quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por que os apóstolos não foram dispersos em Atos 8.1?

Josivaldo de França Pereira


Lucas relata: “... Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria” (At 8.1). Essa foi a primeira grande perseguição contra a igreja do Senhor Jesus. Mas por que os apóstolos, que eram líderes da igreja em Jerusalém, não foram igualmente perseguidos e dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria?
Esta pergunta é facilmente respondida se retrocedermos um pouco no texto de Atos 8.1. Comecemos por Atos 6.1: “Ora, naqueles dias, multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus, porque as viúvas deles estavam sendo esquecidas na distribuição diária”. Os “helenistas” aqui não eram os “gentios”. Os gentios romanos somente seriam incluídos na igreja a partir de Atos 10, com a ida de Pedro à casa do centurião Cornélio, e os gentios gregos incluídos em Atos 11.20,21 e nas missões de Paulo a partir de Atos 13. Os helenistas de Atos 6.1 eram judeus cristãos de fala grega. Os chamados hebreus eram judeus cristãos que falavam o aramaico. Portanto, os termos helenistas e hebreus em Atos 6.1 não tratam de judeus e gentios, mas de dois grupos entre os judeus.
A solução para o problema de Atos 6.1 foi imediata: “Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir as mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia” (At 6.2-5). Pelos nomes (todos gregos), percebe-se que os escolhidos para servir às mesas eram helenistas, ou seja, judeus cristãos de fala grega. Dentre eles, Estêvão se destacou como arauto do evangelho e realizador de prodígios e grandes sinais entre o povo (At 6.8-10).
O judeu cristão helenista era menos purista, tendo uma visão mais aberta em relação ao Templo de Jerusalém. O que motivou o apedrejamento de Estêvão, em especial, foi a declaração dele: Não habita o Altíssimo em casas feitas por mãos humanas (cf. At 7.48). Após a morte de Estêvão ocorre a grande perseguição de Atos 8.1 (cf. At 11.19). E aí começamos a entender porque os apóstolos não foram perseguidos e dispersos também. É que a perseguição de Atos 8.1 foi contra os judeus cristãos de fala grega como Estêvão. Os apóstolos, que eram hebreus, apenas seriam fortemente perseguidos a partir de Atos 12.
Que tipo de judeus motivou a perseguição de Atos 8.1, os chamados hebreus (judeus de fala aramaica) ou os helenistas (judeus de fala grega)? González sugere os “judeus anti-helenistas”.[1] Kistemaker fala da possibilidade de “judeus helenistas” se voltarem contra os judeus cristãos helenistas e os forçarem a sair da cidade, visto que foram os próprios judeus helenistas que levaram Estevão, um judeu de fala grega, a julgamento.[2] No meu entendimento houve uma junção. Tanto judeus hebreus quanto judeus helenistas se uniram para perseguir os judeus cristãos de fala grega em Atos 8.1. Isso pode ser comprovado do seguinte modo:
(1) O Sinédrio era composto tanto por judeus de fala aramaica como por judeus que falavam o grego, embora os principais acusadores de Estêvão tenham sido os de origem helenista, conforme Atos 6.9;
(2) Saulo, um judeu hebreu[3], inicia sua perseguição contra os helenistas, deixando os apóstolos, que eram de fala aramaica, sem serem incomodados em Jerusalém (At 8.1,3).
A atitude pacífica dos perseguidores (entre os quais se achava Saulo) em relação aos apóstolos, em Atos 8.1, seria também por causa do discurso de Atos 5.34-39? Champlin comenta: “Talvez seja natural pensarmos, entretanto, que os judeus [cristãos] helenistas tenham sofrido acima dos demais, por causa do evento em torno de Estêvão; e alguns supõem que o conselho de Gamaliel, acerca dos maus-tratos conferidos aos apóstolos, tivera algum peso e resultado”.[4]  
Há ainda dois fatos curiosos que chamam a nossa atenção. O primeiro deles é que entre os cristãos primitivos a distinção entre helenistas e hebreus era marcante, como vimos em Atos 6.1. E logo adiante quando Filipe (mais um dos sete que deviam servir às mesas, encarregado deste serviço [At 6.5; cf. At 21.8]), que se tornara tão “poderoso” quanto Estêvão, encontra-se ministrando em Samaria (At 8.5-7), os apóstolos enviam Pedro e João para supervisionar o trabalho de um helenista (At 8.14).
Outro fato curioso é que Saulo – que consentiu na morte de um helenista acusado injustamente de falar contra o Templo (At 6.13,14) porque dizia que o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas (At 7.48) – mais tarde adotaria um nome helenista (Paulo) e usaria o mesmo argumento de Estêvão na evangelização dos gregos em Atenas: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17.24).


[1] Justo L. González, A Era dos Mártires: Uma história ilustrada do cristianismo. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2003, p. 33.
[2] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 380,81.
[3] Cf. Atos 22.3; Gálatas 1.13,14; Filipenses 3.4-6.
[4] Russell N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo: Atos/Romanos. Vol. 3. São Paulo: Hagnos, 2002, p. 167.


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