há dúvida que ele é o capitão de um reino ímpio e abominável.[8]

3. O contexto da Assembléia de Westminster: A interpretação historicista da literatura apocalíptica em geral e do Apocalipse em particular

A interpretação historicista da literatura apocalíptica em geral, e do Apocalipse em particular, era predominante no período da Reforma e dos teólogos da Assembléia de Westminster. Os historicistas consideravam o Apocalipse como um calendário que começa com o tempo de João na ilha de Patmos em 96 A. D. Designavam os sete selos e a sexta trombeta à Igreja primitiva e à Idade Média; Apocalipse 10 e 11 como sendo o tempo da Reforma, aplicando a mensagem da sétima trombeta à Igreja verdadeira. As duas bestas do capítulo 13 são o papa e o poder papal e a destruição de Babilônia como sendo a queda do papado.[9]

Kistemaker observa que as variações quanto ao método de aplicar a mensagem do Apocalipse à história são numerosas e por si mesmas se destroem.[10] Segundo ele, as principais objeções feitas ao ponto de vista histórico são: Em primeiro lugar, o texto do Apocalipse não se inclina para a apresentação histórica contínua; história e literatura apocalíptica não se adéquam. Em segundo lugar, se o Apocalipse pretendesse ser continuamente histórico, a Igreja primitiva e as gerações sucessivas teriam sido incapazes de usufruir o benefício de uma mensagem que não se aplicaria a elas. Além disso, há intérpretes que aplicam o livro à Igreja Ocidental, como se a Igreja Oriental não existisse. Além do mais, os adeptos do ponto de vista histórico às vezes recorrem a interpretações triviais que não são apenas fantasiosas, mas que estão desonrando a Escritura. E, por fim, os métodos usados para calcular épocas na história com base nos números apocalípticos são, na melhor das hipóteses, cômicos e terrivelmente enganosos.[11]



[1] Cf. Hendriksen, New Testament Commentary: I and II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 173, 174.

[2] Cf. Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 62, 63.

[3] Alan Johnson, Revelation. In: The Expositor’s Bible Commentary. Vol. 12. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1984, p. 408; Henry Barclay Swete, The Apocalypse of St. John. Grand Rapids: Eerdmans, 1951, p. ccxiii-iv.

[4] Cf. Hendriksen, op. cit., p. 174.

[5]Ibidem.

[6] Cf. Martin Luther, The Catholic Epistles. In: Luther’s Works. Vol. 30. St. Louis: Concordia, 1976, p. 252-254; Juan Calvino, Institución de la Religión Cristiana. Vol. II. 3ª ed. Países Bajos: Felire, 1986, IV, vii; II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 330, 331; The First Epistle of John. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 190.

[7] Cf. William Hendriksen, op. cit., p. 174.

[8] Institutas IV, vii, 25.

[9] Cf. Albert Barnes, Notes on the New Testament: Revelation. Grand Rapids: Baker, 1949, pp. lvi-lxii.

[10] Cf. Simon Kistemaker, op. cit., p. 63.

[11] Ibidem.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Papa Não É O Anticristo - 2

Josivaldo de França Pereira


A Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos retirou da Confissão de Fé de Westminster a expressão “homem do pecado e filho da perdição”, talvez por entender que “o anticristo” e “o homem do pecado e filho da perdição” fossem pessoas distintas. O “homem do pecado (ou da “iniqüidade”), o filho da perdição”, descrito por Paulo em 2Tessalonicenses 2, é a mesma pessoa mencionada por João em 1João 2 como sendo o anticristo. As razões para considerá-los como uma única pessoa são as seguintes:

a) O “homem da iniqüidade” será revelado imediatamente antes da vinda de Cristo. Ou seja, o anticristo (aquele que se coloca no lugar de e/ou contra-Cristo), acerca do qual os leitores receberam informações prévias, virá “na última hora” (2Ts 2.8; 1Jo 2.18);

b) O “mistério da iniqüidade” já se encontra em andamento. Mesmo agora existem “muitos anticristos” (2Ts 2.7; 1Jo 2.18). Em ambos os casos a idéia é a seguinte: embora os crentes estejam certos em esperar um indivíduo específico no fim dos tempos, um indivíduo em que uma ímpia oposição a Cristo se cristalizará, devem antes fixar sua atenção nos “muitos” anticristos já presentes em seus próprios dias e época, pelo fato de que o mistério da iniqüidade está operando agora mesmo;

c) A vinda do “homem da iniqüidade” é segundo a operação de Satanás, com grandes sinais e milagres, todos eles falsos. Semelhantemente, o anticristo é chamado de mentiroso e enganador (2Ts 2.9; 1Jo 2.22; 2Jo 7).[1]

Além disso, não são poucos os teólogos reformados que interpretam “o anticristo” do artigo da Confissão de Fé (XXV.VI) como sendo “um princípio ou sistema antagônico a Cristo”.[2] Entretanto, pensar assim é incorrer num duplo equívoco contra a Assembléia de Westminster. Primeiro, seria como admitir que os teólogos de Westminster não disseram o que realmente queriam dizer e, segundo, que “o anticristo” da Confissão de Fé não é propriamente uma pessoa. O artigo da Confissão de Fé é claro, taxativo e literal. Para a Assembléia de Westminster o papa é o anticristo, “aquele homem do pecado e filho da perdição que se exalta na Igreja contra Cristo e contra tudo o que se chama Deus” (cf. 2Ts 2.3,4). Portanto, uma pessoa específica, não escatológica, segundo os teólogos de Westminster.

Definitivamente o anticristo não é um poder abstrato ou um conceito coletivo.[3] Com toda certeza o princípio da iniqüidade, sempre presente no mundo (cf. 1Jo 4.3), será finalmente incorporado no “homem do pecado”; mas isso não significa que ambos – o princípio e o homem – sejam um e o mesmo.

É verdade que o autêntico e final “homem do pecado” também tem seus precursores, porém, o que é retratado em 2Tessalonicenses 2 não é um precursor, mas o próprio “homem da iniqüidade”.[4] Esse ponto de vista é baseado não tanto nos termos “homem da iniqüidade” ou “filho da perdição” (expressões que, por seu caráter e significado semíticos, talvez não sejam conclusivas para a tese de que “o homem da iniqüidade” em 2Tessalonicenses 2 é uma pessoa), mas no fato de que toda descrição aqui apresentada é de caráter pessoal. O homem da iniqüidade “se opõe”, “se exalta”, “se assenta no templo de Deus”, “proclama a si mesmo como Deus”, e será “morto”. Cristo é uma pessoa. Certamente o homem do pecado, “o anticristo”, também é uma pessoa. Como Cristo fez, “o homem do pecado” realiza sinais e maravilhas, tem sua “Parousia” e sua “revelação”. Seria estranho, portanto, se “o homem da iniqüidade” não fosse uma pessoa.[5]

Entretanto, “o homem da iniqüidade” não é apenas uma pessoa; ele é uma pessoa que pertence ao fim dos tempos, isto é, uma pessoa escatológica, de acordo com 2Tessalonicenses 2. Segundo Hendriksen, “uma cuidadosa leitura de 2Ts 2.3, 4, 8 e 9 deve ser suficiente para convencer a qualquer um de que, aqui, estamos tratando de uma predição exata acerca de uma pessoa certa e específica que receberá sua sentença quando Cristo voltar”.[6] E completa: “Outras explicações podem ser filosóficas, mas não são exegéticas”.[7]



[1] Cf. William Hendriksen, New Testament Commentary: I and II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 172.

[2] Cf. A. A. Hodge, Comentario de la Confesión de Fe de Westminster. Barcelona: CLIE, 1987, p. 296; G. I. Williamson, The Westminster Confession of Faith for Study Classes. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1964, p. 194; J. Ligon Duncan (ed.), The Westminster Confession in the 21st Century. Bookwell: Mentor, 2004, p. 363-365; Robert Shaw, An Exposition of the Westminster Confession of Faith. Great Britain: Christian Focus Publications, 1992, p. 267-271.

[3] Cf. Hendriksen, op. cit., p. 171.

[4] Idem, p. 171,172.

[5] Idem, p. 172. V.t. Antonio A. Hoekema, La Biblia y el Futuro. Grand Rapids: SLC, 1984, p. 183.

[6] Ibidem.

[7] Ibidem.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Papa Não É O Anticristo - 1

Josivaldo de França Pereira


William Hendriksen (1900-1982), eminente teólogo reformado, afirma categoricamente no seu comentário de 2Tessalonicenses 2 que o papa não é o anticristo. Após transcrever o capítulo XXV.VI da Confissão de Fé de Westminster, ele diz que embora a proposição “o papa é o anticristo” continue sendo defendida nos dias de hoje, ela não tem apoio em 2Tessalonicenses 2.[1] “É lógico”, diz ele, “que se o homem do pecado é definitivamente uma pessoa escatológica, ele não pode ser o primeiro papa, nem o segundo, nem o terceiro, etc., e tampouco pode ser o conceito coletivo de ‘o papado’”.[2]

Diz ele ainda:

É verdade, porém, que qualquer homem (seja ele um ditador religioso ou político) que arrogue para si atributos e prerrogativas que pertencem à deidade possui traços anticristãos. Ele pode ser chamado “um anticristo”, um entre muitos dos precursores do anticristo final. Em tal homem o mistério da iniqüidade já está em operação. Mas chamar o papa de o anticristo é contrário a toda sã exegese. Ainda que nós, como evangélicos, com toda razão deploramos qualquer idolatria, mariolatria, superstição e cultos de tradição que se encontram na Igreja Católica Romana, males contra os quais devemos nos expressar com crescente vigor e seriedade, não temos direito de condenar tudo que existe naquela igreja. Devemos nos esforçar por ser honestos e justos para não suceder que, condenando os males de Roma, fechemos os nossos olhos aos muitos e sérios males que estão entrando sorrateiramente em todos os setores da igreja protestante. A proposição: “O papa é o anticristo”, ainda que inescusável – embora compreensível! – mesmo durante os dias de intensa luta que marcaram o nascimento do protestantismo, não é menos inescusável nos dias de hoje. E o veredicto de alguns, a saber, que todos os que não estejam prontos a identificar o homem do pecado de 2Tessalonicenses com o papa nunca experimentaram em seus corações e vida a veracidade da “justificação pela fé”, impressiona-nos com um juízo desprovido de caridade.[3]

Muitos dos aspectos da descrição de Paulo em 2Tessalonicenses 2 com respeito ao anticristo são derivados do livro de Daniel (cf. Dn 7.8,20,25; 8.4,9-14,25,26). Não é de se estranhar, visto que “o chifre pequeno” de Daniel 7, que cresceu depois de outros dez, é o anticristo, e “o chifre pequeno” de Daniel 8, que saiu de um dos chifres notáveis, é o imperador sírio Antíoco Epifânio, o mais infame precursor do anticristo. No ano 167/8 a. C. Antíoco profanou o templo de Jerusalém colocando nele uma estátua de Zeus. Erigiu um altar pagão no lugar do altar do sacrifício, sobre o qual imolou porcos.[4]

Além disso, em Mateus 24.15 (cf. Mc 13.14) “a abominação desoladora”, da qual Jesus se refere, deriva-se diretamente de Daniel 11.31; 12.11. A história, em certo sentido, se repete. Melhor dizendo: a profecia se realiza em múltiplos cumprimentos. O pensamento básico é sempre o mesmo. A cidade e o santuário de Deus são profanados, seja por Antíoco Epifânio e suas sacrílegas oferendas (Dn 8.9-14; cf. “Gogue” em Ez. 38,39), seja pelos exércitos romanos e suas normas idólatras (Lc 21.20; Mc 13.14); ou, finalmente, pelo próprio anticristo.[5]

Os primeiros escritores eclesiásticos entenderam os textos bíblicos sobre “o homem da iniqüidade” (2Ts 2) e “o anticristo” (1Jo 2) como uma profecia referente a uma pessoa específica que viveria na terra no final da história, e que seria totalmente derrotada por Cristo em seu retorno.[6] Segundo Hendriksen, “A igreja não deveria jamais ter se afastado desta interpretação”.[7]

Conclusão:

A Assembléia de Westminster se equivocou quando disse que o papa é o anticristo. Esse erro ocorreu, pelo menos, por dois motivos básicos. Em primeiro lugar, por causa da influência historicista da época, respaldada por reformadores de peso como Lutero e Calvino no século XVI. Estes, por sua vez, também foram influenciados pelo pensamento historicista que começou com Gregório I no século VI. Em segundo lugar, os teólogos de Westminster viviam em franca oposição a tudo que estava relacionado ao catolicismo romano. “Os estudiosos católicos retaliaram, taxando de anticristo os opositores de Roma”.[8] Atualmente as trocas de farpas entre católicos e protestantes já não existem mais. Conquanto nós, evangélicos, não concordemos com uma série de dogmas e tradições vigentes na Igreja Católica Romana, há pontos positivos nela dignos de louvor, como por exemplo, sua fidelidade na tradução das Escrituras e defesa da família.

Por fim, vale ressaltar que, mais do que destacar um erro, o objetivo deste ensaio é mostrar que (1) a Assembléia de Westminster disse o que realmente queria dizer quando afirmou que o papa é o anticristo; (2) ela nunca arrogou para si infalibilidade ou endeusamento como alguns parecem atribuí-la e devotá-la [cf. CFW, XXXI,3]; (3) o valor e relevância do trabalho da Assembléia de Westminster, bem como a qualidade de tudo que foi produzido por ela, não diminuem diante do exposto neste ensaio. A Confissão de Fé da Assembléia de Westminster, em especial, é a última das confissões reformadas clássicas e a mais influente no mundo. É também a mais elaborada, amadurecida e completa das confissões de tradição reformada que durante muito tempo vem abençoando o povo de Deus.[9]




[1]W. Hendriksen, New Testament Commentary: I and II Thessalonians. Grand Rapids: Baker, 1981, p. 174.

[2] Ibídem.

[3] Hendriksen, p. 174-175.

[4] Ainda que Antíoco Epifânio, ou seja, “Antíoco (o) ilustre (Deus)” ou “Antíoco (o) Deus que se revela”, ao requerer homenagem divina, não deixou de reconhecer a divindade de Zeus e não foi tão blasfemo como será o homem final da iniqüidade, posto que este último reconhecerá somente uma deidade, a saber, ele mesmo, que se assentará (não somente colocará sua imagem) no santuário de Deus, e reivindicará adoração divina somente para si.

[5] Hendriksen, p. 177.

[6] Eis algumas citações dos primeiros séculos da era cristã que afirmam ser “o homem do pecado” uma pessoa escatológica:

a) A Didaquê, o Ensino dos Doze Apóstolos: “... À medida que cresce a iniqüidade, eles se odiarão uns aos outros e se perseguirão e se trairão, e então aparecerá o enganador do mundo como um Filho de Deus, e fará sinais e maravilhas... E então aparecerão os sinais... primeiro, o sinal estendido no céu, então o sinal do sonido da trombeta, e por fim a ressurreição dos mortos” (XVI.iv-vi).

b) Justino Mártir, um dos mais famosos apologistas e pensadores cristãos dos meados do século II, escreveu em seu Diálogo com Trifão: “Que homens tolos! Pois não têm conseguido entender o que ficou provado por todas essas passagens, a saber, que dois eventos de Cristo se têm anunciado: o primeiro, no qual ele é exibido como sofredor, sem glória, sem honra, sujeito à crucificação; e, o segundo, no qual ele virá dos céus em glória, quando o homem da apostasia que profere coisas arrogantes contra o Altíssimo, intentará atrevidamente perpetrar feitos ilegais contra nós, cristãos” (CX).

c) Agostinho (354-430), pai da teologia ortodoxa e talvez o maior teólogo da antigüidade, disse em sua famosa obra A Cidade de Deus, ao comentar 2Tessalonicenses 2.1-11: “Não há dúvida de que o que se acha aqui se refere ao anticristo e ao dia do juízo, ou como Paulo o chama, o dia do Senhor...” (XX.xix). No mesmo capítulo Agostinho assinala ainda que em seus dias a interpretação que nos afasta do único anticristo final para uma grande multidão de anticristos já estava começando a ser popular.

[7] Hendriksen, p. 178.

[8] D. A. Hubbard, Anticristo. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 84.

[9] Para um estudo mais abrangente, veja meu texto “O Anticristo na Confissão de Fé de Westminster” em www.bibliaworldnet.com.br.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Gráfico Comparativo

Dez aspectos divergentes entre a cultura brasileira e a cosmovisão cristã, à luz das Escrituras

Josivaldo de França Pereira


TÓPICOS

CULTURA BRASILEIRA

COSMOVISÃO CRISTÃ

Deus

Um ser impessoal e distante

Único, pessoal e presente

Família

Cada vez mais deteriorada pela mídia

Deve ser honrada e preservada por ser uma idéia de Deus

Criação

Predomina o conceito evolucionista da criação

Reconhece somente o conceito teísta da criação

Domingo

Dia de folga para uns e de trabalho para outros. Um dia como outro qualquer

Dia do Senhor. Deve ser observado com cultos e atos de misericórdia

Autoridade

Questionada, desrespeitada e desacatada constantemente

É divina e por isso devemos ser submissos a ela

Dinheiro

Determina o valor e importância das pessoas. É senhor da sociedade

brasileira

É importante enquanto servo. Não devemos amá-lo

Crítica ao homossexualismo

É preconceito. O homossexualismo é um problema genético. Cada um tem o direito de viver como e com quem quiser

Deve ser criticado e abominado por uma questão de moral. O homossexualismo é perversão e desvio de conduta

Virgindade

Inaceitável nos dias de hoje, principalmente em se tratando dos rapazes

Pureza sexual. O sexo fora do casamento é fornicação e prostituição

Bíblia

Um livro de religião como outro qualquer

A Palavra de Deus, única regra de fé e prática

Cristianismo

Uma religião entre muitas outras

A única religião verdadeira