domingo, 3 de julho de 2011

O Cânon Sagrado: Considerações Gerais


Josivaldo de França Pereira


O processo por meio do qual os livros da Bíblia foram reunidos, e seu valor reconhecido pela Igreja Cristã como Escritura Sagrada, é denominado de "História do Cânon". Etimologicamente, o termo cânon é o empréstimo semítico de uma palavra que, originalmente, significava "junco", que passou a significar "vara de medir" e, por conseguinte, "regra", "padrão" ou "norma". Depois recebeu o sentido meramente formal de "lista" ou "tabela".
Na Igreja Primitiva, durante os três primeiros séculos, o vocábulo cânon era utilizado para se referir ao conteúdo normativo doutrinário e ético da fé cristã. Por volta do século IV passou a designar a lista de livros que constituem o Antigo e o Novo Testamentos. É esse último sentido que predomina até os nossos dias. A palavra cânon é sinônimo de "coleção completa e definitiva" dos 66 livros que formam a Bíblia Sagrada, nossa única regra de fé e prática.[1] Da palavra "cânon" deriva-se canônico (verdadeiro, inspirado), em oposição a apócrifo (falso, espúrio).[2]

O Antigo Testamento

Deus escolheu o povo de Israel para ser o colecionador e guardião dos diversos livros que, através de quinze séculos, formariam o Antigo Testamento. Por volta de 400 anos antes de Cristo o AT estava completamente concluído.
A Bíblia Hebraica, ou Texto Massorético, como também ficou conhecida, possui 24 livros. Isso não significa que tenha menos livros que a nossa. A única diferença está na ordem que os mesmos são colocados. A ordem da Bíblia Hebraica é a seguinte:
1)     A Lei: - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio;
2)     Os Profetas: - Profetas Anteriores:
Josué, Juízes, Samuel (1 e 2) e Reis (1 e 2);
Profetas Posteriores:
a)     Os Maiores: Isaías, Jeremias e Ezequiel;
b)     Os Doze (os Profetas Menores segundo a ordem que se encontra em nossa Bíblia);
3) Os Escritos: - Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras e Crônicas (1 e 2).[3]
Note que na Bíblia Hebraica 1o e 2o Samuel formam um só livro. Do mesmo modo 1o e 2o Reis e 1o e 2o Crônicas. Os doze Profetas Menores foram considerados um único livro e Esdras e Neemias, idem.
Nos rolos ou papiros do Mar Morto (designação popularmente dada aos manuscritos descobertos em jarros de barro dentro de várias cavernas [e num mosteiro não muito distante] de 1947 a 1965, no lado oeste do Mar Morto, em Qumran, na Palestina), temos confirmações importantes da autenticidade escriturística do Antigo Testamento, como nós o conhecemos hoje. Schultz comenta: "Nos rolos da comunidade de Qumran, que foi dispersa pouco antes da destruição de Jerusalém, em 70 d.C., figura cada livro do Antigo Testamento, com exceção de Ester. As evidências extraídas dessas descobertas recentes têm confirmado o ponto de vista de que o texto hebraico, preservado pelos massoretas, foi transmitido sem alterações sérias desde o primeiro século a.C.".[4]
A lista mais antiga das Escrituras canônicas do Antigo Testamento que se tem conhecimento é de 170 d. C., feita por um estudioso cristão chamado Melito de Sardes.

O Novo Testamento

"Embora o cânon do AT tivesse sido formalmente encerrado, a vinda de Cristo o reabriria em certo sentido. Deus estava falando de novo. Visto que a cruz era o ato redentor central de Deus na história, o NT tornou-se uma necessidade lógica. Desta maneira, a voz dos apóstolos e, mais tarde, os seus escritos, foram aceitos como comentário divino sobre o evento de Cristo".[5]
O surto de heresias no século II e o surgimento de literatura paralela ao Novo Testamento, foram impulsos poderosos em direção à formação de um cânon definitivo do NT. E qual seria o critério para se reconhecer um Livro inspirado e incluí-lo no cânon? Foi necessário um processo de triagem em que as Escrituras válidas se distinguiram da literatura cristã em geral. Alguns critérios para admissão foram: 1) a autoria apostólica, 2) a recepção pelas igrejas e 3) a consistência da doutrina com aquilo que a Igreja já possuía.
Dentre os três critérios citados, "a autoria apostólica" era o principal. Praticamente, o que determinou a canonicidade dos livros que compõem o Novo Testamento foi o teste da apostolicidade. O Espírito Santo conduziu a Igreja Primitiva nesse assunto. Várias epístolas foram escritas por homens bons e bem intencionados, nas quais eles tinham dito coisas maravilhosas acerca de Cristo e da vida cristã. Mas não foram incluídas no cânon justamente por serem reprovadas no teste da apostolicidade.[6] Segundo Martyn Lloyd-Jones, "As únicas coisas incluídas foram as que haviam sido escritas pelos próprios apóstolos, pelos seus discípulos ou por aqueles que foram influenciados por eles”. [7] “Este é um princípio verdadeiramente vital e essencial", diz Jones.[8]



[1] Para um estudo abrangente sobre a história do cânon na língua portuguesa, consulte N. H. Ridderbos, Cânon do Antigo Testamento. In: O Novo Dicionário da Bíblia, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 246-255; J. N. Birdsall, Cânon do Novo Testamento. In: O Novo Dicionário da Bíblia, p. 255-261; W. Kerr, O cânon do Antigo Testamento. São Paulo: Imprensa Metodista, 1952, p. 73-89; D. A. Carson, et al., O cânon do Novo Testamento. In: Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 541-556. Para quem lê inglês recomendo ainda: David G. Dunbar, The Biblical Canon. In: Hermeneutics, Authority and Canon. Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1986, p. 295-360; R. Laird Harris, Inspiration and Canonicity of the Scriptures. Greenville: A Press, 1995, p. 123-284; Bruce M. Metzger, The canon of the New Testament: Its origin, development and significance. Oxford: Clarendon Press, 1997, p. 289-293.
[2] Uma análise sucinta mas muito proveitosa dos livros apócrifos à luz da Bíblia encontra-se em H. E. Alexander, Introdução à Bíblia. São Paulo: Casa da Bíblia, S/d, p. 127-134.
[3] Jesus se referiu a esta divisão da Bíblia em Mateus 23.35. Nessa passagem ele diz que todos os profetas de Deus que foram mortos desde o primeiro livro da Bíblia (Gênesis) até o último (Crônicas, o último livro da Bíblia até então) seriam vingados.
[4] Samuel J. Schultz, A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 2,3.
[5] R. H. Mounce, Bíblia. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 172.
[6] Cf. Martyn Lloyd-Jones, Autoridade: De Jesus Cristo, das Escrituras, do Espírito Santo. Queluz: Núcleo, 1978, p. 71-78.
[7] Idem, p. 72.
[8] Ibidem.

Nenhum comentário:

Postar um comentário