quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Considerações gerais acerca do Reino de Deus

Josivaldo de França Pereira

A ideia de reino de Deus está presente em toda a Bíblia. No entanto, a expressão como tal aparece somente no Novo Testamento. A expressão "reino de Deus" ocorre 4 vezes em Mateus, 14 vezes em Marcos, 31 vezes em Lucas, 2 vezes em João, 6 vezes em Atos, 8 vezes em Paulo e 1 vez no Apocalipse. "Reino dos céus" aparece somente em Mateus (31 vezes). "Reino de Deus" e "reino dos céus" são variações linguísticas da mesma ideia (cf. Mt 19.23,24).[1] Mateus, que escreveu para os judeus, preferia usar a expressão idiomática semítica, enquanto que os demais escritores do NT, a forma grega theós (Deus). Os judeus, por respeito e temor, normalmente usavam um termo apropriado no lugar do nome de Deus (cf. Mt 21.25).
O reino de Deus também é o reino de Cristo. Jesus fala do reino do Filho do homem (Mt 13.41; 16.28); de "meu reino" (Lc 22.30; Jo 18.36). Paulo fala do "reino do Filho" (Cl 1.13) e "seu reino celestial" (2Tm 4.18). Pedro menciona a "entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 1.11). Deus confiou o reino a Cristo (Lc 22.29), e quando o Filho tiver completado o seu governo, entregará o reino ao Pai (1Co 15.24). Por isso, é o "reino de Cristo e de Deus" (Ef 5.5). "O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo" (Ap 11.15). Não existe nenhuma tensão entre "o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo" (Ap 12.10).
Quando se compara João com os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), percebe-se algo interessante. Nos sinóticos o tema dominante é o reino de Deus, cuja expressão aparece somente 2 vezes em João (3.3,5),[2] enquanto que vida ou vida eterna é um conceito menos usado. Num estudo cuidadoso de Reino nos sinóticos e de Vida em João, descobre-se que "ambos pertencem à mesma categoria teológica, e são sinônimos".[3] De acordo com C. K. Barret, vida eterna em João "substitui o reino de Deus dos evangelhos sinóticos".[4] Portanto, quando Jesus fala de ver ou entrar no reino de Deus, é o mesmo que ter vida eterna ou ser salvo (cf. Jo 3.16,17). O reino de Deus é o âmbito em que seu domínio é reconhecido e obedecido, e no qual prevalece sua graça.[5]
A menos que alguém nasça de novo, não pode sequer chegar a ver o reino de Deus; isto é, não pode experimentá-lo e participar dele; não pode possuí-lo e desfrutá-lo (cf. Lc 2.26; 9.27; Jo 8.51; At 2.27; Ap 18.7). Antes que alguém possa ver esse reino, antes que alguém possa entrar nesse reino, e antes que alguém possa ter vida eterna em qualquer sentido, é necessário nascer de novo.


[1] Cf. G. E. Ladd, Reino de Cristo, de Deus, dos Céus. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, Vol. III, 1990, p. 262.
[2] Não estamos considerando as três vezes em que a palavra "reino" aparece isoladamente em João 18.36.
[3] Cf. Júlio Paulo Tavares Zabatiero, Vida. In: O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, Vol. IV, 1983, p. 758. Um exemplo de que as expressões reino de Deus e vida eterna são equivalentes pode ser encontrado em Marcos, onde "entrar na vida" (Mc 9.43,45) é o mesmo que "entrar no reino de Deus" (Mc 9.47).
[4] Ibidem.
[5] Cf. G. Hendriksen, Comentario del Nuevo Testamento: El Evangelio Según San Juan. Grand Rapids: SLC, 1987, p. 143.

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