quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A perspectiva missionária do pentecostes

Josivaldo de França Pereira


O Pentecostes é o ponto alto da sequência de eventos relacionados à morte, ressurreição e ascensão de Jesus. É por isso que para Lucas o Pentecostes possui um significado prático e dinâmico, traduzido em termos de nascimento e missão da igreja neotestamentária.

Lucas apresenta o Pentecostes como o início da missão mundial da Igreja, visto que igreja e missão são partes inseparáveis na mente do Espírito. Por isso, a implementação do programa de Atos 1.8 dependia do Pentecostes. Aqueles que testificaram os efeitos do derramamento do Espírito Santo e ouviram o evangelho pregado por Pedro, representavam "todas as nações debaixo do céu" (At 2.5). A lista de Lucas inclui um vasto panorama das nações do Mediterrâneo oriental (cf. At 2.9-11).

O caráter missiológico de Atos 2 é facilmente percebido pela importância que Lucas dá ao Pentecostes. O Pentecostes está no começo de um novo livro escrito por ele e não no final de sua primeira obra. Não seria exagero dizer que pela posição do Pentecostes em Atos, Lucas atribui a ele um valor e importância semelhantes ao nascimento de Cristo no início de seu Evangelho, ou mesmo a algo como o relato da criação no início de Gênesis. Concordamos com Kistemaker quando diz: "Depois da obra da criação de Deus e a encarnação do Filho de Deus, a descida do Espírito Santo no Pentecostes é o terceiro maior ato divino.”[1]

Línguas

Não é preciso especular se as línguas faladas em Atos 2 eram dos homens ou dos anjos. Lucas deixa claro que os "galileus"[2] (no caso os apóstolos e outros que estavam na casa) de Atos 2.7 falavam as línguas das nações presentes naquela festa (At 2.6-11).

Quanto à natureza, propósito e conteúdo das línguas faladas em Atos 2 é importante observar que "a história ensina que línguas humanas inteligíveis são significativas, não as línguas ininteligíveis como as frequentemente encontradas na glossolalia moderna ou como as que usualmente pensa-se ter sido faladas em Corinto"[3]. O propósito principal dos dons do Espírito concedidos à igreja era a missão, e não especificamente a edificação particular da igreja ou dos seus membros individuais.[4]

É provável que o conteúdo das línguas em Atos 2.4 consistisse da mensagem profética da justiça e graça de Deus a todos os povos, línguas e nações, conforme sugere Pedro em Atos 2.14-41.

Vale lembrar que enquanto no Antigo Testamento Moisés (Dt 28.49) e Isaías (Is 28.11) profetizaram a deportação de Israel e Judá por um povo de língua estranha (o que aconteceu no ano 722 a.C. com o cativeiro assírio e em 587 a.C. com o cativeiro babilônico, respectivamente), em Atos 2 as línguas eram sinais evidentes da bênção de Deus para todas as famílias da terra. Enquanto em Babel (Gn 11.1-9) houve confusão e divisão, em Jerusalém foi proclamada uma só mensagem em muitas línguas. A mensagem da unidade e universalidade em Cristo Jesus.

Vento e fogo

Qual o significado do som como de vento impetuoso e línguas como de fogo em Atos 2? O vento simboliza o Espírito Santo (cf. Jo 3.8). O som do vento denota poder celestial e seu aparecimento repentino revela a inauguração de algo sobrenatural.

O fogo era o cumprimento da descrição de João Batista do poder de Jesus: "Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11; Lc 3.16). No Antigo Testamento o fogo é frequentemente um símbolo da presença de Deus para indicar santidade, juízo e graça (cf. Ex 3.2-5; 1Rs 18.38; 2Rs 2.11). Em Atos 2 o fogo se dividiu em línguas de fogo que pousaram sobre cada um dos crentes presentes na casa. Em decorrência disso eles falaram em outras línguas.

Notemos que Lucas tem o cuidado de observar que não foram simplesmente vento e fogo que invadiram a casa, mas sim o Espírito Santo como vento e fogo. Essa foi a maneira que Lucas encontrou para dizer que o que aconteceu naquele dia não tinha nada a ver com fenômenos meramente naturais.[5]



[1] Simon J. KISTEMAKER, New Testament Commentary: Exposition of the Acts of the Apostles. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, p. 91.

[2] Um estudo interessante do termo "galileus" em Atos 2.7 pode ser encontrado em C. S. Mann, Pentecost in Acts. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., 1967, p. 271-275.

[3] I. H. MARSHALL, The Significance of Pentecost. In: Torrance, T. F. & Reid J. K. S. (eds.). Scottish Journal Theology. Scottish Academic Press, N0 4, 1977, p. 357.

[4] MARSHALL, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, p. 50. Veja também Paul E. PIERSON, Atos que contam. Londrina: Descoberta Editora, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180.

[5] Veja mais em meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Descoberta, 2002, p. 101-118.

Um comentário:

  1. ♥ A Esperança e a Desesperança

    Há dias em nossas vidas que temos a impressão de que chegamos no fim do caminho. Olhamos para frente e não vemos nem uma saída. Não há uma luz no fim do túnel e não há também nem uma possibilidade de voltar. Parece que todos os nossos projetos, objetivos foram levados para bem distante. Estamos sem condições de torná-los realidade, de alcançá-los. Parece mesmo que o outono da nossa existência fez com que secasse as nossas esperanças, e o vento forte do inverno veio para varrer das nossas mãos todos os nossos sonhos acalentados. A morte vem e arrebata os afetos de nossa alma, deixando-nos o coração dilacerado. Sentimo-nos perdidos, não sabemos que rumo tomar. Ficamos atônitos, sem nem uma ação ou reação. Sentimo-nos como árvore ressecada, sem folhas, sem brilho, sem vontade de viver. É a desesperança.

    De repente, como acontece com a natureza, a primavera vem e muda toda a paisagem. As árvores secas enchem-se de frutos verdes e logo estão cobertas de folhas e flores. O tom acinzentado cede lugar às cores vivas e tonalidades mil. É a esperança. Os entes queridos que nos antecederam na viagem de retorno à pátria espiritual, um dia estarão novamente juntos aos nossos corações saudosos., num abraço de carinho e afeição. Tudo na natureza volta a sorrir. A relva verde fica bordada de flores, de variadas matizes. As borboletas bailam no ar. Os pássaros nos brindam com suas sinfonias harmoniosas. Tudo é vida.

    Assim ,quando a chama da esperança reascende em nosso íntimo, os nossos sonhos, desfeitos, são substituídos por outros anseios, outros desejos. Nossos objetivos se modificam, e o entusiasmo nos invade a alma.

    Jesus, o sublime Galileu, falou-nos de esperança no Sermão da Montanha, com o suave canto das Bem-Aventuranças. Exemplificou-nos os seus ditos e feitos. Enfim, toda a sua mensagem é de esperança. Por isso alimente os seus sonhos, com a esperança de um mundo feito de pessoas como você.

    Aproveite, viva a vida com intensidade, respeitando o espaço de cada uma das pessoas que se fazem presentes na face da Terra. Se a desesperança cercar-se de nós, vamos lembrar o amigo dos céus: "Meu fardo é leve e meu julgo é suave". Pois bem, se o fardo é leve, por que não o conduzimos e se o seu julgo é suave, por que não o aceitamos? Vamos levar a vida adiante, acreditando, especialmente, naquela força maior que nos deu vida, Deus, independente de qual seja o nome que você dê a ele. Saibamos aproveitar com sabedoria qualquer momento que a nós é oferecido, momento como esse que estamos vivendo, pra dizer quem sabe um... eu te amo!

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