terça-feira, 1 de novembro de 2011

Poder e Testemunho

Josivaldo de França Pereira


Em Atos 1.8 o Senhor Jesus repete as promessas da Grande Comissão (cf. Mt 28.18-20; Mc 16.14-18; Lc 24.44-49; Jo 20.21). No dia de Pentecostes as promessas da Grande Comissão em geral, e de Atos 1.8 em particular, se cumpriram. A igreja foi batizada e revestida do poder do Espírito Santo. Contudo, o poder do Espírito para a igreja não teve, como até hoje não tem, um fim em si mesmo. Em Atos não existe esta concepção moderna equivocada de que o poder do Espírito é para tão somente edificar o crente. Não! O poder do Espírito tinha como finalidade primordial capacitar os crentes para dar testemunho de Cristo.
No Novo Testamento os dons ou manifestações do Espírito (línguas, curas, profecias, etc.) foram dados com o objetivo principal de que a igreja testemunhasse de Jesus ao redor do mundo.[1] Nada do que a igreja recebe do Espírito tem nela um fim em si mesmo. "Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas...", disse Jesus (At 1.8; cf. Lc 24.48). Quando o Espírito Santo foi derramado por ocasião do Pentecostes, "com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor Jesus..." (At 4.33).
Vejamos o que significava nos tempos bíblicos, e o que deveria significar para a igreja evangélica brasileira hoje, ser testemunha de Jesus Cristo. E para uma reflexão imediata, vale conferir um alerta de Charles van Engen:
Logo antes de sua ascensão, Jesus disse a seus discípulos, como está registrado em Atos 1.8: "... sereis minhas testemunhas [kaí esesthe mou martyres]...", começando em Jerusalém e espalhando-se geográfica e culturalmente para fora, para os confins da terra (eôs eschatou tês gês). Muito dessa comissão, quanto à expansão geográfica e cultural da Igreja, se cumpriu. Mas provavelmente não captamos as palavras de Cristo em todo o seu peso: "...sereis minhas testemunhas...[2]
O substantivo grego martys[3] (martyres) do verbo martyréo já possuía, nos tempos bíblicos, cinco significados principais, sendo que o último deles era a expressão mais elevada daquilo que significava ser testemunha de Jesus; a saber:
·     testemunha judicial de fatos;
·     testemunha de fatos numa confissão de fé;
·     declaração de um fato como testemunha ocular de um ocorrido;
·     o testemunho evangelístico da natureza e da importância de Cristo;
·     martírio.[4]
Pela própria natureza da evangelização e pelas perseguições e adversidades futuras que desafiariam a Igreja Primitiva, seria imprescindível o poder do alto para se testemunhar de Jesus. Que a Igreja muitas vezes testemunhou a preço de sangue é algo que dispensa comentários.[5]


[1] Cf. Paul E. PIERSON, Atos que contam. Londrina; Descoberta, 2000, p. 19, 43, 78-83, 179,180; I. H. MARSHALL, Atos: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1982, p. 50; H. E. DANA, O Espírito Santo no livro de Atos. 3a ed. Rio de Janeiro: Juerp, 1989, p. 58; R. C. SPROUL, O mistério do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 144.
[2] Charles Van ENGEN, Povo missionário, povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 1996, p. 122,123.
[3] Das 34 ocorrências de martys no Novo Testamento, 13 estão em Atos.
[4] Cf. G. KITTEL e G. FRIEDRICH, citado por C. Van ENGEN, op. cit., p. 123. V. t. C. S. Mann, "Eyewitnesses" in Luke. In: MUNCK, Johannes (ed.). Anchor Bible: The Acts of the Apostles. New York: Doubleday & Co., p. 268-270. Para um ponto de vista diferente, consulte D. A. CARSON, Os perigos da interpretação bíblica: a exegese e suas falácias. 2a ed. São Paulo, 2005, p. 33,34.
[5] Veja mais em meu livro Atos do Espírito Santo. Londrina: Descoberta, 2002, p.43-52.

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