terça-feira, 28 de junho de 2011

Sobre dons espirituais e a soberania de Deus


Josivaldo de França Pereira

 
As palavras “dons” e “espirituais”, separadamente, aparecem muitas vezes no Novo Testamento. A expressão “dons espirituais” ocorre apenas três vezes, e sempre na Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios (12.1; 14.1,12). A relação entre “dons espirituais” e “soberania de Deus” está bem clara em 1Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas cousas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (cf. Hb 2.4). Há, pelo menos, três grupos de entendimento acerca dos dons espirituais que gostaríamos de observar, ainda que brevemente, à luz da soberania de Deus. São eles: os cessacionistas, os normativistas e os contemporanistas.
Os Cessacionistas
Como o próprio nome diz, os cessacionistas são os que afirmam que os dons espirituais descritos por Paulo em 1Coríntios 12; 13.8 e 14 terminaram, ficando restritos à era apostólica. Esse posicionamento é, geralmente, defendido pelas chamadas igrejas históricas. Contudo, ele não encontra guarida em todos os seus líderes. O próprio Ashbel Green Simonton, pai do presbiterianismo no Brasil, disse em seu Diário: “Mais do que qualquer coisa, preciso do batismo do Espírito Santo”.[1]
Algumas questões relevantes também são levantadas, como por exemplo: Se Deus é soberano – conforme dizem corretamente as igrejas históricas de origem reformada e calvinista – como podemos afirmar categoricamente que dons cessaram? Considerando que os dons espirituais foram necessários para a realização da obra evangelística e missionária da igreja apostólica, estaríamos nós em defasagem, de acordo com o entendimento cessacionista?
Os Normativistas
Os normativistas pendem para o outro lado. Eles entendem, ao contrário dos cessacionistas, que a norma ou regra dos tempos bíblicos para os dons espirituais tem que ser a mesma para os dias de hoje. Afirmam que se Jesus é o mesmo ontem, hoje e sempre, então todos os dons também devem ser em gênero, número e grau. A posição normativista é comum entre os neopentecostais, pois costumam se dirigir a Deus em oração como se ele fosse obrigado a fazer o que e como eles querem.
Parece que a soberania de Deus não é muito levada a sério pelos normativistas, o que é lamentável. A Bíblia ensina que os dons são dados pelo Espírito Santo conforme lhe apraz. Deus é soberano. Ele concede a cada um como, quando e quanto quer dos seus dons espirituais para servirmos “uns aos outros” (1Pe 4.10). “O Espírito exerce sua prerrogativa para determinar e distribuir dons individuais aos crentes, mesmo que o cristão tenha o privilégio de pedi-los em oração. O Espírito de Deus sabe do que a igreja precisa, e assim distribui dons de modo sábio e efetivo”.[2]
Os Contemporanistas
Os contemporanistas, aparentemente, evitam os extremos dos cessacionistas e normativistas. Eles entendem que, uma vez que Deus é soberano, ele pode fazer tudo o que bem quiser, de modo geral, e igualmente com seus dons, em especial. “Quem somos nós”, dizem os contemporanistas, “para afirmar que dons cessaram?”. Na verdade, o Novo Testamento não menciona nenhum tempo específico da História em que os dons individuais cessarão. Em 1Coríntios 13.8 Paulo declara, por exemplo, que as profecias, línguas e ciência desaparecerão, mas ele não revela quando isso acontecerá.[3]
É preciso ser sensível ao Espírito Santo de Deus hoje, porque, certamente, o nosso Deus ainda fala e pode querer nos surpreender com os seus grandes e poderosos feitos. Martin Lloyd-Jones fez duas importantes anotações que podem ser perfeitamente aplicadas aqui: “Gritos, animação exagerada e bater palmas não são sinais de elevada espiritualidade”.[4] E: “O formalismo é sempre o maior inimigo do poder, da vida e da liberdade do Espírito”.[5]


[1] Ashbel G. Simonton. Diário: 1852-1867. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1982, p. 167,68.
[2] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 591.
[3] Idem, p. 652.
[4] D. M. Lloyd-Jones, O combate cristão: exposição sobre efésios 6.10-13. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 238.
[5] Idem, p. 253.

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