segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Chamado Missionário

Josivaldo de França Pereira

"Separai-me agora mesmo a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado" (At 13.2).

Duas coisas estão evidentes na declaração de Atos 13.2. A primeira diz respeito aos chamados ou vocacionados pelo Espírito Santo. O Espírito manda separar Barnabé e Saulo. Quem eram Barnabé e Saulo senão a nata da Igreja Primitiva? E o que os diferenciava dos demais de Atos 13.1? Simplesmente o fato de que naquela ocasião Paulo e Barnabé eram os melhores em termos de liderança. A obra que iam realizar exigia líderes experimentados.[1]
A tarefa missionária requer preparo. Por isso, um líder experimentado é sempre a melhor escolha em termos de missões; o que, por si só, deve levar a igreja evangélica brasileira a uma reflexão muito séria, pois não são poucos os erros cometidos nesse particular. Aquilo que o missiólogo ugandense David Zac Niringiye disse em termos da África, com certeza serve também para levar a igreja brasileira a uma análise geral. Ao criticar os Estados Unidos por desafiar jovens estudantes e seminaristas para saírem da América e encararem um campo missionário, sem qualquer experiência pastoral, Niringiye comentou: "Precisamos de líderes mais experimentados no campo missionário. Infelizmente, eu tenho encontrado muitos missionários que necessitam de mais aprendizagem e experiência".[2]
Quanto mais carente for o campo, maior deve ser o preparo do missionário. Muitas vezes nossas igrejas e agências missionárias enviam para o campo aquele candidato que não se saiu muito bem num seminário teológico ou centro de treinamento missionário, ou aquele pastor que ficou sem igreja (porque nenhuma igreja local o quis por ser fraco de púlpito ou algo parecido). Missões não é uma alternativa de trabalho para quem fracassou no ministério! O Espírito Santo é zeloso e exigente. Ele sempre vai pedir o melhor para a obra de Deus.[3] Não que o vocacionado pelo Espírito seja por si mesmo o melhor em termos de capacidade e habilidade naturais, e sim, alguém que o próprio Deus capacita com seu poder e graça (cf. 1Co 15.9,10; 2Co 3.5; Ef 3.7,8). O desenvolvimento da atividade missionária representa um esforço que vai além da capacidade humana.
É interessante notarmos que João Marcos, o primo de Barnabé e autor do Segundo Evangelho, não estava na lista dos chamados pelo Espírito Santo em Atos 13.2. Lembremos que Marcos já havia trabalhado com Paulo e Barnabé anteriormente (At 12.25); tempos depois os acompanhou na primeira viagem missionária (At 13.5), porém, logo desistiu (At 13.13-15), tornando-se o pivô da separação entre Paulo e Barnabé na segunda viagem missionária (At 15.36-41). Tudo indica que Marcos não era o homem certo (pelo menos não até aquele momento) para auxiliar numa tarefa missionária como aquela que Paulo realizaria.  O Espírito Santo não somente conhece o campo missionário, mas também o perfil do missionário certo.
A segunda coisa que observamos na declaração do Espírito Santo em Atos 13.2 é que ele sempre vocaciona para uma missão específica. "Para a obra a que os tenho chamado", diz o texto bíblico. Há tempo que Paulo e Barnabé vinham sendo trabalhados pelo Espírito. Os dois missionários trabalharam juntos algumas vezes (At 9.26-28; 12.25). Paulo, por exemplo, mesmo antes de ir para Antioquia já tinha conhecimento de seu chamado missionário (At 9.6; cf. 22.10-15; 26.15-18). Desse modo, a convocação para a missão em Atos 13 não era o chamado propriamente dito, mas a confirmação de um chamado feito algum tempo atrás. Portanto, a convocação de Paulo e Barnabé, especificamente, não aconteceu na igreja de Antioquia. Atos 13.2 apenas confirmou o que todo mundo, inclusive eles e a igreja de Antioquia, já sabia. Isso está claro no uso que Lucas faz do verbo proskeklémai, imperfeito médio de kaléo (chamar), que indica uma ação ocorrida no passado, mas confirmada no presente. Foi assim que o Espírito Santo confirmou perante a igreja de Antioquia o chamado de Paulo e Barnabé. No Novo Testamento o chamado missionário é sempre confirmado pelo Espírito através da igreja. "Quando o crente é chamado pelo Espírito, o mesmo Espírito o revela à igreja.”[4] Agora, como isso é feito hoje? Como o Espírito Santo nos dias atuais  chama e confirma a vocação missionária de alguém pela igreja?
Muitos de nossos jovens que almejam o ministério parecem  viver  entre  a tensão de um chamado dramático do Espírito, de um lado, e da não necessidade de chamado algum, do outro. Os primeiros querem sonhos e visões, como Paulo os teve; os segundos se contentam em afirmar que a tarefa missionária é responsabilidade de todos nós e por isso nenhum tipo de chamado é exigido.[5] É verdade que a missão, num sentido geral, pertence a todos, porém, existe um chamado específico para uma obra específica. É o caso do apóstolo Paulo, que além de ter uma experiência tremenda no caminho de Damasco, foi dotado de uma perspectiva toda especial de vocação missionária.
Não obstante, a experiência de Paulo não deve ser padrão para todos os chamados. E por que não? Simplesmente porque, apesar do Espírito Santo possuir regras básicas bem definidas de atuação, seus métodos vocacionais são variados e diversificados. O testemunho no interior de alguém pelo Espírito é mais intangível e pessoal, variando de pessoa para pessoa. Carriker observou isso muito bem quando disse que o chamado missionário pode acontecer de várias maneiras, mas sempre em relação aos seguintes fatores: "A convicção cresce através do conhecimento da Bíblia, do reconhecimento do senhorio de Jesus e do testemunho interior do Espírito Santo; e esta convicção pessoal é reconhecida e confirmada publicamente pela igreja.”[6] 
Em suma, o Espírito Santo ensina em Atos 13 que a vocação missionária exige a confirmação da igreja. O que não significa dizer que a obra do Espírito só tem valor se for validada pela igreja; pelo contrário, a ela são dadas a iluminação e graça de apenas reconhecer que o Espírito Santo chamou mais um para a obra de Deus.


[1] Cf. David Zac NIRINGIYE, op. cit., p. 61.
[2]Ibidem. Veja mais sobre a importância do preparo missionário em J. H. BAVINCK, An Introduction to the Science of Missions. Phillipsburg: The Presbyterian and Reformed Publishing Company, p. 98,99; Margaretha N. ADIWARDANA, Missionários: preparando-os para perseverar. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 23-36; William D. Taylor (ed.), Valioso demais para que se perca: um estudo das causas e curas do retorno prematuro de missionários. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1998 (o livro todo é excelente); Howard DUECK e Antônia L. van DER MEER, O preparo psicológico e cultural do missionário. In: BURNS, Bárbara Helen (S. G.). Capacitando para missões transculturais. Revista missiológica da associação de professores de missões no Brasil. São Paulo: APMB, N0 6, 1998, p. 17-45; David HARLEY, Missões: preparando aquele que vai. São Paulo: Mundo Cristão, 1997, p. 18-24 e a resenha de Antônia der Meer do livro de Harley, op. cit., p. 65-69.
[3] Cf. Edison QUEIRÓZ, O melhor para missões. 2a ed. Londrina-Curitiba: Descoberta, 1999, p. 22-28.
[4] Orlando BOYER, Atos: o evangelho do Espírito Santo. Série Livros Evangélicos. [S.I.], [196-], p. 169.
[5] C. Timóteo CARRIKER, A vocação missionária. In: Missões e a igreja brasileira: a vocação missionária, Vol. I. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 1.
[6] Idem, p. 5. V. t. Oswaldo PRADO, Do chamado ao campo. São Paulo: Sepal, 2000, p. 49-56. 

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