segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Avivamento e a Bíblia


Josivaldo de França Pereira




A Bíblia é o padrão inerrante, infalível e indispensável de qualquer avivamento.[1] A história e a experiência têm mostrado que a relação entre a Bíblia e o avivamento é tão intrínseca que é impossível um reavivamento de verdade sem que ela faça parte dele. Assim, uma vez que a Bíblia é a nossa única regra de fé e prática, é ela e somente ela que pode nos dar a direção correta e inequívoca nesse assunto.
Além disso, numa época de tantos extremos como esta em que vivemos, é fundamental o equilíbrio que só a Bíblia oferece. Sabemos que hoje existem desde aqueles que veem toda e qualquer manifestação entusiástica como avivamento, até aqueles que negam a sua existência, ou quando muito acham que avivamento é a mais nova onda do momento, uma coqueluche moderna, uma inovação humana sem respaldo bíblico.[2] É necessário, mais que nunca, recorrermos à lei e ao testemunho. Os extremos são sempre perigosos e precisam ser evitados.
Permita-me dar um exemplo: Edwin Orr, uma das maiores autoridades sobre avivamentos, disse que viu duas igrejas nos Estados Unidos convidando pessoas para suas reuniões assim: "Reavivamento aqui todas às segundas-feiras à noite", enquanto que a outra prometia: "Reavivamento aqui todas às noites, exceto às segundas-feiras". Orr menciona esse fato para relatar um desses extremos em que a palavra "avivamento" ou "reavivamento" é usada aleatoriamente, como se o mesmo fosse simplesmente uma produção humana com data e hora marcadas.[3] Por isso, é imprescindível que um avivamento seja sempre avaliado pela Bíblia. Observando os avivamentos ocorridos na Bíblia e na História da Igreja, notamos que os objetos do Espírito eram sempre persuadidos com e para a Palavra. Avivamento onde a Bíblia não está presente não passa de um movimento avivalista convencional.
"Um reavivamento", diz Campos, "que é produto da obra do Espírito Santo na igreja, certamente tem sua ênfase naquilo que tem sido esquecido por muito tempo: a Palavra de Deus. A autoridade da Palavra de Deus passa a ser algo extremamente forte num momento genuíno de reavivamento. A Bíblia passa novamente a ser honrada como a única Palavra inspirada de Deus".[4] Não existe verdadeira espiritualidade sem a Bíblia.
Os primórdios do avivamento bíblico aparecem em Gênesis. Segundo Coleman, o que se pode chamar de "o grande despertamento geral" ocorreu nos dias de Sete, pouco depois do nascimento de seu filho Enos: "Então se começou a invocar o nome do Senhor" (Gn 4.26).[5] O nome Enos quer dizer fraco ou doente, o que é deveras significativo. Considerando o assassinato de Abel (Gn 3.9-15) e o aparecimento cada vez mais forte de doenças na raça humana, o nome Enos era bastante adequado. "É provável que fosse um reflexo da consciência da depravação humana e da necessidade da graça divina".[6] À parte dessa indicação não existe nenhum outro relato de avivamento no princípio da história da raça humana. O relato subsequente do dilúvio ilustra de modo dramático o que acontece com um povo que não se arrepende de seus pecados.
Depois temos os patriarcas que, por vários séculos, lideraram o povo de Deus. Sempre que a vitalidade espiritual do povo se desvanecia eles agiam com a força que promovia novo vigor. O breve avivamento na casa de Jacó é um bom exemplo disso (Gn 35.1-15). Mais tarde, sob a liderança de Moisés, há períodos empolgantes de refrigério, especialmente nos acontecimentos ligados à primeira páscoa (Ex 12.21-28), na outorga da lei do Senhor no Sinai (Ex 19.1-25; 24.1-8; 32.1-35.29) e no levantamento da serpente de bronze no monte Hor (Nm 21.4-9).
No tempo de Josué um despertamento espiritual predominou em suas campanhas, como na travessia do rio Jordão (Js 3.1-5.12) e na conquista de Ai (Js 7.1-8.35). Mas quando terminaram as guerras e o povo se assentou para desfrutar os despojos da vitória, uma apatia espiritual se apoderou da nação. Sabendo que seu povo estava dividido, Josué reuniu as tribos de Israel, em Siquém, e exigiu que cada um escolhesse, de uma vez por todas, a quem servir (Js 24.1-15). Um verdadeiro avivamento segue-se a esse desafio, prosseguindo durante "todos os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que ainda viveram muito tempo depois de Josué, e sabiam toda a obra que o Senhor tinha feito a Israel" (Js 24.31).
O período de trezentos anos de liderança dos juízes mostra os israelitas, de quando em quando, traindo o Senhor e servindo a outros deuses. O juízo de Deus é inevitável. Então, após longos anos de opressão o povo se arrepende e clama ao Senhor (Jz 3.9,15; 4.3; 6.6,7; 10.10). Em cada ocasião Deus responde as orações, enviando-lhes um libertador que liberta o povo na vitória contra os inimigos. Um dos maiores movimentos avivalistas aparece no final desse período, sob a direção de Samuel (1Sm 7.1-17).
Tempos de renovação ocorreram periodicamente no período dos reis. A marcha de Davi, entrando com a arca em Jerusalém, possui muitos ingredientes de um avivamento (2Sm 6.12-23). A dedicação do Templo, no início do reinado de Salomão, é outro grande exemplo (1Rs 8). O avivamento também chega a Judá nos dias de Asa (1Rs 15.9-15). E Josafá, outro rei de Judá, lidera uma reforma (1Rs 22.41-50), bem como o sacerdote Joiada (2Rs 11.4-12.16). Outro poderoso despertamento é vivenciado na terra sob a liderança do rei Ezequias (2Rs 18.1-8). Por fim, a descoberta do Livro da Lei do Senhor, durante o reinado de Josias, dá início a um dos maiores avivamentos registrados na Bíblia (2Rs 22,23; 2Cr 34,35).
Ainda, sob a liderança de Zorobabel e Jesua, outra vez começa a reacender um novo avivamento (Ed 1.1-4.24). Tendo as intimidações dos inimigos induzido os judeus a interromperem a reconstrução do Templo, os profetas Ageu e Zacarias entraram em cena para instigar o povo a prosseguir (Ed 5.1-6.22; Ag 1.1-2.23; Zc 1.1-21; 8.1-23). Setenta e cinco anos depois, com a chegada de outra expedição liderada por Esdras, novas reformas são iniciadas em Jerusalém, dando-se mais atenção à lei do Senhor (Ed 7.1-10.44). O avivamento alcança o auge poucos anos depois, quando Neemias se apresenta para completar a construção dos muros de Jerusalém e estabelecer um governo teocrático (Ne 1.1-13.31). Uma oração por avivamento e a promessa de sua ocorrência encontramos também em Joel 2.28-32; Habacuque 2.14-3.19 e Malaquias 4.
No apogeu de um grande avivamento Jesus aparece e é batizado por João Batista. Escolhe e treina seus discípulos; ascende aos céus, deixando-os na expectativa de receberem a promessa do Espírito (Lc 24.49-53; At 1.1-26). O poderoso derramamento do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, inaugura o avivamento que Jesus havia predito (At 2.1-47). "Marca-se, assim, o início de uma nova era na história da redenção. Por três anos Jesus trabalhara na preparação desse dia – o dia em que a Igreja, discipulada por intermédio de seu exemplo, redimida por seu sangue, garantida por sua ressurreição, sairia em seu nome a proclamar o evangelho 'até os confins da terra' (At 1.8)".[7]
O livro de Atos registra a dimensão desse avivamento. Avivamento em Jerusalém, em Samaria, em Antioquia da Síria e em Éfeso. E de lá para cá são muitos os relatos da obra vivificadora do Espírito Santo na História da Igreja, como por exemplo, na Alemanha com a Reforma Protestante do século XVI; o “Grande Despertamento” do século XIX; o avivamento entre os Zulus da África do Sul, na década de 1960; e na Coréia do Sul nestes últimos tempos, dentre outros.
A busca por uma vida de obediência a Deus e à sua Palavra, a santificação do corpo e da alma, bem como a valorização da moral e ética cristãs, são desejadas ansiosamente num avivamento de verdade. Que em sua soberana graça e misericórdia, o Senhor nosso Deus derrame do seu Espírito sobre nós para que possamos, como igreja e povo brasileiros, experimentar mais uma vez daquele "fogo abrasador", que purifica e nos santifica para uma vida cristã de obediência à sua Palavra.
"Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2).






[1] Os termos “avivamento”, “reavivamento”, “despertamento” e correlatos são usados aqui no mesmo sentido.
[2] Cf. Frans Leonard Schalkwijk, Aprendendo da história dos avivamentos. In: Fides Reformata. Vol. II, No. 2. São Paulo: JMC, 1997, p. 61.
[3] Citado por Brian H. Edwards em Revival! A people saturad with God. England: Evangelical Press, 1994, p. 25.
[4] Héber C. Campos, Crescimento da igreja: com reforma ou com reavivamento?. In: Fides Reformata. Vol. I, No. 1. São Paulo: JMC, 1996, p. 45.
[5] Robert Coleman, A chegada do avivamento mundial. São Paulo: CPAD, 1996, p. 53.
[6] Ibidem.
[7] Idem, p. 61.

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