segunda-feira, 2 de maio de 2011

O Espírito Santo e o Intérprete da Bíblia

Josivaldo de França Pereira


Desde os tempos bíblicos Deus levantou profetas e intérpretes da lei que conduzissem seu povo segundo os princípios estabelecidos em sua Palavra. No capítulo 8 do livro de Neemias vemos vários servos de Deus que, juntamente com os levitas, "ensinavam o povo na lei" (v7). E mais: "Leram no Livro, na lei de Deus, claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia" (v8).

No capítulo 8 de Atos nos deparamos com a clássica passagem de Filipe e o eunuco. O alto oficial de Candace, rainha dos etíopes, estava lendo o livro do profeta Isaías. Até certo ponto podemos admitir que ele entendia o que estava lendo. Compreendia que o profeta falava de grandes padecimentos e extrema humilhação que um servo do Senhor teria sofrido ou iria sofrer. Faltava-lhe, no entanto, entender o essencial para a clareza da profecia: a respeito de quê servo o profeta se referia. Falava de si mesmo ou de algum outro? "Então Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe Jesus" (v35).

E não poderíamos nos esquecer do Senhor Jesus, quando no caminho de Emaús diz a dois de seus discípulos: "Porventura não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras" (Lc 24.26,27).

Contudo, a atuação do Espírito Santo em capacitar os intérpretes da Bíblia, não se limitou a eles. Deus tem levantado nos dias de hoje homens e mulheres, verdadeiros mestres e doutores da exposição bíblica, para orientar e dirigir a sua igreja. Todavia, o “direito” de interpretação das Escrituras não se limita apenas aos mestres e doutores. O mesmo Espírito capacita gente simples também que, por conta própria, consegue entender e explicar o que lê com muita propriedade e coerência. Não foi o descobrimento dessa verdade que levou os reformadores a traduzirem a Bíblia na linguagem do povo? Particularmente tenho sido enriquecido em meu ministério pastoral por irmãos e irmãs que, mesmo sem uma formação acadêmico-teológica, lançam luz sobre passagens bíblicas como eu não havia pensado antes, sendo eles, muitas vezes, originais em seus conceitos; porém, não quero dizer com isso que o alvo da boa interpretação seja a originalidade, ou que o crente comum deva desprezar os recursos da hermenêutica.

O alvo da boa interpretação é que o intérprete chegue ao "sentido claro do texto"[1] com “imparcialidade, juntamente com um desejo maior de fidelidade do que de originalidade na interpretação das Escrituras”.[2] Para isso, é necessário que ele se aproprie dos auxílios internos da própria Bíblia (a fim de interpretar corretamente o pensamento de Deus, mediante os autores secundários) e dos auxílios externos disponíveis para a interpretação gramatical do texto bíblico, tais como: gramáticas, dicionários, concordâncias, léxicos, analíticos, Bíblias de Estudo e comentários bíblicos.[3]

Não se pode negar de forma alguma que todo intérprete, quer seja da Bíblia, quer seja da vida de um modo geral, é fruto de sua época, influenciado por todos os fatores e ditames do seu tempo. No que se refere à Bíblia, em especial, milhares de anos e circunstâncias culturais separam o intérprete das Escrituras Sagradas. O Espírito Santo sabe e compreende essas diferenças. Dá ao intérprete a liberdade de se aproximar da Palavra de Deus com os seus pressupostos, embora não lhe dê o direito de fazer com que a Bíblia diga o que ele gostaria que ela dissesse. Segundo Padilla, "O esforço para deixar que as Escrituras falem, sem impor-lhes uma interpretação elaborada de antemão, é uma tarefa hermenêutica obrigatória de todo intérprete, seja qual for sua cultura".[4] A Bíblia é a voz do Espírito ao povo de Deus. E somente direcionado pelo Espírito, mediante a Palavra, é que o intérprete se tornará profeta e portador fiel da mensagem do Espírito Santo de Deus para a sua época.



[1] Cf. Gordon D. Fee e Douglas Stuart, Entendes o que lês?. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 14.

[2] D. A. Carson, Os perigos da interpretação bíblica. 2a ed. São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 92.

[3] É bom que os comentários ocupem, de preferência, o último lugar em nossas pesquisas, visto que um comentário é uma opinião e não a última palavra de um autor.

[4] René Padilla, A Palavra interpretada: Reflexões sobre hermenêutica contextualizada, 1980, p. 6. Obra não publicada.

Um comentário:

  1. Seria bom se muitos de nossos irmãos em Cristo se conscientizassem das verdades, ora, elucidadas acima. Pena que muitos desdenhem a obra do Espírito Santo e a importância de examinarmos as Escrituras a fim de podermos entender o seu real significado. Deus te abençoe e te ilumine cada vez mais concedendo, dia após dia, sabedoria do Alto para expor as verdades singulares do Evangelho.

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