segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

TE...KAI: A simultaneidade da missão

"... e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra" (At 1.8).

Josivaldo de França Pereira


A missão da igreja consiste em percorrer o mundo todo para pregar o evangelho a toda criatura (cf. Mc 16.15). Em Atos 1.8 Jesus especifica a missão global da igreja dizendo que ela deveria testemunhar "... tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra".

A expressão “tanto...como” de Atos 1.8 é formada, no grego, pela partícula enclítica te mais a conjunção kai. Em grego te...kai equivale em português ao nosso advérbio comparativo de igualdade e sugere, em Atos 1.8, simultaneidade de trabalho; isto é, Jesus não estava dizendo simplesmente que a sua igreja precisaria escolher uma dessas áreas geográficas (Jerusalém, Judéia, Samaria, etc.) para trabalhar, ou que devesse começar por uma região de cada vez. Pelo contrário, a ideia bíblica do termo aqui é: atuar ao mesmo tempo em todos os lugares da terra.

É verdade que em Lucas 24.47 Jesus disse aos discípulos “que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém”, contudo, a ideia aqui não é de exclusividade regional mas de ponto de partida para um trabalho (cf. Is 2.3; Mq 4.2). Jerusalém era o local onde os discípulos precisavam estar até que do alto fossem revestidos de poder (Lc 24.49).

Lamentavelmente, hoje em dia não são poucos os crentes equivocados quanto à compreensão da ordem do Mestre. Quantas vezes já não ouvimos indagações mais ou menos assim: "Por que mandar ou sustentar missionários no estrangeiro se temos tanto o que fazer no Brasil?". Como sabemos, a maioria dos que pensam assim não está preocupada com a obra missionária nem mesmo em seu próprio país. Jesus ordena que o trabalho missionário da igreja seja te...kai, isto é, temos que evangelizar lá sem esquecer de cá e vice-versa.

Nem todos os estudiosos concordam com a ideia de simultaneidade de Atos 1.8. Júlio Paulo Tavares Zabatiero, por exemplo, entende que "a expressão grega te kai, em Lucas, significa simplesmente 'e' (Lc 23.12; At 1.1; 4.27; 5.24; 21.30)".[1] Pela fraseologia de Zabatiero e as referências citadas, tudo indica que ele está seguindo o Léxico do NT Grego/Português de F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker do qual ele foi o tradutor. Para Gingrich e Danker te kai “frequentemente significa simplesmente e" (p. 204). Entretanto, "frequentemente" não significa "sempre". Além disso, na relação das referências de Atos, onde te kai poderia possivelmente ser traduzido como "e", Gingrich e Danker não mencionam Atos 1.8. E essa omissão não aparece somente na tradução de Zabatiero, que até justificaria por ser um resumo de A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (uma tradução revista e comentada da 5ª edição da obra alemã de Walter Bauer), porém, nem mesmo nessa volumosa obra (900 páginas!) Atos 1.8 é citado para provar tal argumento. Será que os autores, sem mais nem menos, simplesmente esqueceram de incluir na lista deles uma das principais passagens de Atos? Acredito que não.



[1] ZABATIERO, “Poder e testemunho - missões em Atos 1 e 2”. In: CARRIKER, C. Timóteo (Ed.). Missões e a igreja brasileira: perspectivas teológicas, Vol. III. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 83

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