sexta-feira, 1 de julho de 2011

Algumas considerações sobre os Salmos 10 e 13


Josivaldo de França Pereira


Ao destacarmos alguns versículos dos referidos salmos, nos deparamos com declarações impressionantes, como por exemplo: “Por que, SENHOR, te conservas tão longe? E te escondes nas horas de tribulação?” (10.1). Não sabemos ao certo de quem é este salmo. Ele está no meio de outros salmos de Davi. É provável que o Salmo 10 também seja dele. O verso primeiro lembra, além de Davi, de salmos dos filhos de Coré e Asafe quando, do mesmo modo, questionaram a Deus com várias perguntas (Sl 22.1; 42.9; 43.2; 44.23,24; 74.1,11; 80.12; 88.14). Jó também indagou a Deus com alguns porquês (Jó 7.20,21; 10.2,18; 13.24). É errado um crente fazer o que Davi e outros servos de Deus fizeram? Pecamos contra Deus quando o questionamos acerca do por que disso ou daquilo? Há quem diga que quando passamos por problemas, para os quais não temos respostas definidas, que ao invés de perguntar a Deus “por quê?”, deveríamos dizer “para quê?”, visto que a expressão “para quê” indica propósito, pois nada nos acontece por acaso. Conquanto “para quê” seja uma forma interessante de “interrogar” a Deus, não existe base bíblica para afirmarmos que seja errado dizer “por quê?” ao Senhor.
No entanto, a questão principal é a maneira como a pergunta deve ser feita. Se indagarmos a Deus com indignação, irreverência e incredulidade no coração seremos blasfemos, pecando contra o Senhor. As perguntas do Salmo 10.1 expressam amor e temor de quem verdadeiramente conhece a Deus. Isso fica claro quando lemos o verso 13: “Por que razão despreza o ímpio a Deus, dizendo no seu íntimo que Deus não se importa?”. O “por que” do salmista não é de quem despreza a Deus no coração como o ímpio o faz. É por isso que o Salmo 10 termina com uma confissão de fé magistral: “Tens ouvido, SENHOR, o desejo dos humildes; tu lhes fortalecerás o coração e lhes acudirás, para fazeres justiça ao órfão e ao oprimido, a fim de que o homem, que é da terra, já não infunda terror” (vv17, 18).
 Semelhante ao Salmo 10 é o 13, também com muitas indagações de Davi ao Senhor. “Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim o rosto? Até quando estarei eu relutando dentro em minha alma, com tristeza no coração cada dia? Até quando se erguerá contra mim o meu inimigo?” (Sl 13.1,2). Enquanto no Salmo 10 o salmista procura saber de Deus as razões e motivos das suas tribulações, no Salmo 13 as perguntas são em relação ao tempo, isto é, a hora do término de suas tribulações. Enquanto escrevo estas palavras, recordo que Theodoro de Beza, o primeiro biógrafo de Calvino, relatou que em várias ocasiões o reformador perguntou a Deus quando seria o fim de todos os seus sofrimentos. Note que, igualmente ao Salmo 10, as indagações do Salmo 13 também não são levianas. O salmista é reverente para com Deus o tempo todo. Suas perguntas não partem de um coração incrédulo e desesperançoso, mas de alguém que tem em Deus seu alto refúgio. Não são perguntas vazias de fé, nem de uma fé vazia. São indagações de uma fé racional e inquiridora. De alguém que, como Davi, não tem medo de pensar, questionar e acreditar que de Deus obtemos as melhores respostas.  E assim, o cantor de Israel pôde concluir seu salmo: “No tocante a mim, confio na tua graça; regozije-se o meu coração na tua salvação. Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem” (Sl 13.5,6).

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