quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A interpretação de Lucas 23.34 à luz do Antigo Testamento

O pecado por ignorância
 
Josivaldo de França Pereira


Qual o significado da oração de Jesus "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" à luz do Antigo Testamento? Os comentaristas costumeiramente ligam Lucas 23.34 a Isaías 53[1] (em especial com o versículo 12) e vice-versa. Isaías 53.12 diz: "Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu".
Conquanto seja correto afirmar que a oração de Jesus em Lucas 23.34 é "um cumprimento literal"[2] de Isaías 53.12, esta última passagem não diz tudo sobre a primeira. Isaías 53.12 fala, de modo geral, da intercessão mediadora do Messias que havia de vir, porém, não trata especificamente da questão do pecado por ignorância. É necessário irmos ao livro de Levítico. 
O capítulo 4 de Levítico lista uma série de sacrifícios pelos pecados por ignorância, isto é, os sacrifícios pelos pecados por ignorância dos sacerdotes (vv1-12); os sacrifícios pelos pecados por ignorância de toda a congregação (vv13-21); os sacrifícios pelos pecados por ignorância de um príncipe (vv22-26) e os sacrifícios pelos pecados por ignorância de qualquer pessoa (vv27-35).
Tanto os sacrifícios pelos pecados por ignorância dos sacerdotes e os de toda a congregação eram semelhantes em seu final, isto é, o novilho devia ser queimado fora do arraial (vv12 e 21; cf. Hb 13.11-13), ao passo que os sacrifícios pelos pecados por ignorância de um príncipe e de qualquer pessoa eram distintos dos dois primeiros, ou seja, o bode e a cabra, respectivamente, não eram levados para fora do arraial (vv26 e 35). A explicação é que o príncipe não era mediador entre Deus e o povo no sentido específico em que o era o sacerdote. E o pecado de um indivíduo não representava o da coletividade, pelo menos não no contexto de Levítico 4.
Na cruz o Filho foi desamparado pelo Pai quanto ao pecado que levava (Mt 27.46), porém, ele foi ouvido em sua oração quanto ao papel de Mediador que desempenhava.[3] Entretanto, se por um lado podemos dizer que Cristo foi o perfeito Mediador de Lucas 23.34, como de fato ele foi; do outro também podemos afirmar que ele se ofereceu em sacrifício ao Pai não apenas como cordeiro de Deus, mas igualmente como sacerdote (ou sumo sacerdote) em seus pecados, por assim dizer; como a vítima do e pelo pecado; como o representante e substituto de uma coletividade pecadora (cf. Jo 11.49-52).  
Em Hebreus 7.26,27 está escrito: “Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus, que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isso uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (itálicos acrescentados). De acordo com o autor aos Hebreus, Jesus é o sumo sacerdote-vítima. Ele não se ofereceu apenas como cordeiro ou novilho para o sacrifício, mas igualmente se entregou como se fosse um sacerdote em pecado.
Sabemos que Jesus foi semelhante a nós em todas as coisas, “mas sem pecado” (Hb 4.15); contudo, “Aquele que não conheceu pecado, ele (Deus) o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2Co 5.21).
Na cruz é como se Jesus dissesse ao Pai: "Eles não sabem o que fazem, mas eu sim, eu assumo a culpa deles." Jesus tomou para si os nossos pecados como se fossem dele mesmo. Portanto, a oração de Jesus “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem", não consistiu em palavras soltas ao vento, inventadas por ele naquela hora. Ele estava cumprindo cabalmente as Escrituras.




[1] "Tem-se dito corretamente que parece que este capítulo foi escrito aos pés da cruz do Gólgota" (J. Ridderbos, Isaías: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1986, p. 440.
[2] Ibidem.
[3] Veja a postagem “Quem são os ‘lhes’ de Lucas 23.34?” em 02/05/2011.

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