sábado, 1 de outubro de 2011

Quando o sofrimento é bênção


Josivaldo de França Pereira

Nem todo sofrimento é bênção; nem toda bênção do sofrimento é para todos. De acordo com a Bíblia, “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). Essa verdade pode ser exemplificada através da experiência de três personagens bíblicas.

1. O autor do Salmo 119.71

Não se sabe ao certo quem é o autor do Salmo 119. O que sabemos com certeza é que uma das mais belas declarações do Salmo 119 está no verso 71: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos”. Semelhante a este são os versículos 67 e 75 que dizem, respectivamente: “Antes de ser afligido, andava errado, mas agora guardo a tua palavra”. “Bem sei, ó SENHOR, que os teus juízos são justos e que com fidelidade me afligiste”. Parece que Tiago tinha as palavras do salmista em mente quando disse: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança” (Tg 1.2,3). O sofrimento sempre tem um fim proveitoso na vida daqueles que amam a Deus.
Spurgeon, comentando o Salmo 119.71, declara: “Infindos benefícios nos têm sobrevindo através de nossas dores e tristezas; e no mais, permanece isto: que assim temos sido instruídos na lei”.[1] E ainda: “Mui pouco se tem a aprender sem aflição. Para sermos bons alunos, temos de ser bons sofredores. Como dizem os latinos: Experientia docet – a experiência ensina. Não há estrada régia para se aprenderem estatutos régios; os mandamentos de Deus são melhor lidos por olhos úmidos de lágrimas”.[2]

2. Paulo em 2Corintios 12.7

O texto de 2Corintios 12.7 é parte integrante do relato da visão celestial que o apóstolo Paulo teve nos versos de 1 a 4. Então, ele prossegue: “E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte”. Note que a bênção do sofrimento de Paulo consistia no fato dele não pecar. O espinho na carne de Paulo foi para que ele não se vangloriasse com a grandeza das revelações.
Existem várias teorias a respeito da natureza do ''espinho na carne'' de Paulo. Nenhuma delas é conclusiva.[3] A única certeza é que o espinho na carne de Paulo era algo que o incomodava terrivelmente, a ponto do apóstolo pedir três vezes ao Senhor que o afastasse dele. O bálsamo ou antídoto contra o “espinho” estava na maravilhosa graça de Deus que, apesar de não “arrancar” o espinho como Paulo queria, era suficiente para trazer alívio e refrigério ao apóstolo do Senhor.
Assim como Paulo, Deus muitas vezes nos humilhará através do sofrimento para não cometermos o pecado da soberba, ou qualquer outro tipo de pecado que possa nos levar ao prejuízo espiritual.

3. Jesus segundo Hebreus 5.8,9

Talvez uma das declarações mais intrigantes acerca da pessoa de Cristo seja a de Hebreus 5.8,9: “embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas cousas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”. Como é que Jesus – que não tinha pecado e, portanto, nunca pecou – aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e foi aperfeiçoado?
A passagem bíblica de Hebreus 5.8,9 não quer dizer que Jesus progrediu da desobediência para a obediência, ou da imperfeição para a perfeição. O mesmo escritor diz que ele nunca pecou (Hb 4.15). O significado do texto é que o processo pelo qual Jesus demonstrou obediência cada vez mais profunda, e tendo sido aperfeiçoado, foi o sofrimento. Segundo Kistemaker, “em sua humanidade, Jesus teve de mostrar total obediência; ele teve de tornar-se ‘obediente até a morte – mesmo morte na cruz!’ (Fp 2.8). Como diz uma outra versão: ‘Apesar de ser filho, ele aprendeu a obediência na escola do sofrimento’”.[4] E mais: “No Jardim do Getsêmani e na cruz do Calvário, ele sofreu os testes máximos. Jesus foi aperfeiçoado pelo sofrimento. Sua perfeição ‘tornou-se a fonte de salvação eterna para todo o que obedece a ele’. O autor de Hebreus repete o pensamento que ele expressou em Hebreus 2.10 – Jesus, aperfeiçoado pelo sofrimento, conduz muitos filhos para a glória. A perfeição, portanto, deve ser vista como uma realização da tarefa que Jesus tinha de realizar”.[5]  


[1] Charles Haddon Spurgeon, Salmo 119: O Alfabeto de Ouro. São Paulo: Edições Parakletos, 2001, p. 115.
[2] Ibidem.
[3] Consulte Colin Kruse, II Coríntios: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Mundo Cristão/Vida Nova, 1994, p. 219.
[4] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 200.
[5] Idem, p. 201.

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