domingo, 3 de julho de 2011

Acerca da ordem cronológica dos livros do Novo Testamento

Josivaldo de França Pereira


Os 27 livros do Novo Testamento, conforme se encontram em nossas Bíblias, não seguem, em sua maioria, a ordem cronológica da composição original. A maior parte das epístolas foi escrita antes mesmo dos Evangelhos. Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos a ser escrito e João o último. Mateus ocupa o primeiro lugar em nossas Bíblias porque, como foi destinado especialmente aos judeus, faz a transição natural do Antigo para o Novo Testamento com a genealogia de Jesus.
Contudo, uma vez que as nossas Bíblias não seguem a ordem cronológica da formação do Novo Testamento, por que o Evangelho de Lucas não vem logo após o de João, ficando ao lado de Atos, que também foi escrito por Lucas? É que Mateus, Marcos e Lucas são livros “sinóticos”, isto é, tratados com um foco semelhante ou mesma visão em relação a Cristo. O Evangelho de João é mais místico; enfatiza a divindade de Jesus. Os outros o fazem, mas não com a mesma intensidade de João.
As cartas também não seguem uma ordem cronológica. As epístolas paulinas, por exemplo, foram organizadas diferentemente da cronologia original. A primeira epístola de Paulo foi Gálatas, segundo alguns[1], ou 1Tessalonicenses, segundo outros[2]; finalizando com as pastorais.[3] A sequência adotada em nossas Bíblias para as epístolas paulinas segue a ordem decrescente; da maior para a menor em número de capítulos. Começa com a epístola aos Romanos (dezesseis capítulos) e termina com Filemon (um capítulo).[4] Além disso, a carta aos Romanos serve como transição natural de Atos para as epístolas paulinas. O livro de Atos termina com a prisão de Paulo em Roma.
A carta aos Hebreus vem logo após as epístolas reconhecidamente de Paulo. Como não se tem certeza da autoria da epístola aos Hebreus, e alguns a atribuem a Paulo, ela foi deixada onde a conhecemos atualmente. Há também, em nossas Bíblias, uma ordem decrescente nas epístolas gerais[5], porém, em duas etapas distintas, ou seja, de Hebreus[6] às cartas de Pedro; das epístolas de João a Judas.
O livro do Apocalipse está, cronologicamente, no lugar certo. Ele não apenas trata do fim dos tempos como foi o último livro da Bíblia a ser escrito.
Por volta do ano 100 da Era Cristã o Novo Testamento estava completo, ou substancialmente completo, sendo que a maioria dos livros já existia de 20 a 40 anos antes dessa data. A lista mais antiga dos livros do Novo Testamento apareceu em 367 d. C. numa carta de Atanásio, bispo de Alexandria. A ordem era: Evangelhos, Atos, epístolas gerais, epístolas paulinas e Apocalipse. O cânon do Novo Testamento foi oficialmente reconhecido como escritura sagrada no Concílio de Cartago em 397. Esse concílio decretou que nada devia ser lido na Igreja com o nome de Novo Testamento, a não ser os nossos 27 livros canônicos.[7]


Bibliografia selecionada:

BRUCE, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? Série Clássicos Vida Nova. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990.
CULLMANN, Oscar. A formação do Novo Testamento. 7ª ed. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 3a ed. São Paulo: Vida Nova, 1985.
METZGER, Bruce M. The canon of the New Testament: Its origin, development and significance. Oxford: Clarendon Press, 1997.
TENNEY, Merrill C., O Novo Testamento: sua origem e análise. São Paulo: Shedd Publicações, 2008.




[1] Este é o ponto de vista adotado pela maioria dos estudiosos que, segundo os quais, a epístola aos Gálatas foi escrita antes do Concílio de Jerusalém de Atos 15. Contudo, outros atribuem a ela uma data posterior, poucos anos mais tarde.
[2] Cf. Oscar Cullmann, A formação do Novo Testamento. 8ª ed. Revisada. São Leopoldo: Sinodal, 2003, p. 41.
[3] Para uma ordem cronológica completa das epístolas paulinas com suas respectivas datas, consulte F. F. Bruce, Merece confiança o Novo Testamento? Série Clássicos Vida Nova. 2ª ed. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 20.
[4] Com exceção apenas das epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito) que interrompem a sequência antes da carta a Filemom.
[5] Epístolas gerais: Genericamente falando, são as epístolas que não foram escritas por Paulo.
[6] A epístola aos Hebreus é geral normalmente para quem não aceita a autoria paulina dela.
[7] Quanto ao critério para um livro do Novo Testamento fazer parte do cânon sagrado, veja a postagem abaixo.

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