quarta-feira, 11 de maio de 2011

Memórias de um ex-aluno da escola pública

Josivaldo de França Pereira


Penso que ainda estou novo para o saudosismo, porém, quando eu me lembro do meu tempo de escola, é muito difícil não sentir saudades. Iniciei minha formação acadêmica na escola pública quando a ditadura militar completava dez anos no Brasil – 1974. E concluí meus estudos exatamente no último ano do regime militar – 1985. Nessa época não sabíamos o que era a ditadura militar. Ninguém dizia nada, e eu mesmo não me recordo de ter visto sequer um policial dentro da escola. Nem no portão. Só me lembro que na televisão, antes de qualquer programa, aparecia um documento escrito: “censura livre”, ou “proibido para menores" de tal idade.
Vivi boa parte da minha infância na rua, sem jamais abandonar a escola. Jogava bola com meus amigos, soltava pipa, corria em carrinho de rolimãs, enfim, participava de tudo que uma criança tinha direito. Era um tempo em que havia muitos terrenos baldios e a gente brincava tranquilamente, com muito espaço e sem medo da violência que temos hoje. Quê saudade da minha infância! Só não tenho saudade das surras do meu pai...
Mesmo vivendo no período da ditadura, tive uma infância normal e feliz. Não por causa da ditadura, mas apesar dela. O militarismo no Brasil foi uma época sombria, de perseguições políticas e atrocidades. Particularmente sou contra a anistia dada aos militares torturadores e assassinos desse período. Muitas mães estão, com razão, à espera de respostas. Contudo, justiça seja feita, nem tudo no regime militar foi ruim. Um bom exemplo disso era a educação pública.  
O meu primeiro grau foi feito na EEPG “Matilde Macedo Soares”, na Zona Norte da cidade de São Paulo. (Ainda me lembro do meu primeiro dia de aula, da minha primeira professora e da fisionomia e nome de alguns colegas). O primeiro grau dividia-se em Primário e Ginasial. Da 1ª a 4ª séries chamava-se “Primário” (o “Pré-Primário” [o ano que antecedia a primeira série] era opcional, não fiz); da 5ª a 8ª séries chamava-se “Ginasial”. Hoje seriam “Fundamental I” e “II”, respectivamente. Agora o pré-primário é obrigatório e o antigo primeiro grau vai até o 9º ano. Meu segundo grau, que eram os três anos que formavam o “Colegial”, antigo “Ensino Médio”, foi feito na EEPSG “Padre Manuel da Nóbrega”, mais conhecida como “Matão”, também na Zona Norte de São Paulo. Só não terminei o colegial em 1984 porque reprovei a 2ª série do primeiro grau. Naquele tempo havia recuperação no meio e final do ano, mas se o aluno não estudasse para valer e não recuperasse a nota, reprovava mesmo. Uma vez por ano tinha um tal de “provão” para avaliar todos os alunos da 5ª a 8ª séries. Era bem puxado.
A escola de ontem foi melhor que a de hoje por uma série de razões. Uma delas é que, já na primeira série, a gente aprendia a ler e escrever. Hoje as crianças passam de ano sem ler e escrever. Muitos estão chegando ao Ensino Médio como analfabetos funcionais, ou até pior, porque não apenas não entendem o que leem como escrevem e leem muito mal. No meu tempo, para ingressar no colegial era preciso passar no “vestibulinho”, numa prova de interpretação de texto. Lembro como se fosse hoje: “Uma vela para Dario” foi meu texto de avaliação. No colegial havia também o Magistério, um ano a mais para quem quisesse ser professor do primário. Hoje é preciso ter Pedagogia, e mesmo assim, nossas crianças não têm garantias de que aprenderão a ler e escrever nos primeiros anos.
Outra coisa que destacamos é que, no meu tempo, havia “castigo” para a criança arteira ou que não fizesse o que a professora mandasse. As punições variavam entre escrever no caderno ou na lousa várias vezes uma palavra ou frase, ou permanecer num canto, de pé para a parede. Nada que se comparasse aos extremos da era vitoriana dos meus pais e avós, em que palmatória e ficar ajoelhado nos grãos de milho eram comuns. Minha mãe apanhou literalmente para escrever apenas com a mão direita. Hoje ela faz tudo com a mão esquerda, menos escrever.
No meu tempo de estudante os docentes eram respeitados. Levantávamos das carteiras (antigas cadeiras) quando a diretora entrava na sala de aula. Hoje, o que não faltam são alunos batendo boca com os diretores. Naquele tempo raramente um professor era agredido verbalmente por um aluno. Hoje, o professor é agredido fisicamente e, em alguns casos, morto. Antes a professora chamava a nossa atenção quando ouvia um cochicho no fundo da sala. Hoje, se o professor ouvir apenas um cochicho deve dar graças a Deus. Manter a ordem da classe tem sido um desafio. A primeira vez que entrei numa sala de aula como professor pensei: “Nossa, como as coisas mudaram”. Eles não paravam de falar.
Na época do regime militar os professores faziam greves e paralisações que duravam meses. Sabia disso? E olha que o salário não era tão ruim assim. Hoje, em pleno regime democrático, os professores ainda apanham na rua, têm a greve julgada ilegal em poucos dias e precisam retornar logo ao trabalho para não terem os dias descontados. Hoje, mesmo num regime democrático, o professor é proibido de dar entrevista. Eu não estou exagerando. E por que o professor não pode falar? Por que vivemos a ditadura em pleno regime democrático? Há um ditado popular que diz: “Quem não deve não teme”. Como o governo deve aos professores salário digno, plano de carreira e boa condição de trabalho e à sociedade uma escola de qualidade, ele teme. E isso não é tudo, segundo informações de uma associação de São Paulo, o governo paga para os veículos de comunicação não divulgarem as paralisações e até para falarem mal dos professores. Uma expressão muito comum em dia de paralisação é: “Estão atrapalhando o trânsito!”. Por que os órgãos de imprensa, que muitas vezes abraçam causas de pouco interesse público, não promovem uma revolução pela educação? Todo político, jornalista, etc. só são o que são porque um dia alguém os ensinou a ler e escrever. Não existe país desenvolvido sem educação de qualidade!
Por que a qualidade do ensino público caiu tanto, apesar de vivermos numa democracia? Quem foi professor ou estudante no período militar é unânime em dizer que o ensino, comparado aos dias de hoje, era muito melhor. Dizem até que a escola pública superava a particular. Então, por que o regime democrático não manteve a mesma qualidade de ensino? Eis algumas razões: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O ECA foi criado originalmente em 1990, por ordem da Constituição Federal de 1988, para proteger a criança e o adolescente dos maus tratos dos pais ou responsáveis. Depois foi adotado pela escola. Até aí tudo bem. O problema é que as crianças e adolescentes passaram a ter, na prática, muitos direitos e poucos deveres. O professor, por sua vez, foi esvaziado de sua autoridade. Hoje não se pode pôr uma criança ou adolescente de castigo; a direção não pode punir mesmo no caso das piores agressões e, reprovar um aluno, só se ele faltar bastante, ainda assim, se ele recorrer junto à Diretoria de Ensino ganha a causa. Na verdade, o aluno ganha qualquer causa contra a escola ou professor. E, de novo, eu não estou exagerando. É assim mesmo.
Uma outra coisa que tem contribuído para a baixa qualidade do ensino está na política educacional do governo. Mais especificamente, na política de aprovação automática. Com o argumento de que a reprovação favorece a evasão escolar, o governo quer que o aluno seja aprovado a qualquer custo. Mas sabemos que isso tudo tem a ver com a política internacional. O governo deixa de receber subsídios se a criança ou adolescente não estiver na sala de aula. Nesse caso a qualidade de ensino e remuneração dos professores não é o mais importante. Importante mesmo é que a escola não esteja vazia. O resultado disso é que os alunos estão chegando ao Ensino Médio sem saber ler e escrever direito. Como conseguirão encarar de igual para igual um vestibular, fazer uma boa faculdade e competir no mercado de trabalho se os professores são desmotivados e mal remunerados? Mesmo assim, a gente nunca ouviu falar em corrupção e desvio de dinheiro por parte dos professores. Enquanto isso, entre os políticos...
Quero concluir dizendo que a ditadura militar, no geral, não foi uma boa coisa, todavia, no que concerne ao ensino público, ela não foi ruim. O regime democrático é bom, porém, em se tratando da escola pública, ele está deixando a desejar. Minha esperança é que um dia possamos viver a democracia tão sonhada, a começar pela educação em nosso país. As nossas crianças e adolescentes de hoje merecem uma escola pública melhor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário