terça-feira, 1 de março de 2011

Sr. Nakamura entrevistado

Por Josivaldo de França Pereira


Há quanto tempo o senhor está no Brasil e por quais razões o senhor veio para cá?

Estou aqui há 42 anos. A princípio não tinha intenção de morar no Brasil. Vim a passeio visitar um tio, sócio de uma instituição financeira. Conheci minha esposa, que é brasileira, e aqui fiquei.

Antes de conhecer o Brasil qual era a expectativa do senhor em relação à cultura brasileira?

A única ideia que eu tinha do Brasil era a de um grande continente verde, pois era assim que víamos o Brasil nos filmes e documentários.

Quais foram as principais dificuldades encontradas no Brasil?

Hoje eu já não tenho dificuldade, mas o domínio da língua foi meu grande desafio. Em dois anos morando aqui eu aprendi o português.

Quais foram seus principais choques culturais no Brasil?

Foram basicamente quatro choques culturais. 1) O choque climático. O Japão é um país frio e aqui o clima é tropical. 2) O choque da alimentação. A comida japonesa é totalmente diferente da comida brasileira. 3) O choque da disciplina. O excesso de liberdade no Brasil é muito grande, chegando muitas vezes à libertinagem. O japonês respeita os mais velhos. É um povo ordeiro e disciplinado. Os filhos respeitam os pais. Com pessoas de classe média alta não tive dificuldade, mas com as da classe baixa tive dificuldade em me relacionar. Os japoneses agricultores que vieram para cá não tiveram tanto problema com a classe baixa brasileira. 4) O choque geográfico. O Brasil é imenso. O Japão cabe na cidade de São Paulo. Apenas 20% do solo japonês são cultiváveis. Quando visitava o Japão e falava de um rio na Amazônia com 92km de extensão eles me chamavam de mentiroso.

A partir de quando o senhor se sentiu brasileiro, por assim dizer?

Desde que me casei em maio de 62 com uma brasileira. Dois anos depois que cheguei aqui. Eu me naturalizei brasileiro em 1964.

O que há de semelhante e diferente (além da língua e características físicas) entre o povo brasileiro e o povo japonês?

O povo brasileiro e o japonês são totalmente diferentes. O povo japonês é mais frio. O brasileiro é mais alegre. O japonês não é receptivo como o brasileiro. O japonês é criado para não depender de ninguém. São duas culturas totalmente diferentes.

Diga-me há quanto tempo o senhor é evangélico e como foi a sua conversão.

Eu me casei com uma evangélica. Sou evangélico desde 1975. Sou de origem budista e por isso demorei para aceitar o evangelho.

Como é ser cristão na cultura japonesa?

No Japão é difícil. Há muita pressão. O uso de bebida, fumo e a frequência aos bordéis são comuns no Japão. Mas antes dos 20 anos de idade é proibido beber e fumar.

O que é ser um japonês evangélico no Brasil?

Sou o único japonês presbiteriano na minha região. Fui bem aceito pela igreja brasileira. Fui diácono e atualmente sou presbítero. Sou prestigiado e respeitado pela igreja.

O senhor tem notícias do Japão?

Frequentemente vou ao Japão. Eu tenho um filho que mora lá. Todos os meus parentes estão lá. Hoje mesmo conversei com minha irmã por telefone. Ela estava toda feliz porque nosso pai, que era engenheiro civil, foi homenageado na Ilha Formosa por causa de uma ponte que ele construiu em Formosa há muitos anos.

Como está o Japão em termos de evangelho?

Apesar de ter evangélicos no Japão, a evangelização ainda é muito precária por lá. O evangelho é muito fraco no Japão. Há mais ou menos 150, 200 anos Marco Pólo passou pelo Japão, época em que foi difundido o cristianismo em Hiroshima e Nagasaki. Hoje existe uma forte influência católica nessas duas cidades. Por volta de 200 anos atrás, muitos cristãos foram perseguidos por causa de sua fé.

O senhor pretende um dia retornar ao seu país de origem? Por quê?

Não pretendo retornar porque já estou enraizado aqui. No Japão eu me formei em ciências econômicas. Tenho quatro diplomas universitários no Japão. Mas agora eu tenho mais tempo de Brasil do que de Japão. São 42 anos no Brasil e 28 no Japão. Sou mais brasileiro que japonês, por assim dizer.

Qual a sua opinião sobre o Brasil, politicamente falando?

A lei brasileira é ótima. Mas os governantes e os brasileiros em geral não têm amor à pátria. Na maioria dos países morre-se pela pátria. O brasileiro não. Se fosse patriota o governo seria bem melhor. Não haveria tanta corrupção. A lei é boa, mas o povo não a segue. De certo modo eu gosto da desordem do povo brasileiro, mas essa desordem acaba atrasando o desenvolvimento do país. Aqui tem mais riqueza que nos Estados Unidos. É só aproveitar bem o que temos aqui.

Como o senhor vê a igreja evangélica brasileira?

Em termos de evangelização o Brasil ainda é o melhor país do mundo. O evangelho no Brasil está em ascensão. Ainda se mantém a pureza doutrinária. Aqui a gente aprende muita coisa que dá para transmitir a outros países. O Brasil não fica atrás quanto ao ministro evangélico. Um pastor presbiteriano, por exemplo, que fez o seminário não deixa nada a desejar, doutrinariamente falando, a qualquer pastor do mundo. Aqui é ótimo, ótimo.

Há mais alguma coisa que o senhor gostaria de acrescentar nesta entrevista?

Gostaria de dizer que o Brasil é um país maravilhoso. Adoro o Brasil. É a minha segunda pátria. Aqui tem de tudo. O povo não é sofrido como o japonês. O brasileiro é ao mesmo tempo manso e indomável. É muito difícil compreender o brasileiro. Mas é um povo adorável. Dou graças a Deus por estar no Brasil apesar da violência. A grande maioria do povo é de gente boa. Tenho grande admiração pelo Brasil e pelos brasileiros.

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Esta entrevista foi realizada em 2003. O nome do entrevistado está modificado.

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