sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Ele será chamado Nazareno"

Josivaldo de França Pereira


Mateus é um dos evangelistas que mais relacionam os primeiros anos de Jesus com as Escrituras. Em Mateus 1.23 ele cita Isaías 7.14. Em Mateus 2.6 ele cita Miquéias 5.2. Em 2.15 cita Oséias 11.1 e em 2.17,18, Jeremias 31.15. Contudo, quando trata da volta do Egito, Mateus declara: “E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno” (Mt 2.23).

O problema é que não temos no Antigo Testamento nenhuma citação direta ou indireta sobre a cidade de Nazaré ou de que Jesus seria chamado “Nazareno”. Quando Natanael disse a Filipe: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?” (Jo 1.46), não o fez por causa de ignorância bíblica, mas porque não há nenhuma profecia veterotestamentária que relacione o Messias à cidade de Nazaré. Diferente do que ocorre em João 7.52 (cf. Is 9.1,2; Mt 4.15,16). Mesmo o famoso historiador judeu Flávio Josefo, ao enumerar quarenta e cinco cidades da Galileia, não menciona Nazaré.[1] A ARA e a NVI apontam para Isaías 11.1, porém, em tal passagem não temos nada que lembre Mateus 2.23.

Por que Mateus disse, então, que José “foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele (Jesus) será chamado Nazareno”? A melhor resposta que encontrei para Mateus 2.23 foi a de R. V. G. Tasker. Diz ele:

A citação ele será chamado Nazareno, anotada pelo evangelista no verso 23 como cumprida no fato de Jesus residir em Nazaré, há muito é considerada um enigma, pois tais palavras simplesmente não existem no Antigo Testamento. Mas o fato de que o evangelista introduz a afirmação como tendo sido dito por intermédio dos profetas pode ser uma indicação de que ele não estava querendo fazer uma citação verbal exata, mas sim apontar em termos gerais que ela estava inteiramente de acordo com o que os profetas haviam predito, que Jesus deveria vir a ser conhecido como “Jesus de Nazaré”.

Tal designação dele foi no início um termo de escárnio e desprezo (ver João 1.46). Aliás, Isaías tinha profetizado que o Sevo do Senhor seria desprezado pelos homens. Parte do “cumprimento”, portanto, desta e de outras passagens do Antigo Testamento, está no desprezo por Jesus demonstrado pelas autoridades religiosas de Israel por causa das associações dele com o que consideravam sua origem provincial.

Esta foi a explicação da passagem dada por Jerônimo e provavelmente esteja correta. Alguns eruditos entendem que o evangelista está jogando com a semelhança verbal entre a palavra Nazõraios, traduzida nazareno, e a palavra hebraica nêzer, que significa “ramo”, e também que passagens como Isaías 11.1 e Jeremias 23.5 estavam na sua mente; mas tal pensamento parece algo irrelevante no presente contexto. Outros têm defendido uma associação verbal semelhante a esta entre as palavras Nazõraios e Naziraios (nazireu). Isto parece menos provável, uma vez que Jesus não era nazireu.[2]

A fórmula de citação de Mateus 2.23 difere da que aparece, por exemplo, em Mateus 1.22; 2.15,17. Mateus 2.23 parece sugerir que um tema profético, e não uma predição específica, estava na mente do escritor sagrado.[3]



[1] Citado por R. N. Champlin. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo. Vol. 1. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 283.

[2] R. V. G. Tasker. Mateus: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1985, p. 35, 36. Itálicos do autor.

[3] Cf. A. F. Walls. Nazareno. In: O Novo Dicionário da Bíblia. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 1101.

4 comentários:

  1. Um abraço ao senhor que tem postado assuntos muito bons. Parabéns mesmo.
    Só gostaria de salientar que neste em questão, não me pareceu tão convincente tais argumentos para se desvendar a "idéia" de Mateus.
    Que Deus continue abençoando o senhor.
    Se quiser me dar uma dica é só mandar.
    Um abrço de
    anferje@yahoo.com.br

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  2. Obrigado querido anferje por seu comentário. Penso que a opinião de Tasker sobre o referido texto, se não está totalmente correta, é a que mais se aproxima da verdade. Como ele mesmo diz no começo, a citação de Mateus "há muito é considerada um enígma". Quanto a de Walls, convida-nos a uma boa reflexão.
    Um forte abraço.

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  3. Norman Geisler & Thomas Howe:
    "Mateus não disse que algum "profeta" (no singular) do AT tenha afirmado isso. Ele simplesmente afirmou que "profetas" (no plural) que viveram no AT predisseram que Jesus seria chamado Nazareno. Dessa forma, não há por que acharmos que devemos encontrar um versículo nesse sentido;

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  4. "Mateus 2.23 parece sugerir que um tema profético, e não uma predição específica, estava na mente do escritor sagrado".

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