sábado, 3 de dezembro de 2011

Zerá, Urias e José: O que esses homens têm em comum?

Por Josivaldo de França Pereira


Os nomes de Zerá, Urias e José aparecem, respectivamente, na genealogia de Jesus conforme o evangelista Mateus (Mt 1.3,6,16). O mais interessante é que nenhum deles tem participação direta na natureza humana de Cristo como seus ascendentes segundo a carne. Sendo assim, por que Zerá, Urias e José são mencionados na genealogia de Jesus? Vejamos:
Zerá. “Judá gerou de Tamar a Perez e a Zerá; Perez gerou a Esrom; Esrom, a Arão” (Mt 1.3). Perez é o irmão gêmeo de Zerá. A história de Judá e Tamar; Perez e Zerá, está em Gênesis 38. Tamar era nora de Judá, o qual prometeu a ela seu terceiro filho, Selá, após a morte dos dois primeiros (Gn 38.11). Mas a promessa não foi cumprida.
Anos depois Tamar foi informada que o sogro estava na cidade para tosquiar as ovelhas. “Então, ela despiu as vestes de sua viuvez, e, cobrindo-se com um véu, se disfarçou, e se assentou à entrada de Enaim, no caminho de Timna; pois via que Selá já era homem, e ela não lhe fora dada por mulher” (Gn 38.14). Tendo-a como prostituta, Judá a possuiu e ela concebeu. “E aconteceu que, estando ela para dar à luz, havia gêmeos no seu ventre” (Gn 38.27). Zerá devia ter nascido primeiro. Ele pôs a mão para fora e a parteira atou uma fita vermelha nela (Gn 38.28). No entanto, Zerá recolheu a mão e seu irmão Perez tomou sua frente (Gn 38.29,30).
Pela providência divina Perez tornou-se o primogênito e recebeu o “direito” de ser antecessor do Messias prometido. Zerá aparece ao lado de seu irmão na genealogia de Jesus provavelmente porque seu nome ficou mais conhecido em Israel. Zerá foi o fundador de uma família tribal, progenitor do clã judaico dos zeraítas (Nm 26.20) e de outros indivíduos históricos como, por exemplo, Acã (Js 7.1,18,24; 22.20). Nos livros das Crônicas (1Cr 2.6; 9.6) e Neemias (Ne 11.24) o nome de Zerá sobressai ao de Perez.
Urias. “Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6). A informação mais completa que temos sobre Urias, o heteu, encontra-se em 2Samuel 11. Todavia, sabemos por outros textos bíblicos que ele era um dos mais poderosos homens de Davi, valente oficial do exército, pertencente a uma tropa de elite de trinta e sete guerreiros (2Sm 23.39; 1Cr 11.41).
Urias era marido de Bate-Seba. Davi adulterou com ela e assassinou Urias. O caso de Urias foi a mancha no “currículo” de Davi: “Porquanto Davi fez o que era reto perante o SENHOR e não se desviou de tudo quanto lhe ordenara, em todos os dias da sua vida, senão no caso de Urias, o heteu” (1Rs 15.5). Mais tarde Urias seria homenageado na genealogia de Jesus segundo Mateus. Jesus não descende de Urias, porém, o evangelista “omite” o nome de Bate-Seba e acrescenta o de Urias, dizendo: “Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi, a Salomão, da que fora mulher de Urias” (Mt 1.6).
A justiça e o amor de Deus estão bem claros na história de Davi e Urias. Deus julgou a causa de Urias, punindo Davi por seu adultério e assassinato (2Sm 12.10-12,14). Entretanto, Davi se arrependeu, confessou suas transgressões e foi perdoado pelo Senhor (2Sm 12.13; Sl 32; 51). Na genealogia cheia de graça de Jesus, Davi e Urias vão se encontrar, como se encontram hoje no céu.
José. “E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1.16). Há quem diga que Mateus segue a genealogia de Maria e Lucas a de José. Tanto Mateus quanto Lucas seguem a genealogia de José (cf. Mt 1.16; Lc 3.23). A diferença é que Mateus começa por Abraão e termina com José. Lucas, por sua vez, inicia com José e conclui com Adão.[1] Contudo, uma vez que Jesus nasceu de Maria, por que os autores bíblicos não seguiram a genealogia dela?
Maria pertencia à mesma descendência judaica de José, pois, do contrário, o anjo não diria a ela acerca de Jesus: “Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32, itálicos acrescentados; v. t. Rm 1.3). De modo que, aquilo que José poderia oferecer a Jesus, em termos de natureza humana, já estava representado na pessoa de Maria.
José tem uma passagem bem discreta nos Evangelhos. Nunca “ouvimos” a sua voz. Mateus registra o nome de José sete vezes, sem contar a única vez quando em Nazaré se referem a Jesus como “o filho do carpinteiro”. Lucas chama José pelo nome cinco vezes. João menciona o nome dele apenas duas vezes e Marcos nenhuma vez. Semelhante a este, nenhum outro livro do Novo Testamento cita o nome de José direta ou indiretamente. No entanto, José nunca aparece nos Evangelhos como sendo um pai adotivo de Jesus. Ele é descrito, em especial por Mateus, como o verdadeiro pai de Jesus segundo a carne, ainda que nada tivesse a ver com a concepção de nosso Senhor. No sentido físico Jesus era “de Maria” e não “de José”. José era o pai de Jesus somente no sentido legal. O sentido legal também era importante. Era através de José, e não de Maria, que se transferia o direito do trono de Davi a Jesus.


[1] Veja a postagem “Por que José, o marido de Maria, é filho de Jacó em Mateus 1.16 e de Heli em Lucas 3.23?”.

Por que José, o marido de Maria, é filho de Jacó em Mateus 1.16 e de Heli em Lucas 3.23?

Josivaldo de França Pereira


Alguns estudiosos tentam resolver esta questão dizendo que Mateus segue a genealogia de José e Lucas a de Maria. Assim, segundo eles, Jacó seria pai de José (cf. Mt 1.16) e Heli, pai de Maria. O problema desse ponto de vista é: Como uma genealogia que começa com José, no caso de Lucas 3.23, de repente se transforma na genealogia de Maria?
A aceitação de uma genealogia mariana para Lucas é bastante questionável. O ponto de vista mariano é, na verdade, uma teoria que remonta a Ânio de Viterbo, um erudito católico romano do século XV. Não se tem registro de uma interpretação mariana da genealogia de Lucas antes dele. A teoria de Viterbo foi aceita por Lutero no século XVI e por muitos protestantes desde então. Contudo, ela não é de modo geral favorecida pela maioria dos eruditos católicos e protestantes da atualidade.
Que dizem os defensores da interpretação mariana? Alguns sustentam que o uso da palavra “pai”, no hebraico e no grego, permite que o termo “pai” seja usado no lugar de “sogro”, apesar de sogro não ser o parentesco verdadeiro e a palavra “pai” nem aparecer em Lucas 3.23. Outros, tentando tirar do texto de Lucas 3.23 um argumento em prol da teoria mariana, argumentam que a expressão “como se cuidava” (ou “como se supunha”, segundo outras versões) faria de toda a genealogia “de José” uma conjectura. Entretanto, o que Lucas diz aqui de José não é em relação à genealogia, mas em relação a Jesus: “Ora, tinha Jesus cerca de trinta anos ao começar o seu ministério. Era, como se cuidava, filho de José, filho de Heli” (Lc 3.23). Lucas sabia que José era o verdadeiro pai de Jesus apenas no sentido legal.
Considerando que ambas as genealogias são de José, como resolver a questão dele ser filho de Jacó em Mateus e de Heli em Lucas? Os comentaristas marianos não têm dificuldade em atribuir a genealogia de Mateus 1.1-17 a José. O debate gira em torno da genealogia de Lucas 3.23-38. Por sua vez, aqueles que não aceitam a genealogia mariana para Lucas não negam “a tradição primitiva da origem davídica de Maria” e, sim, a atribuição da genealogia lucana a ela.
Portanto, para a maior parte dos que pensam que ambas as genealogias dão a linhagem de José, Jacó e Heli seriam irmãos, ou seja, quando Heli morreu, Jacó teria tomado sua viúva como esposa. José seria filho de Jacó no sentido literal, e de Heli, no sentido legal. Segundo a lei judaica, o irmão deveria continuar a descendência do irmão morto, casando-se com a viúva deste. Uma outra possibilidade, de acordo com os defensores da genealogia de José em Lucas, é que José tenha sido filho de Jacó por nascimento, mas filho de Heli por adoção, ou vice-versa.
Os defensores da genealogia de José em Lucas podem ter acertado em uma ou outra dessas suposições, porém, no meu modo de ver elas parecem tão artificiais quanto as da genealogia mariana. Por exemplo: se a lei do levirato fosse aplicada no caso de Jacó e Heli serem irmãos, José devia ter recebido o nome do tio morto (cf. Dt 25.5,6). Também não temos nenhum exemplo na Bíblia de um tio sendo chamado de pai.
Permita-me, por gentileza, apresentar mais dois pareceres que, a meu ver, são mais bíblicos em favor da genealogia de José em Lucas. O primeiro deles é que Jacó e Heli podem ter sido, um ou outro, é claro, pai, avô, bisavô, ou mesmo um ascendente ainda mais distante de José. Não é errado pensar assim, uma vez que na Bíblia as palavras “pai” e “filho” são usadas em mais de um sentido (Ex.: Gn 32.9; Lc 3.38). Além disso, os estudiosos são unânimes em afirmar que tanto Mateus quanto Lucas trazem lacunas em suas respectivas genealogias. Ambos os autores não têm intenção de apresentar listas absolutamente completas da ascendência de Jesus. Assim, alguns pais são avós ou bisavós e alguns filhos, netos ou bisnetos. Não temos como fugir disso nas genealogias de Mateus e Lucas.[1]
Um outro parecer é que Jacó e Heli podem ser dois nomes distintos para uma mesma pessoa, visto que ambos procedem de Matã (Mt 1.15; Lc 3.24). Essa também não é uma forma absurda de pensar. Temos no Antigo Testamento vários exemplos dessa natureza, principalmente entre os reis de Judá. Na própria genealogia de Jesus, Néri, ao invés de Jeconias, aparece como pai de Salatiel (Mt 1.12; Lc 3.27).
Mateus e Lucas têm propósitos diferentes na genealogia de Jesus e ambos usaram, claramente, fontes distintas. A lista de Lucas tem mais nomes que a de Mateus. Mateus é mais restrito em sua lista indo até Abraão porque tinha em mente os judeus, ao passo que Lucas é mais global indo até Adão porque tinha em mente os gentios. Lucas menciona alguns ascendentes de José que não estão em Mateus, porém, quando lidos de trás para frente vão convergir, assim como em Mateus, na mais importante pessoa da lista – Jesus.
Concluindo: Considerando, pois, que ambas as genealogias são de José, então, ou (1) José era filho de Jacó e de Heli, no sentido de fato para um e de direito para outro, ou (2) Jacó e Heli eram a mesma pessoa com nomes diferentes.


[1] Mateus ajustou sua lista em três grupos de catorze gerações cada. A lista de Lucas, se interpretada no sentido de que em cada caso “filho” deve significar descendente masculino imediato, seria curta demais para abranger a trajetória de Jesus até Adão. 

O adjetivo Méga em Atos 8

Josivaldo de França Pereira


Adjetivo é a palavra que modifica o substantivo, indicando qualidade, caráter, modo de ser ou estado. Somente em Atos 8.1-13 Lucas utiliza seis vezes o adjetivo méga (grande). Ele fala da “grande perseguição contra a igreja de Jerusalém” (At 8.1) que aconteceu por ocasião da morte de Estêvão. Os apóstolos não foram dispersos, até então, porque essa perseguição foi contra os crentes judeus de fala grega (os chamados helenistas) como Estêvão. Os apóstolos eram hebreus (cf. At 6.1) que falavam o aramaico. E “todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8.1). 
Lucas relata, ainda, que os homens que sepultaram Estêvão fizeram “grande pranto sobre ele” (At 8.2). “Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere. Entrementes, os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8.3,4). Quanto mais a igreja era perseguida, mais e mais ela crescia.
Com a chegada de Filipe em Samaria, pregando o evangelho com sinais e maravilhas (At 8.5,7), “As multidões atendiam, unânimes, às cousas que Filipe dizia, ouvindo-as e vendo os sinais que ele operava” (At 8.6). “E houve grande alegria naquela cidade” (At 8.8). Filipe era um dos sete helenistas mencionados em Atos 6.5 (cf. At 21.8) com a mesma capacidade dos apóstolos para operar sinais que serviram como confirmação de sua mensagem. “Tinha este quatro filhas donzelas, que profetizavam” (At 21.9). Pedro e João, que eram hebreus, seriam enviados mais tarde pelos apóstolos para supervisionar o trabalho do helenista Filipe em Samaria (At 8.14-17).
No entanto, observe que o méga (grande) de Lucas até aqui é positivo em relação à igreja (incluindo a grande perseguição) e ao ministério de Filipe em Samaria.  A partir do verso 9 temos um contraste, ou, em outras palavras, o uso negativo de méga. Lucas fala de certo homem chamado Simão, que iludia o povo de Samaria com mágicas, “insinuando ser ele grande vulto”. As coisas grandes que o Espírito Santo realizava em Samaria eram dádivas para a igreja de Cristo Jesus, para todos os que o recebiam pela fé. As coisas que Simão realizava eram grandes aos próprios olhos dele e de todos os que eram enganados por ele, a ponto de dizerem: “... Este homem é o poder de Deus, chamado o Grande Poder” (At 8.10).
Lucas conclui o verso 13 retornando ao uso positivo de méga: “O próprio Simão abraçou a fé; e, tendo sido batizado, acompanhava a Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados”. Veja que agora Lucas já não fala mais no singular. Pela primeira vez ele utiliza o plural (megálas) para se referir aos “grandes milagres” de Atos 8. 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Por que igrejas desaparecem?

Josivaldo de França Pereira


Está mais do que provado que igrejas, de fato, desaparecem. E nisso não há nenhuma contradição com o que Jesus disse: “... e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). A Igreja de Jesus, como Corpo místico de Cristo; militante e triunfante, jamais desaparecerá. No entanto, uma igreja local pode desaparecer; uma denominação ou associação religiosa, do mesmo modo, pode se extinguir.
O que leva uma igreja a desaparecer? O que levou as igrejas do Novo Testamento, plantadas com suor, lágrimas e sangue por Paulo a serem extintas? Estou de pleno acordo com aqueles que dizem: “Foi porque perderam a visão evangelística e missionária”. As igrejas plantadas no livro de Atos, e todas aquelas mencionadas no livro do Apocalipse, desapareceram porque não deram continuidade ao trabalho missionário e evangelístico de Paulo e de tantos outros. As novas gerações que surgiam não tiveram a mesma visão e ação, deixando de trilhar o mesmo caminho de seus antecessores.
Hoje, muitas das regiões onde outrora existiram igrejas cristãs, Ásia e Europa, estão dominadas pelo islamismo ou por um cristianismo que nem de longe lembra o das igrejas verdadeiramente bíblicas do passado. Templos de igrejas são fechados e vendidos e, no lugar deles, bares e boates ocupam seus espaços. A decadência espiritual já chegou à América do Norte por conta de uma superficialidade espiritual (ou nem isso) por parte de muitos. O pós-modernismo, somado ao liberalismo teológico e moral, está matando muitas igrejas por lá.
Constate a realidade atual em alguns países:
Espanha
Mais de 50% dos batizados como católicos não tem mais ligação com a igreja. O vácuo está sendo preenchido por:
1.  Seitas estrangeiras com mais de 300 ativas. 30 são satanistas.
2.  Drogas - Há pelo menos 300.000 viciados em cocaína e heroína. O maior número de aidéticos da Europa.
3.  Dos 8.046 municípios somente 435 tem o testemunho evangélico.
4.  Não existe nenhuma igreja na língua basca.
5.  A Arábia Saudita deu recursos para a construção da maior mesquita da Europa.
Itália
1.  O ocultismo é generalizado. Existem pelo menos 100.000 feiticeiros. Três vezes mais do que padres católicos.
2.  O satanismo é muito mais forte no norte do país, inclusive oram pela remoção dos missionários evangélicos.
3.  31.000 comunidades não têm nenhum testemunho estabelecido.
4.  Mais ou menos 400.000 viciados em heroína.
5.  Existe um missionário para cada 24.000 pessoas.
Romênia
1.  80% dos líderes das Igrejas Pentecostais não têm nenhum treinamento formal.
Reino Unido
1.  Alto índice de divórcio, suicídio e filhos ilegítimos.
2.  Extensa propaganda da nova era e dos cultos místicos e orientais.[1]

Outras informações
Ken Ham, da Mission 3:15, apresentou a seguinte estatística:

-  A Inglaterra não tem mais 40 anos de cristianismo evangélico.
-  Austrália não tem mais 50 anos de cristianismo.
- EUA, a cada dia diminui o número de evangélicos.[2]
Temos diante de nós o desafio da re-evangelização.
Como as igrejas do mundo ocidental gastam seu dinheiro?


95% em atividades domésticas.
4,5% no campo missionário.
0,5% em obras entre povos não-alcançados. 
Como os cristãos gastam seu dinheiro? 
As pesquisas mostram que:

GASTAM mais com CHICLETES do que com MISSÕES;
GASTAM mais com REFRIGERANTES E BALAS do que com MISSÕES;
GASTAM mais com COSMÉTICOS E PRODUTOS DE BELEZA do que com MISSÕES;
GASTAM mais com COMIDA SUPÉRFLUA do que com MISSÕES;
GASTAM mais com ANIMAIS DE ESTIMACÃO do que com MISSÕES;
GASTAM mais com ROUPAS DE ETIQUETA do que com MISSÕES.
Um aparelho eletrodoméstico que um cristão compra À VISTA costuma ter um custo MAIOR do que a oferta dada para missões DURANTE 5 ANOS por esse mesmo cristão.
Os cristãos estão dando para missões MENOS do que o valor equivalente a UMA COCA-COLA diária. Como podemos dizer que amamos a obra missionária, se MISSÕES é o nosso MENOR investimento?[3]
Confessemos a Deus nossa culpa e pecado.
Se as igrejas brasileiras não priorizarem o trabalho missionário, deixando de evangelizar, certamente desaparecerão como as igrejas do passado e tantas outras do presente também.


[1] Fonte: Rev. Marcos Agripino - Executivo da APMT (28/08/2002).
[2] Fonte: Rev. Júlio Marcelo, missionário na Austrália (Informação recebida via internet em 13/06/2003).

[3] Fonte: Seminário Mobilizadores para Missões - Missão Horizontes – Brasil. S/d.

Como o Espírito Santo glorifica a Jesus?


Josivaldo de França Pereira


O Senhor Jesus disse acerca do Espírito Santo: “Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar” (Jo 16.14). Jesus veio ao mundo como revelador do Pai, mas o tempo do seu ministério foi curto demais para que os discípulos pudessem assimilar tudo o que ele tinha a revelar. Entretanto, seu ministério de revelação seria continuado pelo Espírito, depois da sua partida.
Assim como se esperava que o Messias expusesse claramente todas as implicações da revelação que tinha precedido sua vinda, o Espírito Santo também explicará todas as interferências da revelação existente no Messias, e as aplicará com relevância a cada geração subsequente.[1] A missão suprema do Espírito Santo é glorificar a Jesus.
Enquanto em várias partes do mundo muitos procuram rejeitar a Cristo e perseguir sua Igreja, o Espírito Santo, por meio da pregação do evangelho, glorifica a Cristo. Ele faz com que se proclamem as virtudes do Senhor Jesus, mostrando seu poder, santidade, amor, etc., fazendo com que elas resplandeçam e se manifestem entre as nações. Dessa maneira o Espírito glorifica o Filho. Recebe do que é de Cristo – a própria essência do ensinamento dele concernente ao propósito da redenção, forma de salvação, etc. – e o amplia.
Tudo que Jesus Cristo fez, faz e fará pela Igreja é tema do ensinamento do Espírito Santo.[2] O Espírito dá continuidade ao que Jesus começou a fazer e a ensinar (At 1.1,2,8).




[1] Cf. F. F. Bruce, João: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1987, p. 274.
[2] Cf. Guillermo Hendriksen, Comentário del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 600,01.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Dízimo é coisa da lei?

Josivaldo de França Pereira


É sim! Mas não somente da lei. Aqueles que são contra o dízimo se apressam em dizer que “dízimo é coisa da lei”, é “para Israel”. E citam imediatamente Malaquias 3.10, de preferência somente a primeira parte, que diz: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa...”. Para muitos a lei equivale ao Antigo Testamento. Contudo, a lei é apenas uma das partes do Antigo Testamento. Os hebreus dividiam as Escrituras em Lei, Profetas e Salmos. “Lei” aqui é a “Lei de Moisés” (Lc 24.44).
Antes que a lei fosse dada por Deus a Moisés, a prática do dízimo já era uma realidade. Embora Gênesis 2.16,17 não fale explicitamente de dízimo, o princípio para tal prática está presente: “E o SENHOR Deus lhe deu (a Adão) esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. A árvore do conhecimento do bem e do mal era tão frutífera e boa quanto as outras. Mas era a árvore de Deus! Todas as outras foram dadas pelo Senhor ao homem, porém, a árvore do conhecimento do bem e do mal, não. Mais adiante vemos Abraão entregando a Melquisedeque, sacerdote do Deus Altíssimo, o dízimo de tudo o que ele havia conquistado na guerra (Gn 14.18-21). Jacó, quando fugia de seu irmão Esaú, teve um sonho – a visão de uma escada. O Senhor Deus falou com ele. Jacó fez um voto ao Senhor (Gn 28.10-22a) e concluiu: “... de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo” (Gn 28.22b). Esses exemplos são todos antes da lei.
A Bíblia diz que a observância do sábado, um dos dez mandamentos de Deus para o povo, chegaria ao fim (Os 2.11; Cl 2.16,17), todavia, em nenhum lugar a Palavra de Deus nos fala que a prática do dízimo terminaria. Jesus disse aos escribas e fariseus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas cousas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23, itálicos meus).
Dízimo é sabedoria de Deus, pois evita a extorsão por um lado e a avareza de outro.
Os judeus dizimavam, ainda, cereais e frutos; gado e rebanho (Lv 27.30,32), além de metais preciosos como prata e ouro. Daí o apelo e promessa de Provérbios 3.9,10: “Honra ao SENHOR com os teus bens e com as primícias de toda a tua renda; e se encherão fartamente os teus celeiros, e transbordarão de vinho os teus lagares”. Malaquias 3.10 diz que todos os dízimos devem ser trazidos “à casa do Tesouro”, significando que não eram somente vegetais e animais que o povo dizimava.
Um olhar atento ao texto de Malaquias 3.8-10 – que alguns citam para descaracterizar o dízimo cristão, alegando que dízimo era uma prática somente para Israel – leva-nos a algumas considerações: (1) Não basta ser dizimista, é preciso ser ofertante também. Deus estava sendo roubado Nos dízimos e nas ofertas [v8]. Alguns líderes cristãos têm questionado a prática do dízimo; por que não fazem o mesmo em relação às ofertas? (2) Não ser dizimista e ofertante não é roubar o próximo, mas ao próprio Deus – vós me roubais [v8]; a mim me roubais [v9]. (3) A contribuição dizimal é para que haja mantimento (v10), recursos para a causa do reino de Deus. (4) As promessas de Deus em Malaquias 3.10 são experimentadas pelos cristãos também: “... e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida”. Portanto, não podemos deixar de ser fiéis dizimistas.
Conclusão: Dízimo é uma prática permanente; as ofertas, conhecidas como alçadas (teruma), são circunstanciais. Dízimo é 10% da nossa renda e as ofertas, quando necessárias, segundo tivermos proposto no coração (2Co 9.6,7). Observe que, no caso da oferta, cada um propõe em seu coração o quanto deve contribuir.  

Tipologia: Considerações gerais


Josivaldo de França Pereira


A palavra "tipologia" é de origem grega. Deriva-se do substantivo typos, termo usado no mundo antigo para indicar: a) a marca de um golpe; b) uma impressão, a marca feita por um cunho – daí o sentido de figura, imagem e c) modelo ou padrão, que é o sentido mais comum na Bíblia.
Na Bíblia o modelo é usado em dois sentidos distintos: (1) a correspondência entre duas situações históricas, tais como Adão e Cristo (cf. Rm 5.12-21); (2) a correspondência entre o padrão celestial e seu equivalente terrestre. Exemplo, o original divino por trás do tabernáculo terrestre (At 7.44; Hb 8.5; 9.24). Há várias categorias: - pessoas (Adão, Melquisedeque), eventos (o dilúvio, a serpente de bronze), instituições (festas), lugares (Jerusalém, Sião), objetos (altar de holocaustos, incenso), ofícios (profeta, sacerdote, rei). "A tipologia bíblica, portanto, envolve uma correspondência análoga em que eventos, pessoas e lugares anteriores na história da salvação tornam-se padrões por meio dos quais eventos posteriores, pessoas, etc. são interpretados".[1]
Além dos conceitos mencionados acima, também existe o uso paralelo de figuras de linguagem, juntamente com os tipos, para indicar um exemplo moral a ser seguido. “Todos os crentes, como tais, devem considerar-se modelos ou padrões da vida que se assemelha à de Cristo”.[2]
É relevante fazer uma distinção entre tipo e símbolo. Embora ambos indiquem alguma coisa, diferem em pontos importantes.
·         Símbolo é um sinal;
·         Tipo é um modelo ou imagem de alguma coisa;
·         O símbolo refere-se a alguma coisa do passado, presente ou futuro;
·         O tipo sempre prefigura uma realidade futura.
Podemos resumir esses quatro pontos dizendo que “Um símbolo é um fato que ensina uma verdade moral. O tipo é um fato que ensina uma verdade moral e prediz a realidade daquela verdade” (Davidson, Old Testament Profecy, p. 229).[3]
De certo modo, os tipos do Antigo Testamento foram ao mesmo tempo símbolos (no sentido que comunicavam verdades espirituais aos seus contemporâneos), pois sua significação simbólica podia ser entendida antes de sua significação tipológica ser determinada.



[1] G. R. Osborne, Tipo, Tipologia. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 535.
[2] Ibidem.
[3] Citado por Luis Berkhof em Princípios de Interpretação da Bíblia. 3a ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1985, p. 151.

Enquanto esperava

Josivaldo de França Pereira


O tema desta breve mensagem está baseado em Atos 17.16. Diz o texto bíblico: “Enquanto Paulo os esperava (Silas e Timóteo) em Atenas, o seu espírito se revoltava em face da idolatria dominante na cidade”.
Por causa da perseguição ocorrida em Beréia pelos judeus de Tessalônica, “os irmãos promoveram, sem detença, a partida de Paulo para os lados do mar. Porém Silas e Timóteo continuaram ali. Os responsáveis por Paulo levaram-no até Atenas e regressaram trazendo ordem a Silas e Timóteo para que, o mais depressa possível, fossem ter com ele” (At 17.14,15).
Notemos a espera de Paulo. Ele não ficou ociosa e preguiçosamente no aguardo de Silas e Timóteo. Podia simplesmente usar como desculpa a ausência dos seus companheiros para não trabalhar; contudo, enquanto os esperava, Paulo aproveitou o tempo a fim de se preparar para um encontro formal com os filósofos atenienses. Certamente ele não estava indignado com seus amigos ou desistiu de esperá-los; pelo contrário, o apóstolo os amava e trabalhava esperando por eles.
A ida de Paulo a Atenas aconteceu em caráter emergencial. Pelo menos não há registro de que ele tivesse planejado ir a Atenas depois de Beréia. Contudo, de uma coisa estamos certos: “Paulo não foi a Atenas como turista para visitar os monumentos e artefatos, mas como apóstolo de Jesus Cristo para proclamar a mensagem de salvação”.[1]
O senso de responsabilidade de Paulo o fez agir. Quantas vezes achamos mais fácil esperar estaticamente pelos outros quando nós mesmos poderíamos arregaçar as mangas e ir à luta! Pense nisso.


[1] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 177.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Avivamento e a Bíblia


Josivaldo de França Pereira




A Bíblia é o padrão inerrante, infalível e indispensável de qualquer avivamento.[1] A história e a experiência têm mostrado que a relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um reavivamento de verdade sem que ela faça parte dele. Assim, uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que pode nos dar a direção correta e inequívoca nesse assunto.
Além disso, numa época de tantos extremos como esta em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que veem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até aqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico.[2] É necessário, mais que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho. Os extremos são sempre perigosos e precisam ser evitados.
Permita-me dar um exemplo: Edwin Orr, uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões assim: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona esse fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o mesmo fosse simplesmente uma produção humana com data e hora marcadas.[3] Por isso, é imprescindível que um avivamento seja sempre avaliado pela Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na História da Igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Palavra. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um movimento avivalista convencional.
"Um reavivamento", diz Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa a ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus".[4] Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia.
Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26).[5] O nome Enos quer dizer fraco ou doente, o que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina".[6] À parte dessa indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subsequente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.
Depois temos os patriarcas que, por vários séculos, lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia eles agiam com a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).
No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).
O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (1Sm 7.1-17).
Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2Sm 6.12-23). A dedicação do Templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (1Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (1Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (1Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do Livro da Lei do Senhor, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2Rs 22,23; 2Cr 34,35).
Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do Templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei do Senhor (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31). Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.
No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberem a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia – o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)".[7]
O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na História da Igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI; o “Grande Despertamento” do século XIX; o avivamento entre os Zulus da África do Sul, na década de 1960; e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.
A busca por uma vida de obediência a Deus e à sua Palavra, a santificação do corpo e da alma, bem como a valorização da moral e ética cristãs, são desejadas ansiosamente num avivamento de verdade. Que em sua soberana graça e misericórdia, o Senhor nosso Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador", que purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.
"Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).






[1] Os termos “avivamento”, “reavivamento”, “despertamento” e correlatos são usados aqui no mesmo sentido.
[2] Cf. Frans Leonard Schalkwijk, Aprendendo da história dos avivamentos. In: Fides Reformata. Vol. II, No. 2. São Paulo: JMC, 1997, p. 61.
[3] Citado por Brian H. Edwards em Revival! A people saturad with God. England: Evangelical Press, 1994, p. 25.
[4] Héber C. Campos, Crescimento da igreja: com reforma ou com reavivamento?. In: Fides Reformata. Vol. I, No. 1. São Paulo: JMC, 1996, p. 45.
[5] Robert Coleman, A chegada do avivamento mundial. São Paulo: CPAD, 1996, p. 53.
[6] Ibidem.
[7] Idem, p. 61.

Chamado Missionário

Josivaldo de França Pereira

"Separai-me agora mesmo a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado" (At 13.2).

Duas coisas estão evidentes na declaração de Atos 13.2. A primeira diz respeito aos chamados ou vocacionados pelo Espírito Santo. O Espírito manda separar Barnabé e Saulo. Quem eram Barnabé e Saulo senão a nata da Igreja Primitiva? E o que os diferenciava dos demais de Atos 13.1? Simplesmente o fato de que naquela ocasião Paulo e Barnabé eram os melhores em termos de liderança. A obra que iam realizar exigia líderes experimentados.[1]
A tarefa missionária requer preparo. Por isso, um líder experimentado é sempre a melhor escolha em termos de missões; o que, por si só, deve levar a igreja evangélica brasileira a uma reflexão muito séria, pois não são poucos os erros cometidos nesse particular. Aquilo que o missiólogo ugandense David Zac Niringiye disse em termos da África, com certeza serve também para levar a igreja brasileira a uma análise geral. Ao criticar os Estados Unidos por desafiar jovens estudantes e seminaristas para saírem da América e encararem um campo missionário, sem qualquer experiência pastoral, Niringiye comentou: "Precisamos de líderes mais experimentados no campo missionário. Infelizmente, eu tenho encontrado muitos missionários que necessitam de mais aprendizagem e experiência".[2]
Quanto mais carente for o campo, maior deve ser o preparo do missionário. Muitas vezes nossas igrejas e agências missionárias enviam para o campo aquele candidato que não se saiu muito bem num seminário teológico ou centro de treinamento missionário, ou aquele pastor que ficou sem igreja (porque nenhuma igreja local o quis por ser fraco de púlpito ou algo parecido). Missões não é uma alternativa de trabalho para quem fracassou no ministério! O Espírito Santo é zeloso e exigente. Ele sempre vai pedir o melhor para a obra de Deus.[3] Não que o vocacionado pelo Espírito seja por si mesmo o melhor em termos de capacidade e habilidade naturais, e sim, alguém que o próprio Deus capacita com seu poder e graça (cf. 1Co 15.9,10; 2Co 3.5; Ef 3.7,8). O desenvolvimento da atividade missionária representa um esforço que vai além da capacidade humana.
É interessante notarmos que João Marcos, o primo de Barnabé e autor do Segundo Evangelho, não estava na lista dos chamados pelo Espírito Santo em Atos 13.2. Lembremos que Marcos já havia trabalhado com Paulo e Barnabé anteriormente (At 12.25); tempos depois os acompanhou na primeira viagem missionária (At 13.5), porém, logo desistiu (At 13.13-15), tornando-se o pivô da separação entre Paulo e Barnabé na segunda viagem missionária (At 15.36-41). Tudo indica que Marcos não era o homem certo (pelo menos não até aquele momento) para auxiliar numa tarefa missionária como aquela que Paulo realizaria.  O Espírito Santo não somente conhece o campo missionário, mas também o perfil do missionário certo.
A segunda coisa que observamos na declaração do Espírito Santo em Atos 13.2 é que ele sempre vocaciona para uma missão específica. "Para a obra a que os tenho chamado", diz o texto bíblico. Há tempo que Paulo e Barnabé vinham sendo trabalhados pelo Espírito. Os dois missionários trabalharam juntos algumas vezes (At 9.26-28; 12.25). Paulo, por exemplo, mesmo antes de ir para Antioquia já tinha conhecimento de seu chamado missionário (At 9.6; cf. 22.10-15; 26.15-18). Desse modo, a convocação para a missão em Atos 13 não era o chamado propriamente dito, mas a confirmação de um chamado feito algum tempo atrás. Portanto, a convocação de Paulo e Barnabé, especificamente, não aconteceu na igreja de Antioquia. Atos 13.2 apenas confirmou o que todo mundo, inclusive eles e a igreja de Antioquia, já sabia. Isso está claro no uso que Lucas faz do verbo proskeklémai, imperfeito médio de kaléo (chamar), que indica uma ação ocorrida no passado, mas confirmada no presente. Foi assim que o Espírito Santo confirmou perante a igreja de Antioquia o chamado de Paulo e Barnabé. No Novo Testamento o chamado missionário é sempre confirmado pelo Espírito através da igreja. "Quando o crente é chamado pelo Espírito, o mesmo Espírito o revela à igreja.”[4] Agora, como isso é feito hoje? Como o Espírito Santo nos dias atuais  chama e confirma a vocação missionária de alguém pela igreja?
Muitos de nossos jovens que almejam o ministério parecem  viver  entre  a tensão de um chamado dramático do Espírito, de um lado, e da não necessidade de chamado algum, do outro. Os primeiros querem sonhos e visões, como Paulo os teve; os segundos se contentam em afirmar que a tarefa missionária é responsabilidade de todos nós e por isso nenhum tipo de chamado é exigido.[5] É verdade que a missão, num sentido geral, pertence a todos, porém, existe um chamado específico para uma obra específica. É o caso do apóstolo Paulo, que além de ter uma experiência tremenda no caminho de Damasco, foi dotado de uma perspectiva toda especial de vocação missionária.
Não obstante, a experiência de Paulo não deve ser padrão para todos os chamados. E por que não? Simplesmente porque, apesar do Espírito Santo possuir regras básicas bem definidas de atuação, seus métodos vocacionais são variados e diversificados. O testemunho no interior de alguém pelo Espírito é mais intangível e pessoal, variando de pessoa para pessoa. Carriker observou isso muito bem quando disse que o chamado missionário pode acontecer de várias maneiras, mas sempre em relação aos seguintes fatores: "A convicção cresce através do conhecimento da Bíblia, do reconhecimento do senhorio de Jesus e do testemunho interior do Espírito Santo; e esta convicção pessoal é reconhecida e confirmada publicamente pela igreja.”[6] 
Em suma, o Espírito Santo ensina em Atos 13 que a vocação missionária exige a confirmação da igreja. O que não significa dizer que a obra do Espírito só tem valor se for validada pela igreja; pelo contrário, a ela são dadas a iluminação e graça de apenas reconhecer que o Espírito Santo chamou mais um para a obra de Deus.


[1] Cf. David Zac NIRINGIYE, op. cit., p. 61.
[2]Ibidem. Veja mais sobre a importância do preparo missionário em J. H. BAVINCK, An Introduction to the Science of Missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, p. 98,99; Margaretha N. ADIWARDANA, Missionários: preparando-os para perseverar. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 23-36; William D. Taylor (ed.), Valioso demais para que se perca: um estudo das causas e curas do retorno prematuro de missionários. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1998 (o livro todo é excelente); Howard DUECK e Antônia L. van DER MEER, O preparo psicológico e cultural do missionário. In: BURNS, Bárbara Helen (S. G.). Capacitando para missões transculturais. Revista missiológica da associação de professores de missões no Brasil. São Paulo: APMB, N0 6, 1998, p. 17-45; David HARLEY, Missões: preparando aquele que vai. São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 18-24 e a resenha de Antônia der Meer do livro de Harley, op. cit., p. 65-69.
[3] Cf. Edison QUEIRÓZ, O melhor para missões. 2a ed. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 22-28.
[4] Orlando BOYER, Atos: o evangelho do Espírito Santo. Série Livros Evangélicos. [S.I.], [196-], p. 169.
[5] C. Timóteo CARRIKER, A vocação missionária. In: Missões e a igreja brasileira: a vocação missionária, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 1.
[6] Idem, p. 5. V. t. Oswaldo PRADO, Do chamado ao campo. São Paulo: Sepal, 2000, p. 49-56. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ciúme, Inveja e Cobiça

                                                                                                                     Josivaldo de França Pereira



Ciúme, inveja e cobiça são pensamentos, palavras e atitudes dos desejos e paixões carnais. Esses desejos e paixões, causas dos pensamentos, palavras e atitudes, embebidos pelo ciúme, inveja e cobiça, foram exemplificados nos ensinamentos de Jesus. Disse nosso Senhor no Sermão do Monte: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela” (Mt 5.27,28). O apóstolo João também declarou: “porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo” (1Jo 2.16).
O que são o ciúme, a inveja e a cobiça? Ciúme é o sentimento doloroso causado pela suspeita de infidelidade da pessoa amada; zelos. Angústia provocada por sentimento exacerbado de posse. Inveja é o desgosto ou pesar pelo bem ou felicidade de outrem. Cobiça é o desejo violento de possuir o bem alheio; avidez de bens materiais. Em outras palavras: Ciúme é o medo de perder aquilo que me pertence (ou penso que me pertence) para outra pessoa. Inveja é eu desejar algo igual ou melhor em relação àquilo que o outro tem. Cobiça é eu querer avidamente o que é do outro.
Em suma, no ciúme eu perco, na inveja eu imito e na cobiça eu me aproprio. O que está por traz do ciúme, da inveja e da cobiça? A falta de amor e desconfiança; o egoísmo e a maldade. Em que resultam, muitas vezes, o ciúme, a inveja e a cobiça? O ciúme promove contendas e homicídios, entre os quais se encontram os chamados crimes passionais; a inveja leva às disputas e porfias levianas; a cobiça aos furtos e roubos desalmados.
Se compararmos o ciúme, a inveja e a cobiça com os dez mandamentos, podemos dizer que o ciúme está relacionado ao sexto mandamento (“Não matarás”); a inveja ao nono (“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”) e a cobiça aos mandamentos sétimo (“Não adulterarás”), oitavo (“Não furtarás”) e, evidentemente, ao décimo mandamento (“Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo”). O salmista orou: “Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça” (Sl 119.36).
Há três Provérbios de Salomão que cabem perfeitamente aqui: “Porque o ciúme excita o furor do marido; e não terá compaixão no dia da vingança” (Pv 6.34); “O ânimo sereno é a vida do corpo, mas a inveja é a podridão dos ossos” (Pv 14.30); “O cobiçoso cobiça todo o dia, mas o justo dá e nada retém” (Pv 21.26). Há outros três pensamentos que também vem a calhar: “O ciúme é, dentre todas as doenças do espírito, aquela à qual mais coisas servem de alimentos, e, nenhuma de remédios” (Michael Montaigne); “A inveja é um atestado de inferioridade a serviço da superioridade do invejado; estigma psicológico de humilhante inferioridade, sentida, reconhecida” (José Ingenieros); “Não cobices o que te não é lícito possuir; não queiras o que te pode causar embaraço e privar da liberdade interior” (Thomas à Kempis).
Conquanto, via de regra, o ciúme, a inveja e a cobiça estejam associados aos desejos e paixões de nossa natureza humana decaída, seria possível, mesmo assim, falarmos de um ciúme, inveja ou cobiça saudáveis? Parece que sim. Existem dois tipos de ciúmes: o ciúme doentio que desconfia de tudo e de todos, cheio de furor, ódio e vingança enlouquecida e o ciúme do bem que pode ser exemplificado pelo zelo na proteção da pessoa amada. Alguém disse que as pessoas casadas que não sentem ciúmes com a intrusão de um amante ou um adúltero em seu lar, certamente tem falta de percepção moral, pois a exclusividade é a essência do casamento (cf. Nm 5.11-31). O ciúme do bem é retrato principalmente na pessoa de Deus. A Bíblia fala de Deus como ciumento. J. I. Packer, em seu excelente livro “O Conhecimento de Deus”, traz um capítulo precioso denominado “O Deus Ciumento”. Vale muito a pena ler.
A inveja também tem seu lado bom. Há uma máxima árabe que diz: “Há dois tipos de inveja: a boa e a condenável. A boa consiste em, quando encontrares alguém superior a ti, desejares ser como ele; a condenável consiste em desejar a sua queda”. O mesmo deve ser dito em relação à cobiça. E tudo pode ser resumido na seguinte proposição: o que não visa o prejuízo do meu semelhante, nem o meu mesmo, e nem entristece o Espírito Santo de Deus que em mim habita, é do bem.