quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Paulo

Josivaldo de França Pereira


O “divisor de águas” na vida de Paulo foi o seu encontro com Jesus no caminho de Damasco. A vida do apóstolo, portanto, pode ser dividida em antes e depois de sua conversão.

1. Seu passado

Antes da sua conversão, Paulo era um judeu comprometido e zeloso com suas tradições. O orgulho de Paulo com a sua herança judaica (Rm 3.1,2; 9.1-5; 2Co 2.22; Gl 1.13,14 e Fp 3.4-6) o levou a perseguir a comunidade cristã (Gl 1.13; Fp 3.6; 1Co 15.8; cf. At 8.1-3; 9.1-30).

Desde seu nascimento, por volta de 30 A.D., até seu aparecimento em Jerusalém como perseguidor dos cristãos, há pouca informação sobre a vida de Paulo. Sabe-se pelo testemunho dele mesmo que era da tribo de Benjamim e zeloso membro do partido dos fariseus (Rm 11.1; Fp 3.5; At 23.6). Era cidadão romano (At 16.37; 21.39; 22.25-28). Nasceu em Tarso, um centro grego de cultura e intelectualidade, cidade universitária localizada na Cilícia, nas proximidades da costa nordeste do Mar Mediterrâneo, ao norte de Chipre.

Alguns eruditos supõem que Paulo se tornou familiarizado com diversas filosofias gregas e cultos religiosos durante sua juventude em Tarso.[1] Entretanto, Atos 22.3 parece indicar que Paulo apenas nasceu em Tarso e foi educado em Jerusalém. “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados, sendo zeloso para com Deus, assim como todos vós o sois no dia de hoje”.[2]

Quando jovem, Paulo recebeu autoridade oficial para dirigir uma perseguição contra os cristãos, na qualidade de membro de uma sinagoga ou concílio do Sinédrio, conforme ele mesmo descreve em Atos 26.10 (“e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu voto, quando os matavam”) e Atos 26.12 (“Com estes intuitos, parti para Damasco, levando autorização dos principais sacerdotes e por eles comissionado”).

À luz da educação e preeminência precoce de Paulo (cf. At 7.58; Gl 1.14), supomos que sua família desfrutava de alguma posição político-social. O acesso do sobrinho de Paulo entre os líderes de Jerusalém (At 23.16,20) parece favorecer essa hipótese.

2. Sua conversão

Apesar de não existir evidências bíblicas de que Paulo conheceu Jesus durante seu ministério terreno, seus parentes crentes (cf. Rm 16.7) e sua experiência com o martírio de Estevão (At 8.1) devem ter produzido algum impacto nele. A pergunta, e principalmente, a afirmação de Cristo ressurreto, conforme registrada em Atos 26.14, dá a entender isso. “E, caindo todos nós por terra,” discursa Paulo perante o rei Agripa, “ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões”. A experiência de conversão de Paulo provocou uma revisão radical no seu estilo de vida e na sua visão do mundo. Passou de principal perseguidor a principal protagonista do movimento cristão primitivo; de "zeloso pelas tradições dos nossos pais" a "apóstolo dos gentios”.

Ainda sobre a conversão de Paulo, Carriker faz-nos uma breve, mas não menos importante observação. Diz ele:

A conversão de Paulo não era resultado de grandes sentimentos de culpa pelo pecado, como tipificado na tradição luterana. Alguns (como K. Stendhal) até preferem falar dum "chamamento" em vez de conversão, e observam que Paulo mesmo prefere esse primeiro termo. Dizem que Paulo não "mudou de religião", de judeu para cristão, mas que permaneceu judeu, qualificando sua fé como a de um judeu cristão.[3]

Apesar desta observação, o próprio Carriker admite que ainda prefere usar o termo conversão “para descrever o encontro de Paulo com Jesus, pois obviamente ele revisou radicalmente sua percepção sobre Jesus. Embora ele não tenha abandonado todos os elementos do judaísmo, alguns pontos fundamentais foram completamente reformulados”.[4] Segundo Carriker:

Mesmo que Paulo tenha reformulado radicalmente muitos dos seus conceitos judaicos, ainda mantinha muitas convicções em comum, mesmo em termos da sua missão. Por exemplo:

a. Paulo aceitou as Escrituras Hebraicas como a Palavra revelada de Deus, e constantemente elaborou sua perspectiva em diálogo com as Escrituras, usando técnicas rabinas adquiridas do judaísmo.

b. Na elaboração da sua eclesiologia, Paulo retinha um papel especial para Israel, embora sempre mantivesse o acesso dos gentios à salvação também.

c. Empregou temas do uso corrente da pregação missionária judaica na sua pregação missionária e na sua estimação do mundo gentílico.[5]

Vale lembrar, ainda, que os três relatos da conversão de Paulo (Atos 9, 22 e 26) são importantes, não somente pelo significado da sua conversão propriamente dita, mas também pela importância de se entender a pessoa de Paulo acerca de sua união com Cristo e de seu ministério entre os gentios.

3. Seu ministério

A partir do encontro com Jesus no caminho de Damasco, Paulo passaria de perseguidor a perseguido; de causador de sofrimentos a sofredor.

O Senhor resumiria, ao relutante Ananias, o árduo ministério de Paulo nestes termos: “Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome” (At 9.15, 16).

À parte de um intervalo no deserto da Transjordânia, Paulo passou os três primeiros anos de seu ministério pregando em Damasco (At 9.19; Gl 1.17). Pressionado pelos judeus de Damasco, o apóstolo fugiu para Jerusalém, onde Barnabé o apresentou aos irmãos duvidosos de sua conversão (At 9.26-28). Seu ministério em Jerusalém dificilmente durou duas semanas, pois novamente os judeus procuravam matá-lo (At 9.29). Para evitá-los, Paulo retornou à cidade de seu nascimento (At 9.30), passando ali um "período de silêncio" por cerca de dez anos. Certamente esse período é silencioso apenas para nós, pois Barnabé, ouvindo falar de sua obra e relembrando seu primeiro encontro com o apóstolo, solicitou a este que fosse para Antioquia da Síria ajudá-lo numa florescente missão entre os gentios (At 11.19-26). De Antioquia, Paulo e Barnabé foram enviados para socorrer os irmãos pobres da Judéia (At 11.29,30). Os dois permaneceriam juntos até a primeira das três viagens missionárias do apóstolo.



[1] Cf. E. E. Ellis, Paulo. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1217.

[2] Ibidem.

[3] Timóteo Carriker, Missão Integral: Uma teologia bíblica. São Paulo: Editora Sepal, 1992, p. 226.

[4] Ibidem.

[5] Idem, p. 223,24.

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