sábado, 23 de julho de 2011

Teólogo liberal não é evangélico

Josivaldo de França Pereira


O teólogo liberal não é um evangélico porque ele nega as verdades fundamentais da fé cristã, como por exemplo: a inspiração e inerrância das Escrituras, o nascimento virginal e a divindade de Cristo, os milagres bíblicos, etc. Entretanto, isso não significa que tudo que é escrito e ensinado por um teólogo liberal deve ser, necessariamente, rejeitado.
A editora Vida Nova publicou os excelentes livros de William Barclay intitulados As Obras da Carne e o Fruto do Espírito e Palavras Chaves do Novo Testamento, mas com a seguinte ressalva: “A publicação destas belas obras de William Barclay não significa que endossamos a teologia dele. O Prof. Barclay não era evangélico, uma vez que negava a inspiração plenária das Escrituras, a divindade de Jesus Cristo e a condenação eterna dos ímpios, entre outras doutrinas fundamentais”.[1] E ainda: “Cremos que seria um grave erro concluir que a divulgação de suas valiosas pesquisas sobre termos gregos, visando uma compreensão maior do Novo Testamento, também inclui o nosso apoio às posições anticristãs que ele abraçava”.[2]
No entanto, via de regra, o teólogo liberal é adepto de um conceito extremamente enganoso. Para Kuyper, muito mais do que mera discordância teórica e cientifica no campo da cristologia, por exemplo, o liberalismo é uma decisiva ameaça existencial ao cristianismo.[3] Segundo Pierard, “O liberalismo teológico teve sua origem na Alemanha, onde convergiram várias correntes teológicas e filosóficas no século XIX. O pensamento alemão teve um impacto profundo sobre a teologia britânica e norte-americana, mas movimentos autóctones nos dois lugares, a tradição da Igreja Ampla na Inglaterra e o Unitarismo nos Estados Unidos, moldaram de modo significativo o desenvolvimento do liberalismo ali”.[4] J. G. Machen definia a teologia dos liberais como “Não o cristianismo, de modo algum, mas uma religião tão inteiramente diferente do cristianismo que pertence a uma categoria separada”.[5]
Há esperança de salvação em Cristo para um teólogo liberal? É claro que sim. Desde que ele se arrependa de seus pecados e pela fé receba a Jesus, o Cristo ressurreto, como Senhor e Salvador de sua vida, será salvo. Um exemplo clássico é o do já citado teólogo holandês Abraham Kuyper (1837-1920). Kuyper foi um destacado estudante da Universidade de Leyden que abraçou o liberalismo e as opiniões teológicas mais recentes. Durante seu primeiro pastorado em Beesd ele passou por uma conversão evangélica. Influenciado pela piedade dos seus paroquianos, Kuyper começou de novo seu estudo de teologia, inspirando-se na tradição calvinista holandesa.
Berkouwer relembra que Kuyper, já octogenário, ainda evocava diante dos alunos da Universidade Livre de Amsterdã sua “petulância espiritual”, causa de seus deslizes passados. “Em Leyden eu me achava”, dizia Kuyper, “entre os que aplaudiram calorosa e ruidosamente quando Rauwenhoff, nosso professor, manifestou sua ruptura total com a fé na ressurreição de Cristo”. Acrescentava, porém: “Hoje a minha alma treme por causa da desonra que outrora infligi a meu Salvador”.[6]


[1] Nota dos editores das referidas obras.
[2] Idem.
[3] Cf. G. C. Berkouwer, A Pessoa de Cristo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Juerp/Aste, 1983, p. 10.
[4] R. V. Pierard, Liberalismo Teológico. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Vol. II. São Paulo: Vida Nova, 1990, p. 426. O artigo todo é excelente.
[5] Citado por Pierard, op. cit., p. 428.
[6] Cf. G. C. Berkouwer, op. cit., p. 10.



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