quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O significado de "nascer da água e do Espírito" de João 3.5

Josivaldo de França Pereira


O que significa nascer da água e do Espírito? A expressão nascer da água e do Espírito tem sido interpretada de várias maneiras. As diferentes opiniões acontecem, basicamente, em torno da expressão "nascer da água". As principais interpretações referem-se 1) à palavra de Deus (A. W. Pink, Matthew Henry, entre outros); 2) ao batismo com água (W. Hendriksen, R. C. H. Lenski, entre outros); 3) à operação purificadora do Espírito Santo (J. Calvino, J. I. Packer, entre outros). Estou convencido de que a terceira interpretação é a correta. O argumento de Calvino sobre essa passagem é digno de consideração. Diz ele que:

(...) depois de Jesus Cristo expor a Nicodemos a corrupção de nossa natureza, e dizer-lhe que é preciso que sejamos regenerados, como Nicodemos imaginava um segundo nascimento corporal, Cristo lhe mostra de que maneira Deus nos regenera; a saber, em água e em Espírito; como se dissesse: Pelo Espírito, o qual purificando e regando as almas faz o ofício da água. Desse modo é que eu tomo a água e o Espírito simplesmente pelo Espírito, que é água. Esta maneira de falar não é nova, visto que está de acordo com a que se encontra em Mateus, onde João Batista diz: 'O que vem após mim vos batizará com Espírito Santo e com fogo' (Mt 3.11). Portanto, como batizar com Espírito Santo e com fogo é dar o Espírito Santo, o qual tem a natureza e a propriedade do fogo para regenerar aos fiéis, da mesma forma nascer da água e do Espírito não quer dizer outra coisa senão receber a virtude do Espírito Santo, que faz na alma o mesmo que a água no corpo.

Sei que outros interpretam esta passagem de outra maneira; mas eu não tenho dúvida de que este é o sentido próprio e natural da mesma, uma vez que a intenção de Cristo não é outra que advertir-nos sobre a necessidade de nos despojarmos de nossa própria natureza se queremos entrar no reino de Deus. (...) ninguém pode entrar no reino de Deus até ser regenerado com a água viva; isto é, com o Espírito.[1]

Packer, seguindo o pensamento de Calvino, afirma que em João 3.5 a palavra água "não se refere a nada externo que seja complementar à obra interior do Espírito nem ao batismo de João nem ao batismo cristão nem às águas do nascimento natural, como algumas pessoas têm suposto, mas, sim, ao aspecto purificador da renovação interior como tal, da maneira como é retratada em Ezequiel 36.25-27".[2] Diz ele, ainda, que o fato de não se mencionar a água no versículo 6 de João 3 é uma evidência de que no verso 5 a água é apenas "uma ilustração de um aspecto da ação renovadora do Espírito". [3]

Concluímos, portanto, que assim como não há diferença entre ver o reino de Deus e entrar nele; nenhuma distinção entre ver a vida (Jo 3.36) e entrar nela (Mt 19.17; Mc 9.43,45), também não existe qualquer diferença entre nascer da água e do Espírito. Ou seja, “longe de se referir a dois nascimentos, significa apenas um (o fato de que ambos os substantivos [água e Espírito] são regidos por apenas uma preposição [no grego] certamente favorece esse ponto de vista). Isto torna os versículos 3, 5, 6b e 7 (de João 3) afirmações paralelas”.[4]



[1] João Calvino, Institución de la Religión Cristiana. Vol. II. 3ª ed. Países Bajos: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1986, IV, xvi, 25. Em seu Comentário de João, Calvino trata desse assunto ainda com mais detalhes. Consulte Calvin's Commentaries: The Gospel According to St John 1-10. Grand Rapids: Eerdmans, 1961, p. 64,65.

[2] J. I. Packer, Na dinâmica do Espírito. São Paulo: Vida Nova, 1991, p. 64.

[3] Idem, p. 64,65.

[4] D. A. Carson, Os perigos da interpretação bíblica. 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 40.

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