sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sobre perguntas e respostas


Josivaldo de França Pereira

A partir dos três, quatro anos de idade a criança passa a fazer centenas de perguntas por dia. São “porquês” que parecem não ter fim. O ser humano é um perguntador nato. Perguntamos porque esperamos respostas que nos satisfaçam a curiosidade. Faz parte da filosofia de vida questionar. Faz parte da própria ciência filosófica o inquirir. E enquanto não obtemos respostas, continuamos perguntando. Somos incansáveis e insaciáveis perguntadores.
O que é mais fácil, perguntar ou responder? Depende do ponto de vista; do tipo de pergunta e da resposta. Para a Filosofia, por exemplo, muitas vezes as perguntas são mais importantes do que qualquer resposta que se possa encontrar. Não que a Filosofia, propriamente, ignore as respostas. Encontrar resposta para toda pergunta é o ideal filosófico, porém, o trabalho principal da Filosofia é o questionamento mesmo sem respostas, visto que as respostas podem ser muito diferentes umas das outras, dependendo das pessoas, povos e culturas. Sócrates (c. 469-399 a.C.) obtinha respostas de seus interlocutores fazendo-lhes muitas perguntas. Voltaire (1694-1778), como todo bom filósofo, valorizava o ato de perguntar: “Devemos julgar um homem”, dizia ele, “mais pelas suas perguntas que pelas respostas”.
Nem todas as perguntas exigem, necessariamente, algum tipo de resposta. São as chamadas perguntas retóricas. Aquelas que subentendem que todos, teoricamente, já sabem quais são as respostas. Um exemplo clássico são aquelas perguntas que o apóstolo Paulo faz aos crentes da igreja de Roma: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. E ainda: “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído?”. No entanto, as perguntas retóricas não estão em todas as culturas. Entre algumas tribos africanas, por exemplo, exige-se a resposta “ninguém”, no caso de Romanos 8.31; 11.34,35.
Há perguntas que nunca terão respostas, ou, pelo menos, não como muitas vezes gostaríamos. Novamente citamos o apóstolo Paulo para exemplificar o que queremos dizer: “Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu a sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.19,20). É isso aí: Deus, em sua soberana vontade, faz o que quer sem precisar dar satisfação a ninguém.
A primeira pergunta de Deus registrada na Bíblia foi feita aos nossos primeiros pais quando estes pecaram. “Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?” (Gn 3.8,9). É claro que Deus sabia onde eles estavam, mas queria que eles mesmos dissessem. E as respostas foram as mais escusas e evasivas possíveis (cf. Gn 3.10-13).
Algumas perguntas são “respondidas” com outra pergunta. “Aconteceu que, num daqueles dias, estando Jesus a ensinar o povo no templo e a evangelizar, sobrevieram os principais sacerdotes e os escribas, juntamente com os anciãos, e o argüiram nestes termos: Dize-nos: com que autoridade fazes estas cousas? Ou quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes: Também eu vos farei uma pergunta; dizei-me: o batismo de João era dos céus ou dos homens? Então, eles arrazoavam entre si: Se dissermos: do céu, ele dirá: Por que não acreditastes nele? Mas, se dissermos: dos homens, o povo todo nos apedrejará; porque está convicto de ser João um profeta. Por fim, responderam que não sabiam. Então, Jesus lhes replicou: Pois nem eu vos digo com que autoridade faço estas cousas” (Lc 20.1-8).
Perguntas e respostas foram muito utilizadas pelos reformadores na confecção de catecismos, como por exemplo: os catecismos de Lutero, Calvino, o de Heidelberg, Maior e Breve de Westminster.  

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